Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira

"...A constituição da soberania em D. Pedro portava
consigo uma concepção de ordem social, que
almejava evitar a revolta popular, arrefecer ou
minimizar os outros quereres sociais que se
confrontavam em meio à escolha por
D. Pedro, tal como se vê na extremada do
Maranhão, Pará, Pernambuco e Bahia
em que se temia, no limite, um levante de
negros/escravos, uma espécie de “haitinização” do país..." 
A adesão das Câmaras e a figura do imperador
Iara Lis Carvalho Souza - Revista Brasileira de História.

Dois relevantes episódios da história do Brasil, distantes apenas 10 meses um do outro (o primeiro em janeiro e o segundo em setembro de 1822) marcaram a emancipação brasileira do domínio lusitano, encerrando, por assim dizer, 322 anos de colonização portuguesa na América: o Dia do Fico e o Grito do Ipiranga.

A presença dos Bragança no Brasil, desde 1808, e a permanência do herdeiro do trono depois da volta de D.João VI para Lisboa, em 1821, refrearam um movimento separatista violento e desagregador como ocorreu no restante do continente. Com dois "gritos" (não imaginar berros), D. Pedro I concedeu ao Brasil a tão desejada autonomia sem os tormentos de uma guerra de independência prolongada e sangrenta, com um país provavelmente dividido em dezenas de republiquetas.

Por duas vezes consecutivas, o jovem imperador fora convocado pela Corte de Lisboa, para que retornasse a Portugal; por duas vezes D. Pedro negou-se a ir. A primeira vez, em 9 de janeiro de 1822 quando, na varanda do paço do Rio de Janeiro, acatou o manifesto contendo milhares de assinaturas que José Clemente Pereira (presidente do senado da câmara) apresentou-lhe, implorando para que ele não partisse. A segunda vez, no dia 7 de setembro do mesmo ano, ocasião em que o príncipe, às margens do riacho Ipiranga, como nos conat a história, respondeu ao apelo de um outro manifesto, agora colhido por José Bonifácio em toda a capitania de São Paulo, com oito mil nomes, suplicando ao imperador que rompesse definitivamente com a Metrópole. Duas difíceis decisões, dois "gritos", provavelmente insuflados pelas lojas maçônicas e por uma pequena parcela da população, fizeram do Brasil, um império independente de Portugal. Os dois acontecimentos foram imortalizados por Debret e por Pedro Américo.

No primeiro grito, D. Pedro disse "-não vou"; no segundo foi solidário ao país que se insurgia. Ao voltar de Santos para São Paulo, depois de seu périplo de mais de 600 quilômetros pelo interior, por onde cavalgara por 24 dias, refeito das emoções do riacho Ipiranga, desarreiando-se, inquieto, compôs o Hino da Independência. Ao adentrar a noite no camarote do teatro, não muito distante do Colégio dos Jesuítas, da platéia alvoroçada partiram os gritos "Independência ou Morte!" O varão dos Bragança, bom músico, dominando o fagote, o piano, a viola e o rabecão, com voz de tenor, venceu a disputa no grito.

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Com a revolta anti-absolutista do Porto de 1820, o poder concentrara-se nas Cortes de Lisboa, instrumento dos liberais que, cansados dos excessos terroristas dos jacobinos franceses de 1793, preferiram permanecer obedientes a um regime com rei, leis e parlamento. Levaram oito meses tentando convencer D. João a retornar à Metrópole, o que aconteceu em 26 de abril de 1821, quando embarcou com seu séquito rumo a Portugal.

O cenário político do Brasil, na época, visto de quem se encontrava, principalmente, no centro-sul do país, era assustador. O Nordeste já se revoltara em 1817, a Bahia, seguida do Pará e do Maranhão, as principais províncias do Norte, que em extensão representavam um terço do país, já eram regimentos rebelados que não acatavam as ordens vindas do Rio de Janeiro. O Sul de certa forma sossegou, quando o coronel gaúcho Manoel Carneiro da Silva e Fontoura, em nome da unidade nacional, juntou-se "à vontade unânime dos povos do Rio de Janeiro, Minas e São Paulo", no apoio ao príncipe, no que ficouconhecido como " o dia do Fico".

Às margens do Brasil a situação não era muito diferente. Os vizinhos sul-americanos já haviam pego em armas há mais de dez anos, gerando caudilhos em cada rincão. No México, um general esquizofrênico (Iturbide) sufocara os revolucionários em 1821, proclamando-se imperador Augustin I.

No dia 7 de setembro de 1822, em uma viagem de volta de Santos para São Paulo, D. Pedro I proclama o seu segundo grito, o da Independência. A data é considerada como sendo a da emancipação do Brasil como nação, o dia da Independência do país. Ao contrário do que muitos imaginam, a Corte não aceitou a coisa pacificamente, sem esboçae reação. Durante algum tempo, as lutas em diversos pontos do território brasileiro contra tropas portuguesas que defendiam a continuidade da dominação de Portugal sobre o Brasil, ameaçaram a liberdade do país de decidir seu próprio destino. Essas lutas pela consolidação da Independência prolongaram-se do final de 1822 até a metade de 1823. Além do Rio de Janeiro, estenderam-se pelas províncias da Bahia (até julho de 1823), Pará (outubro de 1823), Maranhão, Piauí, Ceará (agosto de 1823) e Cisplatina ( região Sul do País).

A libertação de Salvador do domínio de tropas portuguesas foi longa e difícil. Na realidade, as lutas contra as forças portuguesas do Brigadeiro Madeira de Melo, a mais alta autoridade militar da Província, começaram a crescer desde 1821. Com a independência proclamada por Dom Pedro, os conflitos aumentaram.


A HISTÓRICA BATALHA DO 2 DE JULHO DE 1823

A história da batalha do 2 de Julho se inicia ainda em 1821, ano em que fora constituída a Junta Governativa (Junta Provisória do Estado da Bahia), resultantes da Assembléia Revolucionária que se reunia para administrar as Províncias de acordo com as Cortes de Lisboa, e o Brasil condecorado Reino Unido de Portugal. Até aí, no país, portugueses e brasileiros se encontravam “unidos”. Mas essa condição não duraria muito tempo. 

Logo D. João VI recebe um mandato para voltar a Portugal. É nesse momento que começa a luzir um interesse de separação da então ex - colônia de Portugal com o país colonizador. O Brasil não aceitaria ser “prisioneiro” de nação alguma.

Em 29 de Setembro de 1821 é feito um decreto onde se estabeleceriam decisões políticas para o Brasil, construídas pelas Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituinte da nação Portuguesa juntamente com o rei. A exemplo de algumas questões colocadas neste decreto estariam: o retorno ao antigo sistema monopolista da exportação dos produtos brasileiros aos portos de Lisboa, Porto e Viana e, o estabelecimento de Lisboa como único centro político e administrativo do Brasil. 

A insatisfação dos brasileiros aumentava em relação à sua condição perante a Portugal. Os Portos já haviam sido abertos para as nações vizinhas, em 28 de janeiro de 1808; logo o Brasil já exportava e importava independentemente do aval de Portugal para outras nações; o País acreditava em uma autonomia. 
Em 12 de novembro de 1821 houve um confronto entre o exército Português e o Nacional; a Praça da Piedade vira local de guerra e o ano de 1821 termina com muita tensão.

A 31 de Janeiro de 1822 é feita uma nova Junta Governativa, e em 15 de Fevereiro do mesmo ano, a tensão volta à cidade. É nomeado Governador das Armas do Exército Português o Tenente-Coronel Inácio Luiz Madeira de Melo, pela Carta Régia de 9 de dezembro de 1821. No mesmo dia 15, o então Brigadeiro toma o cargo frente ao governador das Armas interino, Manoel Pedro de Freitas Guimarães. O objetivo de Portugal com essa atitude era manter o império colonial português no Brasil com o reforço militar de Portugal.
A notícia deveria ter passado pela Câmara Municipal, pela Junta Governativa e até mesmo pelo interino, não sendo estes avisados, sendo obrigados a aceitar as decisões vindas de Portugal.



Proprietários de escravos, terras, engenhos e arraiais de gado, reclamavam dos juros de agiotagem português; a Bahia hospedava tropas do exército português superiores em números de oficiais - além de soldados, armas, e munições - aos oficiais brasileiros que viviam relegados nos regimentos.

Foi dessa maneira que a Bahia recebeu a notícia da nomeação do tenente-coronel Madeira de Melo 
O governo da Bahia atendia a uma subordinação da então Junta de Governo Provisório às Cortes, que defendia o ideal constitucionalista, que veio a tomar os brasileiros nesta luta pela independência. Entre aceitar uma monarquia absolutista ou outra constitucional, a segunda idéia era mais bem aceita pela maioria.
Começa novamente um clima de tensão na cidade, e o então governador português das armas ameaça reagir a qualquer movimentação subversiva suspeita, mesmo sem comunicação prévia à Junta. 

Em 19 e 20 de fevereiro de 1822, num novo confronto, ocorrem tiros no Forte de São Pedro, para onde correram as tropas portuguesas, vindas do Forte São Bento. As Mercês, a Praça da Piedade e o Campo da Pólvora viram campo de batalha, o exército português tenta invadir quartéis como Forte de São Pedro, que não é tomado e, o Convento da Lapa. Neste último episódio morreria a Sóror Joana Angélica, ao tentar impedir a entrada do exército, a 19 de fevereiro. Salvador é então tomada pelas forças comandadas por Madeira de Melo.

Chegam ao Brasil tropas de reforço para o exército Libertador, que haviam partido do Rio de Janeiro em 14 de Julho 1822, comandada pelo Capitão Rodrigo Antônio de Lamare. Os navios que comandava tinham bandeira portuguesa, o que deu condições para prosseguir após ludibriar navios portugueses que chegavam com reforços ao litoral da Bahia, conseguindo um desembarque a 25 de outubro do referido ano, por Maceió. 

As tropas partiram para Recife, com o objetivo de buscar mais contingente para o exército, indo em direção à Sergipe (São Cristóvão) e Inhambupe, onde ordena, por carta ao Coronel Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, que sejam reunidas todas a forças num sítio denominado Feira do Capuame, para entrada das tropas em Salvador. Quando isso aconteceu já havia sido proclamada a Independência do Brasil a 7 de Setembro de 1822. 
Depois de reunir todo o seu exército, o coronel Joaquim Pires de Carvalho passa o comando para o General francês Pedro Labatut. Começa assim a defesa e luta pela independência. 

Labatut organiza seu exército formado por oficiais de milícias e proprietários de terras e engenhos, brancos pobres, lavradores, plantadores de fumo e mandioca, crioulos livres (nascidos no Brasil, filhos de escravos africanos) escravos crioulos e escravos africanos doados pelos senhores de engenho, juntamente com os Voluntários do Pedrão, batalhão formado por vaqueiros sob o comando do Frei Maria do Sacramento Brayner. Este exército vinha tomando o interior, chegando cada vez mais perto de Salvador.

Madeira de Melo ainda tenta uma contrapartida, tentando fechar o cerco entre a Ilha de Itaparica e Barra do Paraguaçu, sendo aí impedido e combatido pela única mulher a se registrar no exército brasileiro, Maria Quitéria de Jesus, e seus companheiros do Batalhão dos Periquitos, comandado por José Antônio da silva Castro. 

O General Labatut foi deposto após uma conspiração de militares brasileiros. O comando das tropas libertadoras foi passado a Joaquim de Lima e Silva. Labatut é preso na Casa da Câmara e Cadeia de Maragogipe (Masmorra do Paço), por conta de desentendimentos com a aristocracia ao montar um batalhão de escravos dando condições aos mesmo de fugirem.


“Aparentemente, o general confiscara e recrutara à força os escravos de alguns senhores portugueses que estavam ausentes, principalmente a família Teixeira Barbosa, e em decorrência disso corriam boatos que qualquer escravo que se oferecesse voluntariamente seria liberto.” 

Sob o comando de Lima e Silva, a partir de junho de 1823, com a ajuda da marinha, o mesmo fecha as portas de entrada de materiais de primeira necessidade à cidade de Salvador, então tomada pelos portugueses. 

Assim, com fortes ataques e passando necessidades, o Brigadeiro Madeira Melo faz um apelo à coroa, sendo finalmente derrotado no memorável 2 de Julho de 1823. Estava declarada a Independência do Brasil na Bahia. O Coronel Joaquim de Lima e Silva entra em Salvador triunfante junto aos seus combatentes, entre eles negros libertos e escravos. 


