O leilão da coleção Meili

''Esquecendo-se da LEI que lhe proibia colecionar antiguidades estrangeiras, o Museu se tinha apressado em receber a doação, e com toda a proibição do conjunto ser retalhado, já em 1910 e 1911 se tinha vendido "pedaços" em leilões de Amsterdam. E finalmente agora (1931) 20 anos depois, ao invés de passar o acervo a um Museu governamental suiço que aceitava em seu acervo objetos estrangeiros, preferiram vender tudo...''

Kurt Prober


Ao Embaixador da Suiça no Brasil

Sr. Albert Gertsch - Rio de Janeiro

Por recomendação do Conselheiro Dr. G. Keller, de AARAU, membro da Comissão do Museu Cantonal, e autorizado por esta, tomo a liberdade de me dirigir a vós, sobre um assunto do Museu Cantonal SUIÇO.

Como talvez seja de seu conhecimento, o Dr. Julius Meili, falecido em 1907 em Zuerich, durante a sua permanência como Cônsul da Suiça no Rio de Janeiro, organizou uma Coleção de Moedas e Medalhas e Papel Moeda Brasileiros, que foi por ele descrita em uma obra de dois volumes com o título de "O Meio Circulante Brasileiro". ( NOTA: Na verdade em 4 volumes).

Por herança de MEILI, o Museu Cantonal da Suiça entrou em posse desta grande coleção. Como a nossa instituição, por lei, só deve colecionar antiguidades suiças, esta coleção, embora muito valiosa, é em nosso acervo um "corpo estranho".

Assim, as "autoridades administradoras" do Museu consultaram os herdeiros, se não lhes seria permitido vender esta coleção, sendo o resultado desta venda recebido como doção da herança Meili. Isto nos foi permitido, mas com a condição de "...ser a inteira coleção vendida em bloco a uma instituição pública, seja do Governo, ou a um museu, com a condição de que o inteiro conjunto não possa ser ratalhado.

Compreenderá V. Excia. que isto para nós é um problema de muito difícil solução, por se tratar de um valor relativamente elevado. Uma firma de renome mundial, de Londres, nos fez uma oferta de 50.000 Francos Suiços em OURO. Achamos, porém, que é muito baixa, e além disso o comprador não nos poderia dar a garantia de não dividir a coleção.

Sabemos, que atualmente a situação do Brasil não é "brilhante", mas não obstante tomamos a liberdade de nos dirigir à V, Excia. indagando se não vos seria possível entrar em contato com as autoridades do governo brasileiro, a fim de saber se estariam interessados na aquisição desta coleção. O preço poderia ser discutido posteriormente. Pensamos numa base de 80.000 Francos Suiços.

Para sua orientação, permita-nos dar-vos uma idéia do que seja esta coleção:

516 peças - Barras e Moedas de Ouro, Pêso total 6.163,83 Gr. Isto na cotação do ouro, corresponderiam a 19.500,00 Francos Suiços;

729 peças - Moedas de Prata;

1814 peças - Moedas de Cobre, Latão, Chumbo, Alumínio e Estanho.

Total de 3.059 peças.

Além disso, o acervo conta com uma coleção menor de medalhas e outra coleção completa de Moeda Fiduciária.

Agradecendo, Sr. Ministro, antecipadamente os seus préstimos, pelo que desde já vos expressamos o nosso agradecimento, subscrevemo-nos,

Museu Cantonal da Suiça em Zuerich - assinatura: O Diretor, em 29/05/1931

(Tradução da carta de 29/5/1931 do Museu Suiço , vendendo a Coleção Meili)


Julius Meili Nasceu em 1839 e faleceu em 1907. Cognominado ''O Pai da Numismática Brasileira'', Julius Meili reuniu durante os anos que passou no Brasil um extraordinário acervo de moedas, cédulas e medalhas brasileiras e de Portugal. Escreveu livros e matérias notáveis que ainda hoje se constituem numa das principais fontes de referência para os estudiosos da numismática brasileira. 

Sua coleção foi doada ao Schweizerisches Landesmuseum de Zurique. Por falta de interesse, na época (coleção alheia aos objetivos do museu), o acervo foi vendido em leilão, pela primeira vez em Amsterdã, através da empresa de J. Schulman, em 23 de maio de 1910. Em seguida, outros leilões foram realizados, dispersando todo acervo. 

Muitas peças, a exemplo de várias cédulas, encontram-se hoje no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil e uma boa parte das moedas, no Museu Histórico Nacional, ambos no Rio de Janeiro.Consta nos anais númismáticos, que após o seu falecimento, seus herdeiros doaram sua fabulosa coleção ao MUSEU NACIONAL SUIÇO DE ZURICH que, em 1920, se dispôs a vender a coleção, oferecendo-a inclusive ao governo brasileiro que, inexplicável e infelizmente, recusou adquiri-la pelos 200.000 francos suiços pedidso pelo museu. 

No conjunto, destacava-se a moeda fiduciária com 1.059 peças, contendo muitos exemplares raríssimos. Em 1931 houve nova tentativa de vender a coleção ao Governo do Brasil, novamente sem sucesso. Poucos anos depois, a coleção foi vendida ao cidadão suiço Pedro Spoery, residente em São Paulo. Tem-se registros que parte daquela coleção hoje pertence ao Acervo do Museu Histórico Nacional. As informações contidas neste parágrafo, foram extraídas do livro ''O Meio Circulante do Brasil Parte III - A moeda fiduciária do Brasil'', editada pelo Senado Federal em 2005.

Pelas fotos das barras de ouro e de outras moedas de extrema raridade que foram a leilão em 20 de março de 1939, num total de 942 lotes, peças da Coleção JULIS MEILI e de outros amadores, foram comercializadas no leilão organizado pelo numismata Hermann Porcher. Devido a enorme quantidade e raridade de peças Numismáticas que foram ultimadas naquele LEILÃO, tudo a crer que quase a totalidade das peças seriam provenientes do acervo da Coleção de Meili.

No catálogo do leilão de 1939, constam um total de 942 Lotes, e a coleção Julius Meili contava com 1.059 peças. Observando a qualidade e raridade das peças, fica a dúvida: Afinal de contas este leilàao de 1939, foi, ou não, o Grande Leilão da Coleção Julius Meili?

A peça da Coroação do acervo de Juluis Meili

O primeiro leilão, da coleção Meili, que temos conhecimento, foi realizado em 1910, em Amsterdã, pela firma de leilões de J. Shulman, seguido de outros, a exemplo do leilão de 1926, todos realizados pela mesma empresa de Amsterdã. A maioria das peças da antiga Coleção Julius Meili encontram-se hoje no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro (moedas), e no CCBB (papel-moeda), Centro Cultural Banco do Brasil. Ao que tudo indica, o Museu de Valores do Banco Central em Brasília possui algumas peças da Coleção Meili, ou peças que foram incluídas pelo insigne numismata no seu livro ''O Meio Circulante no Brasil, Parte III - A Moeda Fiduciária no Brasil'', publicado pela primeira vez em 1903 (Zürich), com reedição recente, publicada pelo Senado Federal. Grande parte das peças desta coleção se dispersaram, vendidas tanto no Brasil como no exterior. 

A pesquisa elucidativa sobre a coleção de Julius Meili, toda esta questão sobre idas e vindas de sua coleção, foi em parte publicada em 1990 no livro "Ouro em Pó e em Barras - Meio Circulante no Brasil" de autoria de KURT PROBER, às páginas 35 a 37 daquela edição, cujo texto adptado, se segue: 


Coleção "Julius Meili" - Suiça (1890 - 1907)

Este colecionador era cidadão suiço, nascido em 13/03/1837 e falecido em 26/09/1907. No ano de 1870 viajou ao Brasil (Rio de Janeiro). Dotado de inteligência diferenciada, em pouco tempo aprendeu os rudimentos da lingua portuguesa, tornando-se também um aficcionado e pioneiro numismata, dedicando grande parte da sua existência ao estudo das moedas e cédulas brasileiras.

Por volta de 1875 estabeleceu-se em Salvador (BA), como sócio da firma "Meili, Diethelm & Co." e algum tempo depois, tornou-se Consul da Suiça, na Bahia. Ali, com paciência e muita determinação, enriqueceu a sua formidável coleção de peças brasileiras e portuguesas, catalogando e publicando, em oito obras de verdadeira maestria, os seus estudos - ilustrados com as peças do seu acervo - hoje considerados "CLÁSSICOS", e que lhe conferiu com justiça o cognome de PAI DA NUMISMÁTICA BRASILEIRA.

