Quanto vale o seu dinheiro?

INTRODUÇÃO

Hoje iremos contar a vocês um pouco sobre o valor do dinheiro. Destarte, quem desconhecia sua história, irá aprender um pouco sobre a "coisa" mais cobiçada em nossos dias, e entender porque governantes corruptos e ditadores, ao invés de amealhar "dinheiro", acumulam uma imensa quantidade de ouro em seus cofres, carregando tudo para fora do país, como fez Ferdinando Marcos que abarrotou um avião com mais de 8 toneladas do metal nobre ao fugir das Filipinas com sua esposa megalômana.
Vai entender também a diferença entre valor intrínseco e valor nominal do dinheiro, aprendendo que a nossa moeda não vale nada sob o primeiro aspecto e que depende totalmente da confiança que se tem em um governo, sob o segundo ponto de vista. A moeda que hoje carregamos chama-se fiduciária justamente por isso...por depender da "fiducia" (confiança) que temos no nosso governo e nas nossas instituições.


O que é a moeda (dinheiro)? Como nasceu ? A que serve ?

A moeda é um instrumento de intermediação de troca que estabelece o valor dos objetos trocados, representando a sua equivalência. É um meio intermediário de escâmbio (permuta), dessa forma facilitando a troca comercial. 
Sua função é (deveria ser), única e exclusivamente, aquela de representar o valor de um bem, deixando a quem a recebe em pagamento, a decisão de receber moeda ou mercadoria equivalente. 

Tratar a moeda como mercadoria tem sido um dos erros dos governantes a partir do século XX, adulterando o entendimento do conceito de riqueza. Perdendo sua função principal, e sendo extremamente desejada, a moeda passou a ser vítima de constante especulação, fazendo com que por vezes lhe seja atribuído valor maior ou menor do que realmente representa, gerando inflação, recessão e outros problemas derivados do seu mau emprego. Imagine os bancos e algumas instituições financeiras como "super-mercados" com prateleiras cheias de caixas contendo dinheiro. Você entra ali e encontra diversos pacotes, alguns contendo, por exemplo, R$ 10.000,00, com uma etiqueta abaixo, informando que o preço daquela mercadoria é de R$ 15.000,00. Estranho, não ? ... mas é assim que funciona. 


DAS MOEDAS DE CONTAGEM ÀS PRIMEIRAS MOEDAS METÁLICAS

A moeda representa o rompimento do vínculo com o processo de trocas que a antecedeu. A primitiva forma de vida social se baseava num sistema simples de permutas, onde a mercadoria trocada deveria ser pesada a cada vez que se verificasse a intenção de uma negociação comercial. 
Porém, bastava que aumentassem as espécies de mercadorias trocadas para surgirem as dificuldades de gerir este processo. 
Assim, com o tempo se fez extremamente necessária a introdução de um elemento capaz de representar todas as mercadorias, de tal forma que pudesse agilizar as trocas. Se uma determinada mercadoria fosse do interesse de alguém, bastaria pagar por ela, sem a necessidade de troca. Basta imaginar dois comerciantes, com duas mercadorias distintas A e B. O proprietário da mercadoria A deseja a mercadoria B, mas o proprietário desta não tem interesse na mercadoria A, e sim numa terceira mercadoria C, vendida em outra cidade. É fácil entender como a moeda facilita o processo. Basta que o dono da mercadoria A pague, com moeda, pela mercadoria B; este por sua vez, com a moeda recebida, satisfaz seu desejo em adquirir a mercadoria C, pagando por ela com a mesma moeda recebida. Assim, a dificuldade criada pela falta de interesse em um determinado gênero, deixava de ser um problema.

Antes da introdução da moeda, no momento em que seu proprietário necessitava efetuar a troca por víveres, por exemplo, se ninguém se interessasse por sua mercadoria, um problema se apresentava. A criação de um elemento de interesse comum (a moeda), criou a possibilidade real de uma troca, bastando para tanto estar de posse desse elemento intermediário. O comerciante poderia, por exemplo, negociar seu produto em outra região, trocando-o pelo novo elemento introduzido, o que lhe daria a possibilidade de obter víveres quando e onde pretendesse.

A moeda, como hoje a conhecemos, é o resultado de uma longa evolução. Como dito anteriormente, no início das tratativas comerciais não existia, praticando-se o escâmbio ou escambo, a simples troca de mercadoria por mercadoria. 
Alguns gêneros de produtos, pela sua utilidade, passaram a ser mais procurados e aceitos do que outros, passando a assumir a função de moeda, circulando como elemento intermediário na troca por outros produtos e servindo para dar-lhes o devido o valor. Eram as chamadas moedas-mercadoria.
O gado e o sal eram bem aceitos como instrumento de troca e acabaram por deixar registros em nosso vocabulário. Até hoje, empregamos palavras como pecúnia (dinheiro) e pecúlio (dinheiro acumulado), derivadas da palavra latina pecus (gado).

Imagem ampliada: Áureo, Otaviano Augusto, casa da moeda incerta. Anv: CAESAR, busto laureado voltado à esquerda. Rev: AUGUSTUS, boi (pecus) caminhando, voltado à esquerda. 3 peças conhecidas.


A palavra capital (patrimônio) vem do latim capita (cabeça). A palavra salário (remuneração, normalmente em dinheiro, devida pelo empregador pelo serviço do empregado) tem como origem a utilização do sal, que na antiga Roma servia como pagamento de serviços prestados.

Figura: Reis da Macedônia. Filipe II (359-336 aC). Magnífico Stater de ouro (8,56 g), com belíssima pátina e excepcional estado de conservação. Casa da Moeda de Kolophon (Sicilia e Magna Grecia). Batida sob o reinado de Filipe III, por volta de 323-319 a.C. Anv/Busto laureado de Apollo, voltado à direita com as características de Alexandre, o Grande. Rev/Biga com condutor, em posição de combate, com lança na mão direita. Tripé, embaixo, à direita. Thompson, “Posthumous Philip II Staters of Asia Minor”. Acervo particular. Imagem ampliada.


Com o passar do tempo, tais mercadorias tornaram-se um inconveniente às transações comerciais, não só em virtude da oscilação de seu valor, mas principalmente pelo fato de não serem fracionáveis e também por serem facilmente perecíveis, não permitindo o acúmulo de riquezas.

Quando o homem descobriu o metal, logo passou a utilizá-lo para fabricar seus utensílios e armas, anteriormente feitos de pedra. Por apresentar vantagens como a possibilidade de entesouramento, divisibilidade, raridade, facilidade de transporte e beleza, o metal impôs-se como principal padrão de valor, sendo trocado sob as mais diversas formas; a princípio, em seu estado natural, depois sob a forma de barras e, ainda, sob a forma de objetos, como anéis, braceletes, etc. Os utensílios de metal passaram a ser mercadorias muito apreciadas. Sua produção exigia, além do domínio das técnicas de fundição, o conhecimento dos locais onde poderia ser encontrado. Essa produção, naturalmente, não estava ao alcance de todos.

A valorização cada vez maior dos utensílios levou à sua utilização como moeda e ao aparecimento de réplicas de objetos metálicos, em pequenas dimensões, a circularem como dinheiro, como as moedas faca e chave, encontradas no Oriente, e do talento, moeda de cobre ou bronze, com o formato das vestes feitas de pele de animal, encontradas na Grécia e em Chipre. 

Foram os sumérios (habitantes da Mesopotâmia que em tempos remotos haviam inventado a escrita) que, através de seus sacerdotes, se encarregaram de escolher o metal como o meio mais conveniente a servir de intermediário nos processos de troca.

Os metais escolhidos foram o ouro (sagrado disco solar) e a prata (consagrada à lua). A relação entre os dois metais foi estabelecida na razão de 1 para 13⅓, correspondendo, ao que parece, à relação astronômica entre o ano solar e os meses lunares.