Casa da Moeda – VILA DA CACHOEIRA (07/06/1823 – 04/07/1823)

Como vimos, desde o início do ano de 1822 as relações entre a Colônia e Portugal vinham se deteriorando. A situação se agravou após o ato de proclamação da Independência, a 7 de setembro daquele ano. Na Bahia, as lutas armadas entre o partidos brasileiro e português eram frequentes. Como conseqüência, começou a grande retirada dos moradores da capital para a Vila da Cachoeira. 
A cidade de Salvador encontrava-se dominada pelas forças comandadas pelo Brigadeiro português Inácio Luiz Madeira de Melo que, mesmo após a declaração da Independência, permanecia à frente da força militar, ordenando a ocupação da cidade. 

A violência imperava na região, ocasionando a fuga da população. O centro das operações foi transferido para a Vila da Cachoeira, ali instalando-se o Conselho Interino de Governo. A luta pela consolidação da Independência do Brasil, na Bahia, somente terminou a 2 de Julho de 1823, cessando as atividades do Conselho, sendo constituído um Governo Provisório e retornando os serviços à Capital.

A importante decisão de instalar uma Casa da Moeda em outro local diferente daquele em que se encontrava na Capital da Província, foi comunicada a D. Pedro e solicitada sua aprovação. As instalações em Salvador estavam inutilizadas tendo seus oficiais e operários partido em fuga para o interior seguro. A Casa da Moeda passou então a funcionar em Vila da Cachoeira, no Convento do Carmo, tendo iniciado seus trabalhos em 7 de junho de 1823. No dia 4 de julho de 1823, poucos dias depois, encerrou suas atividades. Durante sua curta existência, cunhou apenas uma moeda de cobre, no valor de LXXX Réis.


Algumas batalhas ficaram na história, como a de Pirajá em 08 de Novembro de 1822, em que o exército brasileiro resiste aos ataques portugueses e são derrotados pelo general Labatut, homenageado com o Panteon, localizado no próprio bairro. 


BATALHA DE PIRAJÁ – 08 DE NOVEMBRO DE 1822

Pirajá constituía para a força brasileira ponto chave da defesa, por sua posição dominante. Por ela passava a tradicional estrada das Boiadas, ligando Salvador com o norte da Bahia . A posse de Pirajá representava, para os patriotas , o domínio da enseada de Itapagipe e, o corte da entrada de víveres e de gado para o abastecimento de Salvador .

Ciente da relevância de Pirajá, Madeira de Melo procurou controlá-lo. O seu plano de ação para 8 novembro de 1822, consistia em atacar o Exército Patriota em sua base de operações, Pirajá, dividindo-o em duas partes, destruir uma parte e obrigar o restante a retirar-se na direção do norte. Dessa forma ,esperava romper o cerco de Salvador e ter acesso ao sertão.

Ao amanhecer do dia 8, a Infantaria portuguesa desembarcou em Itacaranha e Plataforma, chefiada pelo Coronel João de Gouveia Osório, comandante da Legião Constitucional Lusitana. Ao mesmo tempo outras tropas atacaram Cabrito, ameaçando a retaguarda brasileira. Para lá acorreram reforços. Os nossos bravos, apoiados no Coqueiro, Bate-Folha e em São Caetano, resistiram. Dirigiu o combate o Tenente - Ajudante Alexandre de Argollo Ferrão.
Nas encostas de Pirajá, a luta assumiu grandes proporções. Segundo o Barão do Rio Branco, “o comandante da posição, Tenente - Coronel José de Barros Falcão, que trouxera ajuda de Pernambuco, possuía cerca de 1.300 homens, assim distribuídos: Batalhão de Pernambuco; Batalhão de Milicianos do Rio de Janeiro; Legião de Caçadores da Bahia; Corpo Henrique Dias; uma companhia do 1º Regimento de Infantaria da Bahia . Comandantes respectivos : Major José da Silva Santiago, Capitão Guilherme José Lisboa, Tenente Alexandre de Argollo Ferrão, Major Manuel Gomes da Silva, Alferes Francisco de Faria Dutra, e uma bateria de Artilharia do Rio de reforço. 

O efetivo de Madeira de Mello englobava os 1º e 2º batalhões da Legião Constitucional, os 4º e 10º regimentos de Infantaria, e um contingente de Artilharia. Combateram 5 horas, sem um resultado decisivo. Depois, um violento ataque de Madeira de Melo quase rompeu a linha brasileira, ameaçada de ser dividida em duas partes. As colunas inimigas já progrediam sobre as alturas de Pirajá. Foi quando o Coronel Barros Falcão, para evitar o envolvimento ordenou a retirada. 

Contou Accioli, contemporâneo do episódio, que o corneteiro Luís Lopes, num rasgo de iniciativa, ao invés de obedecer, tocou, com toda a firmeza: “Cavalaria, avançar!” As tropas portuguesas vacilaram, surpresas e, em seguida, ouviram o segundo toque: “Cavalaria, degolar!” Hesitantes, os inimigos recuaram, enquanto os brasileiros, animados, avançavam, perseguindo-os a ponta de baionetas, levando-os de roldão até a praia onde embarcaram em desordem.. Na batalha de Pirajá, o nascente Exército Brasileiro conseguira firmar o seu valor, elevando o seu moral, ao derrotar forças experimentadas e mais bem equipadas.
Os portugueses renunciaram definitivamente à conquista das posições de Pirajá, conformando-se em manter Salvador em seu poder, reconhecendo o poder e o prestígio do Governo de Vila da Cachoeira. Os seus suprimentos se limitavam ao recebidos por mar, do apoio da esquadra inimiga.


PERSONAGENS:

BRIGADEIRO IGNÁCIO LUIZ MADEIRA DE MELO - Militar português, legitimo de Portugal, nascido em Chaves, no ano de 1775, Madeira de Melo tornou-se cadete do exército de Portugal em 1791, aos 16 anos. Fora alferes em 1797, e tenente-coronel pelo seu desempenho na batalha de 1814 e coronel em 1818. Dirigiu as tropas portuguesas nos combates da guerra de independência na Bahia de 1822 a 1823, nessa época condecorado a Brigadeiro. 


PIERRE LABATUT - Pierre Labatut, dito Pedro Labatut, (Cannes, 1768 - Salvador, 1849) foi um militar francês que combateu na Guerra da Independência dos Estados Unidos da América ao lado do Marquês de La Fayette e depois na Guerra de Independência do Brasil. Tendo servido na Europa, na Guerra Peninsular, esteve posteriormente na Colômbia, ao lado de Simon Bolívar, com quem não se entendeu bem. Foi para as Antilhas e depois para a Guiana Francesa. Veio para o Brasil, onde, no Rio de Janeiro, foi contratado e admitido ao serviço do Príncipe Regente D. Pedro a 3 de julho de 1822, no posto de brigadeiro, em razão da carência de oficiais de alta patente no exército recém organizado.


O CORNETEIRO LUÍS LOPES - Também atribuído ao folclore a existência do corneteiro português lutando pelas trincheiras baianas que, na decisiva Batalha de Pirajá, recebera a ordem de tocar a retirada e inverteu o toque para avançar cavalaria a degolar, apavorando os portugueses em franca vantagem e enchendo de inaudito ânimo as tropas brasileiras que venceram a batalha.


JOSÉ JOAQUIM DE LIMA E SILVA - Visconde de Magé, nascido em 24 de julho de 1788, foi um militar brasileiro. Por um breve período, em 1823, foi presidente da então Província da Bahia. Tomou parte nas lutas da Guerra da Independência do Brasil, como general do Exército Pacificador Brasileiro, na então Província da Bahia, onde lançou uma proclamação às tropas do general português Inácio Madeira de Melo.


JOANA ANGÉLICA DE JESUS - Heroína da Independência Nacional. Nascida em Salvador, Bahia, a primeira mártir a tombar no solo baiano e que sacrificou a própria vida na defesa da clausura do convento da Conceição da Lapa, na Bahia contra o exército português. 

De família tradicional, era filha de José Tavares de Almeida e de Catarina Maria da Silva. Aos 20 anos optou pela vida monástica (1782), ingressando no noviciado no Convento de Nossa Senhora da Conceição da Lapa, na capital baiana, tornando-se franciscana do ramo das Clarissas. 

Após o noviciado foi irmã, escrivã, vigária e abadessa do convento da Conceição. Com a revolta dos soldados brasileiros contra a nomeação, no início do ano, do brigadeiro lusitano Inácio Luís Madeira de Melo para comandante das armas da província (1822), soldados portugueses, sob o pretexto de haver patriotas escondidos no convento, derrubaram a porta a golpes de machado. 

Ocupava a direção do Convento, em fevereiro, quando à entrada da clausura, enfrentou os soldados lusitanos, que tinham vindo para Salvador desde o Dia do Fico. Teve o peito trespassado por baionetas. Esvaindo-se em sangue foi levada para um sofá de palhinha, que ainda pode ser visto nos dias de hoje, e faleceu pouco depois, tornando-se a primeira mártir da grande luta que continuaria, até a definitiva libertação da Bahia, no ano seguinte.


FREI JOSÉ MARIA DO SACRAMENTO BRAYNER - Pernambucano nascido na terra, no ano de 1778 , filho de português com uma pernambucana, Padre José Maria do Sacramento Brayner entrou para a vida religiosa ainda em Pernambuco, no Convento dos Carmelitas Calçados muito jovem. Em 1817, em meio a Revolução Pernambucana, aderiu ao movimento. Devido ao seu envolvimento em questões políticas, em 26 de maio de referido ano, após a derrota dos revolucionários, é preso e julgado. Foi levado a Salvador, chegando a cidade em junho do mesmo ano onde permaneceria preso por 4 anos, sendo um dos seus colegas de cárcere o Frei Caneca.

Após ter cumprido a pena, resolveu permanecer em Salvador. Em 12 de outubro de 1822, fez um requerimento ao Conselho Interino de Vila da Cachoeira e ofereceu seus serviços à Pátria estremecida. Formou então um grupo de guerrilha, que ficou conhecido como Voluntários do Pedrão formado por 40 pessoas, que lutou sob o seu comando pela independência.
Hoje esses 40 integrantes do Voluntários do Pedrão são representado na festa do 2 de Julho por 40 vaqueiros montados a cavalo. O grupo fazia parte do corpo do Exército Pacificador, que começara agir a partir de dezembro de 1822 até a vitória brasileira em julho de 1823, sob o comando de Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque.
Depois de lutar em prol da Independência, ocupou o lugar de Capelão da Relação Civil e foi agraciado com as comendas de Cristo e do Cruzeiro. Já em 1833, morando na Ilha de Itaparica, exatamente em 17 de Agosto, foi proclamado Juiz de Paz do 1º distrito daquela ilha, e vigário em 1835. 
A 16 de Novembro de 1850, aos 72 anos de idade, faleceu o então Rev. Sr. Vigário José Maria do Sacramento Brayner, sendo sepultado na Matriz do Santíssimo Sacramento de Itaparica.


CONSIDERAÇÕES

Num primeiro momento as forças pró-independência no Brasil tentaram a via insurrecional, com o fracassado levante autonomistas de 1817 no Nordeste ( que voltou a cena da política nacional com o movimento republicano-separatista da Confederação do Equador de 1824). O temor porém que ocorresse um super-Haiti ou uma longa e dolorosa guerra fratricida como estava ocorrendo nos outros países vizinhos, fez com que as oligarquias brasileiras refletissem em busca de uma outra solução, uma terceira via entre a terrível matança de brancos que a revolução dos escravos haitianos provocara e a guerra contra a metrópole espanhola. Daí a independência brasileira procurar navegar nas águas mais calmas da solução negociada e conciliatória. A saída encontrada, com o empenho especial de José Bonifácio, foi convencer o Príncipe Regente português D.Pedro de Alcântara a aceitar romper com as Cortes metropolitanas, ao mesmo tempo em que por aqui - seguindo o exemplo do General Iturbide do México (que proclamou-se imperador como Augustin I) -, entronavam-no como Imperado do Brasil, tornando-se D.Pedro I. Para evitar uma calamitosa rebelião das senzalas e por força do espirito iluminista a que aderira, José Bonifácio estudou a possibilidade de uma proibição progressiva do tráfico de escravos que demanda-se uns cinco ou seis anos, bem como apresentou à constituinte de 1823 um projeto que visava a abolição. Não conseguiu nenhum dos intentos.