Já em 1890 publicou o Catálogo de sua Coleção Brasileira de Medalhas do Império, com 37 pranchas, descrevendo 229 peças. Desde 1905 vinha preparando um CATÁLOGO GERAL, também de medalhística, mas que lamentavelmente não conseguiu terminar. Chegou a imprimir mais de 130 pranchas de ilustrações para esta nova edição, faltando apenas imprimir a numeração das peças, para posteriormente compor a parte descritiva. A impressão foi frealizada, laboriosa e detalhadamente, em folhas de cartão gessado de 24 x 32 cm. Juilus Meili não costumava tirar fotos de suas peças; de todas ele fazia MOLDES DE GESSO que eram fotografados pela clicheria como página completa. O "gesso fosco" evitava os tão indesejèaveis reflexos de luz.

Tendo falecido o autor, a tipografia acabou inutilizando todo este estoque de pranchas já impressas. Contudo, alguém preservou o original e alguns jogos de pranchas avulsas que foram encontradas por volta de 1950 pelo livreiro ERICH EICHNER que numa de suas viagens pela Europa comprou todo este rebutalho e o trouxe para sua livraria KOSMOS, no Rio de Janeiro. 


Figura acima: A barra de ouro de Serro Frio, número 25, da coleção Meili, com sua respectiva guia datada 18 de janeiro de 1830. Peso efetivo em gramas, 167,50. Título 23 quilates e 1 grão. Numeração catálogo Kurt Prober 1830-SE-25, na página 413 do seu ''Catálogo do Ouro em Pó e em Barras, Meio Circulante do Brasil''

Comenta o numismata Dr. Roberto Villela Lemos Monteiro: ''Além do ORIGINAL, manuscrito, consegui formar 3 jogos de pranchas incompletos, que depois foram aqui vendidos, tendo eu conseguido comprar o jogo mais completo ( com 131 pranchas), que ainda tenho em minha biblioteca. Ainda hoje sou grato ao meu falecido Ir.: Eichner, há muito falecido.''


Do Texto de KURT PROBER, adaptado pelo numismata João Gualberto Abib.

Ao falecer, Julius Meili doou a sua fenomenal coleção de MOEDAS, MEDALHAS, PAPEL MOEDA, BIBLIOTECA e todos os seus Medalheiros ao SCHWEIZERISCHES LANDESMUSEUM de Zurich (Suiça), com a condição deste acervo NUNCA SER RETALHADO.

Contudo, o aludido MUSEU não soube respeitar a intenção altruística do doador, que queria ver preservado pela sua pátria, a SUIÇA, a maior coleção do mundo, na época, de peças da numismática brasileira.

Em 1910, o "honorável MUSEU decidiu vender em leilão, através da firma J. SCHULMAN de Amsterdan (Holanda), a magnífica biblioteca numismática de Julius Meili, repleta de obras raras. Em 1911 foi a vez das moedas Portuguesas irem a leilão, além das peças que, presumivelmente, teriam sido ''pseudo-duplicatas'' ou peças da coleção que não constavam dos livros impressos, o que em inglês costuma chamar-se de "ODDS and ENDS".

Passaram mais 20 anos, e de há muito a 1ª Guerra Mundial, quando o Museu , em 29/5/1931, escreveu uma carta ao Consul suiço ALBERT GERTSCH, no Rio de Janeiro, encarregando o consulado de encontrar aqui no Brasil um comprador para a famosa COLEÇÃO MEILI, que em 1907 recebera em doação. Concluíram, e assim decidiram que, não sendo suiço, o material não lhes interessava. Dessa forma resolveram beneficiar-se com os 50.000 Francos Suiços que, teoricamente, o conjunto deveria valer.

O raríssimo 4000 réis Azevedo, do acervo da coleção de Julius Meili.

No Rio de Janeiro, o único possível comprador capacitado financeiramente a adquirir o inteiro conjunto, o Dr. Guilherme Guinle, não se interessou. Não quis assumir o compromisso de ''NÃO RETALHAR A COLEÇÃO'' futuramente, como me (Kurt Prober) contou em 1940. O Museu Histórico Nacional incipiente - que formou a sua seção de Numismática com o acervo vindo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, mal tinha conseguido pagar a coleção de PEDRO MASSENA (...que teve de esperar 8 ou 10 anos pelo pagamento...) - por sua vez não tinha verba para compra de tal vulto. Além disso, estava "saturado" com as doações generosas recebidas do Dr. Guilherme Guinle.

Finalmente o Consulado Suiço encontrou um comprador, o cidadão suiço PEDRO SPOERY, residente em São Paulo, que pensava fazer um belo negócio, mas acabou sendo ludibriado por sua inabilidade de negociar o conjunto, ainda mais depois da Revolução Constitucionalista de São Paulo de 1932. Era um conjunto GRANDE DEMAIS para o ambiente numismático da época (e ainda hoje seria...). Sem ser retalhado para venda, sua comercialização era praticamente impossível.

Assim, depois de 1932, o Sr. Spoery passou a vender, particularmente, determinadas peças raras. Contudo, o que acreditou ser fácil, terminou por tornar-se impossível na prática.

Nestas condições, a partir de 1936 o Sr. Pedro Spoery resolveu entregar a Coleção MEILI - a essa altura já desfalcada de algumas peças raras vendidas - ao sr. HERMANN PORCHER, e nesta última, durante 1947/1948 apenas, participei como "comanditário" etc..., para mim a pior experiência de minha vida, comenta Kurt Prober.

Pois bem, com a Coleção MEILI, organizou-se o seu primeiro leilão em 20/03/1937, começando a retalhar o espetacular acervo a partir das peças de ouro e prata.


Figura acima: A barra de ouro de Serro Frio, número 4, da coleção Meili, com sua respectiva guia datada 9 de janeiro de 1832. Peso efetivo em gramas, 103,65. Título 23 quilates e 1 grão. Numeração catálogo Kurt Prober 1832-SE-4, na página 421 do seu ''Catálogo do Ouro em Pó e em Barras, Meio Circulante do Brasil''. Abaixo, a mesma barra em fotografia recente.



Ao se transferir para o Brasil, o leiloeiro HERMANN PORCHER obteve a cidadania brasileira. A partir de então iniciou seu comércio no país com as chamadas ''Listas de Preços Fixos'', todas numeradas. Na lista de fevereiro de 1939 (nº 90), foram oferecidas as Barras de Ouro da coleção Meili (nº 1815-V-167 por R$ 5:000$000 e nº 1816-SF-218 por R$ 4:500$000).
Em 10/4/1940 mimeografou o Boletim-Leilão nº 101, vendas a preço fixo, nele constando vários "Medalheiros" avulsos, sendo dois deles completos com a coleção de moedas de cobre, num total de 1.070 peças pelo valor de R$ 6:500$000. Veio em seguida um outro Leilão, o de nº 6, em 30/11/1940, em que os dois medalheiros já eram vendidos a preços reduzidos.

Porcher continuou fazendo listas de vendas até que, em 31/12/1942, apresentou o Leilão nº 7, em que foi oferecido no lote nº 525 a inteira Coleção Meili de "Moedas Portuguesas" (400 peças de prata, desde 1367) por RS 2:500$000, além do lote nº 528 com a Coleção Medalha e Condecorações do Império, num total de 1.097 peças, sendo 13 delas de Ouro, por Rs 10:000$000. Neste mesmo leilão já foi oferecida a Barra de Ouro de Meili nº 1830-SF-35, consignada por Waldemar Thiesen, do Rio Grande (RS), que em 1935 a tinha comprado diretamente de Spoery.

Dessa forma, esperamos haver esclarecido alguam dúvidas a respeito do destino dado à coleção Meili que, como último desejo, deixou todo seu acervo a um museu suiço, na esperança de que fosse preservado pelainstituição que na verdade acabou vendendo-a, sendo posteriormente retalhada aos pedaços durante vários anos depois de sua morte. Em virtude da grandiosidade de sua Coleção e da quantoadde de moedas raras ou raríssimas, este acervo espetacular ainda suscita emoção e a imaginação, não só dso que iniciam na numismática, mas também de experienets e veteranos colecionadores.

Bibliografia e fontes de consulta:
Prober, Kurt - Catálogo do Ouro em Pó e em Barras, Meio Circulante do Brasil. 
ABIBONDS, blog do numismata e estudioso João Gualberto Abib. 
Dr. Roberto Villela Lemos Monteiro, estudos e artigos dedicados ao assunto. 
Julius Meili, As Moedas do Império do Brasil, 1822 até 1889, edição de 1890.