Sendo os pioneiros no desenvolvimento da série infinita dos números, os sumérios usaram como base de sua avaliação o número 12 (sistema duodecimal), possibilitando a subdivisão em 3 e 4, aparentemente menos cômodo que 10 (decimal), que corresponde aos dedos das mãos. 
Além disso, a escopo de materializar o conceito abstrato de número, foi adotada como base a libra de prata que, em seguida foi chamada com o nome latinizado de mina. O seu múltiplo foi o talento, equivalente a 60 libras de prata. A mina foi dividida em 60 ciclos onde cada um correspondia a 180 gramas de trigo.

Os metais preciosos, a exemplo do que hoje diz respeito aos bancos, ficavam sob custódia dos templos, onde os sacerdotes determinavam as importantes e delicadas operações que regulavam as trocas de mercadorias e aluguéis, recuperando inclusive a parte reservada às autoridades.

Porém, tal conceito de dinheiro tinha um caráter abstrato e aos talentos, às minas e aos ciclos não correspondiam as relativas moedas e portanto era lógica a sensação de “falta de recursos próprios” que experimentavam os negociantes e a população em geral por não possuírem, materialmente, o valor do seu produto.

Os Fenícios efetuavam trocas com os índios da África ocidental, recorrendo a um sistema mais tangível e imediato: Colocavam na areia da praia aquilo que pretendiam oferecer e retiravam-se para os seus navios. Os indígenas observavam aquilo que lhes era oferecido e colocavam junto à cada tipo de mercadoria, a quantidade de ouro em pó que acreditavam ser adequado à troca e se retiravam. 
Se os Fenícios estivessem de acordo, pegavam o ouro e a troca era concluída, caso contrário a operação vinha repetida até quando fosse atingido um resultado de comum acordo.

A primeira solução a essa natural aspiração encontrou sua aplicação na Babilônia onde se faz referimento a pesos fixos de prata, substituídos depois por pesos de cobre e em seguida de bronze. Mas é na Grécia que encontramos a primeira moeda, mesmo que esta ainda se concretizasse na estranha forma de “espetos de ferro” (denominados obelos), longos mais de um metro e que eram dados inicialmente aos juízes, como forma de compensação pelos seus serviços prestados. O mesmo compenso dizia respeito aos simples cidadãos quando estes “espetos” lhes eram concedidos por ocasiões de festas e cerimônias.

Foi com a finalidade de exercer a função de meio de troca comercial que, no século VII a.C. nasce, na Lídia, a moeda como a conhecemos hoje, em sua forma metálica. Entre 629 e 600 a.C. aparecem os primeiros discos metálicos de várias dimensões, sobre os quais o Rei havia ordenado que se colocasse o próprio sigilo.

Esses discos eram de electron (uma liga natural de ouro e prata) que em pouco tempo foram substituídos por discos de ouro puro, o metal nobre por excelência que desde a antiga Babilônia, era considerado como de um bem, dando-lhe valo pleno. Aconteceu no VI século a.C. sob o reinado de Creso (561 – 546 a.C.), famoso por sua imensa riqueza. Esse fenômeno foi, certamente, o resultado de um processo que durou séculos e, seguramente, não se tratou de uma invenção casual. 

Com o advento da moeda como instrumento intermediador da troca, foram criadas as primeiras bases da moderna sociedade industrial, permitindo ao homem liberar-se do milenar comércio da simples troca e construir a economia como a conhecemos hoje. Porém, o ouro e a prata sempre foram entendidos como a riqueza real, aquela tangível, e que hoje serve (ou pelo menos, deveria servir) de lastro ao dinheiro de papel em circulação.

A esta transformação dos processos de troca, correspondeu também a uma profunda transformação na vida social das civilizações. Após uma fase inicial praticamente agrícola, se sucedeu uma vida comercial sempre mais intensa, fazendo com que as pessoas se transferissem dos campos para os aglomerados populacionais que se constituiam nas bases das futuras cidades. 

Se a civilização dos tempos de Homero evidenciava a importância de um homem de acordo com sua propriedade agrícola e através do número de bois que possuia, num futuro próximo o rebanho iria ceder seu posto de supremacia àquele meio que permitia a obtenção de tudo aquilo que se desejasse, a moeda, que permitiu aos comerciantes a troca de bens em regiões distantes entre si onde, de uma forma cômoda, podiam transportar o instrumento que passou a substituir aqueles utilizados nos processos de simples troca.


O REAL VALOR DO DINHEIRO

Como vimos anteriormente, a moeda é um instrumento de intermediação de troca que estabelece o valor dos objetos trocados, representando a sua equivalência. É um meio intermediário de escâmbio (permuta), criado para facilitar a troca comercial, com a função de representar o valor de um bem. 
Vimos também, que tratar a moeda como mercadoria tem sido um dos erros dos governantes a partir do século XX, conduta que alterou consideravelmente os conceitos de posse e riqueza. Repetindo: perdendo sua função principal, e sendo extremamente desejada, a moeda tem sido vítima de constante especulação, sendo tratada como mercadoria, ao invés de um instrumento que facilite a troca, fazendo com que por vezes lhe seja atribuído valor maior ou menor do que realmente representa, gerando inflação, recessão e outros problemas derivados do seu mau emprego.

A compra e venda de “dinheiro” faz com que a moeda assuma o posto de mercadoria. Estando sujeita às leis de mercado que regem a comercialização de produtos, a moeda perde o elo de ligação ao seu real sustento ou seja, o ouro estocado nas reservas do país que a emite.

O emprego do ouro e da prata, e das moedas confeccionadas com esses metais, consentiu e determinou, durante séculos, as tratativas comerciais, agindo como reguladores e intermediários nas trocas já que, sendo metais preciosos, eram aceitos em todo mundo. A base de medida, de avaliação do poder de compra desses metais nobres era dado por uma determinada medida de trigo, mercadoria ainda hoje mantida sob severo controle do Estado.

Com o passar do tempo, devido à ampliação dos mercados e o consequente aumento nas tratativas comerciais, o ouro e a prata não eram mais suficientes a satisfazer a exigência de cunhagem de moeda destinada à circulação. Dessa forma, gradativamente se passou ao uso de metais e materiais menos nobres, tais como o cobre, o bronze, o níquel e até o alumínio, chegando finalmente à moeda de papel, a cédula

O processo de passagem da moeda tangível (ouro e prata), prova consistente e direta da posse e da riqueza, àquela meramente representativa de um valor estabelecido pelo Estado, se deu gradativamente e sob a tutela deste último que mantém a verdadeira riqueza nos subsolos dos seus bancos e instituições financeiras. 

A bem da verdade, o dinheiro em circulação deve valer o correspondente àquilo que o Estado mantém lastreado em ouro, prata e, eventualmente, à sua produção anual de trigo, sendo o ouro o seu principal lastro.

O ouro ainda é a garantia real de que o Estado pode dispor a fim de conquistar ou manter sua credibilidade no mundo financeiro

Quando, por exemplo, uma nação contrai um empréstimo com outra, a garantia do pagamento é feita em ouro. Assim, enquanto o débito não é saldado, uma determinada quantidade de barras de ouro depositadas nos cofres do Banco Central do país devedor, recebem a etiqueta referente ao país credor.

O ouro é, ainda hoje, a garantia, o crédito que determina a confiança em uma instituição ou em uma nação. Por mais que alguns governos insistam em lastrear sua moeda em outros bens, o único aceito em todo mundo é aquele que corresponde à sua reserva em ouro. Quando uma determinada moeda, de um determinado país, experimenta uma queda muito grande, ou quando os investidores perdem a confiança nessa moeda, entre outros fatores isso se deve ao entendimento de que aquele governo está emitindo uma quantidade de papel-moeda que não corresponde à sua real riqueza, ao seu lastro, ou seja, às suas reservas de ouro. Perdendo a confiança em um governo, naturalmente se perde a confiança em sua moeda, pois essa é fiduciária. Independe das reservas e sim da confiança que as pessoas tem em seus governantes.

