O 960 réis 1819 B

Que nos perdoem os que defendem que tudo o que foi dito pelo grande estudioso e numismata Kurt Prober não pode ser contestado. A verdade é que ninguém é infalível. Já demonstramos, em algumas ocasiões, que Kurt Prober errou em suas afirmações e agora, ao que tudo indica, aí vem mais uma. Fazemos isso não para demonstrar que o grande numismata errou, mas para alertar que não se pode dar crédito, cegamente, a tudo que lemos, simplesmente porque foi escrito por alguém que é (ou foi), considerado uma sumidade em determinado assunto, alguém que sobressai (ou sobressaiu) entre os do seu círculo, pelo saber.

Na página 82 do seu Catálogo de Moedas Brasileiras (terceira edição, revista e aumentada), no terceiro parágrafo, Kurt Prober escreveu: 

“ - Durante os anos de 1817 e 1818, a Casa da Moeda da Bahia, embora ativa, usou exclusivamente os cunhos com data 1816, e só em 1819 cunhou as primeiras moedas com as Armas do Reino Unido, mas para MOÇAMBIQUE. Todas as moedas de 1817, 1818 e 1819, com a letra monetária B são FALSAS, seja qual for o metal.”

Na página 102 do mesmo catálogo, na data 1819, Kurt Prober sequer deu numeração ao 960 réis que se encontra entre as moedas P-1174H e P-1175, afirmando que o patacão do Reino Unido, cunhado na Bahia, com a data 1819 e letra monetária B, é FALSO.

Na imagem acima vê-se um dos 3 exemplares conhecidos do raríssimo 960 réis 1819B. ANV: Desenho do Reino Unido, legenda, valor 960 e data 1819B. REV: Equador confronta-se à esquerda diretamente com a haste inferior do braço esquerdo. É ligado à direita na haste suerior do braço direito. PÉ: Haste esquerda emendada embaixo. Travessão superior atravessa somente a haste direita. Braço esquerdo: Ponto em seu interior. Braço direito: Linha vertical em seu interior. Clique na imagem para ampliar.

Ora, sabemos que não existem 960 réis com a letra “B” nas datas 1817 e 1818, mas o que dizer com relação aos três exemplares conhecidos do patacão cunhado na Bahia com a data 1819 e letra monetária "B"?

Ao final do ano de 1815, Portugal passou a ser um Reino Unido, admitindo ou ascendendo o Brasil a esta condição (Reino Unido ao de Portugal e Algarves). Em consequência, foi ordenado que a partir daquele momento as moedas passassem a ter uma nova legenda alusiva ao Novo Reino, cunhando as moedas em conformidade com o novo modelo a ser adotado para os cunhos. 

Nessa época, D. João ainda era Principe Regente e como o novo desenho ainda não havia sido criado, foi cunhada em 1816, na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, uma série de 5 moedas com letra monetária R, onde apenas a legenda foi alterada, demonstrando a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves; entre elas uma de 960 réis, com legenda nova, mas com desenho igual ao anterior para comemorar o evento.

Essa série de 5 moedas, hoje conhecida como série especial, e composta de:

● 2 moedas de cobre ( 20 e 40 réis ),
● 2 moedas de ouro ( 4000 e 6400 réis ) e
● 1 moeda de prata ( 960 réis ).

Convém ressaltar que, de início, o desenho colonial não foi alterado. A alteração somente se deu em meados de 1818. Em 1817 e parte de 1818, as moedas voltaram a ser cunhadas com legenda e desenho da Colônia. No patacão da série especial, a legenda de anverso passou a ser JOANNES.D.G.PORT.BRAS.ET.ALG.P.REGENS(JOANNES.Dei.Gratia.PORTugaliae.BRASiliae.ET.ALGarbiorum.Princeps.REGENS), mostrando a elevação do Brasil a condição de Reino Unido a Portugal e Algarves. (Patacão da série especial).

Figura: D. João Príncipe Regente. Patacão da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, 1816, Colônia, com legenda original JOANNES ● D ● G ● PORT ● P ● REGENS ● ET ● BRAS ● D ● (JOANNES ● Dei ● Gratia ● PORTugaliae ● Princips ● REGENS ● ET ● BRASiliae ● Dominus).

Figura: D. João Príncipe Regente. 960 Réis da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, 1816, Colônia. Patacão com desenho colonial e legenda alterada para: 
JOANNES●D●G●PORT●BRAS●ET●ALG●P●REGENS(JOANNES●Dei●Gratia●PORTugaliae●BRASiliae●ET●ALGarbiorum●Princips●REGENS), mostrando a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves. (Patacão da série especial).

Dessa forma, foram cunhados (com letra monetária R), no período que vai de 1816 a meados de 1818 , patacões com: 

a) Desenho Colonial e legenda original, tendo D. João como Príncipe Regente. 
b) Desenho Colonial e legenda alusiva a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido, tendo D.João como Príncipe Regente (1816R – série especial) 
c) Desenho Colonial, retornando à legenda original (1817R e 1818R), ainda com D. João como Príncipe Regente, apesar do Brasil não ser mais considerado uma Colônia. 
d) Desenho e legenda novos (Reino Unido – 1818R) 
Assim sendo, existem dois tipos diversos de patacões com a data 1816R, um tipo com a data 1817R e dois tipos com a data 1818R.

Como o novo desenho alusivo ao Reino Unido não foi criado no devido tempo, vindo a ser aprovado por D. João somente em meados de 1818, a Casa da Moeda do Rio de Janeiro continuou cunhando moedas em 1817 e em 1818, usando o modelo e legenda do período colonial. Por outro lado, a Casa da Moeda da Bahia, não tendo recebido orientação de como proceder com relação à cunhagem das novas armas, decidiu continuar fabricando moedas com a data 1816, com legenda e modelos antigos (colônia), durante os anos de 1817, 1818 e parte do ano de 1819, mas sempre com o cunho de data 1816. Inclusive novos cunhos com essa data (1816), foram abertos.

Figura: Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Moeda de 960 réis data 1817, letra monetária "R", com desenho e legenda da Colônia, cunhagem do Reino Unido (D. João Príncipe Regente).

Figura: Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Moeda de 960 réis data 1818, letra monetária "R", com desenho e legenda da Colônia, cunhado no Reino Unido (D. João Príncipe Regente).

Figura: Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Moeda de 960 réis data 1818, letra monetária "R", com desenho e legenda novos, do Reino Unido (D. João VI, Rei de Portugal, Brasil e Algarves).

Só na metade de 1819 foi suspensa a cunhagem dos 960 réis com a data 1816B, dando fim à prorrogação de cunhagem. Dessa forma, há a possibilidade de encontrarmos moedas de 1816B, recunhadas sobre pesos hispano-americanos de 1817, 1818 e até 1819 (bem mais raros).

Em meados de 1818, a Casa da Moeda do Rio, por se encontrar mais próxima do poder e, consequentemente, ser a primeira a receber os documentos oficiais contendo as decisões reais, passou a cunhar os 960 réis de acordo com o novo desenho aprovado para o Reino Unido. Por esta razão encontramos moedas de 960 réis cunhadas tanto no modelo colonial quanto naquele do Reino Unido, com a data 1818 e letra monetária “R”.

Só ao final de 1819, a Casa da Moeda da Bahia iria receber o material necessário para a abertura dos novos cunhos com as novas armas. Naquele ano ainda foram abertos dois cunhos de anverso e apenas um de reverso para o novo modelo. Como se aproximava o fim do ano de 1819, foram poucas as moedas de 960 réis, cunhadas com as armas do Reino Unido. Utilizaram um dos cunhos de anverso, juntamente com o único cunho de reverso. O segundo cunho de anverso teve a sua data emendada para 1820, com a letra monetária "B".

Mas, afinal, por que alguns numismatas, no passado, consideraram falso o 960 réis 1819B?

Provavelmente, pela raridade da data, por ter o reverso igual a algumas variantes do 1820B, e por existir uma outra variante nessa mesma data (1820 B) com a data emendada de 1819 e de cunho de anverso diferente, durante muito tempo alguns estudiosos (incluindo o mestre Kurt Prober), afirmaram que o 960 réis 1819B seria falso. Concluíram assim, ERRONEAMENTE, que essa raríssima moeda, da qual conhecemos apenas 3 exemplares, seria um 960 réis de 1820B com a data adulterada para 1819, um erro cometido também pelo grande mestre.

Análises mais aprofundadas, sem conclusões apressadas, terminaram por demonstrar que os 2 exemplares conhecidos até então, do 960 réis 1819B, são auntênticos. Mais tarde foi encontrado mais um, perfazendo hoje um total de apenas 3 exemplares dessa jóia da nossa numismática.

Concluindo: O mestre Kurt Prober errou também dessa vez.

Moeda Comemorativa - Espanha homenageia Altamira

Em 2015, a Espanha irá cunhar moeda de 2 euros comemorativa, dedicada às Grutas de Altamira, obedecendo a cronologia do projeto que prevê a emissão das séries “Patrimônio da Humanidade UNESCO”, iniciada em 2010. No anverso, ao centro, vê-se a imagem de um bisão, pintura rupestre alusiva às grutas. No alto, circundando o bordo do disco interno, a legenda ESPANA, CUEVA DE ALTAMIRA. Abaixo da cabeça do bisão, a marca da Real Casa da Moeda Espanhola e no exergo, a data 2015. No anel externo, as 12 estrelas representando os países fundadores da União Européia.