Com a adoção vitoriosa dessa política de conciliação (entre os interesses de uma independência inevitável e uma dinastia que aqui garantiria os interesses de continuidade dos portugueses) liderada pelos irmãos Andrada:

1. Mantinha-se ainda um laço afetivo e dinástico com o Reino de Portugal, dando continuidade a soberania civil e a integridade territorial do ex-Império Colonial Português.

2. Contornava-se o caudilhismo que assolava o resto da América espanhola e, evitando a sucessão de tiranos militares, ou a intermitente guerra intra-caudilhista que infelicitava os países latino-americanos.

3. Impedia-se que uma guerra civil de longa duração contra a metrópole “contaminasse” as senzalas levando-as à rebelião sangrenta e vingativa.
A resistência maior a esse grande acordo, além de outros focos de intransigência, como ocorreu em Belém do Pará, deu-se por parte do General Madeira de Mello, o comandante português da Bahia, talvez a província mais rica do Brasil naquela época, que rebelou-se contra a solução negociada, negando-se a reconhecer a autoridade de D. Pedro I, bem como sua ordem para que regressasse à Portugal. Por isso, até hoje, os baiano celebram a data da independência num dia especial, o 2 de julho de 1823, quando as tropas portuguesas, cercadas pelo General Lima e Silva e pelo Almirante Cochrane, reembarcaram em Salvador de volta para a metrópole.

É possível viver da numismatica?

Flexibilidade, a palavra de ordem na economia globalizada, muitas vezes direcionada ao mercado de trabalho, dirigida principalmente aos jovens, mas não somente. Em teoria, uma palavra que nos faz imaginar cenários de amplo otimismo em relação ao futuro, com trabalhadores que migram, com relativa facilidade, de um setor a outro da economia, reciclando performances, atributos e especializações, ampliando competências, até mesmo por mais de uma vez, no curso de uma inteira vida de profissão, adaptando-se em modo indolor à uma realidade em evolução, onde conquistar um posto fixo muitas vezes se assemelha a visão de uma miragem no deserto.

Uma palavra que, muito pelo contrário, na prática esconde uma inevitável dificuldade ligada a inúmeras variáveis tais como, a quase impossibilidade de reciclar seus conhecimentos a fim de migrar para outro setor, ou o medo de transmigrar, mesmo sabendo que isso representaria um salto de qualidade na vida profissional, com mais oportunidades, desejos satisfeitos, prazer no que se faz, acesso à estabilidade financeira, etc. É assim que entusiasmo se transforma em sentimento de impotência, e desejo em frustração. A situação econômica nacional e mundial não deixa perguntas sem respostas, ou pelo menos nos faz antever um futuro um tanto sombrio no que diz respeito ao mercado de trabalho futuro. Basta entender que a outra palavra, crescimento, é tão somente uma curva exponencial. Como imaginar uma sociedade que cresce numa espécie de moto contínuo, sem que, antes ou depois, tudo vá por água a baixo?

Recentemente recebemos um e-mail de um leitor com o texto que se segue (por respeito à sua privacidade manteremos no anonimato a sua identidade):

''Prezados senhores.

Tenho 38 anos e sou um apaixonado incondicional da numismática que abracei como hobby ainda na adolescência, dedicando meus estudos e minha pequena coleção, em particular, às moedas de prata do Brasil pré-republicano.
O motivo pelo qual resolvi escrever aos senhores, resulta de um sonho que, há algum tempo, venho pensando em concretizar. Atualmente estou empregado em uma grande fábrica, trabalhando em setor especializado, profissão para a qual me preparei convenientemente como técnico, cursando escolas que me qualificaram a trabalhar como profissional de metalurgia, o que já faço há quase 20 anos.

Todavia, o tempo passou e com ele, minhas aspirações e desejos mais íntimos que hoje me impulsionam a deixar o setor onde trabalho para me dedicar inteiramente à numismática. Assim, gostaria de saber a opinião dos senhores a respeito e, se possível, obter uma dica ou orientação para saber o que deveria fazer para, por exemplo, trabalhar em um museu, no setor dedicado às moedas de coleção ou numa autarquia que me desse a possibilidade de estar sempre próximo daquilo que tanto amo.

Sei que minha idade pode ser um empecilho, pois acredito ter decidido tarde por algo que realmente poderia me satisfazer em termos de profissão. As necessidades da vida cotidiana sempre me induziram a procurar a estrada mais simples para o meu sustento e da minha família o que é bom por um lado, mas me deixa completamente frustrado no que diz respeito à minha satisfação pessoal. Talvez eu não tenha mais esperança em alcançar meu objetivo de vida, por isso gostaria de ouvir a opinião, otimista ou pessimista, de pessoas envolvidas nesse fascinante mercado, de forma a poder me animar e sustentar meu projeto de vida, algo que habita meu coração desde garoto, uma paixão que, seja lá como for, continuarei a seguir com vigor e empenho pelo resto dos meus dias, independente de se terei ou não a oportunidade de trabalhar no maravilhoso e imortal mundo dos que se dedicam às moedas e à sua história.''



A pergunta que fazemos é: Como responder a uma carta dessa natureza?

Meditamos - ou melhor, meditei - longamente, em particular eu que escrevo esse artigo, debruçado sobre estas palavras, a fim de dar uma resposta que pudesse, de alguma forma, exaurir essa ambiguidade de anverso e reverso.

Indubitavelmente me dá um prazer imenso conhecer pessoas tão genuinamente apaixonadas pela numismática, a ponto de considerar a hipótese de colocar em xeque a própria profissão para a qual se preparou, vislumbrando uma radical - e por que não dizer, diametral - mudança de vida para dedicar-se, em tudo e por tudo, ao fascinante mundo das moedas - usando as próprias palavras de quem nos escreve - objeto do nosso amado hobby e, diga-se de passagem, ciência como são todas as outras frutos das aspirações do intelecto humano.

Todavia, frequentemente na numismática brasileira nos deparamos com uma barreira quase insuperável, quando imaginamos a nossa numária como objeto de estudo e interesse de museus e universidades. Para tanto basta consultar os anais acadêmicos e constatar que inexistem profissionais dedicados à pesquisa da numismática como ciência e/ou como ferramenta auxiliar no estudo da nossa própria história. Pode parecer um descaso absurdo, mas infelizmente é assim que as coisas se mostram na cultura brasileira que ultimamente parece não interessar nem mesmo às escolas que vem, a cada ano que passa, mais e mais, negligenciando com as tradições e a história do país, dando lugar a ''ensinamentos'' questionáveis e equivocados.

Nenhuma cadeira especializada, nenhuma faculdade dedicada ao assunto, nem mesmo a nível de curso extra-curricular, nenhum sustento do governo, zero em matéria de fundos para um setor tão enraizado com a nossa história. Nenhum apoio à exposições, eventos numismáticos e quase nada para outros setores da cultura. A filatelia brasileira, por exemplo, passa por uma das suas maiores crises, o que pode ser considerado um desestímulo para tantos que se dedicam ao estudo e colecionismo dos selos brasileiros. 
Catálogos e publicações didáticas, só mesmo com o esforço quase sobre-humano de alguns poucos altruistas, homens e mulheres (são poucas, mas existem) apaixonados e que, dedicando uma inteira vida ao assunto, formam um grupo seleto, destacado no cenário atual do que hoje é a nossa numismática.

Para os ''heróis'' autodidatas como foram Julius Meili, Souza Lobo, Kurt Prober, estudiosos que se empenham com afinco e determinação em sondar com profundidade o assunto, mesmo carecendo de publicações de peso que lhes possa dar sustento, o percurso parece mais simples e em crescimento, apesar da ''via crucis'' que a escolha desse caminho possa representar. Não é frequente, é verdade, que um museu ou fundação se apóie em trabalho sistemático de pessoal fora do seu staff, a menos que se tratem de estudiosos reconhecidamente como tal, inclusive com prestígio no exterior, como foram Kurt Prober e Julius Meili. Estes, em sigilo total, são convidados a estudar, classificar e catalogar inteiras coleções, valendo-se da condição de consultores especializados o que, diga-se de passagem, são pouquíssimos, o que por si só deveria se distinguir em incentivo a que outros se dedicassem ao setor que ainda hoje é um nicho.
Pensar em assumir uma posição estável em um museu ou autarquia, sem um currículo específico que lhe possa dar sustento em termos acadêmicos, eu diria que é improvável e praticamente impossível.

Contudo, aconselhamos ao nosso leitor a não se desencorajar. Mesmo que não consiga, a princípio, transformar-se em um numismata a tempo pleno, a sua paixão - o que se pode notar em sua carta, plena de tanto estusiasmo - poderá lhe permitir dar ao nosso setor uma contribuição inestimável. Nossa mais importante sociedade numismática, a SNB, apesar de não fazer distinções entre seus sócios (se conhecem ou não o assunto com propriedade) é um bom início. Assim, aconselhamos sua filiação à uma das prestigiosas sociedades numismáticas existentes no Brasil, o que irá lhe possibilitar escrever e publicar seus artigos em boletins, fazendo com que seja cada vez mais conhecido no setor.

Infelizmente, a nossa numismática ainda não é tratada como ciência. No Brasil, ser numismata nos coloca mais na condição de ''ajuntadores de moedinhas'' do que de cientistas, uma realidade bem diferente daquela dos países que tratam sua história, a cultura e o conhecimento com o devido respeito. Ainda não temos, por exemplo, a figura do perito numismático certificado por Tribunal, algo tão comum no EUA e em diversos países da UE. O perito numismático é o profissional habilitado a classificar, emitir certificados de autenticidade e opinar em questões judiciais por solicitação do Tribunal,com a devida autorização e reconhecimento do Estado que lhe outorga o mérito por certificado. Pode também colaborar com revista especializadas no setor, escrevendo artigos, etc.

Contudo, falando francamente, não me sinto à vontade para incentivar alguém a deixar sua profissão, estando comodamente empregado e recebendo um salário que, mesmo não sendo uma fortuna, é o suficiente para manter seu atual padrão de vida e, quiçá, sua família. Pode não parecer, mas para formar o verdadeiro profissional de numismática, o numismatógrafo, são necessários anos a fio de estudo e muita dedicação, muito mais do que simplesmente sentar nos bancos de uma faculdade e exibir, ao final do curso, um diploma. Em outras palavras, não depende apenas de ficar debruçado em livros, repetindo o que por fim, se resume em cultura de citação. A numismática é muito mais do que isso; do contrário já teríamos um mercado inflacionado de profissionais. Não é seara em que se possa militar apenas por opção...é muito mais do que isso. Felizmente, o leitor que nos escreve, parece ter bagagem de sobra. Pode não ser o suficiente para mudar diametralmente sua vida, mas não posso negar que é um bom início que lhe permita, não interprender, mas pelo menos elaborar um minucioso plano de passagem de norte a noroeste. 


No Brasil, principalmente, viver de numismática é muito difícil. Nos EUA a coisa é muito mais simples, mas não no nosso país que conta com reduzida, diria até cada vez menor, dimensão, principalmente porque a profissão não regulamentada do numismata já é um tremendo desestímulo. Mesmo porque, e fica aqui a pergunta no ar, qual instituição de ensino se atreveria a ministrar um inteiro curso superior, dedicado ao assunto, sem a possibilidade, sequer, de conseguir formar seu corpo docente? 

Para os que pretendem se empenhar numa atividade comercial, o principal obstáculo é o de ordem financeira. Montar um significativo estoque de moedas a serem comercializadas, toma tempo e requer altos investimentos. Todavia, se encararmos a atividade comercial pela lógica que nos diz ser este tipo de ''mercadoria'' um patrimônio altamente valorizado, investir não iria gerar ansiedade por sentimento de perda. Para os que pretendem todavia, dedicar-se ao patrimônio público e cultural, sou mais pessimista, principalmente porque o nosso país não possui a tradição numismática como acontece nos EUA e em diversos países da Europa.

Contudo, o nosso leitor não deve esquecer que já possui os atributos iniciais para dedicar-se a uma profissão invejável, mesmo que seja tremendamente empenhativa, podendo atingir patamares cada vez mais elavados, bastando para tanto continuar a nutrir a mesma paixão que o levou a nos escrever.