São estas reservas auríferas que tem garantido até hoje a força da moeda americana, por exemplo. Os EUA possuem uma das maiores reservas de ouro do planeta o que dá pleno sustento e confiança à sua moeda, o dollar. Uma crise semelhante a atual, experimentada pelos EUA, seria muito mais grave em um país que não possuísse uma tal reserva de ouro, suficiente para garantir a estabilidade e confiança em sua moeda. É como o oxigêneo a mais, a água no deserto que outros não podem dispor.

Com o tempo, o valor da moeda deixou de estar diretamente associado ao metal com o qual era confecccionada (valor intrínseco), passando a valer por aquele extrínseco, ou seja o valor convencionado e estampado pelo estado sobre a moeda (agora confeccionada com materiais diversos e de pouco valor) ou cédula. Todavia, até poucas décadas atrás, era possível dirigir-se a um banco e receber, em ouro, o equivalente ao valor estampado em uma determinada cédula

No caso das cédulas brasileiras, tal garantia vinha estampada sobre a própria cédula onde se lia “no Tesouro Nacional, se pagará ao portador desta, a quantia de (valor)” (ver figura a seguir), uma variação do que antes era garantido nos textos escritos nos recibos de depósito do ouro em pó ...”pague-se ao portador deste recibo o equivalente em tantos gramas de ouro”.


Hoje esta conversão foi abandonada; o último país, a contragosto e em função da sua Carta Magna, a abandonar a garantia lastreada pelo ouro de uma cédula, foram os EUA em 1971, já que em todo restante do mundo financeiro a associação do valor extrínseco (aquele estampado na cédula) ao ouro, havia sido extinta.

De uma forma geral, os governos não temem que o dinheiro posto em circulação deixe o país. O problema grave surgiria pela possibilidade de evasão do seu metal precioso, o ouro. Foi o que aconteceu, por exemplo, nos EUA, no dia 4 de março de 1933, quando o presidente “Franklin Delano Roosevelt” proibiu o uso do ouro (sob forma de moeda ou certificado) em pagamentos, na tentativa de por fim a grave hemorragia de metal amarelo que arriscava comprometer a credibilidade do sistema bancário americano. Numa única semana, entre o fim de fevereiro e início de março de 1933, companhias e privados tinham retirado dos bancos, para estocá-los ou transferi-los ao exterior, mais de 200 milhões de dólares em ouro, perfazendo um total - na cotação atual do ouro - correspondente a uma cifra que supera os 6 bilhões de dólares. Isso porque era dada ao cidadão a possibilidade de converter seu “papel-moeda” em ouro, o que deixou de existir há algumas décadas. Hoje não existe mais a possibilidade de dirigir-se ao Tesouro Nacional e reivindicar o que antes era um direito constitucional; aquele de trocar por ouro, o equivalente ao valor impresso em “papel-moeda”. 
Nota: No Brasil, antes que essas medidas fossem conhecidas de todos, o corrupto e desonesto governo lançou a campanha "OURO PARA O BEM DO BRASIL". Graças à campanha apelativa do governo, evocando os mais nobres sentimentos dos brasileiros, diversas pessoas retiraram suas alianças, em plena rua, e as depositaram em caixas devida e estrategicamente colocadas em diversos pontos da cidades do país. Toneladas e toneladas de ouro foram subtraídas da população que, a partir de então, nunca mais recuperou sua riqueza.
O presidente Roosevelt anunciou a sua decisão (em vigor a partir do dia sucessivo) domingo, 5 de março, decretando ao mesmo tempo o fechamento de todos os bancos por quatro dias, enquanto o Secretário do Tesouro William H. Woodin telegrafava às Casas da Moeda de Denver, Filadelfia e San Francisco, ordenando que fossem suspensos quaisquer pagamentos em ouro. 
O Congresso, convocado urgentemente no dia 9 de março, aprovava no mesmo dia a decisão do presidente. A diretiva de Roosevelt proibia também o acúmulo de ouro amoedado por parte dos privados e, mesmo que não especificasse qual fosse o limite quantitativo que fizesse com que um acúmulo chegasse a ser considerado um crime, sancionava a posse não autorizada de ouro em moedas ou certificados, com uma multa de até 10.000 dólares e uma pena de detenção de até 10 anos.

A provisão não impunha explicitamente aos cidadãos americanos de restituir o ouro amoedado que estivesse em sua posse, ao Federal Reserve Bank, mas que este fosse o seu principal objetivo, não restava qualquer dúvida; tanto que o público, respondendo ao apelo do presidente, do Congresso e das autoridades monetárias, em uma única semana, fez afluir aos bancos mais de 300 mihões de dólares em ouro. Porém, a adesão inicial bem cedo perdeu parte do seu vigor e no dia 5 de abril, um mês depois da divulgação da provisão, o ouro “restituído” ao Tesouro chegava a um total de apenas 633 milhões de dólares. Segundo a estimativa do governo, ao apelo presidencial faltavam, pelo menos, mais um outro bilhão de dólares.


Figura: O raríssimo US Saint Gaudens Double Eagle de 1933, a última moeda americana de ouro que deveria ser posta em circulação, mas que sequer chegou às ruas, impedida que foi por ato do presidente Roosevelt. O exemplar da foto foi vendido no leilão de Stack's e Sotheby's em 30/07/2002. O martelo do leiloeiro da venda sob ofertas organizada pela Stack’s e Sotheby’s em Nova York no dia 30 de julho de 2002 para vender uma única moeda – aparentemente a mais rara, e com certeza a mais disputada – parou no valor recorde de 6,6 milhões de dólares, uma soma nunca alcançada precedentemente, e que sobe a 7,59 milhões, se levarmos em conta também a comissão do leiloeiro.

Para acelerar o retorno do metal aos cofres do Federal Reserve, no dia 5 de abril Roosevelt emanou uma nova diretiva que depois de ter fixado o teto cumulativo em 100 dólares, impôs explicitamente aos privados a obrigação de restituir ao Tesouro Americano o ouro de que mantinham posse; uma exceção era consentida somente para as moedas de ouro “raras e incomuns” procuradas pelos colecionadores. 
As pressões pelo retorno do ouro aos cofres do Federal Reserve continuaram até que o Gold Reserve Act, aprovado pelo Congresso e assinado por Roosevelt no dia 30 de janeiro de 1934 estabelecesse definitivamente que todo o ouro amoedado (revalutado de 20,67 a 35 dólares a onça) pertencia ao governo dos EUA, que o transformaria em lingotes de peso e título estabelecidos pelo Secretário do Tesouro (refundindo portanto as moedas em circulação) destinando o produto final a ser estocado no novo depósito em construcão em Fort Knox.


MAS AFINAL DE CONTAS, QUANTO (OU O QUE) VALE HOJE O SEU DINHEIRO ?

Assim, com o passar do tempo, o ouro deixou de sustentar o valor da moeda. Hoje, o que garante (sustenta) o seu valor é o Estado.
Em outras palavras: De um bem tangível, dado em garantia daquilo que se estampava sobre um “pedaço” de papel (a exemplo dos antigos certificados o depósito de ouro em pó), passou-se à garantia intangível, ou seja, àquela dada pelo Estado, derivada das suas presumíveis credibilidade e responsabilidade no que diz respeito ao valor estampado na cédula, e se este corresponde à sua reserva em ouro. Foram medidas como estas a permitir, no Brasi, a facilidade em se criar engodos para roubar o dinheiro das pessoas como, por exemplo, aconteceu no escândalo Coroa-Brastel.