O reverso traz a face comum a todas as moedas de 2 euros, cunhadas pelas nações da UE.


As Grutas de Altamira


Situada junto à localidade de Santillana del Mar, na província da Cantábria, a 30km da sua capital, Santander, em Espanha, a Gruta de Altamira ocupa, a vários títulos, um lugar de destaque na arte parietal paleolítica dos finais do Pleistocénico Superior. Desde logo, pelas circunstâncias da sua descoberta e pela enorme polêmica que a mesma gerou nos meios científicos da época.

Com efeito, remonta à segunda metade do século XIX, mais concretamente ao ano de 1868, o achado fortuito da entrada da cavidade, levado a cabo por um caçador local, Modesto Cubillas.

Tendo comunicado a sua descoberta a um ilustrado advogado local, Marcelino Sanz de Sautuola (foto ao lado), este haveria de efetuar uma primeira visita à Altamira, no ano de 1875. Então, limitou-se a identificar nas galerias mais profundas uma série de sinais de carácter de abstrato, não lhes concedendo particular importância. Quatro anos mais tarde, em 1879, realizou nova visita à gruta, desta feita na companhia de sua filha Maria, de nove anos de idade. E foi esta quem, dada a sua pequena estatura e ao afastar-se do pai por alguns instantes e penetrar sozinha numa sala lateral da cavidade, descobriu o hoje célebre grande painel policromo representado no teto do referido espaço (figura abaixo). Entusiasta atento das realidades da Pré-História européia, com as quais havia diretamente contactado quando da visita efectuada, em 1878, ao Pavilhão de Antropologia da Exposição Universal de Paris, Sanz de Sautuola rapidamente percebeu a importância e significado da sua descoberta, ao estabelecer uma comparação entre as pinturas observadas em Altamira e as representações já conhecidas no âmbito da arte móvel, nomeadamente aquelas que ele próprio havia observado provenientes de várias grutas do Sul de França.

Clique na imagem para ampliar.

Assim, fundamentando-se no conhecimento científico da época e numa análise comparativa, Sanz de Sautuola publicou, em 1880, um pequeno trabalho, hoje célebre, intitulado “Breves apuntes sobre algunos objetos prehistóricos de la província de Santander”, no qual defendeu a tese de uma cronologia paleolítica para as representações de Altamira.

A publicação inauguraria uma acesa polêmica, de caráter nacional e internacional, na qual se haveriam de jogar motivações de diversas ordens (ideológica, de viés nacionalista, de afirmação pessoal, etc), que culminariam, em 1886, com a refutação da autenticidade e antiguidade das pinturas de Altamira e o consequente descrédito de Marcelino Sanz de Sautuola.

A partir de então, o silêncio e a indiferença cairiam sobre a gruta e as suas pinturas, por mais de uma dezena de anos caiu no esquecimento, principalmente devido a morte dos seus principais defensores, nomeadamente Sanz de Sautuola.

A situação apenas começaria a alterar-se com a descoberta de pinturas e gravuras parietais nas grutas de La Mouthe e Pair-non-Pair, na região da Dordonha, no Sudoeste da França, circunstância que levaria a Société d’Anthropologie de Paris, instituição científica de referência internacional, a reconhecer, em 1897, a sua autenticidade e cronologia paleolítica.

Ainda assim e apesar desta reabilitação por via indireta, a gruta de Altamira e as suas pinturas teriam que aguardar alguns anos mais para que a sua legitimação pública e definitiva tivesse lugar.

Esta, apenas ocorreu já no século XX, em 1902, através da publicação de um outro trabalho que, igualmente, haveria de entrar para a história da investigação científica. De autoria do francês Émile Cartailhac, um dos principais e mais veementes críticos de Marcelino Sanz de Sautuola e das suas teses, intitula-se “Les cavernes ornées de dessins. La grotte d’Altamira, Espagne. “Mea Culpa” d’un sceptique” e nele é, definitivamente, resolvida a questão da autenticidade e da cronologia paleolítica das pinturas de Altamira, prestando, assim, homenagem ao falecido erudito espanhol.

A história atribulada da gruta de Altamira, não haveria, contudo, de ficar por aqui. A partir de 1924 é declarada Monumento Nacional, iniciando-se, então, um ciclo de visitas em crescendo, que alcançaria o seu clímax nos inícios dos anos setenta do século passado, com perto de 180.000 visitantes anuais.

Uma tal pressão exercida continuadamente sobre um micro-ambiente já de si tão frágil, não poderia senão conduzir à progressiva degradação das próprias pinturas, determinando, como medida preventiva para minimizar os danos já causados, o encerramento da gruta ao público, em 1977. Contudo, apenas volvidos cinco anos ela seria de novo reaberta, impondo-se, no entanto, severas restrições ao seu acesso, passando o mesmo a estar limitado a 8.500 visitas/ano.

Esta medida viria a revelar-se ineficaz e incapaz de estancar o processo de degradação já iniciado, conduzindo ao encerramento definitivo da gruta e à construção, em 2001, de um novo museu de sítio, que alberga uma réplica parcial daquela em escala real, tal como se apresentava às comunidades do Paleolítico Superior há 15.000 anos atrás.

Apelidada de Neocueva, esta reconstituição alcança um realismo notável, replicando, ao mais ínfimo detalhe (topografia da gruta, técnicas originais de pintura, motivos, etc.), o espaço interior da gruta original, hoje, finalmente, protegida.


Comparativamente a outras, a gruta de Altamira é relativamente pequena, desenvolvendo-se ao longo de cerca de 270 metros de comprimento. Até à sua descoberta, a entrada natural encontrava-se obstruída por um desabamento parcial do teto, ocorrido há, aproximadamente, 13.000 anos antes do presente, o que determinou o encerramento e o abandono da gruta enquanto local de habitat.

A sua estrutura revela-se bastante simples: à entrada segue-se um amplo vestíbulo, iluminado pela luz natural e que constituiu o local preferencial de ocupação humana; daquele tem-se acesso a uma sala lateral, em cujo teto se encontra o famoso grande painel com pinturas policromas; regressando ao vestíbulo, este tem continuidade numa galeria descendente, que apresenta alguns pequenos divertículos laterais e num corredor mais estreito que conduz a uma outra sala lateral, apelidada de La Hoya; a partir desta desenvolve-se nova ampla galeria, que dá lugar, próximo da sua zona terminal, a um estreito corredor designado por La Cola de Caballo.


Segundo os estudos mais recentes, as pinturas e os sinais gravados de Altamira identificam-se com os próprios momentos de ocupação da gruta, a qual, deste modo, assumiria em simultâneo as funções de habitat e de espaço simbólico.

A partir das escavações realizadas nos estratos presentes na zona do vestíbulo, tais etapas corresponderiam, respectivamente, ao Solutrense Superior e ao Magdalenense Inferior cantábrico, o que situa as representações da gruta no intervalo de tempo compreendido entre, aproximadamente, 18.500 e 13.000 anos anteriores presente.

À fase mais antiga estão associadas todas as representações zoomórficas (essencialmente equídeos e um caprino) monocromáticas, de coloração vermelha, que ocupam, parcialmente, o setor sul do grande painel policromo do teto da sala lateral do vestíbulo.

Ainda neste espaço, e por vezes também sobrepostas pelas restantes pinturas mais recentes, encontram-se algumas figuras de mãos, quer em positivo, quer em negativo, bem como um conjunto de sinais de carácter abstracto, representados por linhas rectas, curvas ou quebradas, todos igualmente concretizados através da aplicação de ocre vermelho.

Regressando à galeria central, num pequeno divertículo situado a cerca de 75m da entrada, onde a luz natural já praticamente não chega, encontra-se novo conjunto de sinais abstractos de coloração vermelha, desta feita identificados a formas ovais compartimentadas, sinais em forma de escada e outros quadrangulares.

Por último, as derradeiras figuras atribuídas a este primeiro momento de representação na gruta localizam-se na segunda galeria, correspondendo a um conjunto de gravuras, provavelmente três equídeos, definidas através da realização de um sulco profundo.

A segunda etapa de ocupação de Altamira e, simultaneamente, a sua segunda fase de representação associa-se ao Magdalenense Inferior cantábrico, distribuindo-se por um espaço temporal de, aproximadamente, 3.000 anos.


Neste amplo intervalo assistimos, por um lado, ao estabelecimento de uma iconografia mais diversificada, onde, apesar de continuarem a figurar alguns equídeos, surgem agora em maior número os cervos (machos e fêmeas) e os bisontes, acompanhados por alguns auroques, cabras montesas, rostos semi-humanos e um variado conjunto de sinais abstractos. Por outro lado, estas mesmas representações revelam também uma distribuição muito mais alargada, quer em termos quantitativos, quer em relação ao espaço que ocupam.