Verdade seja dita, aos que se dedicam ao setor, este parece jamais conhecer períodos de crise. Temos exemplos, no Brasil, de comerciantes e estudiosos que nada tem a lamentar com relação aos frutos obtidos na dedicação ao setor.

Vista parcial das instalações da Bentes italiana, em Torino (Turin).

Finalmente, é sempre bom recordar que a paixão do leitor que nos escreve, estará sempre em condições de pagá-lo pelos momentos de desilusão, sacrifício e fadiga por cada dia em que deve se dedicar ao seu próprio sustento nas atribulações do cotidiano da vida moderna. Certamente, quando chega em casa, quando todos pensam no churrasco do fim de semana ou na saída com os amigos, trancar-se em seu aposento para folhear um novo livro ou catálogo, ou para admirar seus exemplares sob uma lente de aumento, já pagam todo seu sacrifício e a desilusão de não poder, pelo menos nesse momento, dedicar-se ao que tanto e verdadeiramente ama.

Obrigado por nos escrever e, assim, nos dar a oportunidade de externar o nosso pensamento sobre a nossa paixão mútua.

O nosso mais profundo respeito e admiração, não só pela sua dedicação à numismática, mas também por tornar público as suas aspirações e desejos mais íntimos, nos escrevendo abertamente, com a alma e o coração.

Seja bem-vindo ao nosso pequeno, mas seleto círculo.


O retrato de Adele Bloch-Bauer I

Óleo e ouro entremeados na imaginação criadora de um grande gênio da pintura. É uma das mais famosas obras-primas do genial artista simbolista, o austríaco Gustav Klimt, do período conhecido como "idade de ouro" (1905-1909). Retrata Adele Bloch-Bauer, mulher do industrial judeu, Ferdinand Bloch. A figura feminina encontra-se imersa em um drapeado de ouro e peças coloridas finamente esculpidas. Uma densa decoração em folha de ouro envolve e cobre todo o seu corpo. Em meio a todo simbolismo, ressalta aos olhos o rosto melancólico e precioso de Adele, que resume o contraste de ambiguidade entre o erotismo e a transitoriedade da vida, característica dos melhores retratos de Klimt que levou quase 3 anos para completar a obra.

O naturalismo é evidente no rosto e nas mãos de Adele, entremeados por ornamentos preciosos, espirais, triângulos e olhos estilizados, que se confundem com os contornos da figura, evidenciando, de forma muito sutil, a cadeira que contrasta com fundo. O efeito da abstração decorativa e refinada, presente no conjunto, é acentuado pelo uso abundante do ouro, em evidente referência às artes bizantina e egípcia, esta última no olho "Ugiat" (olho de Hórus*, personificado na deusa egípcia Uadjit, padroeira do Baixo Egito), fonte sagrada, símbolo de prosperidade, poder real e boa saúde, que compõem o vestido de Adele. 

A arte Klimt rompeu com a tradição acadêmica do seu aprendizado, revelando um estilo muito pessoal,em que o artista misturava Art Nouveau e simbolismo. Paisagens e retratos são tratados pelo artista com um naturalismo original e estilo próprio, conseguidos através da utilização de elementos decorativos em duas dimensões de ouro que nos fazem recordar as pinturas de vasos de Micenas; gregos, egípcios, gravuras bizantinas e também japonesas, onde se redimensionam ritmos decorativos, harmonias de linhas orgânicas e formas geométricas.

A obra-prima (óleo e ouro sobre tela de 138 x 138 cm) foi comprada pelo magnata dos cosméticos Ronald Lauder que pagou US$ 135 milhões pelo retrato de Adele, em negociação privada com Maria Altmann (Maria Victoria Bloch), última herdeira da família Bloch-Bauer. O comprador declarou que que pretende "doar" a tela à Neue Galerie, um pequeno museu de arte alemã e austríaca, em Nova York.

O quadro, incluindo outras quatro telas de Klimt, estavam expostos no museu de Viena que se apropriou das obras de arte confiscadas pelos nazistas durante a segunda guerra mundial, No julgamento que viu como contrapartes, de um lado o Governo austríaco e do outro, os descendentes de Adele, o veredito dos juízes terminou favorecendo Maria Altmann, que decidiu deixar a tela em herança (após a devida compensação paga por Lauder) na Neue Galerie, em Nova York (as outras 4 obras de Klimt foram leiloadas em 2006 pela Casa de Leilões Christie's de Nova York, num montante de US$ 192,7 milhões de dólares, rapartidos entre os descendentes de Adele.

Alguns críticos e historiadores de arte acreditam que Adele Bloch-Bauer tenha sido a amante secreta do pintor por pelo menos 12 anos. O artista a retratou em 3 outras pinturas: as duas versões de " Judith I", ambos de 1901, onde o protagonista da passagem bíblica (Adele) segura a cabeça decapitada de Holofernes, tornando-se a heroína que liberta os judeus, e "o retrato de Adele Bloch-Bauer II" de 1912.

* Muitos confundem o "olho de Hórus", atribuindo ao simbologismo de Klimt o "olho de Rá" associado à punição e não à prosperidade.

As moedas de 960 Réis - 1ª parte

Preâmbulo
"Rio de Janeiro, cidade a mais ditosa do Novo Mundo! Rio de Janeiro, aí tens a tua augusta Rainha e o teu excelso Príncipe com a sua Real Família, as primeiras majestades que o hemisfério austral viu e conheceu. Estes são os teus soberanos e senhores, descendentes e herdeiros daqueles grandes reis que te descobriram, te povoaram, e te engrandeceram, ao ponto de seres de hoje em diante princesa de toda a América e Corte dos senhores reis de Portugal; enche-te de júbilo, salta de prazer, orna-te dos teus mais ricos vestidos, sai ao encontro dos teus soberanos, e recolhe com todo o respeito, veneração e amor o Príncipe ditoso, que vem em nome do Senhor visitar o seu povo". 
Gonçalves dos Santos, Padre Luiz - Memória para servir à História do Brasil, tomo I.

Ao transferir, voluntariamente, a sua Corte para os domínios portugueses da América, o Príncipe Regente D. João salvara a monarquia com todas as suas colônias ultramarinas. Em vez de uma expatriação ignominiosa, com prisão no lugar do desterro, como aquela que Napoleão impusera aos reis de Espanha, o Príncipe Regente de Portugal fundara no Brasil um novo império perpetuador dos vínculos históricos da nação portuguesa.
A mudança da família real e da Corte portuguesa para o Brasil foi conseqüência da situação européia no início do século XIX. Naquela época, a Europa estava inteiramente dominada pelo imperador dos franceses, Napoleão Bonaparte que através de sua política expansionista, submetera a maior parte dos países europeus à dominação francesa.
O principal inimigo de Napoleão era a Inglaterra, cuja poderosa armada o imperador não pudera vencer. Em 1806, Napoleão decretou o Bloqueio Continental, obrigando todas as nações da Europa continental a fecharem seus portos ao comércio inglês. Com essa medida, pretendia enfraquecer a Inglaterra, privando-a de seus mercados consumidores e de suas fontes de abastecimento. Nessa época Portugal era governado pelo Príncipe Regente Dom João; sua mãe, a Rainha Dona Maria I, sofria das faculdades mentais, o que a impossibilitava governar. Pressionado por Napoleão, que exigia o fechamento dos portos portugueses ao comércio inglês, e ao mesmo tempo pretendendo manter as relações com a Inglaterra, Dom João tentou adiar ao máximo uma decisão definitiva sobre o assunto.

"... A balança da Europa está tão mudada que os cálculos de há dez anos saem todos errados na era presente. Em todo o caso o que é preciso é que V. A. R. continue a reinar, e que não suceda à sua Coroa o que sucedeu à de Sardenha, à de Nápoles e o que talvez entra no projeto das grandes potências que suceda a todas as coroas de segunda ordem na Europa. V. A. R. tem um grande Império no Brasil, e o mesmo inimigo que ataca agora com tanta vantagem, talvez que trema, e mude de projeto, se V. A. R. o ameaçar de que se dispõe a ser imperador naquele vasto território adonde pode facilmente conquistar as colônias espanholas e aterrar em pouco tempo as de todas as potências da Europa. Portanto é preciso que V. A. R. mande armar com toda a pressa os seus navios de guerra, e todos os de transporte, que se acharem na praça de Lisboa — que meta neles a Princesa, os seus filhos, e os seus tesoiros, e que ponha tudo isto pronto a partir sobre a barra de Lisboa, e que a pessoa de V. A. R. venha a esta Fronteira da Beira, aparecer aos seus povos, e acender o seu entusiasmo. Talvez que esta aparência imponha ao inimigo. Se não impuser, e nos atacarem, apesar de tudo brigaremos como desesperados; talvez que por excesso de furor cheguemos a ser vitoriosos, apesar de nos faltarem os meios — mas se formos vencidos, sempre podemos cobrir a retirada de V.A.R., e então V. A. R. parte com toda a sua família para os seus estados do Brasil, e a nação portuguesa sempre ficará sendo nação portuguesa, porque ainda que estas cinco províncias padeçam algum tempo, debaixo do jugo estrangeiro; V. A. R. poderá criar tal poder que lhe seja fácil resgatá-las, mandando aqui um socorro, que junto com o amor nacional as liberte de todo. Dizem que é mal visto todo o homem que aconselha isto a V. A. R. mas como assento que é a melhor cousa que lhe posso dizer, digo-lha. E V. A. R. fará de mim o que quiser, porque em tudo e por tudo sou seu, e se V. A. R. tomar este partido, o que lhe posso segurar é que, se me não matarem nessa guerra, deixarei tudo quanto cá tenho, e para lá o vou servir..." 
Trecho da carta expositória dirigida ao Príncipe Regente, em 30 de maio de 1801, por Dom Pedro, Marquês de Alorna, in Arquivo Público do Rio de Janeiro.

Se aderisse ao Bloqueio Continental, Portugal ficaria em condições extremamente difíceis, porque a economia portuguesa dependia basicamente da Inglaterra. Os ingleses eram os maiores fornecedores dos produtos manufaturados consumidos em Portugal e também os maiores compradores das mercadorias portuguesas e brasileiras. A Inglaterra, por sua vez, também não queria perder seu velho aliado, principalmente porque o Brasil representava um excelente mercado consumidor de seus produtos.

Vista do morro da Glória à época da chegada da Família Real ao Rio de Janeiro.

Para resolver a situação de acordo com os interesses de seu país, o embaixador inglês em Lisboa, Lorde Percy Clinton Smith, Visconte de Strangford, conseguiu convencer Dom João a transferir-se com sua Corte para o Brasil. Desse modo, os ingleses garantiam o acesso ao mercado consumidor brasileiro.


D. João nasceu em Lisboa em 13 de Maio de 1767, batizado como João Maria José Francisco Xavier de Paula Luís Antônio Domingos Rafael de Bragança. Segundo filho de D. Maria I e de D. Pedro III (tio desta), tornou-se herdeiro da coroa como Príncipe do Brasil e 21º Duque de Bragança, após a morte do irmão mais velho José (Duque de Bragança, em 11 de setembro de 1788), vitimado pela varíola. Viu-se obrigado a assumir o governo ainda muito jovem, à idade de 25 anos (10 de Fevereiro de 1792) devido à doença da rainha mãe. Foi sucessivamente Duque de Bragança, Príncipe do Brasil, Príncipe Regente de Portugal, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Rei de Portugal e Imperador Titular do Brasil. A partir de 15 de Julho de 1799, assumiu o governo na qualidade de Príncipe Regente, até a morte de sua mãe. Em 16 de dezembro de 1815 foi Príncipe Regente do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves.

A guerra do Rossilhão (1793), a guerra com a Espanha e o desastroso tratado de paz de Badajoz, marcaram os primeiros tempos de sua regência. Em 1793, D.João aliou-se à Espanha no combate à Revolução Francesa, que ameaçava todas as monarquias européias. Em 1801, Napoleão, que reiniciara a luta contra a Inglaterra e procurava aliados, convenceu a Espanha a atacar Portugal; D. João, não tendo condições de enfrentá-la, pediu a paz, prometendo fechar seus portos à Inglaterra. Contudo, a economia portuguesa estava profundamente ligada à nação britânica. Portugal corria o risco de ver seus portos bloqueados pela eficiente e poderosa armada inglesa. Enquanto isso, Carlota Joaquina, fiel às suas origens espanholas, conspirava na corte portuguesa planejando, inclusive, tomar a regência a D. João que tentava ganhar tempo. Porém, em 1806, Napoleão I fez um ultimato: ou Portugal fechava os portos à Inglaterra ou a França invadiria o reino luso.