Em termos mais simples, se pode dizer que uma cédula de 10 reais, vale 10 reais porque qualquer pessoa que a aceite em pagamento deverá se sentir segura, deverá ter a certeza de que outras pessoas irão reconhecer, por vontade própria e, principalmente, por serem obrigadas por lei, que aquela determinada cédula vale 10 reais. Porém, é essencial que essa relação financeira, em nenhum momento, seja desacreditada ou que seja motivo de desconfiança de que o estado não seja capaz de garantir o poder de compra do dinheiro que coloca em circulação. É importante que o valor da moeda seja preservado a fim de impedir um colapso do mercado mundial, o que traria gravíssimas consequências para a economia. Assim, é o Estado o regulador da emissão de dinheiro, controlando quanto deve ser posto em circulação e que, principalmente, tal emissão seja compatível com suas reservas em ouro.

O dinheiro, hoje, vale o estabelecido pelos governos o que, por sua vez, se dá pelo conhecimento que cada um destes governos tem da quantidade de ouro estocado nos “tesouros nacionais” dos outros. 

Se antes o cidadão possuía em mãos a própria riqueza, hoje possui apenas a representação dela e esta depende da responsabilidade com que seus governos administram a nação, sendo passível de oscilações e quedas, já que são abstratas. Se antes a moeda era a própria riqueza, hoje apenas representa um momento, podendo mudar, ou mesmo perder seu valor, de acordo com os procedimentos e posturas adotadas por um governo. 

A seguir, o aspecto de duas moedas brasileiras. A primeira, quando de sua fase mais rica, a do ciclo do ouro, época em que foi cunhada em nosso país, a mais pesada moeda circulante de ouro de todo mundo. Nenhuma outra nação no mundo cunhou moeda mais fascinante, estupenda, tão pesada, símbolo da riqueza de um país que tanto prometia. estima-se que 65% de todo ouro hoje estocado nos diversos cogfers espalhados pelo mundo todo, tenha,m saído das minas brasileiras. Em seguida vocês podem observar a última moeda, circulante, de ouro, cunhada no Brasil. Em 1922 foram fabricadas as últimas. Foi a partir desta data que o seu, o nosso dinheiro deixou de valer o quanto pesa passando a um símbolo, algo abstrato garantido pelo Estado.



Em países com graves problemas de corrupção, como acontece no Brasil, por exemplo, os ladrões acumulam, em local secreto, imensas quantidades de ouro. Muitos as enviam ao exterior...outros, não acreditando numa insurreição popular, preferem manter tudo no próprio cofre, em um banco, ou dentro de casa, tendo à disposição, um pequeno avião, de tanque cheio, pronto a decolar com tudo que amealharam. Quando fogem, deixam o país, carregando sua real riqueza, o ouro e deixando nas mãos da população um papel pintado, sem nenhum valor, sem nenhum lastro e sem qualquer FIDUCIA. Por isso, países como os EUA recebem essa gente sem contestar, sem fazer contas de suas ações, pois sabem qual é a carga dentro de seus aviões.

Mas afinal, onde se encontra a verdadeira riqueza de uma nação?

Encontra-se trancada a sete chaves, nos subsolos. Se o que existe lá é suficiente para garantir o que está no seu bolso, só o tempo dirá.

Extraído de "O valor do dinheiro" , capítulo da obra "OURO PARA O BEM DO BRASIL"- Autor: Fernando Antunes - Editado e publicado na CE em língua inglesa e italiana por Bentes Editores Associados. 

BRASIL gravado em ouro

Em meio à guerras, batalhas sangrentas, escaramuças, conquistas e perdas ... um rei preocupado com seus domínios ... um nobre cavalheiro holandês e seus ideais ... e uma empresa comercial, tão aguerrida quanto avançada para sua época.

É nesse contexto que surge a primeira moeda com o nome da terra ...

...Não apenas isso; esse nome é gravado em OURO.


s relações entre Portugal e os Países Baixos vem de longa data. Com a grande expansão ultramarina portuguesa, iniciada no final do século XV, o reino conquistou terras, alcançando riquezas, e possibilitando acesso a produtos então vitais para a economia européia. Entretanto, a notável centralização política  - Portugal foi o primeiro reino europeu a superar o feudalismo, com a centralização monárquica criada por D. João I - que no início serviu para impulsionar o país rumo aos descobrimentos, num segundo momento demonstrou ser um entrave ao capitalismo, visto ser de competência do Estado português investir no descobrimento de terras, na sua exploração e guarda, reservando-se à Coroa a posse dos lucros resultantes desses investimentos. Isso impedia o desenvolvimento de uma burguesia nacional e o seu natural desejo em acumular capital. 

A iniciativa privada não era tolerada pelo Estado português, que absorvia praticamente quase todas as rendas obtidas no comércio colonial, sendo soberano em decidir onde e como investir tais lucros. Os representantes do capital comercial não ocupavam, na hierarquia estatal, notáveis posições de prestígio que pudessem fazer valer seus interesses. Estes eram entregues à uma nobreza tradicional e parasitária, o que gerava ineficiência, gastos excessivos com a corte e, eventualmente, o aumento da corrupção. Na ausência de uma burguesia interna forte, impedida de surgir e desenvolver-se dentro desse contexto, Portugal era incapaz de promover, junto ao mercado europeu, a comercialização dos produtos e riquezas que vinham de suas várias colônias. Aliado a esse problema, a centralização estatal estagnava a produção interna portuguesa. Visto que a manufatura nacional e a produção não recebiam capitais destinados prioritariamente à defesa e a manutenção das colônias, a consequência era a dependência do país em relação aos produtos externos, principalmente os manufaturados.

Dessa forma, o reino de Portugal dependia de países como Inglaterra, França e Holanda para comercializar e distribuir seus produtos dentro da Europa, bem como necessitava dos manufaturados que esses países fabricavam, e que não eram produzidos no reino para seu mercado interno. 


A dependência externa existia então em dois níveis: 

 1) Da metrópole em relação aos produtores de manufaturados;  2) Das colônias, que necessitavam da metrópole para seu abastecimento, e que também eram abastecidas indiretamente por centros produtores externos.

O deficit da balança comercial portuguesa sempre era grande. O país importava mais do que exportava, e isso era compensado pelas riquezas que vinham das suas possessões. 

Certos fatos ilustram muito bem o grau da dependência de Portugal, nesse caso, particularmente em relação à Holanda. A maior parte da instrumentação náutica e das armas usadas pelos portugueses vinham de Flandres e de Brabante (também chegavam de Florença/Itália). As “Urcas” holandesas supriam as deficiências da marinha mercantil lusitana no transporte do açucar brasileiro para Lisboa (66% desse transporte era feito pelos flamengos). Houve períodos em que os holandeses chegaram a controlar cerca de 2/3 do comércio do açucar brasileiro, financiando a produção e o refino. Eram num total de 25 as refinarias de açucar brasileiro instaladas em Amsterdam.

Os países baixos eram um dos grandes (provavelmente o maior, à época) beneficiados pelo comércio com Lisboa. Os lucros obtidos pelos flamengos com esse financiamento e produção eram altíssimos.


A UNIÃO IBÉRICA

Com a morte de D. Sebastião em Marrocos, na mal sucedida batalha de Alcácer Quibir, sobe ao poder seu tio D. Henrique, um cardeal idoso, vindo a falecer em 1580, sem deixar herdeiros. Com ele terminava a dinastia de Avis, numa sucessão de soberanos que durou quase 200 anos. 

D. Felipe II da Espanha, neto de D. Manuel o Venturoso, reclama o trono, e se sobrepõe a seus concorrentes. As forças espanholas invadem Portugal, e com o apoio da nobreza, dá-se início à União Ibérica, com o reino português governado pelo soberano espanhol. Em 1581 ocorre o juramento de Tomar, onde Felipe II compromete-se a respeitar a autonomia portuguesa e de suas colônias, bem como as leis e costumes do país.