Nesta segunda fase, os últimos estudos levados a efeito permitiram individualizar dois momentos diferenciados ao nível das representações.

O primeiro corresponde à chamada “série negra” e está representado por um vasto conjunto de figuras desenhadas a carvão vegetal, mas englobando também um número muito substancial de gravuras. Ao nível da sua temática dominam os cervos (sobretudo gravados), seguidos dos caprinos, bisontes, cavalos e por último os auroques, acompanhados por um variado e numeroso grupo de sinais, de entre os quais cabe destacar as chamadas “máscaras”, um misto de representação facial abstrata humana e/ou animal.

O segundo momento, ainda integrado no Magdalenense Inferior, mas clara e radiometricamente posterior ao primeiro, tem no grande painel policromo naturalista da sala adjacente ao vestíbulo a sua principal ilustração.

O aproveitamento feito das irregularidades e formas da própria superfície do teto da cavidade, tendo em vista conferir volume, profundidade e animação às representações, o realismo e o cuidado posto no detalhe das figuras (mais de duas dezenas de bisontes, dois equídeos e uma cerva) e o total domínio dos pigmentos naturais utilizados (carvão vegetal e ocre de várias tonalidades), bem como das técnicas empregues na sua aplicação (desenho, pintura, pulverização), conferem a este fantástico painel da gruta de Altamira um lugar apenas igualável, no âmbito da arte parietal do Paleolítico Superior europeu, pelas pinturas da gruta de Lascaux, disputando, por isso, ambos os locais o título de “Capela Sistina” da arte paleolítica.

O Colecionador de Rockwell é vendida em leilão por quase Um Milhão de dólares

Para quem ama a tradicional pintura realista americana, Norman Rockwell é, por excelência, o pintor do século XX, considerado entre os seus admiradores como um dos maiores comunicadores visuais ao longo das últimas décadas. Ganhou fama e notoriedade por haver criado mais de 800 capas de revistas, principalmente para o “The Saturday Evening Post”. Nos leilões de arte americana, suas obras estão entre as mais bem cotadas, disputadas em hastas de prestigiosas casas como a Sotheby’s e Christie’s, como aconteceu em Maio desse ano, onde diversas telas do artista foram disputadas entre os que se encontravam no salão da Christie’s e os que faziam suas ofertas por telefone. Entre as obras, a tela "O Colecionador", um sóbrio retrato do cotidiano de um apaixonado pela numismática.

Em 1970, a “Franklin Mint”, uma empresa privada fundada em 1964, ativa na produção de medalhas, moedas de coleção, lingotes de ouro e prata e diversos ítens relacionados ao colecionismo, encomendou a Rockwell (na foto ao lado) uma série de obras para promover a empresa. O projeto inicial consistia na criação de desenhos que seriam motivo para a a confecção de moedas e medalhas. Entre os 80 desenhos que Rockwell executou sob comissão para a Franklin Mint, destacava-se uma pintura a óleo, datada 1971, assinada pelo artista, com o título “The Collector” (o colecionador), que foi a leilão (hasta número 2851, lote nr. 29) na Christie’s de New York, em maio desse ano (2014). A tela de dimensões 30 x 48 cm, estimada entre US$ 700.000,00 e US$ 1.000.000,00, deixou o acervo da  Franklin Mint, com o martelo marcando o preço de venda de US$ 965.000,00.


A tela retrata um rico cavalheiro, endossando um elegante robe de chambre, admirando as moedas e medalhas de seu acervo, sob os olhares argutos do cão e do homem de pé às suas costas, provavelmente seu filho. Sobre a mesa de seu estúdio privado, tendo uma belíssima estante ao fundo, veêm-se os classificadores em couro, onde estão acondicionadas as moedas, uma taça de chá, um cachimbo e um porta-tabaco. A atmosfera sugere sobriedade, cultura e nobreza, além de nos transmitir a certeza de que o hábito de colecionar moedas é herança de família que certamente será passada ao filho que, segurando uma lupa na mão direita, observa com atenção e zelo às observações do pai, provavelmente um auto-retrato do artista, haja vista a semelhança.

As primeiras moedas dos brasileiros

No início do período colonial, o meio circulante brasileiro foi sendo formado de modo aleatório, com as moedas trazidas pelos colonizadores, invasores e piratas que comercializavam na costa brasileira. Assim, ao lado das moedas portuguesas, circulavam também moedas das mais diversas nacionalidades, cuja equivalência era estabelecida em função do seu valor intrínseco (conteúdo metálico) ou seja, valiam o que pesavam.

A partir de 1580, com a formação da União Ibérica, verificou-se uma afluência muito grande de moedas de prata hispano-americanas (Reales), provenientes do Peru, graças ao florescente comércio que se desenvolveu através do Rio da Prata. Até o final do século XVII, os Reales espanhóis constituíram a parcela mais expressiva do dinheiro em circulação no Brasil.

As moedas portuguesas que aqui circulavam eram as mesmas da Metrópole, oriundas de diversos reinados. Cunhadas em ouro, prata e cobre, essas moedas tinham os seus valores estabelecidos em réis e possuíam às vezes denominações próprias, como Português, Cruzado, São Vicente, Tostão, Vintém. A moeda de 1 real, unidade do sistema monetário, era cunhada em cobre.

 Figura: Tostão de D. Manuel I

Figura: Real de D. Manuel I

Figura: Moeda hispano-americana de 4 Reales de Carlos I de Espanha, Casa da Moeda do México.

Foto de um raríssimo Tostão do cardeal-Rei D. Henrique.
Ex-Coleção Cruzado Lusitano, vendida em leilão Numisma 72, lote nr. 83.

Moeda de 8 Reales hispano-americano de D. Felipe II de Espanha, Casa da Moeda de Potosi.

“Graças a bem urdidas uniões dinásticas, não raro cimentadas pelo ouro dos astecas do México e a prata das minas de Potosi no Peru, em menos de um século a Espanha se tornara o império mais poderoso do mundo. Seus domínios espalhavam-se da Europa à Ásia, passando pela África e pelo Novo Mundo.

Em 1581, no mesmo ano em que os portugueses coroaram como seu rei o vizinho rei espanhol, no outro extremo da Europa, sob a liedrança da Holanda, algumas ricas possessões espanholas nos Países Baixos proclamaram-se uma república e deram início à guerra pela independência.

Ao amanhecer do dia 9 de maio de 1624, uma armada de vinte e sete navios da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais invadiu Salvador, capital da próvíncia portuguesa do Brasil. Traziam quinhentos canhões e três mil e cem homens, quase todos protestantes ou hebreus. Frente a tal poderio bélico, resistir aos que os jesuítas chamavam de hereges acabou se mostrando inútil. Liderados pelo bispo Dom Marcos Teixeira, a população local fugiu. Ficaram na cidade apenas o governador, sua família, três auxiliares e um morador de idade avançada, que se recusara a partir.

O velho recebeu os invasores à bala e acabou morto. Os holandeses colocaram o governador português e os demais funcionários sob custódia, se estabeleceram na cidade, explicaram suas intenções e convidaram o povo da Bahia a retornar às suas casas e conviver em paz com eles. Contrariando o bispo, a maioria voltou. Já uns poucos, capitaneados por um espanhol, escolheram combater os holandeses em luta de guerrilha.”

“Van Dorth” de Aydano Roriz

Pelo texto de Aydano Roriz, ao que tudo indica, não se tratava de uma invasão pura e simples, com exércitos enviados de uma nação à outra sem um escopo bem definido ou priva de significado, interessada apenas em pilhagem.
O certo é que o breve período em que os holandeses ocuparam as terras que hoje correspondem ao nordeste do Brasil, determinou um notável avanço naquela região. Não somente nas atividades comerciais marítimas, suas contribuições foram também notavelmente significativas na cultura, na ciência e na tecnologia. Esse parece ter sido também um período confuso nas tratativas políticas e sociais entre as três nações (Portugal, Espanha e Holanda), e que durou de 1624 a 1654.

Apesar da forte oposição lusitana, os holandeses não desistiam em tentar estabelecer na região, a sua própria colônia. Na verdade, foram três as oportunidades em que procuraram firmar sua presença na terra do pau-Brasil. Duas dessas tentativas se deram na Bahia, nos anos de 1624 e 1638; a outra, até certo ponto bem sucedida, teve lugar em Pernambuco, em 1630. Essas localidades foram os principais marcos definidos pelos holandeses en terras brasileiras.

Para a ocupação dessas terras, a Holanda se serviu dos interesses econômicos de uma empresa nacional que pretendia o privilégio de comercializar na América e África, à semelhança do que já fazia no Oriente. Conhecida como West-Indische Compagnie (W.I.C), originalmente em holandês denominada Geoctroyeerde West-Indische Compangnie ou simplesmente G.W.C, Companhia Privilegiada (licenciada ao comércio) das Índias Ocidentais, essa empresa de iniciativa privada intencionava ocupar uma região maior das terras luso-espanholas das Américas.

Com o privilégio de exploração por 24 anos, logo reuniram os recursos, cuja cifra se aproximou de sete milhões de guilders, dos quais 2.846.582 guilders vieram de investidores que viviam em Amsterdam.