Catálogo Bentes de Moedas Brasileiras - Nota do editor

CATÁLOGO BENTES DE MOEDAS BRASILEIRAS - NOTA DO EDITOR

Comunicado aos usuários do Catálogo Bentes e aos leitores do nosso blog.

Em novembro de 2012, contratamos os serviços do senhor ALBERTO GUSTAVO PAASHAUS JÚNIOR como distribuidor exclusivo dos nossos catálogos no Brasil. Na ocasião ficou acertado que a comercialiazação dar-se-ía a partir do Congresso Latino Americano de Numismática, realizado no início de dezembro do ano passado.

Assim que iniciaram as vendas, passamos a receber constantes mensagens do senhor Paashaus, que nos passava as lamentações do senhor David André Levy, com relação às imagens de algumas moedas expostas em nosso catálogo, alegando serem ''fotos artísticas de sua autoria'', pleiteando o que considerava ser o uso indevido do que chama de sua ''propriedade intelectual'.

Nota: Aos que pretenderem se interar do caso, basta clicar no link a seguir:


Ficou acertado com o senhor Paashaus que enviaríamos o contrato para ser assinado e que esse deveria ser devolvido à nossa empresa, para arquivo. Dessa forma pedimos ao representante da Gráfica Viena que, ao entregar os catálogos nas mãos do senhor Paashaus, que entregasse também uma pendrive contendo cópia integral do catálogo, mais o contrato e a fatura/duplicata com data de vencimento estabelecido para 90 dias após o recebimento dos catálogos.

A fim de evitar transtornos de remessas de dinheiro para o Brasil, solicitamos ao senhor Paashaus que efetuasse os pagamentos de todas as despesas necessárias às vendas e distribuição, mas que tudo fosse parcelado com cartão de crédito a fim de que todos os débitos fossem cobertos com as próprias vendas, sem qualquer ônus para o nosso ex-distribuidor.

Passados os 90 dias, estranhamos receber do nosso departamento financeiro a comunicação de que o nosso distribuidor (hoje ex-distribuidor) no Brasil, o senhor Alberto Paashaus, não havia honrado com o pagamento das faturas de sua responsabilidade.

Ao tentarmos entrar em contato com o senhor Alberto Paashaus, soubemos que o mesmo se encontrava em Lisboa participando de um leilão de moedas. 
Manifestamos nossa preocupação com o não pagamento do seu débito, ao que nos foi dito pelo senhor Paashaus que tão logo retornasse ao Brasil, tomaria as devidas providências a fim de quitar sua posição ainda em aberto com o nosso departamento financeiro.

Aguardamos o retorno do senhor Alberto Paashaus ao Brasil, contando com sua promessa de quitar sua posição devedora com nossa empresa. Daí por diante, não conseguimos mais um contato satisfatório com o nosso ex-distribuidor. O tempo passou e as comunicações foram ficando cada vez mais difíceis.

Alguns dias depois ficamos sabendo da ação movida pelo senhor David André Levy contra o senhor Paashaus e contra a Gráfica Viena que estampou os catálogos. Com muita dificuldade, conseguimos localizar o senhor Paashaus que continuou sendo bastante evasivo. 
Todavia, dessa vez nos deparamos com uma novidade: O senhor Paashaus nos comunicou, para nossa estranheza, que não nos pagaria até a conclusão do processo e que estava considerando a possibilidade de pagar o pleiteado pelo senhor David, como acordo para terminar o processo.

Diante dessa ameaça, fomos taxativos em dizer que se algum acordo nesse sentido, fosse celebrado com o senhor David, iríamos processá-los criminalmente sob a alegação de conluio com fins de extorsão. Mesmo porque tal justificativa era absurda, já que o senhor Paashaus já se encontrava em mora bem antes da abertura do processo.

Desse dia em diante, não mais conseguimos nos comunicar com o senhor Alberto Paashaus. Na verdade, conseguimos tal feito uma única vez, mas infelizmente tivemos o desprazer de ouvir xingamentos e ofensas, nem mesmo sabemos porque. Fato é que nossa empresa cumpriu todas as cláusulas do contrato de distribuição, diferentemente do senhor Paashaus que até hoje, passados mais de 8 meses do recebimento dos catálogos, não pagou seu débito com nossa empresa...nem um tostão sequer.

A que tudo indica, diante da possibilidade de que o processássemos por conluio, o senhro Alberto Paashaus não celebrou, a princípio, nenhum acordo com o senhor David, o que nos tranquilizou, já que em hipótese alguma concordamos com os termos do requerente da ação.

Para nossa surpresa, entretanto, recentemente os senhores Alberto Paashaus e David André Levy, resolveram voltar atrás e celebrar uma espécie de acordo que, nas suas entrelinhas, coloca a nossa empresa em posição bastante desconfortável.

Nesse acordo o senhro Alberto declara não estar mais distribuindo o Catálogo Bentes de Moedas Brasileiras, comprometendo-se a não retomar a redistribuição da referida obra; (???)

Comprometeu-se também a enviar uma nota de esclarecimento às pessoas que adquiriram o referido catálogo, dentro do prazo de 24 (vinte e quatro) horas, a contar do último dia 17, sendo que tal nota será enviada por e-mail a todos os nossos clientes, com cópia oculta para o Autor David, com o teor a seguir:

NOTA DE ESCLARECIMENTO 
Campina Grande, 17 de julho de 2013. 
Prezados Senhores,

Venho, por meio da presente, na qualidade de Numismata especializado em moedas Brasileiras, esclarecer o quanto segue: 
1. Foram identificadas, no Catálogo Bentes de Moedas Brasileiras Ia Edição, da editora MBA, publicado em 2012, fotografias sem a identificação dos seus respectivos autores e/ou o reconhecimento do crédito devido, tendo se originado diversos questionamentos a esse respeito; 
2. Um destes questionamentos, originado pelo Sr. David André Levy, de São Paulo/SP, refere-se a diversas fotos de sua autoria, publicadas em datas anteriores ao lançamento do referido catálogo, na rede social NeoCollect . As fotografias constantes no catálogo cuja autoria é sustentada pelo Sr. Levy são:
Página 181
Página 182
Página 184
Página 185
Página 606
640 réis 1695 - anverso, reverso e detalhe (1as 3 fotos na página, total 3 fotos)
640 réis 1697 - anverso, reverso e detalhe (total 3 fotos)
640 réis 1699 - anverso e reverso (total 2 fotos)
640 réis 1695 - anverso e 4x o reverso (total 5 fotos)
960 réis 1825R - anverso e reverso (total 2 fotos) 
3. Corno especialista no terna, identifiquei que as fotografias relacionadas, constantes do referido Catálogo, de fato coincidem com as imagens postadas no perfil de David André Levy, na rede social NeoCollect, em datas anteriores à publicação da obra (respectivamente moedas de número 1543, 1539, 1537, 1543 e 1642); 
4. Na qualidade de distribuidor do livro no Brasil, tomei conhecimento de que inexiste qualquer autorização para utilização das referidas imagens na obra. Além disso, verifica-se no Catálogo que não foram conferidos os devidos créditos ao Sr. David André Levy pela utilização das referidas imagens (a citação de uma obra do Sr. Levy, na bibliografia do Catálogo, nada tem a ver com estas imagens); 
5. Em razão de, por uma questão de princípios e de respeito à lei de proteção ao direito autoral, não concordar com a utilização de material de terceiros sem a expressa autorização e o reconhecimento da autoria, e com o fim de preservar o meu bom nome no meio numismático, informo aos Senhores que deixei de distribuir o referido Catálogo Bentes. 
Certo de vossa compreensão, reitero meus votos de elevada estima e distinta consideração.
Alberto Gustavo Paashaus Junior

Diante do exposto, nós da MBA desejamos esclarecer:

A. Desde que ingressou em mora com a nossa empresa, passados 15 dias do vencimento da fatura/duplicata devida pelo senhor Paashaus, por força de cláusula contratual, envíamos ao nosso ex-distribuidor um comunicado oficial de rescisão unilateral de contrato de distribuição dos nossos produtos. Dessa forma, não procede a declaração do senhor Paashaus ao dizer que não irá mais distribuir os nossos catálogos. Foi a nossa empresa que , por grave descumprimento e inobservância de cláusula contratual (não pagamento de fatura/duplicata),  teve seu contrato cancelado unilateralmente. Aliás, diga-se de passagem, a via de contrato que deveria ser expedida pelo senhor Paashaus ao nosso endereço, até hoje não chegou.