Ao longo de sua história Portugal havia desenvolvido uma política de neutralidade em relação aos demais conflitos europeus. Não entrou em guerra nem mesmo com a França, que havia mais de uma vez invadido o território brasileiro tentando estabelecer colônias. As guerras que foram travadas pelo domínio na região, aconteceram tão somente nos limites da Colônia.

Com a União Ibérica o quadro da neutralidade portuguesa mudou radicalmente. Ao unir-se à Espanha, o país acabou envolvido nos conflitos europeus. O reino espanhol, dominado pelos Habsburgos tinha vários interesses no continente, tomando parte em diversas e dispendiosas guerras dinásticas e sucessórias.

Felipe II seguiu a política intervencionista de seu pai, Carlos V, procurando influir em diversos assuntos europeus. Seu governo era absolutista, e na Espanha de então grassava uma enorme intolerância religiosa, encabeçada principalmente pela Santa Inquisição. 

A política de Felipe II era também opressiva. O rei apoiava a intolerância católica, sendo ele mesmo um fanático religioso. Desrespeitou as tradições dos Países Baixos, reprimindo o Calvinismo, e tributando pesadamente as Províncias Holandesas, enriquecidas com o intenso comércio praticado pela forte burguesia comercial local. Como o imperador espanhol não podia tolerar heresias em seus domínios, nomeou juízes e sacerdotes espanhóis de sua confiança para controlar os Países Baixos. A fogueira da inquisição católica começa a arder em terras holandesas, e com ela vem também o confisco dos bens dos heréticos em favor da coroa espanhola.

Os ricos Países Baixos então se rebelam, diante de tamanho descontentamento. Iniciam-se assim, as revoltas internas e lutas contra as tropas espanholas estabelecidas na região. Mesmo com o poderio militar espanhol e com a repressão promovida pelo Duque de Alba, os revoltosos não recuam. As 17 províncias que formavam os Países Baixos se unem contra Felipe II, e a guerra começa a ficar custosa demais até mesmo para o rico erário espanhol, abarrotado de prata colonial. As províncias do Sul, temerosas do poderio da Espanha, se submetem em 1579. Contudo, as províncias do Norte prosseguem em sua luta; as províncias setentrionais, em número de 7, formaram a União de Utretch, liderada por Guilherme de Orange que não reconhecia a soberania espanhola. Com o assassinato de Guilherme pelos espanhóis, o conflito e intensa luta armada prosseguem, fazendo surgir a República da Holanda, ou Províncias Unidas dos Países Baixos.

Com Portugal sob o domínio espanhol, e a Espanha em luta com a então recém criada República da Holanda, o vantajoso comércio travado entre Lisboa e os Países Baixos - comércio que proporcionou lucros incríveis a esses últimos - encontrava-se impossibilitado. Felipe II proibiu tal comércio, ficando os navios flamengos proibidos de aportar em terras sob domínio espanhol. Isso incluia, naturalmente, Portugal, Brasil e as demais colônias lusas, que estavam agora impossibilitadas de comercializar com os holandeses.

A morte do jovem rei de Portugal D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir levou a uma crise de sucessão já que o primeiro não teria deixado descendência pela sua tenra idade. Pela proximidade de parentesco, coube a governação ao cardeal D. Henrique, aclamado Rei de Portugal a 28 de Agosto de 1578.A notícia da derrota de Alcácer-Quibir foi levada ao cardeal, então no Mosteiro de Alcobaça, pelo provincial da Companhia de Jesus e o Dr. Jorge Serrão. O cardeal, encarregado da regência do reino por proximidade de parentesco, convocou as Cortes de Lisboa de 1579 para estudar a situação decorrente da sua avançada idade e vínculo religioso. Não sendo casado e não tendo herdeiros, a sua regência seria meramente provisória.


A COMPANHIA DAS INDIAS OCIDENTAIS

O lucrativo comércio travado entre Portugal e colônias com as Províncias Holandesas sofreu grandes prejuízos graças à União Ibérica e as guerras de Felipe II, que acabavam por envolver Portugal, direta ou indiretamente.

Com a independência da Holanda, esse país teve que rever o seu comércio, reorganizando-o conforme as novas regras agora impostas. Surgiu assim, em 1602, a sua primeira companhia de comércio, a V.O.C (Vereenigde Geoctoyeerde Oostindische Compagnie) ou Companhia das Índias Orientais.A V.O.C. cunhou grande quantidade de moedas nas colônias orientais, até o seu desaparecimento no início do século XIX. Era uma Sociedade Anônima que mobilizava investimentos, inicialmente em âmbito nacional e, seguidamente, também naquele internacional. Era uma companhia privilegiada, sendo isenta de impostos, chegando mesmo a suprir o papel colonial do próprio Estado, algo muito avançado para a época. Os lucros obtidos pela companhia na Ásia eram imensos, e deixavam cada vez mais ricos os seus acionistas, com as ações da Companhia cada vez mais valorizadas e procuradas. Com tanto poder financeiro, não demorou para que o monopólio ibérico fosse quebrado nas Índias e Oriente, e os Holandeses começassem a conquistar colônias e monopólios comerciais que antes eram da Coroa Portuguesa (Málaca e Ceilão, por exemplo).

A Companhia das Índias Orientais foi tão bem sucedida econômica e militarmente, que os flamengos resolveram repetir a idéia; só que agora na exploração de colônias no Ocidente. Surge assim, em 1621, a Companhia das Indias Ocidentais - Geoctoyeerde West-Indische Compagnie, que também possuía o mesmo formato de Sociedade Anônima. Com uma sólida estrutura financeira, não demoram os holandeses a voltarem seus olhos ao rico e lucrativo Brasil açucareiro, comércio do qual tinham sido oficialmente privados pelo odiado D. Felipe da Espanha.

Entretanto, ao contrário da Companhia das Índias Orientais que lidava com povos até bem desenvolvidos - oriundos de civilizações bem antigas e ricas e com bom conhecimento da prática comercial - a Companhia Ocidental iria lidar com povos indígenas semi-bárbaros, com inimigos mais numerosos e bem armados que no Oriente (o comércio português na região já era decadente), e com terras estranhas e muitas vezes inóspitas para os flamengos. Para obter o açúcar, o pau brasil e outros tão desejados produtos, seria necessário lutar muito. Bem mais que nas bandas orientais, eram necessários muito mais homens, armas e navios, e muito mais dinheiro.

A GWC possuía um caráter bélico bem mais acentuado que sua irmã oriental. Na época, era uma companhia voltada muito mais para a conquista militar, ocupação e pirataria em grande escala - os alvos prediletos eram os galeões portugueses abarrotados de açucar, e os espanhóis carregados da prata do novo mundo - do que ao comércio propriamente dito. A bem da verdade, tratava-se de um exército paralelo ao estatal, mantido com capitais privados. Contando com a participação de mercenários contratados, era uma das forças mais poderosas no mundo daquela época.



AS INVASÕES HOLANDESAS NO BRASIL COLONIAL

Em 1624, surgiram no mar da Bahia 26 galeões de guerra holandeses transportando mais de 3.000 homens em armas sob o comando do almirante Jacob Willekens (na figura ao lado, o segundo, a partir da direita, retratadom pelo pintor Govert Flink, seguidor de Rembrandt). A Bahia foi escolhida por ser um grande centro açucareiro, bem como por ser a capital da América Portuguesa. 

A invasão tinha sido planejada já em 1623, e apesar de saber antecipadamente da grande probabilidade desse ataque, o governador Diogo de Mendonça Furtado, talvez por não acreditar que uma expedição dessa magnitude aportaria justamente na sua cidade, não organizou suas defesas. Além disso, já havia cedido às pressões do arcebispo Dom Marcos Teixeira, dispondo de grande numerário, que era destinado a defender a cidade, em obras para a Igreja Católica. 