A idéia dessa iniciativa surgiu durante as reuniões do conselho dessa Companhia, o que provavelmente fez parte de um plano maior apresentado aos Estados Gerais da União dos Países Paixos. Visto que, após a incorporação de Portugal à Coroa de Castela em 1580, os holandeses sentiram-se prejudicados e ameaçados - uma vez que cidades como Lisboa, Porto e Viena suspenderam seu comércio de produtos exóticos, madeira, tabaco e açúcar - passaram, então, a atacar os domínios da coroa espanhola, na África e no Novo Mundo, priorizando o contato direto com fontes produtoras na América.

A intenção inicial da W.I.C não priorizava a exploração das plantações de açúcar no Brazil. A Companhia das Índias Ocidentais preparou uma esquadra de 26 navios com 1400 marinheiros e 1700 soldados que, sob o comando do almirante Jacob Willekens dirige-se ao Brasil e, em 1624, invade a Bahia. No porto, encontravam-se 15 navios portugueses, dos quais 7 forão destruídos e 8  tomados pelos holandeses.

O governador Diogo Mendonça Furtado é posto sob custódia, assumindo o governo local, o Coronel Johan van Dorth, posteriormente assassinado em uma emboscada em 17 de junho de 1624.

Confiantes de que tal operação havia confirmado seu domínio no Brasil, em São Salvador na Bahia, a esquadra partiu. No fim de Julho de 1624 o almirante Jacob Willekens retorna à Holanda. Em 5 de agosto de 1624 , o vice-almirante Pieter Pieterszoon Heyn ou Piet Heyn se dirige para Angola.

De Angola Piet Heyn parte em Fevereiro de 1625 para retornar ao Brasil. Em 3 de Março de 1625 o conselho dos oficiais navais havia decidido retornar à província do Espírito Santo, com intuito de verificar a possibilidade de tomarem posse do local.

Em 13 de Março de 1625, Piet Heyn desembarca ali com 250 homens, porém, é vigorosamente repelido pela população local e pelas tropas de Salvador Corrêa de Sá no comando de 250 homens brancos e índios em quatro canoas e uma caravela que seu pai Martim de Sá, governador do Rio de janeiro, mandara em seu auxílio.

Derrotado, um imediato do almirante Jacob Willekens, que atacara a Bahia, foi enviado para o Caribe para atacar vários pontos da costa americana, mais precisamente o México (Nova Hispania). Em 1628 Piet Heyn estava liderando uma frota de 20 grandes navios e 11 yachts. Em Setembro, sua frota havia tomado cerca de 15 navios mercantes espanhóis em Matanzas Bay, apossando-se  da prata que ia do México para Espanha, num montante em torno de 13 a 14 milhões de guilders, dos quais cerca de 7 milhões de guilders em prata.

Esse montante foi fundamental para preparar a expedição que objetivava o retorno ao Brasil com a conquista de Pernambuco. Ainda, na Bahia, organiza-se uma resistência que poria fim ao domínio holandês na região, pelo período de aproximadamente 1 ano.

Outras tentativas como a de Pieter Pieterszoon Heyen de 1627 que saqueou o Recôncavo baiano se seguiram, o que estimulou a W.I.C. em promover novos ataques contra os portugueses. Porém a companhia encontrava-se sem fundos, e dessa forma não se arriscaria a outra grande expedição, com tropas de desembarque se não houvesse um reforço financeiro, o que só ocorreu graças a uma vitória naval, promovida pela frota de Piet Heyn, contra D. Juan Benevides, o que rendeu aos holandeses um montante de aproximadamente nove milhões de ducados.

As riquezas naturais da Capitania de Pernambuco (Zuikerland - Terra do açúcar) no início do séc. XVII já eram bastante conhecidas pelas grandes potências da época. Os Países Baixos necessitavam do açúcar que era produzido no Brasil, cuja produção de 121 engenhos, somente   em Pernambuco, despertou o interesse dos diretores da Companhia que, com o apoio da Inglaterra e França, rancorosos inimigos da Espanha mandaram armar uma extraordinária esquadra de 67 navios e 7.280 homens dos quais 2.325 eram soldados e 2515 marinheiros, sob comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck.

Em 15 de fevereiro de 1630, inicia-se a operação comandada pelo almirante Lonck.

Assume o trono o nobre João de Bragança, que se transforma em D. João IV, procurando desde cedo, retomar as relações de amizade com todas as potências inimigas da monarquia espanhola.

Em 12 de junho de 1641, Portugal celebra com a Holanda um “Tratado de Aliança Defensiva e Ofensiva”. Porém, o Tratado não tem efeito nas colônias portuguesas em poder dos holandeses, no Brasil, que só recebem a notícia somente em 3 de Julho de 1642.

Diante dessas circunstâncias, aproveitando-se do momento, o conde Maurício de Nassau-Siegen amplia os domínios de seu governo ocupando Sergipe, Ceará e Maranhão. Pouco tempo depois, em 28 de fevereiro de 1644, os holandeses são expulsos do Maranhão e passam a concentrar suas atenções em Pernambuco.

Durante a administração do conde Maurício de Nassau-Siegen, o progresso vigorou de forma impressionante. As fronteiras foram finalmente estabelecidas do Maranhão à foz do Rio São Francisco. A cidade do Recife passou por inúmeros melhoramentos urbanísticos, como a instalação de duas pontes de grandes dimensões - a primeira ligando Recife à ilha Antônio Vaz e a outra da ilha Antônio Vaz ao continente. Supostamente essas foram as primeiras pontes construídas no Brasil.

Nesse período, Nassau construiu o palácio de Friburgo e a Casa da Boa Vista - um Horto Zoobotânico. Instalou o primeiro Observatório Astronômico das Américas e diversas outras obras de infra-estrutura, como nunca havia se visto na região.

Em 22 de maio de 1644, o conde Maurício de Nassau se vê obrigado a retornar à Europa, após sete anos de governo, por pressão da Companhia das Índias Ocidentais, que desejava imprimir à colônia rumos diferentes das nobres intenções de Nassau, um mecenas e desejava formar do Brasil holandês, uma nação próspera e forte, governando com justiça e sabedoria.

Procurou expandir o comércio, as artes, a indústria e as profissões liberais e incentivou a lavoura e a pecuária. 
Porém, seu programa de governo, ocasionaria despesas e reduziria os recursos imediatos da Companhia e, por isso, perdeu seu prestígio. 

Na verdade, a finalidade da Companhia era retirar o máximo proveito financeiro da colônia, pouco importando o progresso ou o futuro da mesma, arrancando-lhe tudo o que podia. Após a retirada de Nassau, a W.I.C. passou a extorquir os moradores locais e portugueses. Os colonos, então, procurando salvar suas economias, enterram o que possuíam no interior das florestas, o que provocou, cada vez mais, a falta de dinheiro em circulação. Para minimizar essa situação caótica, a Companhia enviou para Pernambuco 27.000 florins em moedas de um soldo, dois soldos e xelins; porém, a situação tornara-se irreversível.
Em 13 de junho de 1645, tem início a Insurreição Pernambucana e, com ela, cresceu o problema da crise monetária. O momento era de entressafra do açúcar e não havia dinheiro suficiente sequer para pagar as tropas, que eram compostas de mercenários de todas as nacionalidades, expostas aos ataques das tropas luso-brasileiras. Nesse meio tempo foi declarada a guerra entre Holanda e a Inglaterra (1652-1654). Esse fato favoreceu a Insurreição Pernambucana, visto que a Holanda ficava impossibilitada de socorrer sua colônia no Brasil. 

Os navios da Companhia da Índias Ocidentais também transportavam ouro proveniente da África, mais precisamente da Guiné. Tratando-se de mercadoria valiosa, todas as precauções eram tomadas para se evitar ataques de pirataria ou naufrágios em alto mar.

Os navios da Companhia da Índias Ocidentais também transportavam ouro proveniente da África, mais precisamente da Guiné. Tratando-se de mercadoria valiosa, todas as precauções eram tomadas para se evitar ataques de pirataria ou naufrágios em alto mar.

Os navios, que vinham da costa africana, faziam escala em Recife, onde coletavam correspondências, abasteciam e carregavam o navio de açúcar e pau-brasil e, quando conveniente, depositavam, com segurança, caixas de ouro em pepitas ou em barras, até o momento em que, partindo um comboio de navios para a Europa, pudessem ser transportadas com segurança para os cofres da Companhia, na Holanda.


* Johann Mauritius Van Nassau-Siegen era um homem dotado de qualidades excepcionais. Um nobre cavalheiro de origem alemã que teve formação humanista da melhor qualidade.
Competente como soldado, também conhecia a fundo a arquitetura, a história e as artes plásticas. Cuidou bem da cidade, dotando-a de palácios e fortificações. Sua corte era abrilhantada pela presença e pela obra de homens ilustres como o médico Willem Pies (1611-1678), o botânico Jorge Marcgrave (1610-1644), os pintores Franz Post (1612-ca.1680), Albert van der Eckhout (1637-1664) e Zacahrias Wagener (1617-1668) e pelo biógrafo de Nassau, Gaspar Barléus (1584-1648) autor de Rerum per Octennium in Brasilia (História dos feitos praticados durante oito anos no Brasil), considerada a mais monumental obra sobre o Brasil colonial. Nassau era amante de festas e admirador das belezas tropicais.
A Companhia das Índias Ocidentais era uma empresa de comércio semi-estatal. Nassau, contratado pela companhia, desembarcou no Recife, em 1637, na condição de governador, capitão e almirante-geral do Brasil holandês. 
Sua atuação no Brasil, em contraposição à colonização lusitana, católica, estatal e burocrática, foi uma administração sensata, racional e privatista, pontuada pela ética protestante e pelo espírito do capitalismo.