B. Mais bizarra ainda é a cláusula 3 desse acordo celebrado de improviso, às vésperas do julgamento, entre o nosso ''demitido'' distribuidor e o senhor David André Levy, cujo teor se segue:
3. O Corréu Alberto oferece ao Autor David a quantia de R$ 1.000,00 (um mil reais) a título de reparação civil. Referida oferta é neste ato recusada pelo Autor David, que condiciona que o respectivo valor deverá servir para cobrir as despesas da viagem do Corréu Alberto a São Paulo, para comparecimento à audiência de conciliação realizada no início do mês de julho. A condição estabelecida é aceita pelo Corréu Alberto;

Há duas semanas, envíamos ao Brasil nosso advogado a fim de receber do senhor Paashaus o que deve há mais de 8 meses à nossa empresa. Sendo italiano, nosso preposto apoiou-se em um escritório de advocacia da Cidade de Campina Grande. Usando de todos os meios legais à sua disposição, nosso advogado tentou um contato com o senhor Alberto Paashaus que se recusou em recebê-lo.

Nosso advogado, sempre apoiado por um escritório de advocacia brasileiro, enviou correspondência ao endereço do senhor Paashaus, intimando-o a quitar sua posição em aberto e para tanto, solicitava sua presença no escritório de apoio no Brasil.

Passados quase 15 dias de tentativas em contactar o senhor Alberto Paashaus, sem sucesso, solicitamos ao nosso advogado retornar à Itália pois ficou claro que o senhor Alberto Paashaus nos deu um ''calote''. 

Nosso advogado ficou surpreso porque nem mesmo ao telefone consegue falar com o senhor Paashaus que, ao perceber do que se trata, simplesmente desliga o aparelho.

Primeiro comunicado do nosso advogado, assim que chegou ao Brasil - ''Desidero informarla che sono appena tornato da un sopralluogo all indirizzo  del debitore. La casa era illuminata, così ho lasciato nella posta una convocazione per domani mattina presso lo studio del mio collega avvocato di Campina per vedere se intende pagare spontaneamente. Nel frattempo sto facendo fare investigazioni sulle proprietà.''

Último comunicado do nosso preposto - ''Purtroppo non ho buone notizie. Nessuno ha risposto all invito lasciato dal mio corrispondente di Campina nella buca della posta e ai numeri di telefono nessuno risponde.''


Finalizando:

1. Realizamos um trabalho exaustivo e monumental. Por 5 longos anos nos dedicamos de corpo, alma, coração e mente, em realizar obra de peso como há muito tempo não vinha sendo feito em nossa numismática.

2. Entregamos todos os catálogos a uma pessoa, acreditando na sua honra, na sua palavra de cavalheiro e num contrato celebrado conosco.

3. Para nossa surpresa e espanto, fomos alvo de um cidadão ganancioso, sem ética e sem princípios morais que armou um tremendo circo espalhafatoso, envolvendo inclusive uma gráfica cujo único pecado foi nos prestar um serviço. Tudo baseado numa teoria estranha sobre ''propriedade intelectual de foto artística de moeda''.

4. Nosso ex-distribuidor, além de não nos pagar um centavo sequer há mais de 8 meses, e nos insultar quando cobrado, parece ter se aliado a quem antes chamava de ''judeu maluco'', deixando a Gráfica Viena- por causa de suas declarações escritas num estranho acordo - sozinha nesse entrevero. Ao que parece, depois disso, a Gráfica vê-se inserida numa trama que, sem medo de exagerar, eu chamaria de diabólica, pois parece ser o alvo de uma maquinação engendrada por pessoas de conduta duvidosa. Basta ler o tal acordo para entender que tudo foi armado para induzir o juiz do processo ao erro de julgamento.
Mais surreal foi receber um comunicado do nosso ex-distribuidor, alegando que seu trabalho deveria ter uma maior compensação, já que o nosso catálogo, segundo ele, só foi possível graças ao seu intervento em comercializá-lo. Convenientemente esqueceu, inclusive, que lhe demos ''carta branca'' para praticar o preço que achasse mais conveniente. 

5. Um outro certamente desistiria de continuar publicando catálogos e outras obras no Brasil, haja vista as experiências desagradáveis que temos enfrentado desde que resolvemos publicar nossa primeira edição. 
Mas nós da MBA não faremos isso. Muito pelo contrário, desde que rescindimos nosso contrato com o senhor Paashaus, por não honrar com o pagamento do seu débito com a nossa empresa, já solicitamos a uma imobiliária de São Paulo que encontre um local comercial para adquirirmos e instalar a filial de nossa empresa no Brasil. Assim, num contato direto com nossos leitores, teremos a certeza de estar colocando de lado os problemas advindos de pessoas não idôneas.

Em nome da MBA, agradeço a atenção de todos.

Atenciosamente

Fernando Antunes
Amministratore delegato
MBA Casa Editrici e Bentes Galleries
Turin - Lisbon - London
Tel/Fax: +39 081.8967584
cell: +39 366.2982272
e-mail: fernando@mbaeditores.com
www.mbaeditores.com


Johannes, o Caminha esquecido

Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos. . .

. . . Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra. . .

. . . Tornando, Senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o pólo antártico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro; e a estrela do pólo antártico, ou Sul, é pequena como a da Norte e muito clara, e a estrela que está em cima de toda a Cruz é muito pequena. Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa Alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesus Cristo que a vida e estado de Vossa Alteza acrescente como Vossa Alteza deseja. Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500. Para o mar, melhor é dirigir-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela; e melhor com astrolábio, que não com quadrante nem com outro nenhum instrumento. 

Do criado de Vossa Alteza e vosso leal servidor.

Johannes
artium el medicine bachalarius.

Nota: Trecho da Carta do Mestre João, documento escrito pelo espanhol João Faras ou João Emeneslau, entre 28 de abril e 1 de maio de 1500, durante a viagem de Cabral ao Brasil, em um misto de espanhol e português quinhentista, dando ciência ao rei de Portugal D. Manuel I acerca do “descobrimento”. A carta é famosa por fazer uma das primeiras descrições identificando a constelação do Cruzeiro do Sul. Nela o autor revela a existência de um antigo mapa-múndi pertencente a Pero Vaz Bisagudo, em que já constaria o sítio desta terra.
Como a de Caminha, a carta do Mestre João ficou conhecida somente no século XIX. Descoberta pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, a carta foi publicada, pela primeira vez, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 1843, tomo V nº 19.
A carta situa geograficamente a “Ilha de Vera Cruz”, revelando ser já conhecida: “(…) Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-múndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa antigo e ali achará Vossa Alteza escrita também a mina. (…)”.


A CARTA

Página 1

Senhor:

O bacharel mestre João, físico e cirurgião de vossa alteza, beijo vossas reais mãos.
Senhor: porque de tudo o cá passado largamente escreveram a vossa alteza, assim Aires Correa como todos os outros, somente escreverei (sobre) dois pontos.
Senhor: ontem, segunda-feira, que foram 27 de Abril, descemos em terra, eu, e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar e tomámos a altura do sol ao meio-dia e achámos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo qual, segundo as regras do astrolábio, julgamos ser afastados da equinocial por 17graus e por conseguinte ter a altura do Polo Antárctico em 17 graus, segundo é manifesto na esfera. E isto é quanto a um (dos pontos), pelo qual saberá vossa alteza que todos os pilotos, vão adiante de mim em tanto, que Pêro Escolar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, pero quem disse a verdade não se pode certificar, até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo: eles com a carta, ou eu com a carta e com o astrolábio.

Quanto, senhor, ao sítio desta terra mande vossa alteza trazer um mapa-múndi que tem Pêro Vaz Bisagudo e por aí poderá ver vossa alteza o sítio desta terra; porém aquele mapa-múndi não certifica esta terra ser habitada ou não; é mapa-múndi antigo e ali achará vossa alteza escrita também a Mina.

Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que de outra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos.

Quanto, senhor, ao outro ponto, saberá vossa alteza, que acerca das estrelas, eu tenho trabalhado algo do que pude sobre isso, pero não muito, por causa de uma perna que tenho mui má, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e mui carregado, que não há lugar pera cousa nenhuma.