Com a investida desse exército, a despreparada Salvador sucumbe após alguns combates. A população foge para o interior e para os engenhos afastados, dando início à organização da resistência. Um  dos líderes é justamente o bispo Marcos Teixeira, talvez atormentado pelo arrependimento. Ao final desse ataque bem sucedido, o governador Diogo de Mendonça Furtado foi capturado e deportado com seu filho para a Holanda.Em 1625, chega à Bahia uma poderosa esquadra luso-espanhola, liderada por D. Fradique de Toledo Osório. Cercados por terra e sem poder receber reforços pelo mar, os holandeses acabam por depor as armas. Aos problemas da GWC somaram-se outros mal sucedidos ataques às colônias portuguesas na África e nas Antilhas espanholas, dando um grande prejuízo à Companhia. Suas ações experimentaram uma vertiginosa queda, colocando a empresa à beira da bancarrota. Entretanto, em 1628, os holandeses conseguem uma grande reviravolta nos acontecimentos. Peter Heyn, ancorado na Ilha de Cuba, toma de assalto uma esquadra espanhola abarrotada com um carregamento de prata vindo do México. A pilhagem foi tão boa que conseguiram cobrir os prejuízos da empresa com os fracassos anteriores. 

Dessa forma, recuperada e livre do fantasma da bancarrota, a GWC pode preparar sua nova investida em um bem sucedido ataque às cobiçadas terras do açucar.


MAURÍCIO DE NASSAU

Para consolidar sua conquista, A GWC enviou ao Recife o conde João Maurício de Nassau-Siegen. Nassau era alemão, um príncipe do pequeno Estado de Nassau-Siegen. Desembarcou no Brasil em 1637, junto com uma armada de 12 navios e 2.700 homens. Em pouco tempo revelou-se um estadista e excelente diplomata, estabelecendo boas relações com os senhores de engenho e a gente da terra, emprestando dinheiro para que os engenhos voltassem a funcionar ou expandissem suas capacidades, dessa forma aumentando a produção com o incremento de novas técnicas. Permitiu a liberdade de culto, inclusive aos judeus que fundaram no Recife a primeira sinagoga das Américas. Procurou transformar a cidade numa capital moderna, a cidade Maurícia, ou Mauritsstad. Providenciou vários aterros, construiu diques, canais, pontes, e até palácios para a administração (o principal esteve de pé até o século XVIII, quando um governador português mandou derrubá-lo).Sua expedição contava com a participação de pintores, artistas e pesquisadores. Criou a coleta de lixo, um corpo de bombeiros e até um observatório astronômico.

Com uma boa administração, aliada às conquistas militares, Nassau consolidou o poder holandês na região. Derrotou o Conde de Bagnoli em Alagoas, oficial italiano a serviço de Portugal que bateu em retirada para Sergipe. Em 1637 enviou à África, sob o comando do coronel Hans Koin, uma expedição naval que contava com mercenários e indígenas Tapuias brasileiros, conquistando o Forte de São Jorge da Mina, a mais antiga possessão colonial portuguesa na costa africana. A possessão portuguesa da Mina foi colocada sob o controle de Recife.Tentou novamente a invasão da capital da Bahia, Salvador, mas encontrou lá forte resistência, não obtendo sucesso. Entretanto, expandiu a conquista com a anexação do litoral das Capitania do Ceará, Sergipe e Maranhão.

Em 1640 Nassau volta-se contra Luanda. O objetivo era quebrar o fornecimento de escravos para a Bahia, minando a resistência do Brasil português, que ficaria sem mão de obra na lavoura de cana de açucar. Todavia, a motivação principal era cortar o suprimento de escravos destinados às minas de prata da América Espanhola. Seria um duro golpe para a coroa portuguesa, dependente da Espanha. Assim, partiu de Recife uma poderosa esquadra em direção a Luanda. Diante da poderosa armada, a cidade cai sem resistência, indo a tropa e a população portuguesas se refugiar em Massangano. Toma também São Tomé e feitorias na Guiné. No mesmo ano, ainda conquista aos portugueses a ilha de São Luis do Maranhão.Apesar dos esforços e conquistas de Nassau, o Brasil holandês não ía bem. O preço do açúcar iniciava sua fase de declínio, e os senhores de engenho começavam a se rebelar contra a GWC. Com um débito de mais de 5 milhões de florins com a Companhia (empréstimos concedidos por Nassau para incrementar a produção), a volta do domínio português acenava como uma boa chance de não quitarem essas dívidas.
A fortaleza de São Jorge da Mina foi construída com o objetivo de escoar e defender o ouro que, das ricas regiões auríferas do interior, era enviado para o litoral. Posteriormente, tornou-se o primeiro entreposto de escravos da era moderna. Também designado por Castelo da Mina, Feitoria da Mina, e posteriormente por Fortaleza de São Jorge da Mina, Fortaleza da Mina, ou simplesmente “Mina”, localiza-se na atual cidade de Elmina, em Gana, no litoral da África Ocidental. Após a sua ocupação pelos Holandeses em 1637, o seu nome passou a figurar na cartografia apenas como Elmina. Erguida em 1482, foi a primeira grande construção européia na África tropical. Para várias tribos e numerosos reinos, Elmina simboliza o holocausto provocado pelo tráfico negreiro. Para as nações européias que exploraram a costa africana, como Portugal, Holanda, Inglaterra, Dinamarca, Suécia e Alemanha, o lugar foi fonte de riquezas durante 400 anos. De lá saiu o ouro que financiou as navegações portuguesas no século XVI, e os escravos que fizeram prosperar as usinas de açúcar do Brasil.
Juntou-se a isso uma praga de bexigas que assolou a população negra, matando vários escravos, fazendo a produção despencar ainda mais. 

Nassau havia investido muito em prol da cidade de Recife. Segundo seus sonhos seria a grande capital do domínio holandês no Brasil. Contudo, a GWC estava insatisfeita com todos esses gastos com o engrandecimento da cidade. Começaram as falências de empresas açucareiras em Amsterdam, fazendo com que as ações da GWC experimentassem, mais uma vez, uma significativa baixa. Com tudo isso Nassau foi chamado, em 1644, de volta à Holanda, para nunca mais voltar ao Brasil. Em seu lugar assume a junta denominada de Conselho dos XIX, com sede na Holanda. O Conselho, como era conhecido, dava ordens ao Alto e Secreto Conselho do Brasil, responsável pela administração direta, cujo objetivo principal era obter o máximo lucro possível da terra, a fim de compensar os investimentos e prejuízos experimentados. 

Retornando à Holanda, Nassau ainda chegou a Governador de Kleve. Pegou em armas contra a França e a Espanha, e foi nomeado governador de Utrecht. Por haver transformado Recife, com tantas obras e investimentos, em uma cidade que lhe valeu o título de grande centro urbano da época, Nassau ainda permanece vivo na memória da gente de Pernambuco. Foi tolerante, diplomata, e desenvolveu a urbanização e o embelezamento da cidade. Em sua homenagem existem ruas, praças, uma ponte e uma faculdade que leva o seu nome. 


A RECONQUISTA

Com a saída de Nassau e a crise do preço do açúcar, a GWC, por meio do Alto e Secreto Conselho sediado em Recife, começou a cobrar dos senhores de engenho de Pernambuco os empréstimos concedidos. Tais cobranças se somaram aos problemas com pragas na lavoura de cana; os senhores de engenho não conseguiam honrar seus débitos que acumulavam mais de 130 tonéis de ouro, correspondentes a 13 milhões de florins.  Os holandeses passaram, então, a desapropriar os engenhos. 

Sem Nassau, a cidade não recebia mais os investimentos de outrora, dando início a um período  de decadência social; a insatisfação é geral. Os senhores de engenho queimam as propriedades, os estoques de açucar, e fogem para o mato, dando início à Insurreição Pernambucana. Portugueses,  luso-brasileiros (mazombos), negros e indígenas aliados, estavam prestes a enfrentar um dos melhores e mais equipados exércitos da época.