A primeira vez em que se faz referência à idéia de se cunhar moeda no Brasil pelos holandeses, deveu-se às necessidades militares e às dificuldades da tesouraria da Companhia das Índias Ocidentais. 

Lutando com a falta de numerário, o Alto e Secreto Conselho começou a vender e hipotecar as mercadorias que tinham em depósito. Em ata de 21 de julho de 1645, o órgão supremo da administração local da colônia brasileira, descreve que já havia disponibilizado para venda, aproximadamente 741 kg de ouro, retirados da última remessa vinda da Guiné. 

Com a crítica situação em que se encontravam, pela escassez de numerário face à necessidade de dispor de dinheiro para o pagamento da milícia, serviços e víveres, os holandeses resolvem mandar cunhar moedas de ouro de XII, VI e III florins, tendo de um lado a marca da companhia e do outro a data, conferindo-lhes um aumento de 20% no valor do metal, evitando que as mesmas saíssem do país, podendo ser recolhidas no futuro. 

A decisão de se cunhar moedas só foi tomada pelo Alto e Secreto Conselho na sessão de 18 de agosto de 1645. O Conselheiro Pieter Jansen Bas, foi o encarregado da produção das moedas brasileiras, mediante concessão formal, e isento de qualquer acusação futura. A cunhagem das moedas para suprir as necessidades dos holandeses começou imediatamente, e a 14 de setembro de 1645 foram remetidos exemplares, de cada um dos valores, ao Conselho dos XIX, na Holanda. Finalmente, a 10 de outubro de 1645, Pieter  Bas ordenou o início da cunhagem dos ducados brasileiros para circulação local. 

As moedas cunhadas pelos Holandeses em Pernambuco nos anos de 1645 e 1646 e, posteriormente sob cerco em 1654, foram as primeiras cunhagens efetuadas em território brasileiro com a indicação “Brasil”.

Essas moedas eram batidas em “placas” quadrangulares de ouro, nos valores XII; VI e III florins com as iniciais da Companhia e valor (dentro de um colar de pérolas) no anverso; e as palavras ANNO/BRASIL (e data), dentro de um colar de pérolas, no reverso. Foram também batidas, em prata, moedas no valor XII soldos, unifaciais, com a indicação da data de emissão, do valor, e das letras GWC, sigla da Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais (Geoctroyeerde West-Indische Compangnie).
  
As remessas de florins, soldos e xelins provenientes da Holanda não eram suficientes para atender as necessidades da administração holandesa no Brasil, durante os anos de ocupação. Para suprir a falta de recursos, o Conselho utilizou o ouro vindo da Guiné destinado à Holanda para cunhar, em 1645, moedas de XII, VI e III florins e no ano seguinte fez nova emissão com o restante do ouro.  

Estas moedas chamadas de obsidionais* (de emergência ou de necessidade do invasor) foram as primeiras cunhadas no Brasil e são muito raras. São destacadas das demais moedas pela sua forma quadrangular e pela pouca espessura.  As moedas de prata de XII soldos de 1654 foram produzidas após a capitulação dos holandeses, com características semelhantes às de ouro, consideradas também moedas de necessidade do invasor.

Os valores X, XX, XXX e XXXX soldos, segundo vários pesquisadores e estudiosos, são falsas, jamais tendo sido cunhadas pelos holandeses. 

Um estudo preliminar de algumas moedas holandesas  da  Coleção do Museu Histórico Nacional, foi realizado em 2007 pelo Centre de Recerche et de Restauration des Musées de France,  juntamente com Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCT) e pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT/MCT).

Foram examinadas as moedas de III, VI e XII Florins de 1645, aléem de um XXXX sooldos de 1654. O estudo, porém, não é conclusivo sobre a autenticidade da cunhagem pelos holandeses. Pode ter sido cunhada durante aquele período, o que não atesta a sua autenticidade. 

É importante esclarecer que não existe qualquer documentação, nos arquivos da GWC que atestem a cunhagem de moedas de X, XX, XXX ou XXXX soldos. Sendo o sistema duodecimal, admitia múltiplos e submúltiplos de 12, o que certamente excluía tais valores.

A seguir, foto da análise do XXXX soldos, pertencente à Coleção do Museu Histórico Nacional, constante no referido estudo realizado pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCT).



A seguir, o desenho do raríssimo XII soldos.


São visíveis as diferenças. A iniciar pelo “W” de GWC, a exemplo do “X” em REX, o “W”, composto de “2 Vs”, tem seus traços direitos duplos, fato observado por qualquer abridor de cunhos. Somente isso já demonstra que o cunho foi aberto por um leigo e não por um profissional que conhecia seu trabalho. Também é “gritante” a diferença entre o “6” do XXXX soldos e o do XII soldos. A pesquisa faz referência a defeitos que atribui à má qualidade de gravação do cunho (pág. 297 do artigo publicado na Revista Brasileira de Arqueometria, Restauração e Conservação, Vol. 1, nr. 6)

Segue parte do texto do referido estudo:

Foram observadas as letras “G” e “C” na região de cruzamento do “W” . As imagens em elétrons retroespalhados obtidas no MEV  nessa região, mostram os efeitos do gume de cunho e o defeito gravação de cunho do topo da letra “C”.

Foram também observados os três últimos “X” da legenda “XXXX”, bem como os detalhes do cunho no topo do terceiro “X” desta legenda.

Quando a imagem é ampliada, um certo número de inclusões de cor branca surgem na região em torno do terceiro “X”. De modo a explicar estas inclusões, também encontradas em muitas outras zonas da moeda, procedemos a uma análise por intermédio do sistema EDS do MEV.

A análise da composição destas inclusões mostra que se trata de finas partículas de Au incluídas na matriz de Ag. Essas inclusões são possivelmente devidas ao fato de as moedas de Au e Ag terem sido fabricadas com elementos de um mesmo equipamento de cunhagem.
Foram também observados vários detalhes da data de emissão, onde aparecem claramente defeitos no número “6”. Esses defeitos podem ter sido devidos à má qualidade da gravação do cunho.

Curiosamente, o relevo na zona central do bordo desta moeda, observado no MO mostra, ao contrário do que se observa nas moedas de Au, que provavelmente deve ter sido cortado com um instrumento do tipo de tesoura. 

O corte talvez não tivesse sido efetuado até o final do bordo, tendo o último pedaço sido “arrancado” em vez de completamente cortado.
É necessário esclarecer que o tempo que separa as últimas cunhagens de Florins de ouro, das primeiras dos Soldos de prata é de, pelo menos, 9 anos. As partículas de ouro presentes nos cunhos das moedas de prata, somente servem a atestar que foram batidas na mesma época e não em períodos diversos, com espaçamento de 9 anos. 

Junte-se a isso as moedas falsas de ouro da “botija de Recife” nos valores de X, XX, XXX, e XXXX florins para concluir o óbvio.


HOLANDESAS - AS PRIMEIRAS MOEDAS COM O NOME BRASIL

Estas moedas, chamadas de obsidionais* (de emergência ou de necessidade do invasor), foram as primeiras cunhadas no Brasil e são muito raras. São destacadas das demais moedas pela sua forma romboidal e pela pouca espessura.  As moedas de prata de XII soldos de 1654 foram produzidas após a capitulação dos holandeses, com características semelhantes às de ouro, consideradas também moedas de necessidade do invasor, sendo muito mais raras que as de ouro.
Face à inexistência de ferramentas e materiais adequados, bem como à urgência do trabalho, as moedas foram feitas de forma bastante rudimentar, como mostrado na figura a seguir.


Em meados de julho de 1645, o navio Zeeland, recém chegado da Guiné, transportava 360 marcos ou cerca de 309 quilogramas de pepitas de ouro. A Companhia das Índias Ocidentais que encontrava-se sitiada e constantemente atacada pelos luso-brasileiros, resolveu lançar mão de  aproximadamente 90 quilogramas dessa carga,  para  comercialização imediata e transformação do metal em moeda, com aumento de 20% do valor para posterior recompra, dessa forma suprindo suas necessidades básicas como alimentação e pagamento dos soldos dos mercenários contratados para sua proteção.

Legalmente, um Marco de ouro (247,047 g.) de título 9162/3, deveria fornecer, durante o processo de cunhagem, 32 moedas de XII Florins (com peso de 7,72 gr. ou 5 engels) e para as de VI e III Florins, 64 e 128 moedas respectivamente, com peso proporcional.

