Como colecionar moedas

Introdução

Os ítens colecionáveis formam um universo muito vasto. Existem colecionadores de estampas de sabonete, de cartões telefônicos, de soldadinhos de chumbo, de artigos da Coca-Cola, de fichas de telefone, de garrafas, de artigos esportivos, de autógrafos , etc...e também de moedas, cédulas, medalhas e selos.
Ao contrário dos exemplos iniciais, quem pretende se dedicar ao colecionismo dos últimos ítens citados (moedas, cédulas, medalhas e selos), deve entender que a numismática e a filatelia, muito além de um mero ajuntamento de objetos, são ciências que, como tal, necessitam de muita dedicação, empenho, muita leitura e estudo. Basta dizer que, na Europa, existem faculdades inteiramente dedicadas a estas ciências, como a Universidade de Viena que mantém em seu programa, cursos de graduação e pós-graduação em Numismática e História Monetária, ou a URC (Universidade de Moedas Raras), uma plataforma de ensino on-line criada em 2010. Nela o interessado irá encontrar cursos voltados para a ciência numismática, estudando a fundo, desde a origem da moeda na antiguidade, a história monetária até os dias atuais. Com muitos textos, imagens, extensa pesquisa partindo da Biblioteca do Congresso Nacional dos EUA, do Arquivo Nacional e dos museus americanos, a URC propõe trazer à luz do entendimento, a pouco conhecida história numismática, através de fatos, fotos e ilustrações, documentos raros e muito estudo, possibilitados pelos mais modernos recursos colocados à disposição dos interessados.

Quem pretende enveredar pelo mundo destas ciências, em particular a numismática, deve saber que a sua filosofia e o seu entendimento do que seja colecionismo culto, servirão a determinar se realmente é um numismata ou mais um, entre tantos, que se contentam apenas em possuir um ajuntamento de objetos, uma espécie de passatempo para preencher as horas livres, o que pode ser feito com qualquer outro tipo de coleção. Acumular moedas, seja pelo seu preço, por sua raridade, por sua beleza ou por qualquer outro critério não científico, não basta para formar o numismata por excelência. Contudo, o objetivo desse texto não é o de discutir filosofias sobre este ou aquele tipo de colecionismo. Estamos aqui para orientar, principalmente quem está tentando dar os primeiros passos dentro desse universo de cultura e conhecimento específicos, para que não se desestimule no meio do caminho, o que em geral acontece com quem começa com o passo errado. Se você é daqueles que procura apenas um hobby, um passatempo para as horas vagas, aconselhamos um colecionismo menos empenhativo, que não exija tanta paciência, tanta dedicação, leitura e estudo. Do contrário, o que poderia ser uma fonte imensa de conhecimento, capaz de proporcionar horas de prazer e deleite, irá se revelar uma grande desilusão.   


Qual a melhor forma de iniciar

Não existe outra resposta que não seja "LER", informar-se a respeito, curiosar (pode ser no Facebook, ou em sites especializados, ou em blogs, etc). O importante é sondar o terreno, observar com prudência e deixar o tempo passar, amadurecer, para poder saber se a coisa não passa de simples empolgação. Descobrir que aquilo que parecia amor à primeira vista, não passava de uma paixão desenfreada que te fez gastar um monte de dinheiro, é desalentador; principalmente se todo esse dinheiro foi apenas gasto, sem qualquer possibilidade de retorno.
Nota - Aqui, nesse ponto, é necessário esclarecer: Ninguém gosta de jogar dinheiro fora. Essa conversa de "o que interessa é o colecionismo", "faço isso por amor e não por dinheiro", "dinheiro é o que menos conta" é o que, no jargão popular, se chama "conversa prá boi dormir". Ninguém, de são consciência, gosta de descobrir que toda uam montanha de dinheiro que gastou não vale absolutamente nada, ou muito menso do que "investiu". Atualmente, na TV, existe um programa onde o apresentador se propõe em avaliar diversas coleções nos EUA. Entra na casa do colecionador, mostra a todos o tamanho da sua coleção e, ao final, diz ao seu feliz (ou desiludido) proprietário, quanto vale a sua paixão. Ao que me consta, até agora não vi ninguém dizer "isso não me interessa". Claro que interessa, afinal estamos falando de dinheiro. Queira ou não, mesmo que o objetivo principal seja de foro íntimo, mais atrelado à satisfação pessoal, ao amor pelo hobby, do que propriamente ao capital gasto, é SIM, uma forma de investimento.
Voltando ao que interessa, a melhor forma de iniciar é a seguinte: 

1. Ingresse em uma sociedade numismática.

As Sociedades Numismáticas, a exemplo da SNB, dispõem de biblioteca com boas fonte de consulta. Atualmente, as mais frequentadas são a Sociedade Numismática Brasileira, localizada em São Paulo e a Sociedade Numismática Paranaense, de Curitiba.

A SNB conta com uma biblioteca muito vasta, contendo importantes volumes, acumulada desde a sua fundação em 1924. Quem pretende iniciar na numismática, esse é o melhor caminho. A anuidade custa muito pouco, se levarmos em conta o que a Sociedade oferece. Além disso, é ali que se reúnem os que que podem dar bons conselhos a quem inicia. As reuniões aos sábados, a oportunidade de participar de eventos e o acesso à sua ampla bliblioteca irão ajudar muito a quem, no início, é apenas um "curioso". Informe-se, observe os leilões, pergunte e, principalmente, leia muito; principalmente se familiarize com o vocabulário (orla, bordo, reverso invertido, serrilha, incusa, cerceio. Essa é a primeira fase. O aspirante a numismata está "namorando" o que pode, ou não, se retornar uma grande e duradoura paixão.

Museus, sociedades numismáticas e instituições financeiras, cada vez mais preocupadas em preservar a memória das nações. A numismática contribui notavelmente para compreender a história da humanidade.


2. Dê tempo ao tempo.

Traduzindo: "Não meta a mão no bolso, comprando tudo que aparece". As moedas estão aí, aparecem sempre. O que pode parecer uma oportunidade única, na verdade reflete-se mais como ansiedade de "marinheiro de primeira viagem". Enquanto não estiver preparado, não compre, não gaste seu rico dinheirinho. Você ainda nem sabe como guardar suas moedas, nem mesmo sabe como colecioná-las, nem mesmo sabe se deve ou não metê-las debaixo d'água com sabão e dar-lhes uma bela escovada, antes da esfregadela com Kaol. Aliás, diga-se de passagem, em hipótese alguma, faça isso.

Começando cedo. O colecionismo culto instrui, educa, desenvolve a inteligência e a imaginação, ajuda a plasmar o caráter e mantém a criança e o jovem adolescente longe dos problemas que tanto afligem os pais.

Deixe a coisa esfriar, a empolgação passar e o desejo amadurecer. Quando você tiver certeza de que não "pode viver sem ela", antes mesmo de possuí-la, pense onde irá "guardá-la". Afinal, estamos falando de um "casamento" e, como diz o jargão popular, "quem casa, quer casa". Chegou a hora de você aprender como tratar, guardar e conservar suas moedas:


3. Como limpar moedas.

Trata-se de um capítulo controverso; principalmente porque o leitor encontra um elenco enorme de opiniões, o que termina por confundi-lo ainda mais. Dessa forma, ilustraremos aqui apenas o resultado da nossa experiência no manuseio e conservação das moedas, ao longo de quase 30 anos lidando com a numismática.

Limpeza – Jamais limpe uma moeda! 

Principalmente não o faça com água, detergente (nem mesmo neutro), amônia ou com qualquer outro produto abrasivo. O uso de escovas de dente (mesmo aquelas para bebês, muito macias) irão arruinar a sua moeda. 

Por que?

Resposta: Uma moeda leva anos para adquirir uma bellíssima pátina - o numismata Cesar Bulgarelli costumava chamá-la de pátina cor de elefante - que outros preferem chamar de pátina de medalheiro, recordando os antigos armários confeccionados em madeira nobre, onde se guardavam as moedas acondicionadas em cofres, permanecendo ali trancadas por anos. Jamais devemos lavar ou expor uma moeda a qualquer produto químico. Os produtos abrasivos como kaol ou brasso devem ser absolutamente evitados, pois literalmente retiram toda pátina da moeda, danificando-a.