Os senhores de engenho João Fernandes Vieira (português) e André Vidal de Negreiros (brasileiro branco - mazombo) dão impulso à revolta. Apoiando os senhores de engenho, estão o líder indígena poti Felipe Camarão, aliado da coroa portuguesa, e o ex-escravo Henrique Dias; esse último irá comandar o contingente de negros e ex-escravos aliados dos luso-brasileiros. De acordo com a história oficial, é nessa época que começa a surgir o conceito da nacionalidade brasileira. Na luta das três principais raças formadoras do Brasil contra um inimigo mais forte e comum, pela primeira vez manifesta-se o sentimento de amor à pátria.Tem início as guerrilhas contra as tropas regulares holandesas, que começam a ser derrotadas pouco a pouco, batalha após batalha, num processo de desgaste doloroso para ambas as partes.

Nota: Mazombo - Brasileiro, filho de europeus.


GUARARAPES - A ÚLTIMA BATALHA

Os exércitos luso-brasileiros contavam com um efetivo aproximado de 2.200 homens. Eram divididos em quatro Terços, comandados pelos quatro mestres-de-campo mencionados anteriormente: João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros; o governador dos indígenas, capitão-mor Filipe Camarão, e o governador dos negros, Henrique Dias. Os Terços não dispunham de nenhuma artilharia de apoio.

No dia 17 de abril de 1648, o governador das Armas Holandesas, Sigmund von Schkoppe, conhecido pela crueldade com que tratava os seus adversários e pelo espírito de disciplina imposto aos seus subordinados, saiu do Recife no comando de um formidável exército de 4.500 homens, divididos em sete regimentos, acrescidos de aproximadamente 1000 indígenas Tapuias e negros carregadores. De acordo com as reformas implantadas por Maurício de Nassau, que visavam adaptar a estratégia de combate à realidade brasileira, os batalhões dos exércitos holandeses eram formados por 500 homens, assim divididos: 1) 300 piqueiros, combatentes que carregavam grandes lanças de 18 pés de comprimento, e 2) 200 mosqueteiros que se alternavam em fileiras por ocasião do desenvolvimento da batalhas.

As tropas luso-brasileiras chegaram a Guararapes no sábado, à tarde. À noite, por volta das 10 horas, posicionaram-se em troços numa planície ao pé do monte conhecido como Outeiro, distante três léguas do Arraial Novo e a uma légua da Muribeca. Restava ao inimigo uma passagem de pouco mais de cem passos de largo (aproximadamente 100 metros), entre o Outeiro e um terreno alagadiço que o contornava. Assim aguardavam os luso-brasileiros, escondidos entre a vegetação e o manguezal, em sítio acomodado, não só para reprimir o ímpeto do inimigo, mas também para destruí-lo. 

Mantendo escondidas as tropas, Barreto de Menezes avançou através do Boqueirão sobre os holandeses. Agiu com um efetivo aproximado de 300 homens, mas apenas para atraí-los para uma grande emboscada, fazendo crer ao inimigo que dispunham apenas de uma pequena força defendendo aquela importante passagem para o sul. Von Schkoppe não pensou duas vezes. Ordenou que uma força composta de seu regimento e dos regimentos dos coronéis Van Elst e Keervaen dessem carga à pequena força luso-brasileira a fim de conquistar o Boqueirão. Os holandeses progrediam com grande dificuldade através dos alagados (manguezais, lama mole) para flanquear pela esquerda a pequena força ao comando de Dias Cardoso. Enquanto isso, a ala direita holandesa iniciava a progressão sobre os luso-brasileiros, atacando seu flanco direito. Os holandeses entraram no boqueirão caindo na grande emboscada, acreditando que as forças que os esperavam eram reduzidas. Nesse momento, o Mestre de Campo Barreto de Menezes que mantinha o grosso de suas forças a coberto, ordenou um ataque total dos luso-brasileiros. Após breves trocas de tiros que poucas baixas causaram, desfecharam violento ataque à espada contra os holandeses, na estreita faixa do interior do Boqueirão, o local para onde foram atraídos os batavos.
Notas:
Terço: Parte de um exército, correspondente ao regimento atual.
Outeiro ou Lomba - Elevação do terreno menor que o morro, geralmente local de preces e orações.   
Muribeca - Município brasileiro do estado de Sergipe. Localidade pertencente na época a Propriá, localizada a 72 quilômetros de Aracaju, no Agreste Sergipano. Seu antigo nome era Sítio do Meio. As terras de Muribeca faziam parte da área que Cristóvão de Barros, conquistador de Sergipe, deu em 1590 a seu filho, Antônio Cardoso de Barros, através de sesmaria. 

Logo se instalou a confusão e a desordem no dispositivo holandês, provocando a debandada de muitos de seus soldados. Ao baterem em retirada, dando as costas aos luso-brasileiros, muitos holandeses foram, impiedosamente, abatidos à espada. Os numerosos holandeses que correram para os alagados (mangues) encontraram a morte ali mesmo, abatidos a tiros, lanças e espada; provavelmente pelas forças de Felipe Camarão (chefe indígena), habituados a progredir nos alagados. 

Terminada a escaramuça, os luso-brasileiros iniciam a se recompor e se organizam para o combate do dia seguinte. Os holandeses, aproveitando-se da noite, bateram silenciosamente em retirada para a Leiteria (Boa Viagem), sob a forte chuva que caiu durante a madrugada. O aguaceiro apanhou os luso-brasileiros em posição em campo aberto, castigando-os, impedindo um sono reparador, agravando a situação dos feridos.

Animada com essa grande vitória, a coroa portuguesa resolve então mandar reforços. Vendo que, ao contrário do que pensava D. João IV e seus ministros, Pernambuco não estava irremediávelmente perdida, resolvem colaborar com as tropas. Em agosto de 1648, chegam a Pernambuco 300 infantes dos terços das Ilhas, armados com material moderno, arcabuzes compridos que alcançavam distância maior do que aqueles dos holandeses, colocando o combatente a reparo da ofensiva inimiga.


O SEGUNDO CONFRONTO

Em 1649, mais uma força holandesa, composta de 3.510 homens, comandados pelo coronel Van der Brincken, sai de Recife ao encontro dos luso-brasileiros nos Montes Guararapes, iniciando assim o segundo confronto. Na vanguarda, muitos soldados com lanças e piques para reprimir a temida investida à espada dos luso-brasileiros.