Em trabalho intitulado “The Coins of the Dutch Overseas Territories”, C. Scholten indica como peso legal, 7,690 gr; 3,845 gr e 1,920 gr, respectivamente.


Tal se deveu ao fato de haver tomado por base, de forma equivocada, o Marco de Amsterdã que pesava 246,084 gr., quando o correto seria fazê-lo pelo Marco da Batávia que pesava 247,047 gr. ou 160 engels.

Os holandeses comercializavam o ouro da Guiné a 37 Florins por Onça, ou seja, 296 Florins por Marco. Cunhando as moedas, apuravam um valor muito maior, já que estas entravam em circulação com um valor superior em 20% ao seu valor intrínseco. Porém, para a G.W.C., o ano de 1646 tratou-se de um período bastante complicado.

Na realidade, o que se seguiu foi a maior crise que a Companhia sofreu durante toda a ocupação em terras brasileiras. A situação econômica e social agravou-se a tal ponto, que a população, devido ao flagelo da fome, passou a dar a caça a todos os animais da região. Cavalos, aves, cães, gatos e ratos chegaram ao limiar de sua extinção durante aquele período.

A exigüidade de moeda obrigou os holandeses a repetir a operação de retirada de ouro dos navios que vinham da África com destino à Europa. Em agosto de 1646, retiraram 405 marcos de ouro, dos quais 50 foram vendidos a peso e 355 foram entregues ao Conselheiro Pieter Janssen Bas, para a cunhagem de novas moedas obsidionais.

Utilizando-se do mesmo regimento, a “Instrução” de 10 de outubro de 1645, Pieter Janssen Bas convocou os mesmos ourives que realizaram o trabalho de cunhagem das moedas, no ano 1645.

Em 27 de agosto de 1646, deu-se início às atividades de cunhagem, operação realizada com grande dificuldade devido à péssima qualidade e capacidade dos cadinhos para fundição do ouro e dos equipamentos empregados.

Durante a cunhagem de 1646, de acordo com a documentação oficial existente, foram abertos 16 novos cunhos, mas se verifica que pela perolagem das moedas conhecidas como autênticas, foram utilizados 18 cunhos. Devemos recordar que nesse período foram usados cunhos de 1645, devidamente restaurados. No entanto, há de se considerar que somente os cunhos de anverso, por não apresentarem a data da moeda, puderam ser restaurados e reaproveitados. 

Figura: Imagem ampliada de um VI Florins em excelente estado de conservação, vendido pela casa de leilões numismáticos Kunker em 21/06/2005, lote nr. 235 - Valor final: € 12.500 (12.500 euros). Acervo particular. Coleção Bentes.


Figura: Imagem ampliada de um raro III Florins ano 1645 em excelente estado de conservação. Acervo particular.
  
Observações: Alguns autores consideram a expressão “moedas obsidionais” (do latim obsidio, obsidionis, invasão), como um equívoco no que tange as moedas cunhadas pelos holandeses no Brasil. Segundo estes estudiosos, as moedas de necessidade se dividem em dois tipos principais: as dos invasores, que cunham geralmente para o pagamento dos soldados, e a dos invadidos, que na necessidade de fazer circular dinheiro durante a “reclusão”, usam metal não precioso, por vezes até não-metal. As moedas cunhadas pelos invadidos seriam chamadas de obsidionais, enquanto que as cunhadas pelos invasores (o que seria o caso dos holandeses, responsáveis pelos florins e stuivers), seriam chamadas CASTRENSES, do latim castris, castris – acampamento.

1) As moedas de X, XX, XXX e XXXX soldos que frequentemente aparecem em alguns catálogos e leilões eletrônicos são falsas. A única moeda obsidional de prata reconhecida autêntica por nós, e por autores especializados no assunto, é aquela de XII soldos.

2) Existem falsificações de todos os valores em grande quantidade. São extremamente raros os exemplares autênticos e da mais alta raridade o XII soldos de prata. Devido ao fato de serem moedas desejadas por todos os colecionadores, pelo seu significado histórico e raridade, existe no mercado grande número de moedas falsas batidas com cunhos grosseiros e vendidos por comerciantes inescrupulosos. Assim, aconselhamos a máxima cautela em adquiri-las.

3) A expressão “obsidionais” deriva do do latim obsidio (obsidionis – invasão). O termo é assim usado em referência às moedas “batidas” durante a ocupação de um território, em caráter de emergência, para pagamentos gerais e das tropas. Porém, alguns autores preferem dividir estas moedas moedas de necessidade em dois tipos distintos:

• Aquela dos invasores, cunhadas geralmente para o pagamento dos soldados, e

• Aquela dos invadidos, que na necessidade de fazer circular dinheiro durante a “reclusão”, usam metal não precioso, por vezes até não-metais. Na opinião destes estudiosos,  “obsidionais” seriam as moedas cunhadas pelos invadidos, enquanto aquelas cunhadas pelos invasores (no caso os holandeses, responsáveis pela cunhagem de florins e stuivers, que invadiram o nordeste do Brasil em 1612),  deveriam ser denominadas “CASTRENSES”, do latim castrum, castri (acampamento).

4) Após a derrota na Batalha de Tabocas, e encontrando-se sitiados no Recife, os holandeses encontravam-se em dificuldades devido à falta de numerário para o pagamentos gerais (despesas de manutenção e soldados). Assim, ordenaram a cunhagem de Florins (Ducados) em caráter de emergência nos anos 1645 e 1646.

5) No ano de 1654, “bateram” moedas de prata (Stuivers ou Soldos), em liga de baixo teor, somente para pagamento das tropas, no único valor de XII Soldos, apesar da autorização para cunharem também os valores I e III que não chegaram a ser cunhados.


O grau de raridade e a cotação das moedas

Afinal, qual o critério que se adota para estabalecer o grau de raridade e, principalmente, o valor de um exemplar?

A procura por uma moeda pode aumentar significantemente seu valor. Um exemplar comum que seja altamente estimado por colecionadores terá, sem dúvida, um valor maior que aquelas moedas pouco procuradas; moedas raras terão maior demanda que moedas comuns da antiguidade clássica. Por exemplo, algumas moedas da Grécia e de Roma, apesar de sua idade, são relativamente pouco cotadas em razão de sua abundância. Abrindo um parênteses, convém recordar que o número de peças cunhadas não é indicativo da disponibilidade da moeda. Algumas moedas, mesmo que tenham sido cunhadas em grande quantidade, são raras ou raríssimas. Um exemplo bastante significativo é o do Saint Gaudens Double Eagle de 1933, da mais alta raridade. Devido às diversas vicissitudes históricas (dispersão, retirada de circulação, fusão, etc), pode acontecer que determinadas moedas, cunhadas em número elevado, com o tempo venham a ser consideradas mais raras do que outras cunhadas em quantidades consideravelmente menores. Destarte, o grau de raridade se refere à dificuldade em se encontrar (pelos diversos motivos citados) uma determinada moeda. No nosso catálogo, por exemplo, graduamos a raridade em conformidade com o descrito acima, indo desde as moedas muito comuns (CC ou C2), até a peça única, passando pela classificação R5 (RRRRR) que corresponde ao exemplar da mais alta raridade.

Lembrete: Convém recordar que o que é raro, nem sempre é precioso.

RARO - Aquilo que não é comum; que não é frequente; que não é abundante.
PRECIOSO - De grande preço; magnífico; muito rico


Mas quando podemos afirmar que um determinado exemplar seja raro ? 

A resposta espontânea deveria ser: Quando não é facilmente encontrada.

Mas não é assim tão simples; justamente porque o conceito de raridade envolve mais do que a mera interpretação do porque uma moeda se define rara.

Uma moeda é considerada rara por que existem poucos exemplares ou por que não aparece regularmente no mercado? 

Poder-se-ia argumentar que o importante é que seja definida como rara e que isso seria o bastante para exaurir o assunto. Apesar de ser difícil contestar tal acertiva, é importante esclarecer o motivo pelo qual algumas dessas raridades valem muito mais do que outras.

Suponhamos uma moeda definida como Raríssima (R4), porque conhecemos apenas 10 (dez) exemplares, onde 7 (sete) deles pertençam a acervos conhecidos. Os 3 (três) exemplares restantes, seriam propostos no mercado por longo período, mesmo por anos, sem que pudessem experimentar uma valorização. Podemos até arriscar que, dependendo da oferta e do número de vezes que venham expostas à venda, se arriscam até mesmo a sofrerem uma desvalorização. 
Comentário: Presenciamos um caso desses há alguns anos. Um comerciante oferecia uma raridade (uma moeda de 960 réis 1816R, recunhada sobre carimdo de Minas, onde a contramarca era totalmente visível)...essa moeda é única. Porém, foi o próprio comerciante a contribuir para a sua desvalorização. Ofereceu a muitos colecionadores, mostrando-a a todos e deixando que alguns ficassem com ela por bom tempo, sem compromisso, a fim de examiná-la e "refletirem sobre a proposta". No mercado dão um nome a isso..."QUEIMAR A PEÇA". Acontece até no movimentado mercado das artes e antiguidades.
Ao contrário do que foi dito acima, uma moeda Muito Rara, cunhada em tiragem de apenas 100 exemplares, mas com a vantagem do interesse de 200 potenciais compradores (por exemplo), seria facilmente negociada, gozando sempre de uma valorização, justamente porque se coloca numa relação de oferta e procura de 1 para 2 ou seja, uma moeda diputada por dois interessados em adquiri-la. Essa é a lei, a da oferta e procura, que regula o mercado e determina o seu valor. Mesmo com variações, é determinante. Assim, podemos concluir que a raridade de um exemplar é, SIM, importante a fim de que se possa estabelecer um valor, mas não determinante.