Como se deve, então, limpar uma moeda aparentemente “suja” ?

Resposta: Não deve ser feito! A melhor decisão é deixá-la como a compramos. E mesmo que seu aspecto nos incomode, é mister recordar que para um estudioso, ou para um colecionador experiente, aquilo que ao neófito pode parecer sujeira, é na verdade um ponto a mais no grau de conservação e consequente valorização da moeda. Se realmente for necessário, o trabalho deve ser executado por profissional gabaritado. Na Europa e nos EUA existem laboratórios especializados na limpeza e conservação de moedas.


4. Como conservar moedas.

Mais um capítulo polêmico e controverso. Dessa forma iremos transcrever aqui o resultado do nosso convívio diário com a numismática. Trata-se tão somente de uma opinião oriunda do nosso habitual manuseio de moedas. Lembre-se: "enxoval" em primeiro lugar. Aqui a ordem é a poligamia; é hora de aprender a preparar o harém para as suas namoradas. 

Existe uma infinidade de produtos, dos mais variados, oferecidos no mercado. O colecionador brasileiro, em particular, tende a supervalorizar os produtos estrangeiros, quando na verdade a questão reside não no produto, mas sim numa espécie de filosofia do colecionismo, adquirida ao longo dos anos. 

Figura: Os materiais colocados no mercado, à disposição dos colecionadores, é muito vasto e de diversos fabricantes. Nos mercados europeu e americano, a variedade é enorme, indo de produtso de mediana qualidade, até os "top" de linha. De certa forma, isso contribui a confundir ainda mais o colecionador iniciante, que fica indeciso na hora de escolher como irá acondicionar suas moedas. O importante é escolher um que se adapte à sua coleção, dando um aspecto homogêneo ao conjunto que pretende formar. Clique na imagem para ampliar.

Atualmente, os mais experientes nessa área são poucos; na verdade, quase inexistem. Em algumas raras oportunidades nos deparamos com moedas com pequenas marcas de esmalte vermelho ou azul, o que imediatamente nos ajuda a identificar um desses antigos numismatas. Os envelopes de papel pergaminhado antigo (parecem alinhavados) contendo anotações em escrita fina de antigas canetas, são indícios de quem possa ter sido o proprietário de um determinado exemplar. Geralmente são exemplares que apresentam uma pátina sutil e belíssima, uma coloração adquirida ao longo de muitos anos de conservação em cofres e medalheiros, sempre acondicionadas em envelope de papel pergaminho, contendo anotações extremamente relevantes, quase sempre realizadas em bela caligrafia.

Hoje nos deparamos com uma gama enorme de produtos, realizados com os recursos de que dispõe a moderna tecnologia. Envelopes plásticos (ou de acetato), malas, maletas, estojos, gaveteiros de plástico, divisórias forradas em veludo ou com o chamado flocado; as marcas são muito conhecidas do público apaixonado pelo colecionismo. Sem desmerecer o uso desses materiais, por razões particulares optamos por dar preferência ao método tradicional.

No dia-a-dia do nosso contato com a numismática, aprendemos que o melhor método para conservar moedas ainda é aquele desenvolvido pelo numismata César Bulgarelli. Consiste num recorte de papel Canson de excelente qualidade, de forma quadrada; um primeiro invólucro que, em seguida, será acondicionado no envelope.

A técnica é simples, mas extremamente eficaz:
  1. Em primeiro lugar, recorta-se o papel Canson em um quadrado de aproximadamente 151 mm x 151 mm, ou outras dimensões, mas sempre em formato quadrado.
  2. Em seguida, dobra-se o quadrado de maneira a formar um invólucro de 50 mm x 50 mm. Basta dobrá-lo em 3 partes iguais, vertical e em seguida perpendicularmente.
  3. Acondiciona-se a moeda dentro desse invólucro; todo conjunto vai dentro de um envelope quadrado de dimensões que podem variar de 52 a 60 mm.


O papel Canson é recortado em um quadrado de aproximadamente 151 mm x 151 mm.

A moeda, já acondicionada em seu invólucro, está pronta para ser colocada no envelope.

O resultado final, a moeda em seu invólucro de papel do tipo "canson", é colocada dentro do envelope, garantindo uma singular proteção ao exemplar, além de contribuir para preservar a pátina da moeda, sem os subterfúgios usados por pessoas que lançam mão de produtos químicos a fim de dar à moeda uma coloração "não natural". 

Mesmo resultado, utilizando outro tipo de envelope. Material confeccionado por Bentes acessórios para numismática e filatelia.


Esse é o método que usamos, e que ao longo dos anos conquistou nossa confiança, mantendo as moedas íntegras no seu estado de conservação, inclusive auxiliando no processo de preservação da pátina original, melhorando seu aspecto geral.

Em outras palavras, apesar de não pretendermos ditar regras e nem desmerecer os produtos oferecidos no mercado, apenas expomos aqui o resultado de nossa experiência em lidar com moedas ao longo de todos esses anos, o que acreditamos ser nossa obrigação repassar ao leitor.

Alguns numismatas confeccionam seus próprios envelopes, o que pode se constituir em solução muito boa; porém onerosa. Fazem isso por possuírem milhares de exemplares, o que por si só justifica a decisão de confeccionar o próprio material.

Existem, no mercado, envelopes de papel de muito boa confecção e qualidade, principalmente os europeus e americanos. Para o acondicionamento desses envelopes, aconselhamos pequenas caixas de cartão, ou de madeira, confeccionadas com esse objetivo, e em medida padrão suficiente para contê-los.

A título de exemplo, passamos ao leitor o método que usamos em nosso negócio e no acondicionamento do nosso acervo particular.
  1. Usamos sempre, e unicamente, o método desenvolvido por César Bulgarelli. As moedas vem acondicionadas em papel do tipo Canson, da marca italiana Fabriano, e inseridas em envelopes de nossa confecção, de medidas 52 mm x 52mm.
  2. Em seguida, o envelope contendo a moeda é colocado em caixa de cartão (ou madeira de lei) de medidas internas 55 mm x 55 mm  x 250 mm, o suficiente para conter 80 moedas. O leitor pode optar pelas medidas 55 mm x 55 mm  x 200 mm, espaço interno suficiente para acondicionar 65 moedas.
  3. Essas caixas, por sua vez, podem ser guardadas em armários feitos sob medida ou mesmo naqueles que encontramos em lojas de móveis ou ainda em cofres (melhor opção). Por se tratar de um hobby nobre, muito ligado à arte, história e antiguidade, somos de opinião que a estética deva conduzir a preferência do colecionador.

Figura: Resultado obtido em moeda acondicionada pelo método criado por César Bulgarelli. Após alguns anos de conservação, o exemplar adquiriu um brilho e pátina cor de elefante ainda mais espetaculares do que possuía anteriormente, sem adição de produtos químicos, apenas pelo correto armazenamento do exemplar de prata, metal que se devidamente guardado, adquire essa coloração fresca e bela.

Em seguida, as moedas podem ser dispostas em caixas de cartão rígido como as que se vêem na imagem a seguir. São econômicas, mantém as moedas distantes da humidade, podendo ser substituídas por novas, devido ao baixo custo.




Figura: Apenas em vitrinas de negócios deve-se usar os expositores aveludado ou flocado. Este tipo de material não é aconselhado para quem coleciona e, consequentemente, manuseia as moedas. Os exemplares expostos em negócios permanecem na vetrina, sem movimentação, e quando retirados retornam aos seus cofres, evitando as marcas de contato, resultantes do atrito da moeda com o fundo aveludado ou flocado.


Leia, instrua-se; a Numismática é uma forma de colecionismo culto

A numismática requer muita leitura, muito conhecimento da história e uma bagagem cultural ampla. Recordamos que, muito mais do que o simples ato de colecionar moedas, trata-se de uma ciência. O interessante é estudar e se atualizar sempre; o suficiente para minimizar a possibilidade de se adquirir algo que não corresponda ao que se declara. 