Somente mando a vossa alteza como estão situadas as estrelas dele. Pero em que grau está cada uma, não o pude saber, antes me parece ser impossível no mar tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de guisa que se não pode fazer senão em terra.


Página 2

E outro tanto quase digo das tábuas da Índia, que se não podem tomar com elas senão com muitíssimo trabalho, que, se vossa alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas, riria disso mais que do astrolábio, porque desde Lisboa, até às Canárias uns dos outros desconcertavam em muitas polegadas, que uns diziam, mais que outros, três e quatro polegadas, e outro tanto desde as Canárias até às ilhas de Cabo Verde, e isto resguardando todos que o tomar fosse a uma mesma hora, de guisa que mais julgavam quantas polegadas eram pela quantidade do caminho que lhes parecia que haviam andado, que não o caminho pelas polegadas Tornando, senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam em derredor sobre o horizonte, e ainda isto duvidoso, que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o Pólo Antárctico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes, quase como as do Carro; e a estrela do Pólo Antárctico, o Sul, é pequena como a do Norte e mui clara, e a estrela que está em riba de toda a Cruz é muito pequena.
Não quero mais alargar, por não importunar a vossa alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesu Cristo a vida e estado de vossa alteza acrescente como vossa alteza deseja.

Feita em Vera Cruz, o primeiro de Maio de (1)500.

Pera o mar, melhor é reger-se pela altura do sol, que não por nenhuma estrela, e melhor com astrolábio, que não com quadrante, nem com outro nenhum instrumento.

Do criado de vossa alteza e vosso leal servidor

Johannes
Bacharel em Artes e Medicina.


MUITO ALÉM DA TABROPANA 

"...Inclinai por um pouco a majestade
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno Templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos..."

Quase sempre de passagem, exploradores, degredados, piratas, aventureiros e mercenários chegavam à Nova Terra. À exceção dos criminosos e exilados, a maioria pouco tempo permanecia no território recém-descoberto. O comércio local praticamente inexistia e, provavelmente, quem por ali passava, apenas se beneficiava da abundância da terra para suprir suas naus de víveres, água, frutas e, eventualmente, praticar algum escambo com os nativos locais. 

Dali partiam para as aventuras de além-mar, provavelmente a caminho das Índias, tida como lugar de comércio, muitas especiarias e outros produtos manufaturados. 

Muito tempo se passou até que os primeiros povoados (se é que poderiam ser chamados assim, pois na verdade eram apenas algumas habitações muito rudes, feitas de pau-a-pique, palha, bambu trançado e barro) começassem a surgir na nova terra; com grande probabilidade, criados pela necessidade dos que ali chegavam sem muitas opções. Era o caso dos exilados por motivos políticos, delinquentes condenados por crimes comuns ou homens que fugiam de um castigo mais severo por terem praticado delitos graves.

Com o tempo a Colônia foi crescendo. O florescente comércio do pau-brasil atraía mais e mais homens, agora acompanhados de amigos e inteiros grupos familiares. Com o passar dos anos, paulatinamente a moeda foi entrando em circulação, aceita nas transações que até então privilegiavam o sistema de trocas. Devido à precária infra-estrutura do novo território, sequer se cogitava de cunhá-las. Mesmo porque, as que eram trazidas pelos viajantes cumpriam com seu papel nas poucas transações comerciais envolvendo numerário metálico.

Com a gente que chegava e se instalava, o comércio cresceu e as moedas estrangeiras nômades que antes chegavam de passagem, com o tempo foram sedentarizando, juntando-se às portuguesas amparadas por documentos reais. O ouro praticamente não circulava no comércio comum; era destinado às transações nas Metrópoles, geralmente se prestando aos negócios da nobreza. Por outro lado, a prata abundava. A proximidade com as minas de Potosi, explorada pelos espanhóis, facilitava o fluir do metal, fosse bruto ou amoedado nas oficinas hispânicas.



AS MOEDAS DOS PRIMEIROS "BRASILEIROS"


"...Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente..."

A história monetária do Brasil tem início com os primeiros colonizadores que traziam seu dinheiro para as terras recém-descobertas. 

Apesar do pouco uso que se fazia do dinheiro metálico, à medida que os comerciantes começaram a desembarcar em terras brasileiras, as moedas começaram a ter melhor aceitação, entrando em circulação para o pagamento de bens. 

Além das portuguesas, qualquer moeda estrangeira era geralmente aceita; moedas francesas, alemãs, espanholas, holandesas, etc, misturavam-se às da Metrópole lusitana, criando um sistema irregular e heterogêneo. Entre as espanholas, que circulavam em quantidade significativa, estão as antigas macuquinas - em prata, de confecção tosca - batidas nas Casas da Moeda da América espanhola, em Lima e Potosi. Com o tempo, surgiram os 8 reales de cunho mecânico, cuja circulação se estendeu até a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, quando o jovem monarca D. João proibiu sua circulação, recolhendo-as e aplicando sua contramarca de 960 réis para, em seguida, recunhá-las a partir de 1809.


Durante o intervalo de tempo que antecede à primeira cunhagem oficial em terra brasileira, as pessoas que ali residiam estavam habituadas ao uso das moedas espanholas, principalmente as cunhadas em terras sul-americanas. Foi portanto natural que quando uma primeira cunhagem nacional foi cogitada, que esta tivesse o standard das moedas hispânicas; de fato, a primeira série de prata, cunhada em solo brasileiro - a série das assim chamadas “patacas” - tinham, praticamente, as mesmas características dessas moedas.

Ao contrário do que muitos imaginavam até agora, antes mesmo da fundação da primeira Casa da Moeda brasileira, as moedas portuguesas circulavam livremente na Colônia, o que é, inclusive e em muitos casos, atestado por documentos reais.
A expressão “...mando que em todos meus reynos e senhorios corram e se recebam as ditas moedas pelas ditas valias e nenhúa pessoa as possa engeitar...”, contida em documentos relativos às cunhagens na Metrópole, é determinante para o entendimento do acervo numismático do Brasil. 

A exemplo do que já conhecemos dos romanos, que mandavam circular moeda nas terras conquistadas, é bastante óbvio que, o monarca português não negligenciava com as possessões da Coroa, devendo prover as necessidades de todo seu reino.
Dizer que a numária brasileira, desde o início, foi formada apenas por um punhado de moedas estrangeiras (principalmente as hispânicas não oficiais), deixando de lado um acervo tremendo de moedas portuguesas, não faz sentido, carece de lógica. 
Com a quantidade de desbravadores, aventureiros, degredados, comerciantes e navegantes portugueses que, desde Cabral, passaram a frequentar terras brasileiras, é óbvio que estas moedas circulavam na Colônia, e mesmo que não fossem usadas com frequência, tinham a devida autorização para o seu uso nas tratativas do comércio.

Seja como mercadoria de troca (principalmente), seja pelo seu valor extrínseco como moeda, é fato incontestável que a maior parte delas não poderia ser enjeitada, como se pode constatar nas documentações relativas às cunhagens. Além disso, nenhum monarca enviaria às suas terras, expedições exploradoras como as de 1501 e 1503, as expedições guarda-costa de 1516 e 1526, e expedições colonizadoras como a de Martim Afonso de Souza, em 1530, sem a devida autorização para que as moedas em seu poder tivessem livre circulação, mesmo que fosse praticamente nenhuma, o que certamente, não poderemos saber jamais. Assim, é mister entender que as moedas portuguesas que circulavam na Metrópole eram normalmente aceitas no Brasil, durante o período que vai do descobrimento até a data da criação da primeira Casa da Moeda do Brasil. Mais do que isso, e principalmente, devemos também nos ater aos documentos, a fim de compreender como foi sendo formado o nosso acervo numismático, sem qualquer tipo de “achismo” ou especulações.

As primeiras moedas a circular no Brasil foram as mesmas correntes em Portugal na época dos descobrimentos, trazidas à Colônia pelos exploradores de além-mar e, posteriormente, pelos mercadores e colonos que ali se estabeleceram. 

Por questões didáticas, devemos iniciar a história numismática do Brasil a partir do seu descobrimento, mas apenas citando as moedas a partir de D. Manuel I, soberano naquela época. 
Todavia, para fins de catalogação das peças brasileiras, devemos considerar apenas as moedas amparadas por documentação oficial, a exemplo da Provisão de 3 de março de 1568 que ordenou efetivamente a circulação de moedas de cobre no Brasil.