No ano seguinte, em 1807, Napoleão assinou com a Espanha um tratado que suprimia o Reino de Portugal do mapa político da Europa, dividindo o território português em três estados que seriam “dados” ao Rei da Etrúria, ao Príncipe da Paz, ficando a França com o terceiro lote. Nesse ano, um exército comandado por Junot invadiu Portugal.

Num ofício dirigido em 7 de setembro de 1807 a Dom Domingos Antônio de Sousa Coutinho, ministro de Portugal em Londres, comunicava-se que S.M. tinha tomado "a resolução de aprontar a sua marinha para o caso de ser urgente a sua retirada e da Real Família". "Dois acontecimentos podem obrigar a esta resolução", dizia o mesmo ofício: "o primeiro a determinação de uma conquista; e o segundo a pretensão de introduzir tropas no país para guarnecer as costas debaixo do pretexto de amizade, o que seria para a monarquia mais perigoso do que a conquista ..."

Em 22 de outubro de 1807, a Convenção Secreta ratificada pelo Príncipe Regente e por Jorge III da Grã-Bretanha, sobre a transferência para o Brasil da sede da monarquia portuguesa e ocupação temporária da Ilha da Madeira por forças britânicas, vem atestar a reflexão e o estudo que tal resolução mereceu, para não poder confundir-se com um repentino ato de fuga, praticado num momento de pânico invencível, com todo o alor de um medo coletivo.

No preâmbulo dessa Convenção, definia-se perfuntoriamente a triste posição em que se encontrava o país em consequência das exigências injustas do governo de França, expondo o Regente a decisão que havia tomado de transferir para o Brasil a sede e fortuna da monarquia portuguesa "antes do que aceder à totalidade das ditas exigências e especialmente àquelas pelas quais o governo francês insistia na apreensão das pessoas dos súditos de Sua Majestade britânica residentes em Portugal, e na confiscação de todas as propriedades inglesas, bem como na declaração de guerra contra a Grã-Bretanha ..."

E mais certificava pelo mesmo tempo S.M., por intermédio do seu ministro em Londres, garantindo ao governo inglês a sua firmeza em não assentir às proposições a respeito da prisão dos súditos ingleses e ao confisco dos seus bens, conquanto não quisesse precipitar a partida, "porque Sua Alteza Real não deve mostrar que abandona sem justa causa os seus vassalos na Europa".

As mesmas intenções e desígnios eram confirmados em uma nota entregue ao ministro inglês, Lorde Strangford, representante de S.M. britânica em Lisboa:
"Sua Alteza Real, não havendo assentido à totalidade das proposições da parte das duas potências aliadas (Espanha-França) de que resultou o retirarem-se desta Corte os seus agentes, tem a íntima satisfação de que não obstante o perigo a que se expôs, os súditos de Sua Majestade britânica ficarão ilesos na sua liberdade pessoal e nas suas propriedades. Sua Alteza Real cumpriu quanto lhe foi possível a sua palavra, dando todo o tempo para os súditos ingleses se retirarem e exportarem os seus efeitos, com isenção completa de direitos; agora, porém, instando a França pela execução da sua proposição a este respeito, com ameaças e com a marcha do exército de Baiona para o interior da Espanha, foi Sua Alteza Real obrigada, bem que muito a seu pesar, a fazer a demonstração exigida, a fim de ver se ainda por este modo evita o ataque de Portugal; e Sua Majestade britânica pode então estar certo de que os súditos britânicos experimentarão nas suas pessoas, e em algum resto dos seus bens, os efeitos possíveis da sua Real proteção."
Mas, Sua Majestade britânica perante quem, lealmente, sua Majestade Fidelíssima justificava a política de dobrês e as ambiguidades intencionais do seu governo e da sua diplomacia, ainda se não dera por satisfeita; usava de represálias; mandava bloquear Lisboa e ocupar a Ilha da Madeira. Nem todo o ouro do Brasil, espalhado abundantemente em sucessivos subornos, pôde travar os acontecimentos, demover Napoleão, aplacar o Príncipe da Paz e protelar por mais tempo a invasão inevitável. Em todo o caso, nas observações oficialmente aditadas à carta de ratificação da referida convenção secreta entre a Grã-Bretanha e Portugal, expunham-se as razões de Estado que levavam o governo português a revogar o artigo primeiro adicional desse acôrdo. Eram ainda falaciosas e habilíssimas disposições para ganhar tempo.

"Sua Alteza Real tinha concebido o projeto de estabelecer na ilha de Santa Catarina um porto para o comércio do Brasil, quando intentou mandar para aquela colônia seu filho primogênito — o Príncipe da Beira; mas como não se efetuou a sua partida não se pode por ora estabelecer um plano de comércio instituindo uma alfândega geral para esse fim. Se acaso Sua Alteza Real partir com toda a Real Família, fica tirada toda a dúvida; quando não, será preciso convir com a Inglaterra de algum meio (o que é possível) de dirigir o comércio, que o mesmo Senhor quere favorecer, tanto para comprazer com Sua Majestade britânica, como porque as manufaturas inglesas permitidas são de primeira necessidade para os habitantes daquela colônia.
Mas no momento atual o estabelecimento na ilha de Santa Catarina faria irritar as duas potências aliadas do continente, o que Sua Alteza quere por último modo evitar. Resta pois a convir com a Inglaterra em um meio mais disfarçado para este comércio para o que se tratará com o governo britânico quando ele queira: e esta é a razão de não ser ratificado este artigo.
Para a execução de qualquer plano a este respeito é preciso termos a certeza de haver comunicações com o Brasil, a fim de se poderem dar ordens competentes aos governadores, porque presentemente não existe comunicação com aquele continente, estando o comércio na maior incerteza.
Necessita-se também estipular a segurança de navios que forem avulsos, e a concessão para se cruzar contra os Argelinos para a proteção deste comércio, como já foi ordenado ao Ministério de Sua Alteza Real em Londres, que o requereu."

Estes interessantíssimos documentos, reveladores da coartada liberdade em que Portugal se contorcia, além de denunciarem as interesseiras intenções comercialistas da Inglaterra, concedem, por legítima dedução, um aspecto inédito ao problema da transferência da monarquia portuguesa, enrolada, nas vésperas da invasão francesa, a compromissos irreconciliáveis, cuja peremptoriedade de prazos o governo português ia dilatando com os recursos extremos de uma notável dialética política.

Figura: Aspecto da antiga Rua Direita, atual Rua 1º de Março, no centro da cidade do Rio de Janeiro, à época da chegada da Família real.

Decidiu então D.João pela saída da família real, de Portugal rumo o Brasil, escapando à invasão napoleônica e ao perigo que representava para a manutenção da autonomia portuguesa. O desejo de manter o Brasil em poder de Portugal, o fez ainda mais dependente em relação à Inglaterra, com a imposição da abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional e o tratado Luso-Britânico de 1810, desastroso para a economia portuguesa. Diante das disputas entre a Inglaterra e a França, pensando poder estabelecer a paz, chegou a oferecer seu filho D. Pedro de apenas nove anos em casamento com a sobrinha do monarca francês, nao obtendo sucesso.

Embarcaram para o Brasil a rainha D. Maria I, D. João e sua esposa D. Carlota Joaquina, seus filhos, D. Pedro e D. Miguel, suas filhas, as infantas Maria Teresa de Bragança, Maria Isabel de Bragança, Maria da Assunção de Bragança, Isabel Maria de Bragança, Maria Francisca de Assis e Ana de Jesus Maria de Bragança e ainda as infantas D. Maria Ana Francisca e a viúva D. Maria Francisca Benedita, irmãs da Rainha, e o infante Pedro Carlos da Espanha, além de praticamente toda a corte, fidalgos e nobres.

A crítica histórica demonstrou já que essa transmigração fora o resultado inteligente de um plano preconcebido: o único meio de fazer subsistir a monarquia portuguesa; a única solução impeditiva do seu fatal desaparecimento. Além de representar uma conversão de instintiva defesa contra o poder invencível do furor napoleônico, o ato de transposição da sede da realeza, de Lisboa para o Rio de Janeiro, não tinha apenas um interesse nacional, português. Essa translação política interessava à Europa inteira; asseverava a continuidade dos princípios unitários das monarquias continentais europeias; defendia-lhes, afinal, os ideais de autonomia contra a concepção autocrática de um só imperialismo francês; salvava o sistema monárquico europeu da subversão dos Estados, cujos soberanos eram prisioneiros ou reféns de Napoleão e cujas fronteiras eram por ele e para ele traçadas, ampliadas ou suprimidas, no sonho da monarquia universal que visionara.

Se a saída de Dom João VI para a América do Sul teve, em dado momento, a exclusiva aparência dum pânico liberativo e se a atitude da Corte, embarcando numa esquadra, em trigosa debandada, dava ao quadro aspectos de fuga, de naufrágio ou de qualquer outra catástrofe, nem por isso é lícito concluir que se tratava de um ato impensado, indecoroso, pois é certo que o embarque da Família Real fora previsto com antecedência de muitos anos e refletido em todas as suas consequências.

"Nobre e resoluta determinação" — dizia ao Príncipe Regente o seu ministro Dom Rodrigo de Sousa Coutinho; a ela se deve naturalmente a sobrevivência da nacionalidade portuguesa, diferenciada e salva da revoluta e absorvente doutrina de Bonaparte.

Em 22 de Janeiro de 1808, D. João chegou com sua corte a Salvador. Na Bahia, em 28 de Janeiro de 1808, decretou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas (entre as quais, evidentemente, a Inglaterra). Aconselhado por José da Silva Lisboa, que mais tarde torna-se-ia o Visconde de Cairu, decretou a abertura dos portos brasileiros, pondo fim ao Pacto Colonial. Foi o ato que mais celebrizou seu governo na América portuguesa. A Inglaterra foi a maior beneficiada; em 1810 foi assinado o tratado de comércio e navegação que fixava em 15% a taxa alfandegária sobre produtos ingleses vendidos para o Brasil, um grande privilégio, já que os demais países pagavam uma taxa de 24% e Portugal 16%. Somente em 1816 foram equiparadas as taxas alfandegárias inglesa e portuguesa.

Em março, D. João transferiu-se para o Rio de Janeiro, transformando a cidade em sede da Monarquia. Ali formou o seu Ministério, aboliu a proibição da criação de indústrias, atacou e ocupou a Guiana Francesa, fundou escolas e bibliotecas. Enquanto isso, na Europa, Napoleão destituia o rei de Espanha e em seu lugar colocava José Bonaparte, seu irmão.

Abandonar a Europa para fundar no Brasil um grande império, fora, em Portugal, desde o século XVI, um plano esboçado, estudado longamente por soberanos e estadistas, quando circunstâncias políticas tornaram periclitante a soberania continental portuguesa, ou esta foi ameaçada por estranhas tentativas de absorção fulminante. Martim Afonso de Sousa, organizador da colonização sistemática do Brasil, teria sido um dos primeiros a aconselhar a transmigração da Família Real para a América do Sul, revelando a Dom João III a extensão dos seus domínios neste continente e o valor prodigioso das riquezas que nele se encontravam profusamente distribuídas. Poucos anos depois, em 1580, Filipe II da Espanha, no desejo de afastar Dona Catarina de Bragança da concorrência ao trono de Portugal, prometeu elevar, a favor dela, a colônia do Brasil à categoria de reino independente. Mais tarde, Dom João IV, receando pela independência portuguesa, admitia, como propusera o padre Antônio Vieira, a trasladação da Corte para o Rio de Janeiro, lugar mais seguro e distante das cobiças castelhanas, disposto a sacrificar às contingências políticas da península seu filho Teodósio, que ele desejava casar com uma princesa francesa.