De certa forma, podemos dizer que a numismática, como ciência, requer também uma boa dose de intuição. Ao estudar uma determinada moeda, convém ler tudo a seu respeito, o momento em que foi cunhada, a história da cidade onde se situava a Casa da Moeda que a cunhou, a biografia do soberano e de alguns importantes personagens da corte, os preços dos artigos daquela época, os hábitos das pessoas, o comércio, as finanças, a cultura em geral. Tudo para que se tenha uma idéia, a mais abrangente possível, algo que nos transporte a uma determinada época e que nos permita sentir como parte integrante daquele momento. Como pensavam, como agiam, a legislação em casos particulares; consultar documentos que pouco ou nada tenham a ver com a numismática, única e exclusivamente para tentar entender a lógica que prevaleceu naquele instante da nossa história. Trata-se de uma forma salutar de agir por empatia. Como se pode intuir, estudo, cultura geral e muita informação fazem parte da bagagem do numismata por excelência, do contrário o colecionador se arrisca, entre outras coisas, a gastar um monte de dinheiro com o que pouco ou nada vale.

Muito bem! Supondo que, a esta altura, você: 
  1. Já esteja familiarizado com boa parte do vocabulário numismático.
  2. Saiba que as moedas brasileiras são divididas por períodos (Pré-colônia, Colônia, Reino Unido, Império e República).
  3. Saiba que a nossa história numismática tem início com os chamados padrões monetários irregulares.
  4. Já seja sócio de uma Sociedade Numismática. Independente de qual associação você faça parte, não deixe também de associar-se à SNB. Eles possuem uma vasta biblioteca, promovem muitos eventos e reúnem os mais insignes numismatas, brasileiros e estrangeiros.
  5. Esteja frequentando (pelo menos uma vez por semana) a sociedade a qual se afiliou.

Nesse caso, parece que sua paixão não é mera empolgação de principiante. Nesse ponto, podemos dizer que você está trilhando os passos para se tornar um numismata. Mas atenção, pois isso leva tempo.
Um comentário à parte, dirigido aos jovens iniciantes: A experiência nos mostra que, na maioria dos casos, o jovem é por excelência um entusiasta das coisas. Mas também é verdade que esse entusiasmo muda de acordo com os interesses e as vontades de cada um. É normal que um jovem adolescente enverede pelo mundo do colecionismo para, em seguida, aparentemente, abandoná-lo. Curiosamente, mesmo que isso aconteça também na numismática, essa quebra do entusiasmo parece ser passageira.
Explicando melhor: O jovem adolescente que dá os seus primeiros passos dentro da numismática, tende a deixar tudo de lado após algum tempo. Isso é natural e acontece, via de regra (há casos em que a paixão vira amor para toda vida, desde criança), devido aos apelos naturais da juventude (namoro, passeios com os amigos, diversão, escola, vestibular, etc). Contudo, no particular caso das moedas, o "abandono" não é definitivo (salvo os casos de desilusão; mas para evitar que isso aconteça, estamos tentando orientar quem pretende trilhar os caminhos do nobre hobby). Na melhor das expressões populares, nesse caso, diríamos que "o sujeito foi fisgado". Em outras palavras, mesmo deixando a numismata de lado por algum tempo, o jovem, com poucas exceções, retorna ao universo das moedas, mais maduro, consciente e sabendo o que deseja realmente. Em geral, isso acontece entre os 18 e 27 anos; não sabemos explicar porque, mas é assim que a coisa funciona: Quem começou muito cedo e "abandonou", em geral (95% dos casos), retorna por volta dos 27 anos e dali prá frente não "desgruda mais".
Prosseguindo: Bom, a essa altura, é hora de você fazer seu primeiro investimento. Seu pensamento por enquanto deve ser o de adquirir mais conhecimento a fim de ampliar sua bagagem cultural, tão necessária num universo onde o que mais conta é justamente a informação. É hora de comprar um catálogo!


Bem! Somos suspeitos para indicar um, não é mesmo? Assim vamos deixar a seu critério qual escolher. Mesmo porque não sabemos se irá decidir pelas moedas e/ou cédulas brasileiras. As publicações que tratam as moedas brasileiras não são muitas no mercado. Com periodicidade (e isso é muito importante, pois mantém o colecionador/investidor em dia com as informações de mercado), existem apenas dois de moedas e um de cédulas.
Sem a intenção de tentar influenciá-lo na escolha do seu primeiro catálogo, vamos falar um pouco do nosso que, enfatizamos, é periódico. No contexto de um rígido programa de revisão e atualização, elaboramos um catálogo primoroso nos detalhes, com textos e pormenores que facilitam o seu manuseio; além de uma grande quantidade de ilustrações para o bom entendimento do assunto. Atualmente é o único catálogo (já na sua quinta edição) que instrui, educa e orienta o colecionador, principalmente o iniciante. 
Foi idealizado com o objetivo de passar ao numismata (iniciante ou avançado) uma idéia clara e abrangente das cotações das moedas brasileiras, no contexto de um mercado  internacional globalizado.

Todas as informações necessárias à catalogação e comercialização das moedas do Brasil colonial, imperial e republicano; peso, diâmetro, quantidade de moedas cunhadas, grau de raridade, estados de conservação e os valores atualizados, referentes aos diversos tipos, são tratados com a seriedade e o rigor que o assunto merece.
Privilegiando a abordagem didática, tudo foi pensado a fim de evitar que o Catálogo Bentes de Moedas Brasileiras se configurasse, unicamente, numa fonte de consulta de preços. Lidando principalmente com a arte de colecionar moedas, entendemos que seja nosso compromisso, acima de tudo, instruir quem inicia, e auxiliar na consulta de quem já é conhecedor da matéria. Dessa forma, o catálogo (com mais de 1000 páginas) foi elaborado com o propósito de passar ao leitor o necessário entendimento do assunto, além de fornecer um parâmetro de valores para orientá-lo na hora de adquirir novos exemplares para o seu acervo. 

Pronto! Já fizemos a nossa publicidade. Vamos em frente:

Escolhido o seu catálogo, procure familirizar-se com a terminologia nele usada. Faça como quem ainda não conhece bem o vocabulário do nosso idioma e que, a cada palavra nova, consulta um dicionário. Isso fará com que, aos poucos, sua bagagem cultural aumente, criando as condições necessárias para que o seu hobby seja coroado de êxito, proporcionando um mundo de satisfações.

Segundo investimento: Compre uma boa lente de aumento. O mercado está repleto delas, mas existem alguma que são especialmente indicadas na numismática. São cômodas, leves, não ocupam espaço e você pode carregá-las no bolso, sem dificuldade.
Habitue-se a usá-la; pegue algumas moedas (podem ser a de 1 real) e observe-as com sua lente. Primeiro porque isso te dá um certo ar de pesquisador o qu ecertamente te dá algum prazer e, segundo, porque é necessário que ela, desde cedo, se torne a sua fiel companheira.
Perceba através da lente que uma determinada moeda, aparentemente em excelente estado de conservação, possui marcas e sinais de circulação que a colocam num grau bem abaixo daquele que hipotizamos quando examinada a "olho nu".

Lentes: Existem de diversos tipos, tamanhos e preços. As mais indicadas, por sua comodidade, conforto e eficácia são as de bolso como indicado na figura. Algumas marcas como a Lindner custam um pouco mais, mas são muito boas. Escolha as que aumentam até 20x.

A partir de então e daqui prá frente, quando você for à Sociedade Numismática, carregue o seu catálogo e a sua lente. Aos sábados, muitas sociedades numismáticas costumam realizar pequenos leilões de moedas e cédulas. Antes da hasta é possível examinar os exemplares. Não se envergonhe! Observe como os outros se comportam e aproxime-se dos lotes exibidos na mesa. Observe uma ou duas moedas que te chamaram a atenção. Feito isso, folheie o seu catálogo até encontrá-la. Dê uma lida na descrição do lote e concentre-se no estado de conservação, examinando a moeda com a sua lente, procurando aquilo que dificilmente se nota a "olho nu". No futuro iremos passar um fluxograma de como proceder ao observar uma moeda.