Finalmente, a Lei de 19/12/1695 proibiu, definitivamente, a circulação de moedas portuguesas no Brasil sem documentação específica que a autorizasse. Um exemplo claro disso se deu durante o governo de D. Afonso VI, onde é notável a documentação comprobatória de que as ordens para circulação de moedas na Colônia deveriam ser sancionadas pelo Conde de Óbidos, em território brasileiro. Por isso não incluímos emnossa numismática peças que para muitos seriam brasileiras.


AS PROVISÕES DE 3 e 29 de MARÇO de 1568

Na segunda metade do século XVI, ainda nos primeiros anos de colonização da terra recém-descoberta, fez-se urgente a adoção de medidas eficazes a fim de proteger os territórios conquistados. 

Com a criação do sistema de capitanias hereditárias, fazendeiros, trabalhadores, mercadores, degredados e exilados passaram a chegar com maior frequência à Colônia; aventureiros e os que desejavam tentar a sorte grande, não eram poucos. Muitos deixavam a Metrópole com suas famílias a fim de recomeçar suas vidas na Nova Terra.

Com o estabelecimento de uma pequena sociedade, disposta principalmente em vilarejos, teve início um comércio informal. Como não existia um numerário local produzido na Colônia, as pessoas utilizavam moedas que traziam consigo. Velhos cobres de diferentes monarcas, moedas de diferentes nações, e outras que ainda circulavam em Portugal eram utilizadas no comércio local, sobretudo nas trocas onde prevalecia o seu valor intrínseco.

O florescente comércio na região, aliado ao alto valor extrínseco das moedas de cobre em circulação (muito acima do preço do metal), acabou servindo de estímulo à produção de moeda falsa. Com o tempo, o derrame de cobre falso tornou-se um verdadeiro problema; a quantidade dessas moedas falsas em circulação era muito grande.

Crescia a preocupação da Metrópole no que dizia respeito à manutenção do domínio português em suas colônias, principalmente porque eram constantemente ameaçadas de invasão por parte de outras nações, destacando-se entre as principais a França e a Holanda. O controle das moedas em circulação estava entre as medidas que ajudavam a formar a unidade tão necessária à manutenção da ordem e da disciplina. Afinal, o Brasil passava de terra de conquista à próspera Colônia; era hora de adotar medidas eficazes, capazes de transmitir a todos, em particular as nações estrangeiras, que Nova Terra possuía um "dono". 

Assim, D. Sebastião I de Portugal, preocupado com seus domínios, resolveu formalizar as tratativas comerciais em suas terras, baixando o valor de algumas de suas moedas e decretando-as como sendo de caráter intercontinental, ordenando - com o envio de documentação oficial, comprobatória de sua vontade - sua circulação em todos os seus territórios.

Para tanto, usou sua autoridade através de Provisões, para: 

1) Ordenar a redução dos valores dessas moedas para desestimular sua falsificação. 

2) Oficializar a circulação desse numerário nos principais territórios em que essas moedas circulavam em grande quantidade.

De certa forma foi a enorme contrafação e a grande quantidade dessas moedas falsas em circulação a contribuir para a emissão deste importante documento.

El-Rei D. Sebastião, informado da grande falsificação do cobre, de procedência estrangeira, que se encontrava em circulação quer no reino, quer nas terras conquistadas (Brasil incluso), baixa a Provisão de 3 de março de 1568, reduzindo o valor das moedas de cobre que estavam em curso. Assim, o patacão de 10 reais passou a valer 3 reais; a moeda de 5 reais passou a ter o valor de 1,5 reais; e a moeda de 3 reais deveria ser aceita somente pelo valor de 1 real e, por fim, a moeda de real foi convertida ao valor de apenas 1/2 real.

A medida visava, principalmente, evitar a fuga de numerário para a colônia; controlar as falsificações que se alastravam e estimular o uso de moedas de baixo valor, usadas principalmente como troco (o valor circulatório da moeda de Real foi reduzido a 50%, enquanto a de X Reais, em 70% do seu valor extrínseco).


RUMO AO BRASIL

A Provisão partiu de Lisboa com destino à Bahia, lá chegando somente em 17/09/1568. No mesmo dia que chegou à Bahia, foi enviada para as capitanias do Rio de Janeiro, Porto Seguro, Espírito Santo e São vicente. Chegando à cidade de Salvador, Baía de Todos os Santos, depois de consertada pelo próprio Ouvidor Geral e já trasladada nos livros da Câmara pela certidão recebida de Lisboa - passada a 29 de março de 1568 - foi registrada na Bahia em 17 de setembro do mesmo ano. Uma vez publicada nas Capitanias de Porto Seguro, São Vicente, Espírito Santo e Rio de Janeiro, entrou a citada Provisão em vigor.

A Provisão de 3 de março de 1568 é o primeiro documento que determina e oficializa, de forma explícita, a circulação de moeda metálica no Brasil. Nela, para desestimular o crescente fabrico de moeda falsa de cobre em circulação, El-Rei D. Sebastião I reduziu o valor da moeda que estava circulando no reino e na Conquista Portuguesa na América. Era esse monetário primevo constituído dos seguintes espécimes de cobre: 10 reais, 5 reais, 3 reais e, finalmente, a moeda denominada real.

Com a publicação dessa Provisão, com força de Lei, foi proibida a lavratura da moeda de real, bem como das moedas de 10; 5 e 3 reais que não mais foram fabricadas por serem consideradas desnecessárias, uma vez que o governo havia baixado o valor de todas que estavam em circulação (incluindo as falsas), obrigando-se ainda a indenizar o prejuízo sofrido pelo particular que havia recebido cobre falsificado. A quantidade de moeda falsa (nacional e estrangeira) em circulação era de proporção assustadora, tanto na Metrópole quanto no Brasil.

A Provisão determinou a baixa da moeda de cobre lavrada para circulação, ordenando ainda que fosse recebida com os valores reduzidos que ficavam ...”em todos os meus Reynos e senhorios, e que pessoa algua as não engeite sob as penas contheudas em minhas ordenações”... Assim, cicularam no Brasil valendo respectivamente 3 reais, 1 1/2 real, 1 real e 1/2 real.


A NATUREZA DESSAS MOEDAS

Eram cunhadas manualmente, com os ferros de anverso e reverso batidos sobre bigornas, passando a impressão de eventuais desgastes destas moedas que pouco circularam. A natureza de sua confecção simples, aliada ao baixo preço do cobre e ao alto valro extrínseco das moedas, terminou estimulando a falsificação que chegou a níveis absurdamente altos.


DOCUMENTOS

A declaração, em documentos oficiais, de que determinada moeda deveria correr ”...em todos os meus Reynos e senhorios, e que pessoa algua as não engeite sob as penas contheudas em minhas ordenações...”, apesar de sugerir o contrário, não basta a determinar, oficialmente, o numerário que tinha expressa autorização para circular na Colônia. Mesmo com a emissão de um documento da Metrópole, é necessário um outro, equivalente, determinando que a autoridade colonial (governador, vice-rei, etc) coloque determinado numerário em circulação.

Convém recordar que se a citação acima fosse determinante para formar o acervo da numismática do Brasil, deveríamos então incluir todas as moedas portuguesas cunhadas a partir do descobrimento até o início do Império, já que a expressão foi usada praticamente por todos os soberanos durante o período colonial do Brasil, incluindo os governadores e os reinantes da Casa de Habsburgo.

Que fique claro, então, que MOEDA DO BRASIL é toda aquela cunhada para o Brasil e/ou mandada circular no Brasil. Quem se atreveria, por exemplo, a dizer que a dobra de 24 escudos é também uma moeda brasileira ?

Que fique claro, então, que MOEDA DO BRASIL é toda aquela cunhada para o Brasil e/ou mandada circular no Brasil.

O furto do século

Fontes e créditos ao final deste artigo.

Brasil, anos 30; nos Estados Unidos, Franklin Roosevelt dava início ao New Deal, o plano de recuperação econômica após a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Os contemporâneos dessa era, a denominaram a pior década do século XX, por ter iniciado com a Grande Depressão e terminado com o início de outra grande guerra.

A década de 30 descobriu o esporte, a vida ao ar livre e os banhos de sol. As famílias que dispunham de maiores recursos financeiros, procuravam lugares à beira-mar para passar períodos de férias. Seguindo as exigências das atividades esportivas, os saiotes de praia diminuíram, as cavas aumentaram e os decotes chegaram até a cintura, assim como alguns modelos de vestidos de noite.