A transferência da Corte era uma boa solução também para a família real, pois evitava a deposição da dinastia de Bragança pelas forças napoleônicas. O Tratado de Fontainebleau, estabelecido entre a França e a Espanha em outubro de 1807, apressou a decisão do Príncipe Regente Dom João a abandonar a metrópole. Por aquele tratado, Portugal e suas colônias, inclusive o Brasil, seriam repartidos entre a França e a Espanha. No dia 29 de novembro, Dom João e sua família, acompanhados por um séquito de 15.000 pessoas, partiram para o Brasil. No dia seguinte, as tropas francesas do general Junot invadiram Lisboa. Quatro navios britânicos escoltaram as embarcações portuguesas até o Brasil; parte da esquadra portuguesa aportou na Bahia e parte no Rio de Janeiro. A chegada de Dom João à Bahia, onde ficou pouco mais de um mês, ocorreu em 22 de janeiro de 1808.

Teve início, então, uma nova História do Brasil, pois a colônia foi a grande beneficiada com a transferência da Corte. A presença da administração real criou, pouco a pouco, condições para a futura emancipação política da colônia. Da Bahia, Dom João seguiu para o Rio de Janeiro. Ali, o alojamento da numerosa comitiva do príncipe causou grandes problemas. As melhores residências da cidade foram requisitadas para os altos funcionários da Corte, não sendo poucas as pessoas despejadas de suas casas para hospedar os recém-chegados.


PRECURSORES DOS 960 RÉIS

O Brasil ainda era uma colônia quando a Família Real desembarcou na Bahia, depois de quase 2 meses de exaustiva viagem. Esta chegada repentina de cerca 15.000 pessoas acostumadas com o luxo e o conforto da corte portuguesa, causou um aumento inesperado nas despesas da Colônia, agravando a já difícil situação em que se encontrava o Tesouro Real.

Quando D. João Príncipe Regente chegou ao Brasil em 1808, circulavam legalmente no país, moedas de ouro, prata e cobre. Entre as moedas de prata oficiais, circulavam os 80, 160, 320 e 640 Réis(*¹). Também circulavam nessa época, uma grande variedade de moedas estrangeiras de prata. Eram originárias da Espanha e de suas colônias americanas (Bolívia, Peru, Chile, Argentina, México e Guatemala) e possuíam um diâmetro que variava de 37 a 42 mm. Pesavam em torno de 27 gramas e o seu teor de prata era, em geral, de 896 a 917 partes por 1000. Conhecidas como Pesos Espanhóis, as moedas hispano-americanas e metropolitanas de 8 Reales circulavam valendo de 320 Réis a princípio, alçada até 750 Réis quando foi proibida a sua circulação pelo Alvará de 01 de Setembro de 1808 Réis(*²). A partir desta data, a Coroa determinou que os 8 Reales fossem recolhidos e com o Aviso de 9 de novembro de 1808 ordenou que fossem enviados às 4 casas de fundição de MINAS GERAIS (Vila Rica, Sabará, Serro Frio e Rio das Mortes), 24 pares de cunhos com as Armas Reais para a carimbagem dos Pesos Espanhóis, divididos em 6 pares para cada uma das 4 casas de fundição. Foram enviados inicialmente (novembro de 1808) 70.137 pesos à Junta de Fazenda de Minas Gerais que depois de carimbados, deveriam ser empregados no resgate dos outros cuja circulação havia sido proibida. Em junho de 1809 houve autorização para compra de 100.000 pesos, ao preço unitário de 800 réis, para serem remetidos às províncias de Goiás, Mato Grosso e São Paulo para que nestes locais fossem aplicadas as determinações do Alvará de outubro de 1808, o que indica que, provavelmete, a carimbagem não se restringiu apenas à província de Minas Gerais. O “Carimbo de Minas” tinha o carater de moeda regional, devendo circular exclusivamente na Provincia de Minas Gerais e nao se sabe, com certeza, se houve remessa de pesos ou de cunhos para outras províncias.




Surgia assim a contramarca bifacial e circular, de aproximadamente 17mm de diâmetro, e limitada por uma cercadura de traços radiais, tendo no anverso o escudo português encimado pela Coroa Real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior onde, sob o cruzamento dos ramos, lê-se o valor 960 .
Em novembro de 1809 foi criada a moeda de “três patacas” ou “patacão” (960 réis), pondo-se fim à aplicação da contramarca nos pesos espanhóis. Desta forma, podemos concluir que, desde a sua instituição em outubro de 1808 (partindo da remessa de cunhos em novembro do mesmo ano) até a criação da moeda de “ três patacas “, a aplicação da contramarca de 960 réis, mais conhecida como Carimbo de Minas, foi limitada ao período de novembro de 1808 a dezembro de 1809 (praticamente, um ano).


O CARIMBO

É bi-facial, circular, tendo aproximadamente 17 mm de diâmetro, limitado por uma cercadura de traços radiais. Era aplicado de modo a que ANVERSO e REVERSO do carimbo correspondessem ao ANVERSO e REVERSO da moeda espanhola. Vinha geralmente aplicado na metade inferior desta, permitindo, na grande maioria dos casos, a leitura da data primitiva da moeda que recebia o carimbo. Por haverem sido contramarcadas pela primeira vez nas casas de fundição de Minas Gerais, essas moedas são hoje conhecidas como “CARIMBOS DE MINAS”.



(*1) – Os 20 e 40 réis de prata haviam sido extintos, prevalecendo as moedas de cobre com estes valores.


(*2) - Manoel Jacinto Nogueira da Gama, escrivão deputado da Junta da Fazenda e futuro Marquês de Baependi, em princípios de 1808, em ofício que dirigiu ao Ministro Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares, sugeriu a “... aplicação de um carimbo nos pesos espanhóis “, com o valor de 960 réis. A idéia foi bem aceita, tendo sido determinada a sua execução por Alvará de 1° de setembro de 1808. Um novo Alvará, com data de 8 de outubro do mesmo ano, determinava que em Minas Gerais não circulassem mais os pesos espanhóis sem a contra-marca e que nem mesmo fossem negociados como gênero de comércio. A partir de então, os pesos marcados com o carimbo de 960 réis passaram a circular como moeda provincial.


(*3) – Pataca: Dizem alguns autores ser esta palavra derivada do árabe “ABUTACA”. Nesse idioma ela se apresenta como “PATAC“. Como “PATARD ou PATAR”, foi pequena moeda de cobre tendo curso em Flandres e na França, onde se empregou como sinônimo de “óbulo” para designar uma moeda sem valor. Alguns numismatas franceses dizem que PATAR pode ser uma corrupção de Peter, forma alemã de Pedro, porque o PATAR de Flandres tem sobre uma das faces a imagem do santo desse nome. Hoffman no seu livro das moedas reais da França até Louis XVI, descreve dois interessantes “PATARDS” de Louis XI ( 1461-1583 ). No Brasil, a palavra PATACA foi usada para caracterizar a moeda espanhola de 8 reales que a príncipio valia 320 réis. Ficou depois, no sistema provincial, como denominação da peça desse valor. ( Ensaios de Numismática e Ourivessaria – Mário Barata ). Pataca: Moeda brasileira de prata com o valor circulatório de 320 réis ( Glossário Numismático – Kurt Prober ) Patacão: Moeda portuguesa de cobre ( 10 réis ) de D. João II. Nome popular e mesmo oficial dado no Brasil à moeda de prata de 960 réis. Equivale a 3 patacas. ( Glossário Numismático – Kurt Prober ).


ANVERSO DO CARIMBO: Escudo português, encimado pela coroa real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior. No exergo, sob o cruzamento dos ramos, aparece o valor 960.


REVERSO DO CARIMBO: Esfera armilar encimada por cruz latina singela e arrematada por um “pé”. Em média o diâmetro da esfera é de 11,5 mm havendo, ao seu redor, um largo campo liso. Quanto à posição, podemos dizer que o REVERSO é intencionalmente “direito”, embora seja frequente encontrá-lo com pequena inclinação.


TIPOS DE CARIMBOS

Existem dois tipos de carimbos. Esta classificação é baseada no cunho de anverso do carimbo, basicamente caracterizado por um ponto ( ou a ausência deste ) no cruzamento das hastes dos ramos que se encontram logo acima do valor 960.


1° TIPO: COM PONTO no cruzamento das hastes. Os ramos de louro têm 11 x 11 folhas e 5 x 5 frutos. Folhas: 5 externas; 5 internas e uma ao final do ramo Frutos: 2 externos e 3 internos




2° TIPO: SEM PONTO no cruzamento das hastes. Os ramos de louro têm 17 x 17 folhas e 7 x 7 frutos. Folhas: 8 externas; 8 internas e uma ao final do ramo Frutos: 3 externos e 4 internos



A identificação do carimbo, por tipo, deve ser feita sempre pelo anverso, bastando para tanto, verificar se existe ou não o ponto no cruzamento das hastes, entre o escudo e o valor 960. É muito difícil uma falha de cunho atingir o ponto, mas se isto acontecer, resta como alternativa recorrer ao número de folhas e de frutos.

1° Tipo: 11 x 11 folhas e 5 x 5 frutos
2° Tipo: 17 x 17 folhas e 7 x 7 frutos.

Ainda é possível identificar os Carimbos de Minas por variantes. Esta classificação é feita através da combinação dos cunhos de reverso com os dois tipos de cunho de anverso e confirmada com a descrição completa dos carimbos.

O primeiro estudo sobre o assunto foi realizado pelo numismata Kurt Prober, em 1947 em seu trabalho intitulado “Carimbos de Minas”, onde a numeraçao que atribuiu aos carimbos com a finalidade de classifica-los por variantes, revela-nos uma minuciosa atençao aos detalhes particulares dos exemplares estudados. Com isso, conseguiu demonstrar, inclusive que os cunhos foram usados depois em barras de ouro, o que possibilitou a determinaçao do local de aplicaçao de grande parte dos carimbos.

Desta forma, Kurt Prober conseguiu associar às casas de fundição, diversas variantes de cunho, perfazendo um total de 20 cunhos de anverso e 19 cunhos de reverso. São estes:

• VILA RICA - 3 cunhos de anverso e 1 cunho de reverso
• SABARA - 1 cunho de anverso e 2 cunhos de reverso
• SERRO FRIO - 8 cunhos de anverso e 7 cunhos de reverso
• INDEFINIDOS - 8 cunhos de anverso e 9 cunhos de reverso.

Como foram abertos 24 pares de cunhos, de acordo com o estudo realizado por Prober restavam desconhecidos 4 cunhos de anverso e 5 cunhos de reverso. Estranhamente, a conclusao nos conduz a 8 cunhos de anverso e 7 cunhos de reverso atribuidos a Serro Frio, quando na verdade a informaçao que temos é a de que cada casa de fundiçao deveria rceber 6 pares de cunho (anverso e reverso).

O numismata Nogueira da Gama publicou, em 1961, um trabalho minucioso onde catalogou as variantes dos Carimbos de Minas, classificando-as segundo um criterio ao qual chamou de “formulas”. Em seu minucioso trabalho encontramos explicaçoes detalhadas de seu metodo para classificaçao dos Carimbos de Minas. Quase três anos depois, publicou um aditamento ao seu estudo (setembro de 1963), onde revela o surgimento de novas variantes, chegando a catalogar 22 anversos e 22 reversos. Classificando as variantes segundo o criterio “COM PONTO” e “SEM PONTO” no cruzamento das hastes, combinou estes 22 cunhos de anverso com os 22 de reverso, chegando a um total de 44 variantes. Em outras palavras :

Anverso “COM PONTO” – associado com 22 cunhos de reverso.
Anverso “SEM PONTO” – associado com 22 cunhos de reverso.

Total: 44 variantes

Caso a classificaçao fosse feita seguindo o critério de combinar 24 cunhos de anverso com 24 cunhos de reverso e admitindo a hipotese de que todos poderiam combinar entre si, teriamos 576 variantes. Por isso, o criterio adotado é mais logico. Mesmo porque a possibilidade de todos se combinarem é muito remota, pois os 24 pares de cunhos nao foram enviados todos ao mesmo local, impossibilitando a combinaçao plena. Mesmo assim, levando em conta que estes foram remetidos a quatro provincias e em mesmo numero, poderiamos ter 6 anversos, cada um deles combinando com 6 reversos, o que possibilitaria 36 combinaçoes diversas em cada provincia, chegando a um total de 144 variantes. Adotando-se o método de combinar 2 variaçoes de anverso (com e sem ponto) com as variaçoes de reverso e considerando que cada provincia recebeu 6 cunhos, teriamos 12 variantes , em cada provincia, perfazendo um total de 48 variantes, sendo 24 de anverso “COM PONTO” e 24 de anverso “SEM PONTO”.