Toda essa "parafernnália comportamental" faz parte da conduta de um numismata. É necessária para, aos poucos, inseri-lo no ambiente, fazendo-o interagir com as outras pessoas, com as moedas e com o meio que a circunda. Com o tempo você irá perceber que não conta mais os dias para chegar a sexta feira e ir tomar uma cerveja em um bar, com os amigos. Vai passar a contar os dias para que chegue o sábado, dia de reunião da Sociedade a qual se afiliou. Sim, isso mesmo...a coisa acaba virando uma cachaça. É prazeroso, num sábado pela manhã, ir à sociedade, bater um papo com os novos amigos e passar a sentir que, cada vez mais, faz parte do seu universo. Acredite, você vai se desligar dos problemas do cotidiano. Se tiver filhos pequenos, arraste-os com você. Crianças são curiosas e as moedas exercem um tremendo fascínio sobre elas.

Bom, passado esse primeiro momento, é hora da primeira arguição. Isso mesmo! A numismática, sendo uma ciência, requer estudo, empenho e dedicação. Para tanto, nada melhor que uam sabatina para testar seus conhecimentos, ou seja, justamente aquilo que sepaar o numismata do "ajuntador curioso". Não estamos dizendo com isso que o "ajuntador curioso" não possa se tornar um grande numismata. Existem casos (e não são poucos) de insignes numismatas que iniciaram suas coleções juntando moedas de pouco valor, muito gastas, em caixinhas de madeira ou latas. Por outro lado, nada melhor do que iniciar com o "pé direito", não é mesmo?

Vamos lá!...coragem! Clique no link a seguir e tente responder às questões dees primeira arguição. Lembre-se, ninguém sabe tudo. O importante é o empenho, o interesse e a dedicação. Assim, quando não souber a resposta, pesquise, leia, aprofunde-se no assunto. Tudo isso faz parte do processo de aprendizado. Não estamso nos bancos escolares com alguém com uma caneta vermelha na mão, pronta a te dar um redondo "zero".


Hoje paramos por aqui. Agora vamos dar o devido tempo para que você pesquise e aprimore seus conhecimentos. Lembre-se: Sem a devida informação e conhecimento específico do assunto, o que poderia ser um hobby capaz de proporcionar horas de puro deleite, pode se revelar uma completa desilusão. Muitos desistem no meio do caminho justamente por: A falta de uma orientação didática.
Pense só! Você no meio de pessoas (em qualquer situação, mesmo fora do âmbito da numismática) conversando sobre um assunto que você desconhece por completo ou que, mesmo sabendo alguma coisa, se arrisca a ser encarado como "palpiteiro".

Então, mãos à obra! Faça o download do file PDF e responda às perguntas do questionário.


O acervo

Agora iremos tratar da coleção propriamente dita. Se você já percebeu que foi fisgado e que o único jeito é continuar se aprofundando no assunto, é melhor começar a pensar na montagem da sua coleção.
Convém recordar que qualquer tipo de colecionismo envolve gastos, alguns mais, outros menos, mas no caso da numismática o empate de capital pode ser notável. Isso levanta uma questão importante, levianamente desconsiderada por muitos, ignorada por conveniência por outros, mas a verdade é que você precisa saber que depois de algum tempo dedicando-se à numismática, o investimento de capital pode ser notável.
Mesmo que a maioria grite aos quatro ventos que em numismática o que interessa é o amor pelas moedas, alegando, inclusive, não se preocuparem com o investimento feito em um acervo, a coisa não funciona dessa forma. Se assim fosse, não veríamos frequentemente, hastas de grandes acervos como a que aconteceu recentemente nos EUA, no leilão da coleção RLM.
Pois bem, dessa forma iremos iniciar nossa conversa justamente abordando um tema para lá de polêmico entre os numismatas. Você coleciona por paixão, não se importanto minimamente com o que gasta ou, paralelamente ao amor que dedica às suas moedas, está bem claro em sua mente que um dia, talvez, pretenda leiloar seu acervo e, dessa forma, encara a coisa, também, como uma forma de investir bem o seu rico dinheirinho?

Vamos lá! Analisemos as situações:


Estudo, hobby ou investimento?

Como estudo, poucas disciplinas são tão interessantes e tão coligadas com campos similares, como é a numismática. De fato, não se pode conceber que alguém se dedique a tal ciência sem se aprofundar nos fatos coligados ao período escolhido, sob os mais variados aspectos, do perfil histórico ao geográfico, do político ao sócio-econômico. Até o perfil artístico ajuda a melhor compreender as nossas moedas.


As moedas são testemunhas certas e imparciais, sendo documentos das épocas que representam; e como tal dão uma contribuição viva, tangível, verdadeira, à situação sócio-ecônomica, aos eventos de guerra e paz, aos períodos de diversidade econômica, às manifestações artísticas e muito mais; em poucas palavras, à vida quotidiana da sua época. 

Como hobby é muito difícil encontrar outro que desperte o interesse suscitado pela numismática e pela filatelia; seja pela variedade dos argumentos tratados, seja pela amplitude dos períodos históricos, seja pela importância e variedade da documentação requerida. 

Em numismática não existem limites às escolhas; pode-se tranquilamente variar no tempo e no espaço, com bases técnicas e científicas, ou mesmo confiando na fantasia e no próprio bom gosto. Todos os temas são possíveis, sempre que sejam bem definidos;  para cada argumento ou especialização, será somente a personalidade do colecionador a decidir o caminho a ser seguido.

Um acervo montado com lógica, critério e boas peças, cedo ou tarde, para quem tem uma determinada dose de paciência, não somente gera um amplo interesse pelo volume de capital nele investido, mas quase sempre anulam o fator inflacionário, reservando uma certa recompensa ao trabalho e à fadiga do colecionador/investidor prevenido. Essa afirmação foi confirmada por estatísticas efetuadas por pesquisadores do campo econômico que chegaram a considerar as moedas de coleção como os mais rentáveis e seguros bens de refúgio.

As moedas apresentam numerosas vantagens se comparadas a muitos outros tipos de investimentos: acima de tudo, são facilmente transportáveis e não se deterioram. Podem agregar muito valor em um pequeno volume e tem cotação internacional. Aquilo que se compra em Milão, pode ser vendido em Londres; aquilo que se adquire em Paris pode passar de mãos em Nova York ou no Brasil.

Além disso, entre as moedas de quase todas as especialidades numismáticas, aparecem o ouro e a prata que,  como sabemos, são os metais que desfrutam de maior prestígio e de grande simpatia no meio das finanças.

Certamente - e aqui estamos de pleno acordo, diga-se de passagem - o numismata deve ser, acima de tudo, um estudioso apaixonado pelo seu hobby. Contudo, isso não significa que não deva estar atento ao seu investimento. Afinal de contas ninguém gostaria de saber, daqui a alguns anos, que todo seu acervo vale muito menos do que todo capital investido nele. Mesmo sabendo ser o colecionismo o objetivo da maior parte dos nossos leitores, convém recordar que estamos lidando com um considerável investimento de capital, sujeito a notável valorização com o passar do tempo. Nesse crescente mercado internacional, a numismática vem despertando, entre privados e instituições financeiras, um crescente interesse como alternativa segura de investimento de capital. Não se trata mais de um simples hobby, de uma curiosidade.

Os leigos tendem a encarar a numismática como algo supérfluo, um capricho, um gasto desnecessário. Há quem ainda imagine a coisa como uma lata de leite em pó cheia de moedas que não valem nada. Há alguns anos, uma amiga da minha mulher, perguntando sobre o meu trabalho, indagou: "-Moedinhas?"... certamente ela nem poderia imaginar que o salário de um inteiro ano do seu marido não seria o suficiente para pagar por apenas uma dessas "moedinhas".



Períodos

No caso do Brasil, as moedas clássicas são aquelas que vão desde o descobrimento até o final da primeira República, também conhecida como República Velha que se deu com a saída do presidente Washington Luis. São já detentoras de um target price consolidado ao longo dos anos, estabelecido por leis de mercado bem definidas. Seu preço varia, na maioria dos casos (com raras exceções) sempre para mais, justificando o capital investido. Isso se o colecionador atentar para determinadas regras que devem ser obedecidas cada vez que compra uma nova moeda para o seu acervo.