Mulheres com belas silhuetas, bronzeadas, se atormentavam com regimes, tentando igualar modelo de beleza da atriz Greta Garbo. Seu visual sofisticado, com sobrancelhas e pálpebras marcadas com ápis e pó de arroz bem claro, era imitado por quase todas as mulheres cariocas e paulistas.
O cinema foi o grande referencial de disseminação dos novos costumes. Hollywood, através de estrelas como Marlene Dietrich, e de estilistas a exemplo de Edith Head e Gilbert Adrian, influenciavam ditavam os costumes da época. Novos modelos de roupas surgiram com a popularização do esporte; o short surgiu a partir do uso da bicicleta.

Os movimentos totalitários começam a eclodir também em outros países europeus, com Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Francisco Franco na Espanha e Stálin na União Soviética, além de Hitler na Alemanha.

No Brasil, tem lugar mais uma Revolução, movimento que conduz o gaúcho Getúlio Vargas ao poder. Em 1932 inicia a Revolução Constitucionalista, organizada pelo estado de São Paulo, que exige a constitucionalização do novo regime. O movimento é derrotado, mas força a convocação de uma Assembleia Constituinte em 1933. Em 1934 seria promulgada a nova Constituição. 

Corria o ano de 1937, com a chegada do Estado Novo, tem fim política do café-com-leite. Alguns meses antes, numa fria noite de sábado para domingo, enquanto do outro lado do mundo, os americanos ainda sofriam de insonia recordando uma das suas piores crises financeiras, alguns elementos (não se sabe quantos) estavam prestes a praticar um dos maiores furtos da história do nosso país.

Ao que se hipotiza, aos primeiros minutos da madrugada de domingo, 26 de junho de 1937, os gatunos irromperam o perímetro do Museu Histório Nacional.

 Vista do MHN, na década de 30.

Presume-se, eram conhecedores de numismática, ou ainda talvez, orientados por pessoa familiarizada com o assunto. Do contrário, não teriam subtraído ao museu peças valiosíssimas de um dos seus principais acervos.

Auxiliados pelo que os jornais da época, atribuíram à falta de vigilância, os ladrões não tiveram a menor dificuldade em localizar a sala de exposição da Seção de Numismática, alvo de sua incursão sorrateira. Pelas mesmas notícias divulgadas, os larápios haviam entrado pelo telhado por onde entraram usando apetrechos necessários para serrar as grades e arrombar as vitrines dos expositores. Coisa bem planejada e de gente do ramo, segundo um dos detetives encarregado das investigações.


O resultado do furto.

Na noite de sábado para domingo, 25/26 de julho de 1937, em uma incursão cinematográfica, ladrões se apoderaram de uma imensa quantidade de moedas e de 20 BARRAS DE OURO do acervo do MUSEU HISTÓRICO NACIONAL, do Rio de Janeiro, perfazendo só as barras, um total superior a 3 quilos. O furto NUNCA foi esclarecido.

O Diretor do MHN na época, GUSTAVO BARROSO, um dos chefes do movimento integralista que se preparava para arrancar o poder das mãos do Presidente GETÚLIO VARGAS, não se sabe bem o motivo, não deu qualquer importancia ao ato criminoso, digna de nota, não contribuindo minimamente para a elucidação deste rumoroso caso. Ao que tudo indica, estavam os "integralistas" por demais empenhados em organizar, no Rio de Janeiro, o famoso "Desfile dos cinquenta mil (50.000) Camisas Verdes", movimento oportunamente abortado por GETÚLIO.
Por sinal, quando aconteceu o roubo, o Diretor Gustavo Barroso encontrava-se em viagem no Norte do Brasil (Ceará). Nessa ocasião, o museu estava sob a tutela do Sr. EDGAR DE ARAÚJO ROMERO, na qualidade de Diretor Interino.

A primeira notícia dizia ''surrupiadas 117 (cento e dezessete) Moedas de Ouro e VINTE (20) BARRAS DE OURO das vitrines da Seção de Numismática'', conforme foi reportado à Polícia, mas já no dia 28.07.1937 o Dr. ROMÉRO retificou, que somente 17 ( dezessete) BARRAS tinham sido furtadas, como declarou em entrevista publicada no Jornal "O GLOBO" deste dia.

O chefe de polícia do Rio de Janeiro era então o Dr. FELINTO MULLER, e as investigações correram pelas autoridades do 5º Distrito Policial. O Diretor GUSTAVO BARROSO, NUNCA prestou nenhuma declaração, mesmo depois que voltou a dirigir aquele "nosocômio...." de politiqueiros daquela época.


Em todas as investigações policiais, houve apenas DUAS pessoas indiciadas....Uma delas foi HENRIQUE CANDIDO FERREIRA, preso em 3.8.1937, logo em seguida tentanto sucídio, e cuja mulher - ROSA FERREIRA, o acusou frontalmente, mas por "motivos INEXPLICÁVEIS" nada se apurou, e o DE CUJOS pouco depois sumiu do cartaz, embora este indigitado assaltante tenha sido egresso da "Cadeia de Mar de Espanha" (MG). Funcionários e serventes do Museu foram presos, mas logo em seguida soltos, pois puderam provar sua inocência.

Mas em princípio de OUTUBRO de 1937 a polícia portenha conseguiu prender um TURISTA que tinha visitado o Museu; ANDRÉS SOLARES ABELLO, que pouco depois foi embarcado preso a bordo do navio "D.PEDRO II", para ser então apresentado à polícia do Rio de Janeiro. No dia 20.10.1937 o navio partia de SANTOS, com o preso algemado; às 22 horas o comandante mandou soltar o preso.

Na altura da ILHA DA MOELA, descobriram que o preso tinha desaparecido. A hipótese foi a de que teri se atirado ao mar infestado de tubarões.

Não resta a menor dúvida, de que se trata de uma história mal contada. O desaparecido era um "estelionatário uruguaio" que, por ocasião do furto estivera no Rio de Janeiro em companhia de um amigo, ERCÍLIO CARIMANDO...consta que em 29.7.1937 haviam retornado a Buenos Aires. Foi até descoberta uma carta, que SOLARES tinha escrito à dona da Pensão, da rua Corrêa Dutra, 52, no Rio, onde estivera hospedado, "...pedindo que ela fosse a polícia para declarar, que ele estivera acamado nos dias 25 e 26 de junho de 1937, a madrugada do furto". Fato é que este elemento SUMIU POR COMPLETO, sendo aceita a hipótese de que teria sido devorado pelos tubarões que infestavam aquela região.

Eis a seguir a relação das 20 barras que teriam sido roubadas do Museu, conforme relação dada à Polícia. Foi publicada nos jornais do Rio de Janeiro do dia 27.07.1937. (O Globo e Diário da Noite. Foram relacionadas com numeração de 4 até 23, não sabendo a que se referiam os ítens 1 a 3):

4) 1809 - S - 3558; 5) 1809 SF -4299; 6) 1812 - V - 531; 7) 1812 - S - 2388; 8) 1812 - S - 317; 9) 1813 - SF - 656; 10) 1813 - 2 - 347; 11) 1814 - S = 174; 12) 1814 - S - 1177; 13) 1814 - S - 1953; 14) 1815 - M - 241; 15) 1816 - G - 799; 16) 1818 - R - 202; 17) 1818 - SF - 359; 18) 1818 - M - 658; 19) 1821 - C - 167; 20) 1819 - M - 102; 21) 1821 - G - 281; 22) 1822 - G - 41; e 23) 1822 - G - 229.

Nota: As barras das referências n° 11 e 21 possuiam GUIA, sendo provável que a Guia da peça 11 1814 - S - 174 ainda esteja guardada em algum arquivo. Quanto a Guia da peça 21 ver esclarecimento abaixo.

IMPORTANTE: Verificou-se, em seguida, QUE NÃO TINHAM SIDO FURTADAS AS BARRAS relacionadas com os números  4 e 21 (a segunda com guia). Em 1981, foi recuperada a barra n° 18. Desapareceram, efetivamente, 16 (dezesseis) Barras do Patrimônio Nacional, provavelmente FUNDIDAS pelos ladrões, e perdidas para sempre. Ver as fichas catalográficas abaixo.




Os larápios haviam escolhido a dedo as barras mais PESADAS, como as peças de números 14, 15, 18. 19 e 20, pesando: 1.387, 279, 225, 262 e 179 gramas, respectivamente.