Outras contramarcas de 960 Réis
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-Carimbo Mato Grosso
-Carimbo Cuyaba (escrito por extenso)
-Carimbo 960 com a letra C (Cuyaba)
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Carimbo Mato Grosso – Contramarca bifacial e circular de aproximadamente 17mm de diâmetro e limitado por uma cercadura de traços radiais, tendo no anverso o escudo Português encimado pela coroa real, arrematada por cruz latina singela. Possui legenda circular posicionada abaixo do escudo com os dizeres “MATO GROSSO”. Não possui o valor de 960 como nos “Carimbos de Minas”. Criado em conformidade com a Provisão Régia de 11 de abril de 1818 com a finalidade de carimbar, na casa de fundição de Vila Bela, as moedas hispano-americanas que circulavam naquela região. Quando esta contramarca foi criada, os “carimbos de Minas” já não mais existiam, pois nessa época já circulavam as moedas com “ cunhos plenos” de 960 Réis. Note que o carimbo MATO GROSSO surgiu 10 anos depois da criação dos famosos “Carimbos de Minas”. São raríssimos os exemplares em que se pode ler, nitidamente, a legenda MATO GROSSO. São conhecidos exemplares sobre CAROLUS III – POTOSI, FERDINANDO VII – POTOSI e sobre SOL ARGENTINO, todos igualmente raros.


Carimbo Cuyaba – Contramarca bifacial e circular de aproximadamente 17mm de diâmetro, limitada por uma cercadura de traços radiais, tendo no anverso o escudo Português encimado pela coroa real, arrematada por cruz latina singela. Possui legenda circular posicionada abaixo do escudo com os dizeres CUYABA por extenso, com “Y” e sem acentuação gráfica. Este carimbo foi aplicado a partir do final do ano de 1820, sendo que os exemplares conhecidos das moedas hispano-americanas que receberam esta contramarca, figuram apenas os 8 Reales de Carolus IIII. Raríssimos são os exemplares em que a legenda CUYABA pode ser lida nitidamente. Dois belíssimos exemplares desta moeda que pertenciam à coleção Moura, sendo que em um deles lê-se perfeitamente a palavra CUYABA e no outro as letras CUYA (CUYABA com a letra A pouco visível e as letras B e A de BA, ilegíveis), foram leiloados em 1998 e hoje pertencem a um colecionador da cidade de Curitiba (Paraná). Igualmente raros são os carimbos CUYABA (completo ou incompleto), aplicados sobre o carimbo MATO GROSSO. Uma medida retaliativa, talvez, pois depois da casa de fundicão de Vila Bela (onde eram aplicados os carimbos MATO GROSSO) ter sido deslocada para a vila de Cuyaba, os cuiabanos decidiram (mesmo o carimbo não trazendo nenhuma alusão à cidade rival, Vila Bela) tirar de circulação os exemplares que tivessem recebido puncão em tal lugar, recarimbando assim com um carimbo novo – CUYABA - todas (ou quase) as peças com a escrita MATO GROSSO.


Carimbo 960 com a letra C – Contramarca bifacial e circular de aproximadamente 17mm de diâmetro, limitada por uma cercadura de traços radiais, tendo no anverso o valor 960, limitado abaixo pela letra C e acima pela coroa real arrematada por cruz latina singela, ladeado por dois ramos frutificados de louro que se cruzam na parte inferior. No reverso encontramos as armas do Reino Unido (escudo Português sobre esfera armilar). Este carimbo apresenta três variantes principais de cunho: 1)A letra ”C” sem pontos, 2)A letra “C.” com um ponto e 3)A letra “.C.” entre dois pontos. Os três tipos igualmente difíceis de serem encontrados, principalmente se em bom estado de conservação. Um caso à parte é o mesmo carimbo aplicado sobre carimbo de MATO GROSSO, considerado da mais alta raridade. E a causa da existência de tal variante e a mesma da peça CUYABA por extenso sobre MATO GROSSO.

Figura - Carimbo ".C." (com pontos) sobre moeda hispano - americana de 8 Reales de Carolus IIII. Moeda do acervo particular da coleção Bentes.


Reconhecendo a base.
Um dos fatores que irá determinar o grau de raridade dos “carimbos de Minas” é justamente a base em que as contramarcas foram aplicadas. Para isso devemos levar em consideração dois aspectos:

1) As moedas que possuem o busto do soberano e;
2) as que não possuem o busto do soberano, conhecidas como colunários, ou mundos e mares. Em seguida vem a identificação da origem da moeda ou seja, a casa da moeda onde foi cunhada. Sendo assim, temos:

1) MOEDAS COM O BUSTO DO SOBERANO.


Figura - Moeda hispano-americana de 8 reales, com o busto do soberano (Carolus III, Carolus IV, Ferdinando VII)

Obs: Ainda existem moedas com o nome de um soberano e o busto de outro, como e o caso, por exemplo da moeda de Carlos IV, com o busto de Carlos III, ou Ferdinando VII, com o busto de Carlos IV (casa da moeda de Popayán).

2) MOEDAS QUE NÃO POSSUEM O BUSTO DO SOBERANO ( COLUNÁRIOS ).


Figura - Cunhadas durante o reinado de Carolus III, estas moedas possuem no anverso, a alegoria dos dois mundos cercados pelos dois pilares de Hércules, representando o estreito de Gibraltar (considerado o fim do mundo conhecido até então).

Identificado o tipo de moeda (busto ou colunário), o segundo passo e determinar a casa da moeda em que a base foi cunhada. Isto se faz, identificando a letra monetaria. Na moeda do tipo busto, a letra monetária encontra-se na legenda de reverso, entre “REX” e “8R”.

Figura - No detalhe, podemos identificar a letra monetária da Casa da Moeda de Potosi. Sendo assim, podemos classificar esta base como sendo um 8 Reales, Carolus IIII de Potosi. Acervo particular coleção Bentes.


Figura - No detalhe, podemos identificar a letra monetária da Casa da Moeda de Santiago. Sendo assim, podemos classificar esta base como sendo um 8 Reales, Carolus IIII de Santiago. Acervo particular coleção Bentes

Obs: Os Carimbos de Minas sobre moeda de Santiago, são sempre raros, sendo raríssimo se o soberano for Carolus III. Sobre moeda de Potosi são comuns, em se tratando de Carolus IIII. Todavia, os Carimbos de Minas sobre Potosi de Carolus III são raros e sobre os Colunários, raríssimos. Os carimbos de Minas sobre Carolus IV e Ferdinando VII, são extremamente raros. Mais adiante, isto será explicado de forma mais abrangente.
Já, na moeda de “COLUNÁRIO”, a letra monetária localiza-se no anverso, onde se encontram os dois mundos e as colunas de Hércules. A marca situa-se na legenda, entre florões, posicionada à direita e também à esquerda da data.
A marca M° identifica a casa da moeda da Ciudad del Mexico. (A marca M localiza-se na orla,junto a data).


Figura - Sendo assim, podemos identificar esta base como sendo um “8 Reales COLUNÁRIO, MÉXICO”

Nota: As moedas de COLUNÁRIO com contramarcas de 960 Réis são, em geral, mais raras que as outras moedas hispano-americanas com o mesmo carimbo. Porém existem algumas extremamente raras cujo carimbo não foi aplicado sobre moeda de Colunário. É o caso, por exemplo,do carimbo de 960 Réis aplicado sobre 8 reales de Ferdinando VII, que é raríssimo (são conhecidas apenas 4 Carimbos de Minas, aplicados sobre moeda de Ferdinando VII).

Figura - Carimbo de Minas sobre moeda hispano-americana de 8 Reales FERDIN VII 1809 México (da mais alta raridade). Imagem gentilmente cedida pelo Museu de Valores do Banco Central do Brasil. Acervo do MVBC.

As marcas que identificam as casas da moeda são as seguintes:


Existe também (figura a seguir) a marca LM (Lima) sobre 8 reales colunário. Porém, até o momento, não são conhecidos Carimbos de Minas aplicados sobre esta moeda.




Avaliação.


O grau de raridade dessas moedas deve-se, em primeiro lugar, à moeda que recebeu a contramarca (moeda base). Em seguida ao estado de conservação da contramarca e por último ao estado de conservação da moeda base. É conveniente esclarecer que as moedas que serviram de base à aplicação dessas contramarcas, via de regra, não são raras.

A combinação da contramarca de 960 Réis com um determinado tipo de base é que constitue a raridade, o que irá, a princípio, estabelecer o valor da moeda. É lógico que se dois carimbos aplicados em bases idênticas, possuem o mesmo estado de conservação, a valorização dar-se-á em função do estado de conservação da base. Sendo assim, o preço máximo para um determinado carimbo será fixado para a moeda que possuir carimbo flor de cunho sobre base flor de cunho.

Os valores a seguir se referem ao estado de conservação dos carimbos. Valores. Obs: Os valores são dados em EUROS e para o estado de conservação Extremely Fine (quase bela). Na classificação brasileira seria soberba. Deve-se acrescentar 50% a este valor caso a base, e também o carimbo, sejam flor de cunho (classificação soberba, para Portugal).

Nota: Os valores são aqueles entendidos pela Numismática Bentes e apurados através da nossa experiência em comercializar com estas moedas. Trata-se do preço máximo, final para o colecionador. Alguns leilões superam esta expectativa, devido à raridade da moeda, seu estado de conservação e o interesse dos participantes. Desta forma, estas moedas podem atingir valores maiores (ou menores) do que aqueles expostos pela nossa avaliação. Porém, via de regra, os preços se mantém nesta faixa, variando em torno de 10%, para mais ou para menos.

CARIMBO DE MINAS - VALORES
1) SOBRE 8 REALES COLUNÁRIO
1a) MÉXICO (Colunário)....................................
RRRRR
2) SOBRE 8 REALES DE CAROLUS III
2a) POTOSI..........................................................
1.400,00
2b) MÉXICO........................................................
2.000,00
2c) LIMA..............................................................
1.800,00
2d) SANTIAGO...................................................
2.500,00
3) CAROLUS IV
3a) POTOSI..........................................................
1.800,00
3b) MÉXICO........................................................
2.000,00
3c) LIMA..............................................................
2.500,00
3d) SANTIAGO...................................................
RRRR
4) CAROLUS IIII
4a) POTOSI..........................................................
250,00
4b) MÉXICO........................................................
1.000,00
4c) LIMA..............................................................
450,00
4d) SANTIAGO...................................................
800,00
5) FERDIN VII.....................................................
RRRRR - Da mais alta raridade.
Outros Carimbos
1) MATO GROSSO.............................................
7.000,00
2) CUYABA.........................................................
15.000 (CUYABA visível)
3) CUYABA.........................................................
10.000 (quando visível parte do nome)
4) CARIMBO "C"................................................
3.000,00
5) CARIMBO "C" S/MATO GROSSO................
RRRRR



As MOEDAS de 960 Réis.

Os “carimbos de Minas” (contramarcas de 960 Réis) foram os precursores dessas moedas que circularam de 1810 a 1834 com o objetivo principal de por um fim a circulaçao de moeda estrangeira de prata no pais. Na época, os pesos espanhóis, como eram conhecidos, circulavam livremente no Brasil, sendo aceitos como moeda corrente. Essas moedas, oriundas da Espanha e de suas colonias americanas, começaram a ser nacionalizadas a partir de 1808 quando receberam a contramarca de 960 Réis (Carimbos de Minas) que a seguir foi substituida pela cunhagem no mesmo valor (960 Réis), o que foi feito nas Casas da Moeda do Rio de Janeiro, Bahia e também na Casa de Fundiçao de Vila Rica em Minas. Foi cunhada em tres períodos distintos, a saber:

1) Colônia (1810 a 1818),
2) Reino Unido (1819 a 1822) e
3) Império (1823 a 1834),

sendo que, no Reinado de D. Pedro II, nos anos de 1832, 1833 e 1834, passaram a ser cunhadas em discos proprios e nao mais recunhadas sobre "pesos espanhois".
Diferentemente das contramarcas de 960 Réis que foram aplicadas apenas em moedas hispano-americanas, as cunhagens dos 960 Réis nao obedeciam, à risca, a determinação de cunhar apenas os pesos espanhóis. Como o processo praticamente tornava invisível os traços da moeda base, qualquer moeda de prata que se assemelhava, em tamanho e peso ,a um peso espanhol, entrava no processo de cunhagem. Dessa forma, temos 960 Réis cunhados sobre moeda Francesa, Italiana, Holandesa, Austríaca, Inglesa e até Norte-americana, além de outras. Como exemplo, temos 960 Réis cunhados sobre 5 Francos Franceses de Napoleão, sobre 2 ½ Gulden Holandes, sobre Ducatone di Napoli e sobre 1 Dolar Norte-americano (Draped Bust Type – Heraldic Eagle de 1799). Algumas moedas Hispano-americanas que haviam recebido o “Carimbo de Minas”, também foram cunhadas, deixando visíveis os vestígios da contramarca.