A partir da Nova República (1930), as variáveis que fixam os preços das moedas começam a mudar, principalmente devido à especulação em torno de determinadas moedas que, se para alguns com bons contatos são fáceis de encontrar, para outros (e aqui entram os colecionadores puros, que raramente negociam suas moedas) a coisa é bastante complicada. Nesse cenário, é mister agir com muita cautela. 


Metais

Moedas de ouro ou prata partem sempre, como valor mínimo, do seu peso em metal nobre. Assim, por mais comum que seja uma moeda de ouro, por exemplo, devemos fixar o seu preço de acordo com seu peso e a cotação do dia, para este metal, nas bolsas internacionais. Daí por diante a tendência é subirem de preço, devido a fatores como raridade e estado de conservação.
Sim, é lógico, sabemos disso: As moedas de ouro são custosas, partem de um preço que nunca é inferior ao equivalente do seu peso no metal nobre. Contudo, também é verdade que são um investimento seguro. Talvez ainda não no Brasil, mas certamente são apreciadíssimas no mercado internacional. 

Culturalmente, os bancos brasileiros não possuem ainda uma filosofia voltada para o setor. Ainda encaram a numismática como uma espécie de passatempo e nada mais. Não contam com um departamento de numismática, Não possuem profissionais com o devido conhecimento do assunto em seu staff (experimente falar a respeito com um banqueiro brasileiro). O mesmo não acontece com os bancos suiços, americanos, ingleses, espanhóis, portugueses que investem considerável volume de capital em moedas raras, principalmente de ouro. Podemos até citar alguns deles: UBS, Credit Lyonnais, BES, City BankMonte dei Paschi di Siena, etc. Diversos bancos suiços possuem em seus subterrâneos fantásticas quantidades de raras e raríssimas moedas por entenderem que são um patrimônio de inestimável valor, mesmo que não contem com a liquidez da moeda fiduciária, por exemplo, a única tratada nos bancos brasileiros.

Atualmente, somente o Banco Central do Brasil tem demonstrado interesse no setor. Contudo sempre corremos o risco de que essa filosofia mude de acordo com quem assume a presidência do banco ou a chefia do departamento que administra o setor.


O MVBC (Museu de Valores do Banco Central do Brasil) é talvez o único a se interessar realmente sobre o assunto. Conta com o maior acervo de moedas brasileiras, onde se incluem verdadeiras jóias como a peça da coroação e o 960 réis 1809R (se vc não sabe do que se tarta, tá na hora de anotar e pesquisar, afinal, isso aqui é uma lição). Mesmo com todo interesse do BC, os bancos brasileiros ainda não acordaram para uma realidade que já se consolidou no mundo financeiro: As moedas de coleção são um investimento sólio e seguro.

Novamente aqui a questão é puramente cultural. Há alguns anos, um diretor visionário de um banco brasileiro, resolveu criar um museu numismático e uma casa de leilões de moedas brasileiras. O museu, além de preservar a memória do nosso país, é de uma beleza ímpar, com as moedas dispostas em nichso muito bem elaborados onde, inclusive, o visitante pode acompanhar uma espécie de percurso da nossa história monetária, passo a passo. Quer dizer, poderia! Isso proque o museu, há um bom tempo, encontra-se fechado. Os únicos dois leilões realizados pelo banco, além de terem sido coroados de sucesso, chegou a atrair a atenção de investidores internacionais. Mas como na nossa cultura, tudo que é bom dura pouco, tanto o museu, quanto a casa de leilões tiveram suas portas cerradas. Tudo por conta de uma mudança de gestão da fundação que se ocupava do museu. Quem assumiu o cargo, achou por bem dedicar seu trabalho a áreas de interesses completamente diversos do gestor anterior, dessa forma encerrando as atividades do departamento de numismática do Banco.

Não foi uma decisão tomada devido a um hipotético mau investimento, mesmo porque os únicos dois leilões realizados proporcionaram ao banco, um excelente retorno de capital. A questão aqui, como já dissemos anteriormente, foi puramente cultural. Nós brasileiros, estamos anos-luz atrás do entendimento do que seja patrimônio. Enquanto outros povos entendem que suas economias devem ser investidas em algo que lhes dê segurança, estabilidade e um futuro, nós continuamos achando que patrimônio é dinheiro fiduciário e automóvel.


Façamos um cálculo simples para entender o que estamos falando: Vamos deixar de lado as variantes que servem a estabelecer o preço das moedas de coleção. Tratemos das libras comuns de ouro, por exemplo, que valem praticamente, com pequenas variações, o seu peso em ouro, sem a interferência de outros quesitos.

Há 20 anos, quando foi lançado o plano real e a Unidade Real de Valor (URV),  você as compraria por R$ 45,00 reais, a unidade. Digamos que a partir daí e todos os meses, você comprasse uma média de três libras de ouro por mês. Isso significa que chegaria ao final de cada ano com trinta e seis libras a mais que o ano anterior. Multiplicando isso por 20 anos, hoje você teria em seu "cofrinho" 720 (setecentas e vinte libras de ouro). Agora você vai cair do cavalo: Hoje, no Brasil, estão vendendo uma única dessas libras por valores que variam entre 700 e 800 reais. Vamos na média, ficando com 750 reais para o preço de uam única libra. Faça as contas: 720 libras x R$ 750,00 = R$ 540.000,00 é o que corresponderia ao seu ataul patrimônio.

Isso considerando que você comprasse uam média de apenas três libras por mês. Imagine se comprasse três vezes mais. E olha só!!! Parece que já tem banco brasileiro entendendo que não dá mais para negar essa realidade. Clique aqui e veja.

Mas retornando ao tema que estamos tratando nesse capítulo: Se você já se sente pronto a iniciar a montagem de um pequeno acervo, entenda que isso se dá da mesma forma como quando compramos, por exemplo, a nossa primeira casa. Apesar de não ser definitiva, de não ter as dimensões que você pretendia, etc, encare-a sob diversos aspectos antes de comprar, incluindo o tão "execrado" investimento pelo qual muitos nutrem uma certa repulsa. Sim, isso mesmo! Atento ao seu investimento !!!

Há alguns anos, no Brasil, uma série de álbuns de filatelia foi vendida aos milhares. Eram vários fichários contendo todas as emissões dos Correios, para que os selos fossem fixados em uma página, com Hawid (alguns desavisados fizeram isso com cola, como se fosse álbum de figurinhas).
Pois bem! Passados muitos anos, estes álbuns de selos começaram a aparecer em leilões de final de semana nas Sociedades Filatélicas, colocados a venda por esperançosos herdeiros de "filatelistas" neófitos. Foram tomados por um sentimento de grande desilusão ao saber que os tais álbuns não despertavam interesse. As ofertas não alcançavam nem mesmo à quinta parte de todo dinheiro gasto para montá-los.
Isso porque toda aquela grande quantidade de peças era constituída de selos comuns, que se encontram aos montes por aí. Não estamos dizendo com isso que seja errado colecionar estes selos, mas sim que o colecionador saiba que está dando um peso muito maior à sua paixão do que à preocupação com o que está gastando. O ideal é ficar no meio do caminho, valorizando tanto um quanto outro aspecto. Didaticamente, na tentativa de despertar a paixão em crianças e adolescentes, são gastos que tem um valor justificado, mas para quem quer ser um numismata ou filatelista, essa fase de "juntar tudo, sem critério" ficou para trás.


A montagem de uma coleção

A seguir, na tentativa de auxiliar o leitor em seus objetivos primários, elaboramos algumas perguntas (as mais frequentes) que naturalmente consideramos relevantes na aquisição de um exemplar, principalmente se for considerado raro.
Trata-se apenas de uma sugestão, onde formulamos um critério para que o comprador sinta-se seguro ao adquirir uma determinada moeda para o seu acervo.  Consideramos estas questões de igual relevância, onde nenhuma é menos importante do que a outra.
  • O preço pedido está de acordo com a avaliação do catálogo que possuo? 
  • O exemplar em questão se “encaixa” perfeitamente no tipo de coleção que estou iniciando?
  • A moeda irá enriquecer o meu acervo? 
  • Seria interessante pedir a opinião de alguém mais experiente?
  • O valor a ser pago está em conformidade com o meu orçamento?
  • A moeda possui um histórico que me possibilite saber sua procedência?
  • A fonte da minha aquisição é idônea.
São considerações importantes e que não devem ser negligenciadas. Mesmo quando a ansiedade se faz presente, diante da possibilidade de se adquirir um exemplar raro, estes critérios devem ser sempre observados. Recordamos que o nosso objetivo é passar ao leitor todas as informações pertinentes e necessárias para uma boa, sólida e segura aquisição ou venda.