Os holandeses esperavam as tropas nativas avançando pelo norte, mas para sua surpresa, elas acabaram atacando pelo sul, onde não eram esperados. E assim ficaram os exércitos: Os holandeses numa posição mais alta, ocupando o monte, e os luso-brasileiros em baixo, ao pé do monte, entocados nos mangues, impedindo qualquer retirada. Os grupos de luso-brasileiros se espalhavam, escondendo-se nos matos e canaviais, acompanhando os movimentos holandeses e atacando em emboscadas.Imobilizados no alto dos montes, longe das fontes de água bloqueadas pelas tropas nativas, os batavos começaram a sofrer de sede com o imenso calor local. Assim o coronel Van der Goch descreve a situação: 
“Tendo tomado em consideração que o inimigo não seria facilmente seduzido a dar combate, visto conservasse posição privilegiada nos matos e por detrás dos pântanos, e que as nossas tropas ficando sobre os montes, que são desertos, sem sombra e água, seriam extremamente fatigadas e enfraquecidas, procedeu-se à convocação dos chefes da expedição para deliberarem juntamente sobre o que fazer nessas circunstâncias, e todos por unanimidade opinaram que não se devia aconselhar conservar as tropas ainda por mais tempo no alto dos montes, com a esperança incerta de chamar para lá o inimigo, e que por consequência as tropas deviam retirar-se antes que os embornais ficassem inteiramente vazios e os soldados inteiramente esgotados pelo calor excessivo”
Às 3 horas da tarde, começam os regimentos holandeses a descer dos montes, em ordem. Ao tomar conhecimento da retirada, e aproveitando-se do erro estratégico dos inimigos, os lusos-brasileiros fazem valer suas posições privilegiadas, iniciando um ataque que viria a se transformar em um verdadeiro massacre. Expostos à força e intensidade dos ataques, os holandeses não viram outra alternativa que não fosse a de bater em retirada, conforme relata carta de um oficial: 
“O tenente coronel Claes com o regimento do tenente general do qual naquele momento tinha o comando, e o coronel Hauthyn, tendo entrado ambos igualmente em ação contra o inimigo, e tratando de reconquistar a garganta do monte abandonado, tiveram que recuar igualmente, frente à excessiva força do inimigo, que então veio com tanta impetuosidade sobre nós que as nossas tropas começaram a fugir gerando a maior confusão. A tal ponto de que nem palavras nem a força puderam contê-las, apesar de todos os esforços dos oficiais em geral. Essa fuga e confusão foram consideravelmente aumentadas pelas tropas dos coronéis van der Brande e van Elst, que descendo o monte vieram correndo o mais que podiam atirar-se em confusão nos mencionados regimentos do tenente general e de Hauthyn, produzindo nele uma desordem completa”.
Após aproximadamente 3 horas de luta ferrenha, a situação era a relatada pelo major Antônio de Souza Junior: 
“Vieira se foi unir e incorporar com André Vidal de Negreiros, Francisco Figueiroa e António Dias, e todos juntos foram apertando o cerco contra o inimigo. De tal sorte que o fizeram precipitar e despencar por aquelas barrocas e grotas dos montes Guararapes, donde lhe fizeram grande estrago e mortandade, com que já estava já toda aquela campanha dos altos e baixos dos montes, lastrada e juncada de corpos dos inimigos, que era uma cousa horrenda de se ver tanta mortandade, tantas e tão espantosas feridas, tantos corpos sem cabeças, braços, pernas, uns já mortos, outros agonizando e lutando com a morte, outros revolvendo-se em sangue e muitos urfando e gritando com ânsias e agonias mortais, não poucos dando e exalando o último suspiro.”
O relato do major português está bem de acordo com o outro do oficial holandês, que assim descreveu a retirada, em carta à GWC:
“Em referência ao combate, observei principalmente duas particularidades que, em minha opinião, merecem bem atenção: Em primeiro lugar, as tropas do inimigo saindo do mato e por detrás dos pântanos, e de outros lugares, tinham a vantagem da posição; atacavam sem ordem e em completa dispersão e aplicavam-se a romper diferentes quadrados. Em segundo lugar, as tropas inimigas são ligeiras e ágeis de natureza, para correrem para adiante ou se afastarem, e por causa de sua crueldade inata são também temíveis. Compõem-se de brasileiros, tapuias, negros, mulatos, mamelucos, nações de todo o país e também de portugueses e italianos, que tem muita analogia com os naturais do país quanto à sua constituição, de modo que atravessam e cruzam os matos e brejos, sobem os morros tão numerosos aqui e descem tudo isso com uma rapidez e agilidade verdadeiramente notáveis. Nós, pelo contrário, combatemos em batalhões formados como se usa na mãe pátria, e nossos homens indolentes e fracos, nada afeitos à essa terra, disso resulta que essas espécies de ataque com armas de fogo, como acima se trata, devem ter inevitavelmente bom resultado, e que rompendo nossos batalhões e pondo-os em fuga, nos infligem um maior número de baixas, entre os soldados em perseguição, do que teriam feito em combate mesmo. Além disso, as peças de artilharia de campanha, não podendo ser apontadas sobre bandos ou grupos dispersos, tornam-se inúteis, ou para melhor dizer, transformam-se em verdadeiras charruas para o nosso exército, sem contar uma multidão de outros inconvenientes, muito numerosos para serem aqui apontados.”
Após essa derrota, a capacidade de ataque dos holandeses se anula, e tudo que se pode fazer é tentar defender o Recife, ainda bem fortificado. Mais uma vez os luso-brasileiros tomam boas quantidades de pólvora, dinheiro, armas e peças de artilharia. Ao mesmo tempo, a moral das tropas holandesas cai a níveis alarmantes; o número de deserções aumenta.

Nesse meio tempo, Angola é recuperada pelas tropas de Salvador Correia de Sá. Estamos no ano de 1648! A situação para os holandeses piora tanto que os Estados Gerais exigem uma declaração de guerra formal contra Portugal, bem como autorização de pirataria contra as embarcações portuguesas em qualquer lugar do globo. O embaixador em Haia, Souza Coutinho, recebe um comunicado de D. João IV, exigindo o imediato reconhecimento do Brasil holandês e do Ocidente africano (Angola e São Tomé). O embaixador ganha tempo, fazendo propostas de venda de Pernambuco e Angola a preços altíssimos. Os Estados Gerais decidem cercar o porto de Lisboa com uma esquadra de 25 navios de guerra, ameaçando Portugal, caso não restaurasse o que a GWC havia perdido na Africa e no Brasil. O conflito agora ameaçava chegar às portas do palácio de D. João IV. O rei português se mostrava inclinado a vender Pernambuco aos holandeses. Todavia, para sorte de Portugal, a Inglaterra e a Holanda entram em guerra pela supremacia dos mares em 1652. A esquadra holandesa que faria o bloqueio do porto de Lisboa, é mobilizada contra as poderosas forças britânicas.

Havia o temor das cortes de que os pernambucanos buscassem ajuda dos ingleses, de qualquer príncipe cristão, ou mesmo da odiada coroa de Castela, caso se sentissem abandonados pelos portugueses. Em 1652, com os esforços holandeses canalizados contra os britânicos, era hora de tomar de volta o Recife, último bastião de defesa holandesa. Diante das vitórias dos Guararapes e sabendo do empenho dos holandes em guerra contra a Inglaterra, D. João IV resolve agir e desafiar o poderio holandês. 

Em 1653, surge na costa do Recife a frota da Companhia de Comércio do Brasil, composta de 77 navios sob o comando de Pedro Jaques de Magalhães. A defesa do Recife estava nas mãos de homens cansados e desmoralizados, mal pagos e com salários atrasados. A esquadra toma posição de ataque, bloqueando a entrada do porto do Recife. Cercados por mar e por terra, cansados e desmotivados, os holandeses começam a entregar suas fortalezas, uma a uma, e a baixar as armas e bandeiras. Não haviam meios nem motivação para lutar. Em 26 de janeiro de 1654, assinam a rendição, pondo fim à sua aventura no Brasil e ao sonho do Pernambuco holandês.

A rendição representou o início do declínio do poderio comercial e militar holandês, iniciado em 1619, com a fundação de Batávia na Indonésia. Foi também uma das maiores derrotas militares na história do exército da Holanda, que perdeu 1.044 soldados nos Guararapes, deixando ainda um saldo de 500 feridos. Em contra-partida, os luso-brasileiros perderam somente 47 homens, num saldo final onde se somavam ainda 200 feridos. Morreram do lado invasor os generais Van der Brinken, Giesseling e outros 101 oficiais graduados. Do outro lado, apenas a baixa de Henrique Dias, que chefiava os soldados negros.

É em meio a esses acontecimentos, guerras, batalhas sangrentas, escaramuças, conquistas e perdas que tem início a HISTÓRIA MONETÁRIA DO BRASIL, propriamente dita. Nas cunhagens obsidionais dos holandeses (Florins e Stuivers), pela primeira vez surge o nome BRASIL estampado em uma moeda.

Após a cunhagem holandesa, passaram-se quase 50 anos até que, em 1695, a Casa da Moeda da Bahia, a primeira delas, cunhou os primeiros exemplares genuinamente brasileiros.  

O nome BRASIL é novamente gravado em ouro; agora, porém, pelos donos da terra.