Popularmente chamada de “PATACÃO”(*¹), essa moeda transformou-se em um dos mais importantes elementos do colecionismo numismático brasileiro.


Figura: Exemplo de 960 Réis, cunhado na Casa da Moeda da Bahia, onde sao visíveis os traços da moeda que serviu de base (8 Reales de 1807, cunhado no México).

(*¹) – PATACÃO- Moeda Portuguesa de cobre (10 Réis) de D. João II. Nome popular e mesmo oficial dado no Brasil a moeda de 960 Réis. Equivalente a 3 patacas. ( Glossário Numismático – Kurt Prober )
PATACA – Moeda brasileira de prata com o valor circulante de 320 Réis. ( Glossário Numismatico – Kurt Prober )

PATACA – Dizem alguns autores ser essa palavra derivada do Arabe “ABUTACA”. Nesse idioma ela se apresenta como “PATAC”. Como “PATARD ou PATAR”, foi pequena moeda de cobre tendo curso em Flandres e na França, onde se empregou como sinônimo de “óbulo” para designar uma moeda sem valor. Alguns numismatas franceses dizem que PATAR pode ser uma corrupção de PETER, forma alemã de Pedro, porque o PATAR de Flandres tem sobre uma das faces , imagem do santo desse nome.

Hoffman, no seu “ Livro das Moedas Reais da França até Louis XVI”, descreve dois “PATARDS” de Louis XI. No Brasil, a palavra “PATACA” foi usada para caracterizar a moeda espanhola de 8 Reales que a princípio valia 320 Réis. Ficou depois, no Sistema Provincial, como denominação da peça desse valor. (Ensaios de Numismatica e Ourivesaria – Mario Barata).

Por possuir muitas particularidades, essa moeda acabou gerando diversas formas de colecionismo, constituindo-se numa fonte quase inesgotável de estudo e pesquisa. A seguir temos as formas de colecionismo mais comuns, entre aqueles que se dedicam a essa moeda.

I) COLEÇÃO POR TIPOS – Leva em consideração somente o período e a Casa onde a moeda foi cunhada, procurando sempre adquirir exemplares no melhor estado de conservação possível. Por ser a forma mais simples de colecionismo e por não exigir conhecimentos profundos sobre o assunto, e a forma mais indicada para quem está iniciando. Sendo assim, uma coleção de 960 Réis por tipo deve conter os seguintes exemplares:

1) Um carimbo de Minas,
2) Um patacão da Colônia com a letra “R”,
3) Um patacão da Colônia com a letra “B”,
4) Um patacão da Colônia com a letra”M”,
5) Um patacão do Reino Unido com a letra “R”,
6) Um patacão do Reino Unido com a letra “B”,
7) Um patacão do Império (D. Pedro I) com a letra “R”,
8) Um patacão do Império (D. Pedro I) com a letra “B”,
9) Um patacão do Império (D. Pedro II) com a letra R, e ainda
10) Um patacão da chamada “série especial”.

Nota: SÉRIE ESPECIAL – Em 1815, Portugal passou a ser um Reino Unido (Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves). Em consequência, ordenou-se que, entre outras coisas, que as moedas, a partir de então, fossem cunhadas com nova legenda e novo desenho alusivos ao novo Reino. Nessa época, D. João ainda era Príncipe Regente e como o novo desenho ainda não havia sido instituído, foi cunhada em 1816, na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, uma série de 5 moedas com letra monetária R, onde apenas a legenda foi alterada, demonstrando a elevação do Brasil à condiçao de Reino Unido a Portugal e Algarves. Essa série de 5 moedas, hoje conhecida como “série especial”, é composta de

  • 2 moedas de cobre (20 e 40 Réis),
  • 2 moedas de ouro ( 4000 e 6400 Réis ) e
  • uma moeda de prata (960 Réis).
Convém ressaltar que o desenho colonial não foi alterado. A alteração do desenho somente se deu em meados de 1818. Em 1817 e parte de 1818, as moedas voltaram a ser cunhadas com legenda e desenho da Colônia.
Na imagem acima, o raríssimo 960 réis 1809R - Patacão da Colônia com legenda original JOANNES .D. G. PORT. P. REGENS. ET. BRAS. D. (JOANNES.Dei.Gratia. PORTugaliae. Princeps. REGENS. ET. BRASiliae. Dominus)*. Imagem gentilmente cedida pelo Museu de Valores do Banco Central do Brasil. Acervo do MVBC. Clique na imagem para ampliar.

*João pela graça de Deus Príncipe Regente de Portugal e Senhor do Brasil.


No "patacão" da chamada série especial (figura a seguir) a legenda, de anverso, passa a ser: "JOANNES.D.G.PORT.BRAS.ET.ALG.P.REGENS"

(JOANNES.Dei.Gratia.PORTugaliae.BRASiliae.ET.ALGarbiorum.Princeps.REGENS)(*¹), o que demonstra a elevação do Brasil a condição de Reino Unido a Portugal e Algarves. (Patacão da série especial ).
(*¹) João pela graça de Deus Príncipe Regente de Portugal, Brasil e Algarves.

Figura: 960 Réis de 1816R, série especial, com desenhos da Colinia, mas ja fazendo parte do Reino Unido.


Em 1817 e parte de 1818, as moedas voltaram a ser cunhadas com o desenho colonial antigo e legenda original - JOANNES.D.G.PORT.P.REGENS.ET.BRAS.D - apesar do Brasil não ser mais uma Colônia.
Posteriormente, com a coroação (1818), D. João passou da condição de Príncipe Regente para a condição de Rei sob o título D. João VI, e aprovou o novo desenho e a nova legenda (JOANNES.VI.D.G.PORT.BRAS.ET.ALG.REX) para as moedas que seriam cunhadas no Reino Unido.
Dessa forma, foram cunhados (com letra monetária R), no período que vai de 1816 a meados de 1818 , patacões com:

a) Desenho Colonial e legenda original, tendo D. João como Príncipe Regente.
b) Desenho Colonial e legenda alusiva à elevação do Brasil a categoria de Reino Unido, tendo D.João como Príncipe Regente (1816R – série especial)
c) Desenho Colonial, retornando à legenda original (1817R e 1818R), ainda com D. João como Príncipe Regente, apesar do Brasil não ser mais considerado uma Colônia.
d) Desenho e legenda novos (Reino Unido – 1818R).
Assim, existem dois tipos diversos de patacões com a data 1816R, um tipo com a data 1817R e dois tipos com a data 1818R.

Figura: Patacão 1816R da serie especial com desenho da Colônia e legenda alusiva ao novo Reino Unido (D.Joao Príncipe Regente).

Figura: Patacão 1817R, com desenho e legenda da Colônia, cunhagem do Reino Unido (D.João P.R.).

Figura: Patacão 1818R, com desenho e legenda da Colônia, cunhado no Reino Unido (D.João Príncipe Regente).


Figura: Patacão 1818R, com desenho e legenda novos do Reino Unido (D.João VI, Rei de Portugal, Brasil e Algarves).


II) COLEÇÃO POR DATAS – É o tipo de colecionismo mais comum entre os numismatas. Os poucos catálogos brasileiros, em sua maioria, apresentam as moedas dispostas, inicialmente pelo metal em que foram confeccionadas (ouro, prata, cobre, etc) e a partir daí, são ordenadas de acordo com as datas e em cada data, vez por outra, são apresentadas as variantes clássicas. Esta forma de colecionismo requer um investimento consideravelmente maior que aquele dispensado à coleçao por tipos, sem contar que algumas datas sao consideradas raríssimas ou mesmo peças únicas, o que praticamente impossibilita o “fechamento” de uma coleção completa de moedas de 960 Réis (por datas).
É indicada aos colecionadores que por, presumivelmente, já possuirem uma coleção por tipos com muitas peças, já adquiriram experiência e conhecimento suficientes para se dedicarem a esta forma de colecionismo.

III) COLEÇÃO POR VARIANTES – Como o processo de cunhagem era mecânico, exigindo constantes trocas dos cunhos de anverso e reverso, devido a empastamento (desgaste) ou até pela rachadura e quebra dos mesmos, diversas matrizes de uma mesma data eram feitas. Como os cunhos eram abertos à mão, era praticamente impossível que um cunho fosse igual ao outro. Alguns pesquisadores como Lupércio Gonçalves Ferreira (no seu Catálogo das Variantes dos Patacões da Casa da Moeda do Rio de Janeiro) e Renato Berbert de Castro (no seu Catálogo das Variantes dos Patacões da Casa da Moeda da Bahia), já relacionaram e cadastraram, com base na observação de um grande número de exemplares, uma grande quantidade de variantes. Porém, esse número não pode ser considerado definitivo uma vez que, volta e meia, surge uma nova variante devido à combinação de um determinado cunho de anverso com outro de reverso, ou mesmo devido a um cunho novo (o que é mais raro). Esse tipo de colecionismo requer alguns conhecimentos básicos dos elementos que constituem os cunhos de anverso e reverso de um patacão tais como a perolagem da coroa e as partes da esfera armilar. Além dos catálogos especializados citados acima, boas lentes ou uma lupa estereoscópica, são recomendadas. Como algumas variantes tornaram-se clássicas como o “COROA de 640 RÉIS” e o “IGNO” entre outras, estas passaram a ser incluídas em catálogos não especializados no assunto. É difícil avaliar as outras variantes! Como regra, adotam-se preços diferenciados entre as variantes comuns (C), as raras (R), as muito raras (RR) e as raríssimas (RRR).

Figura acima: Raríssimo patacão com Coroa de 640 Réis. Variante 4A (Catálogo Descritivo dos 960 Réis da Casa da Moeda da Bahia) dos autores José Serrano Junior e Flávio Barbosa Rebouças. Florões intercalados por pontos, Frontal com uma pérola e Legenda apresentando a serifa do A de JOANNES com reentrância no "O". No catálogo Berbert de Castro, a mesma variante aparece com o número 12.

Figura acima: 960 Reis, 1814 B (15ª variante) Cunho de anverso 1814 e cunho de reverso 1816, com a letra  monetaria B. Algumas dessas variantes foram recunhadas sobre moedas de 960 Reis 1816 B ou seja, re-recunhadas sobre 8 Reales. Devido ao desgaste dos cunhos de anverso com a data 1816 B, ainda foram utilizados em substituição a estes os cunhos com a data 1814, juntamente com cunho de reverso 1816. Provavelmente ainda havia um lote de moedas a serem cunhadas, e não encontrando um cunho de anverso de 1816 em boas condições, resolveram usar um remanescente de 1814 em bom estado. Devido ao desgaste avançado dos cunhos de anverso de 1816, algumas moedas foram, por assim dizer, “mal cunhadas” com essa data, dessa forma retornando às oficinas de cunhagem onde foram re-recunhadas com o cunho de anverso de 1814 e reverso de 1816. Tudo isso pode ser constatado através do 960 Reis 1814 B (15ª variante) que possui cunho de anverso 1814 e reverso 1816. Contudo este fato, por si só, não comprovaria a recunhagem (com cunho de anverso 1814) sobre um 960 Réis 1816 B.  Porém, em algumas peças de 1814 B (próprio na 15ª variante), vê-se nitidamente a data 1816 sob 1814, o que não deixa margem à duvidas.Destarte, a 15ª variante do 1814B, recunhada sobre moeda hispano-americana e recunhada sobre 960 Reis 1816B - ou seja, re-recunhada sobre 8 Reales - conquista status de variante clássica por possuir características que esclarecem muito do que aconteceu nas oficinas de cunhagem das Casas da Moeda no Brasil colonial.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

Próximos artigos sobre os 960 réis
  • A coleção por recunhos
  • Recunhos raros
  • Variantes clássicas e suas cotações
Em breve