Outras considerações importantes:

1. Aconselhamos ao colecionador a adquirir apenas as moedas que constam dos catálogos e, sempre no melhor estado de conservação possível, com seu brilho original, já que valorizam muito mais do que as outras. Representam, além da satisfação em possuir belas peças, uma sólida forma de investimento de capital. 

2. Caso a aquisição de um exemplar fdc (flor de cunho) não seja possível, principalmente devido ao grau de raridade da moeda, aconselhamos que seja dada prioridade ao melhor estado de conservação encontrado, procurando sempre adquiri-lo de pessoas sérias, idôneas e confiáveis, dispostas a arcar com as consequências de uma venda duvidosa (um falso, por exemplo; ou um exemplar que não corresponda à descrição).  

3. Muitas dessas moedas, aparentemente belíssimos exemplares, podem ter sido lavadas, retocadas ou terem suas datas adulteradas por mãos habilidosas, com pontos de solda e outros pormenores que as desvalorizam sobremaneira. Para isso serve a sua lente..observe bem, procure pontos de solda ou algo que possa despertar sua suspeita. Mas atenção: Não faça disso uma espécie de "paranóia do falso". Para isso serve o estudo, a observação sistemática, o amadurecimento.

4. O leitor deve estar sempre atento, pois algumas moedas não correspondem à descrição que as acompanha. Aos que desejam ingressar no reservado círculo dos numismatas, aconselhamos, antes mesmo de iniciar seu acervo, muita prudência, cautela, critério, consulta, uma boa lente de aumento, e muita leitura. 

5. O interessante é estudar e se atualizar sempre; o suficiente para minimizar a possibilidade de se adquirir algo que não corresponda ao que se declara.  A numismática requer muita leitura, muito conhecimento da história e uma bagagem cultural ampla. Recordamos que, muito mais do que o simples ato de colecionar moedas, trata-se de uma ciência.


Poder aquisitivo

É verdade, muitos não dispõem do necessário capital para investir em seu hobby. Todavia, ao longo dos anos, vimos pessoas com alto poder aquisitivo comprarem um monte de "bugingangas numismáticas" para no final experimentarem uma tremenda desilusão e consequente abandono. Por outro lado, vimos numismatas com poder aquisitivo moderado e até abaixo da média dos demais, montarem ao longo dos anos, acervos fantásticos. Milagre? Não!!! ... Método, disciplina, aliados a um dom natural para negócios, sim.

O importante é iniciar com o pé direito. Se você não tem o capital para comprar uma dobra da Bahia, em grau de conservação soberbo, talvez possa adquirir uma de Minas (muito mais econômica) em conservação FDC. Se suas posses também não permitem, por enquanto, esse tipo de investimento, a solução é começar por algo mais em conta, mas sempre adotando a filosofia do "melhor possível".
Se você comprar um "fusca" todo enferrujado, acabado, com motor que só te dá dor de cabeça, certamente não pode chamar isso de sabedoria em investir seu dinheiro. Mas se comprar um fusca antigo, original de fábrica, com a pintura ainda resplandecendo de nova, pneus com banda branca, etc, pode ter certeza que na rua você será notado. Mesmo objetivo na escolha, mas com filosofias diferentes na hora de comprar.

Se o seu capital não permite nenhuma dobra, por exemplo, talvez permita, pouco a pouco, formar um belo conjunto de "níquel do Império FDC". Alguns valores e datas custam pouco, mesmo estando em estado excepcional de conservação. Compre estas, caso tenha decidido iniciar seu acervo com os níqueis do Império...e não saia dessa trilha. Nada de, sem mais nem menos, descambar para outro lado, e comprar um patacão recunhado sobre 5 pesetas, por exemplo...ou sobre sol argentino. Não que sejam investimentos ruins...o problema é que você está focando seu objetivo nos níqueis. Se pular de galho em galho, vai acabar como "mosca de padaria, que pousa em tudo que é pão, mas não come nenhum".

Outra opção seria iniciar pelo terceiro sistema de prata, o que não é pouco. Afinal são mais de 130 moedas. Imagine só a sensação de encontrar um novo exemplar, um 2.000 réis de prata, um belíssimo FDC, dando moleza numa numismática. Você o adquire, leva prá casa e o pousa suavemente em seu pedestal, ocupando seu lugar de destaque.
Depois de um certo tempo você será o feliz proprietário de um conjunto de respeito. Sim, sabemos que nem todas as moedas são encontradas nesse estado de conservação (FDC). Mas não se esqueça do que dissemos anteriormente: Compre o exemplar no seu melhor grau de conservação possível. No nosso catálogo, por exemplo, você irá saber se o exemplar que deseja, existe ou não, em estado de conservação FDC. Se a moeda pretendida nesse ou naquele estado de conservação pode ser encontrada. Isso porque, em nosso catálogo, só avaliamos o que temos certeza que existe. Se, por exemplo, nunca vimos uma dobra da Bahia, de uma determinada data, em grau de conservação FDC, não faz o menor sentido dar um valor de mercado para essa peça que talvez nem mesmo exista. 


Escolha um objetivo

Os temas que podem ser abordados na formação de um acervo são os mais diversos. Escolha um deles e mãos à obra, recordando de jamais desviar o foco do seu objetivo.


Exemplo de critério na montagem de um acervo de moedas

O que adquirir? Nota: A nossa sugestão a seguir não passa de um exemplo de acervo. Os temas a escolher são vários e vão de investimento muito alto e baixo, passando por moderado. Podem ser: 

1) Moedas de prata do terceiro sistema
2) Moedas de níquel do Império
3) Moedas de prata da primeira República
4) Moedas do Cruzeiro
5) 960 réis da Bahia ... etc...etc.

A seguir, apresentamos, a título de exemplo, o que poderia servir de orientação para formar um acervo de moedas brasileiras. O leitor poderá constatar, inclusive, como um simples tema, aparentemente fácil de se formar e catalogar, é na verdade bastante complexo.


Tema: Moedas brasileiras sob o reinado de D. João V.


Moedas de ouro
  • Um exemplar de 20.000 réis (série dos dobrões)
  • Uma Dobra (12.800 réis) de qualquer Casa, e com qualquer tipo de escudo ou efígie. O que importa é que esteja no melhor estado de conservação possível
  • Um exemplar de 10.000 réis (série dos dobrões)
  • Uma peça (6.400 réis), obedecendo o mesmo critério
  • Uma moeda (4.000 réis)
  • Uma meia-peça (3.200 réis). São moedas raras, principalmente se em bom estado de conservação.
  • Uma meia moeda (2.000 réis)
  • Um exemplar de 1.600 réis, sempre obedecendo o critério de qualquer Casa e no melhor estado de conservação possível
  • Um quarto de moeda (1.000 réis)
  • Um exemplar de 800 réis
  • Um 400 réis

Moedas de prata
  • Um 640 réis
  • Um 320 réis
  • Um 160 réis
  • Um 80 réis

Moedas de cobre

Atenção: Não inclua moedas com carimbo de escudete. Não são moedas de D. João V e sim do soberano que ordenou a aplicação da contramarca.
  • Um exemplar de XL réis
  • Um exemplar de XX réis
  • Um exemplar de X réis
  • Um exemplar de V réis

Esclarecimento ao leitor: Neste ponto, completado o acervo acima, o colecionador já se encontra na condição de expositor de nível I, com uma pequena mas “poderosa” coleção, capaz de narrar parte da história de um Reino, de um país (colônia) e de toda a vida de um soberano e seu reinado. Acrescentando textos e fotos, dispostos com critério, disciplina e método, com material em expositor, inclusive com gravuras, poderá dispor de um “enredo”, com início, meio e fim. Pode, por exemplo, mostrar que suas peças de ouro, dispostas em ordem decrescente, podem ser agrupadas segundo um critério, a exemplo da série dos dobrões, o que pode ser esclarecido com textos, gravuras e fotos. As possibilidades são imensas, quando existe lógica no que fazemos.