Um clássico exemplo, reside nos 960 réis. Usaremos como exemplo, o 1815R Legenda Alternada: Trata-se de exemplar muito raro, que costuma aparecer no mercado a cada 10 anos, principalmente se em condição soberba. Mesmo que quiséssemos atribuir a este exemplar o valor que merece como raridade, tal cotação estaria bem acima do real valor de mercado (o valor que o colecionador estria disposto a pagar), já que a lei que rege a comercialização dessa variante não lhe é muito favorável. Com o recente interesse do mercado internacional pelas nossas moedas, esperamos que esse quadro mude, valorizando cada vez mais a coleção numismática brasileira.


VALORES

As avaliações, sobretudo aquelas relativas às moedas em grau de conservação FDC, ou àquelas que não se vêem com frequência nas contratações comerciais, são suscetíveis de variações impostas pelo mercado. As cotações presentes no nosso catálogo, por exemplo, refletem a tendência do mercado até o final do segundo trimestre do ano precedente àquele a que faz referimento o manual. Sendo assim, os preços constantes do catálogo de 2015, dizem respeito aos preços praticados até o final do segundo trimestre de 2014, época em que são terminados os trabalhos de revisão e estampa.

As moedas perfeitas, com pátina de medalheiro e em estado de conservação excepcional são citadas em casos particulares, por nós avaliados como sendo necessários a título de referência de mercado, haja vista estas moedas atingirem preços particularmente elevados por seu estado de conservação e por sua beleza. 

Veja, por exemplo, a moeda a seguir. Não é a sua data, a quantidade cunhada, o seu estado de conservação, etc, que determinam sua raridade, mas sim o seu conjunto, tudo somado. Claro que irão aparecer outros exemplares no mercado, mas como esse, só se o próprio retornar.

Figura: Interessante e raríssimo exemplar de 3.200 Réis da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, demonstrando que o cunho foi usado em três datas diferentes (data emendada). A primeira, 1754, onde se pode notar os traços do “4”. Em seguida, a data foi emendada para 1756, com os detalhes do “5” pouco visíveis. A última data, 1756, é a da moeda da foto acima. Essa moeda foi leiloada nos EUA, no mês de janeiro de 2011 (estado de conservação MS 65 - FDCE). A raridade do exemplar se deve não somente à própria moeda (são muito raras, no mercado, as moedas de 3.200 Réis), mas também ao seu excepcional estado de conservação e a particularidade das datas emendadas. A descrição do catálogo americano a define como “Gem Uncirculated”. Sem dúvida, um dos mais belos e raros exemplares de moeda brasileira que tem aparecido nos mercados nacional e internacional, nos últimos anos. Uma verdadeira jóia da nossa numismática. Foto e detalhes ampliados. Valor final de arremate: US$ 43,125.00. A seguir, a foto de anverso, ampliada.

O mercado numismático, assim como o das artes em geral, é influenciado por diversas variáveis, sendo a mais notável a lei da oferta e da procura. Assim, nada mais honesto e justo que dar ao leitor a cotação da época, baseando nossa avaliação na tendência do mercado; esta é a nossa filosofia. Essa "necessidade" de se alterar os preços de todas as moedas não corresponde à realidade. Em alguns casos, um exemplar possa permanecer inalterado ou mesmo sofrer um decréscimo de um ano para outro, fato que constatamos apenas em pouquíssimos catálogos.

Consideramos um erro classificar a raridade em função do número de exemplares conhecidos, como fazem alguns catálogos. É assunto extremamente relevante e deve ser tratado com seriedade. Assim, estabelecemos um critério nosso, a fim de conceder a um moeda, o "título" de "da mais alta raridade". A seguir, exponhos o método de como procedemos na classificação da rariadde de uma moeda:

Muito comum (CC ou C2) - Frequentemente disponível no mercado.

Comum (C ou C1) - Facilmente encontrada no mercado.

Escassa (E ou E1) - Exemplar encontrado com alguma dificuldade.

Muito Escassa (EE ou E2) - Exemplar encontrado com dificuldade.

Rara (R) - A dificuldade em se encontrar um exemplar em bom estado, acentua-se cada vez mais.

Muito rara (R2 ou RR) - Difícil de ser encontrada no mercado, em curto período de tempo.

Raríssima (R3 ou RRR) - Aparece com grande dificuldade no mercado

Extremamente rara (R4 ou RRRR) - De grandíssima raridade, aparecendo poucas vezes no mercado, num período não inferior a 30 anos.

Da mais alta raridade (R5 ou RRRRR) - Quatro, no máximo, 5 exemplares, de melhor conjunto (data, tiragem, estado de conservação, etc). Praticamente inexistente no mercado.

Única - Termo que jamais pode ser abreviado. Indica o exemplar do qual não se conhece outro.


O grau de conservação determinando a raridade:

Como disse anteriormente, o qu determian o grau de raridade de uma moeda não é apenas a quantidade de exemplares cunhados, a sua variante ou a sua "antiguidade". Todos estes fatores, aliados à lei da oferta/ procura, interesse e, também, ao estado de conservação da moeda formam o conjunto que determina o quanto um exemplar é raro.

Um exemplo de como o estado de conservação influencia no preço, pode ser dado por um exemplar do 2.000 Réis de prata, da República, data 1913A (estrelas soltas), leiloado recentemente nos EUA. Aparentemente uma moeda comum, em data única (1913), todas cunhadas na Alemanha (letra monetária A). A cotação para exemplares FDC é relativamente baixa, justamente por não ser difícil encontrá-los nesse estado de conservação (FDC). Porém, a moeda leiloada nos EUA, vai além do estado FDC. É classificada como PCGS Proof 67. Em outras palavras, é única, já que não se tem notícia de outra semelhante no mercado numismático.

Figura: República - 2.000 Réis 1913 A, em excepcional e único estado de conservação (PCGS proof 67), leiloado nos EUA em 2011, valor final de arremate: US$ 9.200,00. A série completa, composta dos demais valores, 1.000 Réis e 500 Réis, foi negociada no mesmo leilão, alcançando a espetacular cifra (para uma moeda comum) de US$ 19.219,50 para as três peças, sendo US$ 5.462,00 para o 1000 Réis e US$ 4.557,50 para o 500 Réis.

O Carimbo de "escudete"

Em 1808, como consequência da invasão de Portugal por tropas francesas, D. João VI e sua corte se instalam no Rio de Janeiro. Assim, a necessidade de dinheiro para fazer frente às astronômicas despesas fez com que o soberano adotasse medidas econômicas para contornar o problema. Uma delas se encontra no ALVARÁ de 18 de ABRIL de 1809, que ordenava a aplicação de um carimbo em todas as moedas de cobre com data anterior a 1799 inclusive, em circulação (as moedas do antigo padrão) que, assim marcadas, passariam a valer o dobro. O mesmo carimbo, foi aplicado nas moedas de prata da série “J”, igualando-as ao padrão das patacas. As moedas de 600 réis passavam a valer 640 réis; as de 300 passavam a 320; as de 150 passavam a 160 e as de 75 réis passavam a valer 80 réis.


Nascia assim o Carimbo de Escudete:
“(...) Sou servido a determinar que marcadas a punção com as minhas reais armas, corram em qualquer parte do Estado do Brasil as seguintes moedas de prata, e cobre, com os valores abaixo declarado, a saber: A moeda de cobre chamada antiga, cujo peso específico é o duplo da que se emitiu no ano de mil oitocentos e três, e valia quarenta réis, passará a girar por oitenta réis, igualmente a de vinte, por quarenta réis, e a de dez por vinte réis; a moeda de prata de seiscentos réis passará a representar seiscentos e quarenta réis; a de trezentos, trezentos e vinte réis; a de cento e cincoenta, cento e sessenta réis; a de setenta e cinco, oitenta réis; visto que o valor intrínseco das primeiras é o mesmo que o das segundas, com as quais se igualam no tamanho...”
Assim, qualquer moeda de cobre anterior ao ano de 1799 inclusive, deveria ser “escudetada”, para que seu valor/peso fosse ajustado ao novo padrão.


Temos então:

Antigo padrão: Perdurou desde os primeiros cobres de D. Pedro II até 1799, no governo de D. Maria I, quando as moedas foram desvalorizadas.

1) V reis - 3,58 gramas
2) X réis - 7,17 gramas
3) XX réis - 14,34 gramas
4) XL réis - 28,68 gramas

Novo padrão: Criado durante o governo de D. Maria, reduziu o peso das moedas à metade.