Kurt Prober relatou: ''Houve muitas inexatidões nos pesos, números, quilates, etc. constantes na relação fornecida pelo Museu à Polícia, o que felizmente se pode emendar nas respectivas fichas, pois em meus velhos guardados eu encontrei uma lista detalhada - MANUSCRITA - do Dr. Alfredo Solano de Barros, feita posteriormente, quando já se tornara funcionário graduado do Museu, lista esta, em que, com sua habitual meticulosidade, consertou todos os erros, e ainda fazendo os seus habituais comentários pitorescos''.

A relação do Dr. Alfredo Solano de Barros é ainda mais interessante, pois nela achamos descritas também as outras barras do Museu, QUE NÃO FORAM ROUBADAS, e que são as seguintes:
1784 - M - 699; 1801 - S - 1752; 1804 - V - 1532; 1809 - S - 3558; 1814 - S - 174; 1818 - M - 658; 1821 - G - 281; 1828 - S - 130; 1831 - S - 105.

Portanto conclui-se que o MHN possui hoje 9 (nove) barras de ouro em seu acervo.

Ao que tudo indica, as autoridades policiais da época nada conseguiram apurar, fazendo com que o ocorrido passasse ao esquecimento.


A barra do Grajaú.

Anos 40; os conflitos armados que assolaram a década anterior chegam ao apogeu com o holocausto. Um ataque realizado pelo Japão em Pearl Harbor marca a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Os estadunidenses explodem seus artefatos atômicos nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando milhares de civis no Japão. Hitler comete suicídio e Mussolini é fuzilado. O mundo tem sua atenção voltada para Nuremberg onde foram julgados 24 criminosos de guerra aliados a Hitler; 13 são condenados à forca, três foram absolvidos e os demais condenados a outras penas que chegavam a prisão perpétua. Tem início a Guerra Fria, aumentando as tensões diplomáticas entre os Estados Unidos e a União Soviética.


Anos dourados; A década de 50 marca a época de transição entre o período de guerras da primeira metade do século XX e o período das revoluções comportamentais e tecnológicas. Tem início a chegada da televisão em Portugal e no Brasil. A "idade de ouro" do cinema foi também a época de importantes descobertas científicas. O campeão da Copa do Mundo em 1950, pela segunda vez, é o Uruguai. Em 1954 a Alemanha Ocidental conquista a Taça do Mundo pela primeira vez. Em 1958, a Seleção Brasileira de Futebol chega ao seu primeiro título mundial. Os anos 50 foram marcados por uma crise no moralismo rígido da sociedade, expressão remanescente do Sonho Americano que não conseguia mais empolgar a juventude Americana.

A década de 60 inicia parcada por um sabor de inocência e até de lirismo nas manifestações sócio-culturais. No âmbito da política é evidente o idealismo e o entusiasmo no espírito de luta. A partir de 1966, e até 1968, em um tom mais ácido, revelam-se as experiências com drogas, a perda da inocência, a revolução sexual e os protestos juvenis contra a ameaça de endurecimento dos governos. O astronauta Buzz Aldrin caminha na Lua em 20 de julho de 1969.

Os anos 70 começam difíceis para os EUA. A crise do petróleo conduziu os americanos à recessão, ao mesmo tempo em que, economias como o Japão começavam a crescer. Surgem o smovimentos em defesa do meio ambiente, crescem as revoluções comportamentais da década anterior. Muitos a consideram a "era do individualismo". Eclodem nesta época as discotecas e o experimentalismo na música erudita.
Graças à televisão, o mundo se tornou infinitamente menos secreto. Richard Nixon, o presidente americano deposto pelo caso Watergate, foi uma "personalidade" típica das telas de televisão dos anos 70. Sua saída do governo foi festejada pela população dos Estados Unidos e o resto do mundo acompanhou todo o escândalo "de perto", através da TV.

A década de 80 foi marcante para a história do século XX, no contexto dos acontecimentos políticos e sociais: é eventualmente considerada como o fim da idade industrial e início da idade da informação, sendo chamada por muitos como a década perdida para a América Latina. Nesse perèiodo, nunca estivemos tàao próximos de uma guerra nuclear. O muro de Berlin vem abaixo com o fim da guerra fria. Os argentinos desafiam os ingleses pela posse das Malvinas. O brasil se prepara para ingressar numa nova era política com a anistia.


Figura: Barra nr. 3711 (B.031 do catálogo Bentes) - Em fins do século XIX, pertencia à coleção do Sr. Rodolpho Abreu. Ao retirar-se do Banco da República, o senhor Rodopho a ofereceu, em 5/02/1892, ao Conselheiro Mayrink Lessa, acompanhada da respectiva guia. Passados mais de 50 anos, ressurgiu nas mãos do Sr. Francisco Paula de Mayrink Lessa, neto do Conselheiro Mayrink, que tentou vendê-la ao comerciante H. Porcher, negociação não concluída devido ao baixo valor oferecido pelo comerciante. Foi vendida ao Sr. Raymundo da Costa Maia que a revendeu, em conjunto com outras 4 barras, a um negociante conhecido como “Coronel Coimbra”, em 13/4/1970. Em seguida foi vendida ao negociante Leoni Kaseff que a vendeu, juntamente com sua guia, ao Banco Central do Brasil, em 1975. Hoje, esta barra faz parte do grandioso acervo do MVBC. Imagem gentilmente cedida pelo Museu de Valores do Banco Centraldo Brasil.

Rio de Janeiro, bairro do Grajaú, 44 anos depois do fatídico dia em que ladrões invadiram o MHN, um menino descobriu no quintal de uma casa, uma das barras de ouro desaparecidas, oriunda da Casa de Fundição de Mato Grosso, datada de 1818, dando a este melodrama, uma espécie de "ópera-bufa", um desfecho inesperado, em 1981. Noticiaram então os jornais, que havia sido encontrada uma BARRA DE OURO (ilustrada a seguir), enterrada no fundo do quintal de uma casa da rua Visconde da Santa Isabel, nº 578, no bairro do Grajaú, do Rio de Janeiro. Era a barra 1818-M-658, que em 25.7.1937 tinha sido furtada do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. A casa pertencia ao Sr. Hassan Hadman, fazendeiro. Quem encontrou a barra foi o menino José de Almeida Ramos, que no dia 25.3.1981 brincava nos fundos da residência do Sr. Hassan, na ocasião em viagem pelo interior da Bahia. Dona Alzira, esposa do Sr. Hassan, pensando tratar-se de "coisa roubada", comunicou à polícia do 20º Distrito Policial. A própria polícia civil revolveu todo o terreno do quintal, ajudada até pela polícia militar, mas nada mais foi encontrado.

Foi encaminhada à polícia pela proprietária do imóvel que a restituiu ao Museu Histórico Nacional.

Declarou o dono do prédio, ainda, que não se lembrava mais de quem havia comprado o imóvel há uns 40 anos, ocasião em que fez obras no prédio, nada tendo sido encontrado.

Esta barra, pesando 229 gramas de ouro de quase 24 quilates, deve ter sido o pagamento que um dos participantes do furto recebeu. Este, com medo de ser descoberto, preferiu enterrar a peça no quintal, provavelmente esquecendo o local exato ou mesmo tendo morrido sem nada revelar a ninguém. A casa fica perto da encosta de uma favela.

Bem, mas o inusitado deste roubo, veio a tona. 

A Revista Numismática, de 1937, nas páginas 246 a 250 relaciona as moedas e barras de ouro desfalcadas da preciosa coleção doada por Guilherme Guinle ao Museu Histórico Nacional (dados colhidos no Gabinete de Investigações na Seção de Furtos e Roubos da Polícia Carioca), com a respectiva avaliação total do roubo em 218.000$000 (duzentos e dezoito contos de réis).

Kurt Prober, em seu livro entitulado ''Ouro em Pó e em Barras, Meio Circulante do Brasil, 1754 - 1833'', publicado em 1990, em trecho à parte identificado como "capítulo E", dá, equivocadamente, a data do roubo no referido museu em 24 e 25 de JULHO e não em JUNHO. Todavia expõe detalhes e pormenores e cita nomes de alguns envolvidos.

O Museu Histórioco Nacional, hoje.

Fontes de consulta: Blog ABIBONDS NUMISMÁTICA & SCRIPOPHILIA, de João Gualberto Abib - AS PEÇAS ROUBADAS DO MUSEU HISTÓRICO NACIONAL.....Ouro em Pó e em Barras, Meio Circulante, Kurt Prober.....''Ensaio Biográfico de Guilherme Guinle'', 1882-1960 - de autoria de Geraldo Mendes de Barros no ano de 1982.