A partir daí, sua COLEÇÃO (e não um apanhado de moedas sem critério) poderá ser enriquecida como o exemplo que se segue.
  • Um dobrão de 1724 (raro)
  • Uma Dobra com casa, escudo, serrilha ou efígie diferente da que já possui
  • Um meio dobrão de 1724 ou de outra data (haja vista o de 1724 ser raríssimo e muito caro quando em bom estado de conservação)
  • Uma peça (mesmo critério usado para a Dobra)
  • Uma moeda (4.000 réis)...etc, etc, etc.

Os critérios, a partir do momento em que o colecionador atinge esse nível, passam a ser de foro íntimo, desde que não desvie do seu objetivo primário, no caso do exemplo, moedas de D. João V. O leitor deve ter em mente que o importante é o critério que lhe permita enriquecer seu acervo, trazendo novidades a cada exposição, fazendo com que “suba” de nível como expositor, até atingir o grau máximo “hors concours”.

Um outro exemplo: Patacões recunhados sobre Sol Argentino. Uma bela coleção que requer muito empenho, dedicação, estudo e que consome anos de muita paciência, a fim de obter as peças justas.

Esperamos que com o exposto, possamos contribuir, principalmente com os que iniciam, para que formem seus acervos e que isto lhes proporcione momentos de prazer e satisfação.



A "im"paridade do poder de compra em numismática

Medir o padrão de vida de um país usando apenas as flutuações das taxas de câmbio, em geral, revela-se ilusório. Se o valor do real brasileiro, por exemplo, cai em comparação com o dólar americano, o PIB do Brasil medido em dólares também cairá. Contudo essa variação da taxa de câmbio é apenas o resultado do comércio internacional e do mercado financeiro, o que não significa que os brasileiros ficaram efetivamente mais pobres, ou mais ricos, logicamente desde que os salários e os preços em reais permaneçam estáveis.

Em economia, a PPC (paridade do poder de compra) ou PPA (paridade do poder aquisitivo), é um método alternativo à taxa de câmbio para o cálculo comparativo do poder de compra de dois países. A PPC mede o quanto uma determinada moeda pode comprar em termos internacionais (normalmente, o dólar), já que bens e serviços têm diferentes preços de um país para outro, ou seja, a PPC relaciona o poder aquisitivo de uma pessoa com o custo de vida do seu país, mostrando se essa pessoa consegue comprar tudo que necessita com seu salário.

A PPC é necessária porque a mera comparação dos produtos internos brutos (PIB) em uma moeda comum não é capaz de descrever com precisão as diferenças em prosperidade material. A PPC, ao invés, leva em conta tanto as diferenças de rendimentos como também as diferenças no custo de vida. Os preços não flutuam num nível uniforme; na verdade, a diferença nos preços de alimentos, por exemplo, pode ser maior que a dos preços de habitação ou a dos gastos com entretenimento. Ademais, os padrões de compra, e até mesmo os bens disponíveis para compra, são diferentes de país para país. Portanto, uma cesta constante de bens não pode ser utilizada para comparar preços em diferentes países.

As diferenças entre a PPC e a taxa de câmbio real podem ser significativas. Por exemplo, o PIB per capita na República Popular da China é de cerca 5000 dólares, enquanto que com base na PPC, passa a 8400 dólares. Na outra ponta, o PIB per capita nominal do Japão é cerca de 37600 dólares, mas o valor em PPC é de apenas 31400 dólares.

Nota: A explicação técnica sobre a PPC vai além do objetivo deste artigo. Quem possuir um razoável conhecimento de matemática financeira e quiser se aprofundar, pode fazê-lo, clicando aqui.


As variações do câmbio no âmbito da numismática

Simplesmente converter o valor pago por uma moeda de coleção, adquirida em um país estrangeiro, usando apenas a taxa de câmbio, acreditando que essa conversão traduza o quanto ela possa valer no país de destino, é um erro crasso cometido por quem desconhece as leis que regem o mercado internacional. Isto porque não basta a simples conversão do preço baseada no PIB dos dois países. Outras variáveis, tão ou mais importantes, devem ser consideradas, a exemplo do poder de compra de um cidadão, em um e noutro país que podem ser muito diferentes.

É um equívoco achar que ao comprar um determinado objeto nos EUA, por exemplo, para saber quanto este vale no Brasil, usar meramente a taxa de câmbio. 

Exemplo: Digamos que hoje US$ 1,00 dólar valha, hipoteticamente, R$ 3,00 reais. Adquirir um determinado objeto nos EUA e simplesmente multiplicar seu valor por 3 (três), acreditando que isso seja o bastante para apreçar o objeto no Brasil e, partindo desse parâmetro, tentar vender esse objeto com lucro, pode revelar-se uma armadilha, o que vem acontecendo frequentemente no mercado numismático brasileiro.
Considerando ainda o hipotético câmbio de US$ 1,00 = R$ 3,00, pagar, por exemplo, US$ 30.000,00 dólares por uma moeda brasileira, nos EUA, com a intenção de revendê-la no Brasil, aplicando a conversão da moeda americana para o Real, avaliando o artigo em R$ 90.000,00, e ainda acrescentar um percentual a título de lucro, em geral, demonstra-se uma "lógica" desastrosa.

Por que ?

Simples! Porque o poder de compra do americano médio, nos EUA, é totalmente diverso do brasileiro que compra e paga por serviços em moeda brasileira, o Real.
Apesar desta lei variar de setor para setor, na numismática revela-se um tremendo equívoco valorar uma moeda em reais, usando a taxa de câmbio entre as duas moedas, americana e brasileira.

A grosso modo, quando um americano paga, nos EUA, U$ 30.000,00 por uma moeda, seria, mais ou menos, como se o brasileiro pagasse R$ 30.000,00 reais pela mesma moeda, mas no Brasil. Em palavras simples, o efeito do gasto de US$ 30.000,00, no bolso de um americano, tem o mesmo peso que R$ 30.000,00 no bolso de um brasileiro que ganha em reais.



Isso significa que, quando um cidadão americano gasta U$ 30.000,00 dólares nos EUA, a sensação experimentada é, mais ou menos, a mesma quando um brasileiro gasta R$ 30.000,00 reais no Brasil. Logicamente não estamos aqui tratando das especulações, de inflação e de outras variáveis que possam influenciar no preço das mercadorias, mesmo porque o assunto aqui são as moedas de coleção, um nicho de mercado. O que estamos tentando esclarecer aqui é que pagar por uma moeda, em dólares, nos EUA, acreditando estar fazendo um investimento de capital, é um erro crasso cometido por muitos, desatentos às nuances das leis que regem o preço das coisas a nível internacional.

Se o colecionador pagou, por exemplo, US$ 500.000,00 pela peça da coroação, mas fez isso com a filosofia de um colecionador, desejoso de possuir uma moeda rara do Brasil, mesmo que a compra se demonstre um péssimo investimento, é aceitável sob a ótica filosófica de quem se dedica como colecionador, à numismática. Por outro lado, desembolsar US$ 500.000,00 dólares na compra dessa raridade, acreditando que, no Brasil, ela valha R$ 1.500.000,00 (mantendo a hipotética taxa do câmbio), é um equívoco enorme. A coisa fica ainda pior se a intenção do investidor é obter retorno imediato do seu "investimento". A única hipótese de ganho (ou pelo menos de paridade no investimento) é a de que o câmbio entre a moeda americana e a brasileira se reduza  a "1 por 1". Destarte, o "investidor" poderá pensar em aplicar um percentual sobre esse valor, a título de lucro, trocar tudo por dólares, e torcer para que o câmbio, um dia, lhe seja favorável.


Em outras palavras: 

1. Quem pretende comprar uma moeda nos EUA ou na Europa, pagando por ela, em dólares ou euros, deve estar atento aos preços dos catálogos brasileiros, do contrário irá pagar por ela, muito mais do que realmente vale, obviamente estando no Brasil.