1) V réis (extinto) - 2,79 gramas. Essa moeda não circulou. Foi cunhada apenas na data 1799, pela última vez, em 1881/82 a mando de D. Luis, o rei numismata que queria completar a série de moedas de sua coleção.
2) X réis - 3,58 gramas
3) XX réis - 7,17 gramas
4) XL réis - 14, 34 gramas

Nota: Por uma questão de lógica, se a moeda de V réis de 1799 fosse cunhada no governo de D. Maria I, deveria pesar 1,79 e não 2,79 gramas. Ao que tudo indica, a decisão de cunhá-la com este peso coube ao rei, já que com o peso de 1,79 gramas, a moeda deveria ser cunhada em disco muito fino. 

Antigo X Novo:

1) V réis escudetados = X réis do novo padrão
2) X réis escudetados = XX do novo padrão
3) XX réis escudetados = LX do novo padrão.
4) XL réis escudetados = LXXX do novo padrão.

Com essa operação, o escudete se transformou numa fonte de renda a mais para a Coroa; ao ser escudetada nas casas oficiais, o portador da moeda deveria recolher a diferença aos cofres públicos. Quem escudetasse uma moeda de X Réis, por exemplo, esta passava a valer XX Réis. A diferença de X Réis era recolhida aos cofres do governo.

Apesar da ordem para aplicação dessa contramarca especificar que, para as moedas de cobre, somente aquelas de data igual e anterior a 1799 deveriam ser contramarcadas, esse carimbo tem aparecido em moedas de D. João P.R em datas que vão de 1800 a 1806, além de um único exemplar de X réis 1812R, o que contraria a Lei que ordenava sua aplicação. Admitimos que o fato se deve a uma aplicação errônea.


A PORTARIA Nr. 527 DE D. CARLOS DE PORTUGAL DE 31 DE DEZEMBRO DE 1895.

Em Angola, em 1895 (quando o Brasil já era uma república), o rei de Portugal D. Carlos (1889-1908) ordenou que fosse aplicado carimbo de escudo (escudete) em todas as moedas de prata estrangeiras em circulação.
Como a ordem foi dada para carimbar apenas as moedas de prata, é de se considerar que todas as moedas de outros metais, provenintes desse período - principalmente as de cobre, pois são abundantes - contarmarcadas com o carimbo de escudete, são falsas para enganar o colecionador.

Assim, existe sempre a possibilidade de que a moeda de cobre de X réis de 1812R tenha recebido o carimbo de escudete em Angola e, dessa forma, já que são consideradas falsas as aplicações em metais diferentes da prata, existe a possibilidade de que essa moeda tenha sido “fabricada” para enganar o colecionador.

Trata-se, também, da explicação mais sensata para justificar o aparecimento de moedas brasileiras de prata (960 réis, 640 réis, 320 réis e outras) com carimbo de escudete, já que, no Brasil, somente as moedas da série J e as de cobre anteriores a 1799 (inclusive), deveriam receber o carimbo.

As moedas brasileiras de prata - à exceção daquelas da série J - que aparecem com carimbo de escudete foram nacionalizadas por D. Carlos para Angola. Assim, não fazem parte do acervo numismático do Brasil, não devendo ser incluídas em catálogos nem expostas como sendo raridades.


Para saber mais: Monografias Bentes - O Carimbo de Escudete - Clique aqui

Gens Giulia - Parte I

A Gens era uma instituição romana. O conjunto de famílias que se encontravam ligadas politicamente a uma autoridade em comum, o Pater Gentis. Usavam um nome em comum por se julgar descendentes de um antepassado comum. A gens tinha seu equivalente na Grécia com o nome genos, que se formava a partir de uma grande família consangüínea com um antepassado em comum. A gens ou genos é a unidade. Várias gens constituem uma fratria e várias fratrias uma tribo.

A Gens Giulia (Julia) é uma das mais antigas famílias de patrícios romanos (cidadãos da República que constituíam a aristocracia e nobreza de Roma).

Segundo a tradição, teria origem em Tróia, descendendo de Iulo (Ascânio), filho de Enéias e fundador da cidade de Alba Longa sobre as colinas albanas (Castel Gandolfo, "comuna" italiana da região do Lácio, província de Roma).

Foi uma das "gentes" que Tullo Ostilio acolheu em Roma depois da destrução de Alba Longa. A Gens Julia, devido à sua remota antiguidade deveria ser incluída entre as gentes originárias de Roma, citadas pelo historiador Tito Lívio, uma falta que certamente deve ter pesado muito a Caio Júlio César que muito insistiu sobre a influente origem de sua Gens.

Figura: Gaio Giulio Cesare (Caio Júlio César) - Denário de prata cunhado entre 49 e 48 a.C.(diâmetro:17 mm, peso:4,01 gr.) / Anv: CAESAR, elefante (símbolo de César) avança à direita e pisa em uma serpente / Rev: Simpulum (concha), aspergillum (aspersório usado por sacerdotes para ungir a população), securis (machado) e um apex (tiara).
Nota: Alba Longa - É uma cidade lendária que teria sido fundada por Ascânio, o filho de Eneias. Existem várias versões sobre as origens da cidade.
De acordo com Diodoro Sículo, Eneias teve dois filhos, Ascânio, filho de uma mulher troiana, e Sílvio, filho de Lavínia, filha de Latino. Enéias se tornou rei dos latinos três anos após o final da Guerra de Tróia, reinou por três anos, e desapareceu do mundo dos mortais, recebendo honras como um imortal. Ascânio foi seu sucessor, e fundou Alba Longa nas margens do rio Alba, e que mais tarde passou a ser chamado de Rio Tibre. Após a morte de Enéias, Ascânio tentou matar Sílvio quando ainda era uma criança, abandonando-o na montanha; salvo de um cruel destino ao ter sido encontrado por pastores. Após a morte de Ascânio, rei de Alba Longa, Iulo (filho de Ascânio), e Sílvio, disputaram o trono. A população decidiu, por voto, que Sílvio seria o rei, com Iulo exercendo funções sacerdotais como "Pontifex maximus", equivalente a um segundo rei. De acordo com Floro, Iulo era filho de Enéias, sendo o ancestral dos reis de Alba Longa.


ÁRVORE GENEALÓGICA - DINASTIA GIULIO CLAUDIA

Os "júlios" já existiam em Boville, cidade italiana da província de Frosinone, como resulta da inscrição de um altar de um antigo teatro da cidade, citando as oferendas e sacrifícios das "gentes", em concordância com as leis e rituais albanos. A conexão dos "Júlios" à Boville é ligada inclusive ao sacrário (capela) que o imperador Tibério dedicou à Gens Júlia naquela cidade, onde foi erguida estátua em homenagem a Augusto.

Enéias era filho de Vênus e de Anchises; Iulio era filho de Enéias e de sua mulher troiana Creusa, enquanto Ascânio seria filho de Enéias e de Lavínia, filha do rei Latino.

Imagem á esquerda: Enéias escapa de Tróia em chamas. André Van Loo (1729) Museu do Louvre.



Figura acima: Árvore genealógica dinastia Giulio Claudia. Legenda: (1) Primeiro cônjuge. (2) Segundo cônjuge. (3) Terceiro cônjuge. A linha pontilhada indica: a) Adoção quando estiver na vertical e b) Casamento, quando for lateral. Clique na imagem para ampliar.


Diversos membros desta gens obtiveram as mais altas dignidades e honrarias do estado nos primeiros períodos da República Romana. O primeiro a obter o cargo de cônsul foi Gaio Giulio Iullu em 489 a.C.. A Gens Júlia foi certamente uma das famílias mais ilustres da República; seus membros ocuparam os mais altos cargos da magistratura, o consulado por bem 29 vezes, até a chegada dos Césares. A Gens Júlia ficou notoriamente conhecida graças ao seu expoente maior Gaio Giulio Cesare (Caio Júlio César), ditador e tio (além de pai adotivo) do imperador Augusto. A partir de então, o nome vem transferido, dando lugar à dinastia Giulio-Claudia do I século d.C..

A Gens Julia deu seu nome à própria Via Giulia Augusta, construída por Augusto em 13 a.C.; partindo de Piacenza, passando por Torton e Vado Ligure, percorria toda riviera ligure em direção à Gallia, atingindo Arles (Arelate), onde encontrava a Via Domizia. Em Roma, o pórtico Saepta Iulia tomava o nome dessa Gens.

Os primeiros cinco imperadores romanos que governaram de 27 a.C. a 68 d.C., quando o último da linhagem (Nero) suicidou-se com a ajuda de um escravo libertado. A dinastia vem assim chamada do "nomen" (nome de família) dos 2 primeiros imperadores: Caio Julio César Otaviano (o imperador Augusto), adotado por Julio César e, portanto, da família Julia, e Tibério Claudio Nero (o imperador Tibério, filho de primeiras núpcias de lívia, mulher do imperador Augusto), que pertencia, por nascimento, à família Claudia (Gens Claudia).
Augusto (27 a.C. - 14 d.C.)
Tibério  (14 d.C. - 37 d.C.)







Calígula (37 d.C. - 41 d.C.)

Cláudio (41 d.C. - 54 d.C.)

Nero (54 dc. - 68 d.C.).