2. É sempre um bom negócio comprar moedas em reais e vendê-las em dólares. Contudo, comprar moedas em dólares, acreditando vendê-las com lucro, no Brasil, não é a mesma coisa.

3. Isso não significa que a moeda não valha o que foi pago por ela. Significa apenas que quem pagou, não atentou para determinadas leis que regem o preço das coisas enem para os valores impressos nos catálogso brasileiros. A moeda do exemplo inicial pode valer, sem dúvida alguma, US$ 30.000,00 nos EUA, mas dificilmente irá valer R$ 90.000,00 reais no Brasil (admitindo a mesma hipotética taxa de câmbio). Pode até ser que SIM, mas quem irá ditar o preço são os catálogos brasileiros e não o câmbio.

A "matemática" aqui é simples. Imaginemos, por exemplo, que um investidor tenha pago US$ 500.000,00 dólares americanos pela peça da coroação. Se esse investidor é americano e pretenda renegociar a moeda nos EUA ou na Europa, aplicando um ganho de 20% sobre o preço, talvez não encontre dificuldade de vendê-la a um investidor ou colecionador, que viva nos EUA ou na Europa. Por outro lado, aplicando a mesma taxa hipotética que estamos utilizando desde o início, converter o preço para reais, acreditando poder vender essa moeda no Brasil, por R$ 1.800.000,00, é mais do que um equívoco...na verdade é uma doce ilusão.

A incrível história de uma moeda que não deveria existir

Agora você irá conhecer uma história fantástica no mundo do colecionismo. Uma história de emoções, paixões, furtos, desilusão, decepções, ansiedade, corrupção, reis e altos funcionários do governo americano, numa trama digna de um filme. Tomará conhecimento dos passos percorridos por uma fantástica moeda que, pela lei americana, jamais poderia existir mas que apesar disso, passou pelas mãos de funcionários da Casa da Moeda da Filadélfia, de um Rei, de pessoas comuns, de altos funcionários do governo americano, de agentes secretos, colecionadores e comerciantes de jóias e de moedas, até chegar à Stack’s e Sotheby’s e ser leiloada pela fantástica soma de 6,6 milhões de dólares, tendo seu comprador desembolsado quase 7,6 milhões devido às comissões das prestigiosas casas de leilão.
Você vai conhecer as investigações e de como algumas destas moedas foram parar, inexplicavelmente, num cofre privado, onde seus herdeiros sequer sabiam o tesouro que continha.

Mas deixemos de lado as considerações e passemos diretamente a esta fantástica narrativa! A incrível e verdadeira história de uma moeda que jamais deveria ter existido. Boa leitura a todos !

A fascinante história de uma raríssima moeda; o US Saint Gaudens Double Eagle de 1933.
O US Saint Gaudens Double Eagle de 1933 vendido no leilão de Stack's e Sotheby's em 30/07/2002.

O martelo do leiloeiro da venda sob ofertas organizada pela Stack’s e Sotheby’s em Nova York no dia 30 de julho de 2002 para vender uma única moeda – aparentemente a mais rara, e com certeza a mais disputada – parou no valor recorde de 6,6 milhões de dólares, uma soma nunca alcançada precedentemente, e que sobe a 7,59 milhões, se levarmos em conta também a comissão do leiloeiro. Mas o que levou um colecionador anônimo a desembolsar esta incrível soma, pagando “tanto” por uma única moeda de ouro de 20 dólares cunhada apenas 70 anos atrás. E, ainda, por qual razão uma moeda cunhada em quase meio milhão de exemplares tornou-se tão rara e disputada?




Esta última pergunta já havia sido feita em 1944 por Ernest Kehr, jornalista responsável pela sessão de filatelia e numismática do New York Herald Tribune que, notando em uma lista de leilão o anúncio da venda de um extraordinário “double eagle de 1933”, pelo qual seu antigo proprietário havia pago um pouco mais de 2000 dólares (valor considerado altíssimo para a época em que foi adquirida), pensou que seria uma boa idéia dirigir-se à Casa da Moeda americana para saber quantos exemplares teriam sidos postos em circulação, e o que poderia justificar uma cotação do gênero.

Foi justamente a curiosidade de Kehr a dar início a uma das mais complexas aventuras numismáticas dos últimos tempos, rica de surpresas, decepções, euforia e desilusões. Uma história que depois de se perder nos anais do colecioismo por mais de 70 anos, ainda hoje não se concluiu definitivamente, e que teve como protagonistas colecionadores ricos e facultosos, comerciantes inescrupulosos, funcionários desonestos da casa da moeda de Filadélfia , agentes do serviço secreto americano, o rei Farouk do Egito , casas de leilão, e, por último, os herdeiros de um dos personagens originalmente envolvidos no “furto” e na venda de alguns exemplares desta moeda, mantidos entre seus bens herdados e trancados num cofre que continha 10 destas raríssimas e “proibidas” moedas. Mas procedamos com ordem.


O FIM DE UMA ÉPOCA

OS 445.500 exemplares do “Double Eagle de 1933” - última cunhagem em ouro das casas da moeda da Filadelfia, de San Francisco e de Denver que desde 1907, colocou em circulação mais de 70 milhões de moedas com desenhos do admirável escultor “Augustus Saint-Gaudens” (na foto ao lado, em seu atelier) – foram cunhadas em Filadélfia em 3 sessões, entre 15 de março e 19 de maio. O contingente tinha sido estabelecido pelo Tesouro Americano em base ao quantitativo de moedas de 20 dólares postas em circulação no ano anterior pelo Federal Reserve Bank, e a abertura dos cunhos se deu em Filadélfia, a partir de 18 de fevereiro.


Em teoria, a cunhagem dos 20 dólares com data 1933 sequer deveria ter sido processada. Logo após a sua eleição em 4 de março de 1933, de fato, o presidente Franklin Delano Roosevelt proibiu o uso do ouro (sob forma de moeda ou certificado) em pagamentos, na tentativa de por fim a grave hemorragia de metal amarelo que arriscava comprometer a credibilidade do sistema bancário americano (na semana ente o fim de fevereiro e início de março de 1933, companhias e privados tinham retirado dos bancos, para estocá-los ou transferi-los ao exterior, mais de 200 milhões de dólares em ouro, perfazendo um total - na cotação atual do ouro - cifra que supera os 6 bilhões de dólares).

Roosevelt anunciou a sua decisão (em vigor a partir do dia sucessivo) domingo, 5 de março, decretando ao mesmo tempo o fechamento de todos os bancos por quatro dias, enquanto o Secretário do Tesouro William H. Woodin (retratado a seguir) telegrafava as casas da moeda de Denver, Filadelfia e San Francisco, ordenando que fossem suspensos quaisquer pagamentos em ouro. O Congresso, convocado urgentemente no dia 9 de março, aprovava no mesmo dia a decisão do presidente. A diretiva de Roosevelt proibia também o acumulo de ouro amoedado por parte dos privados e, mesmo que não especificasse qual fosse o limite quantitativo que fizesse com que um acúmulo chegasse a ser considerado um reato, sancionava a posse não autorizada de ouro em moedas ou certificados, com uma multa de até 10.000 dólares e uma pena de detenção de até 10 anos.

A provisão não impunha explicitamente aos cidadãos americanos de restituir o ouro amoedado, que estivesse em sua posse, ao Federal Reserve Bank, mas que este fosse o seu preciso objetivo, nao restava qualquer dúvida, tanto que o público, respondendo ao apelo do presidente, do Congresso e das autoridades monetárias, e uma única semana fez afluir aos bancos mais de 300 mihões de dólares em ouro. A adesão inicial bem cedo perdeu parte do seu vigor e no dia 5 de abril, um mês depois da divulgação da provisão, o ouro “restituído” ao Tesouro chgava a um total de apenas 633 milhões de dólares. Segundo a estimativa do governo, ao apelo presidencial faltavam, pelo menos, mais um outro bilhão de dólares.

Para acelerar o retorno do metal, que ainda estava circulando, aos cofres do Federal Reserve, no dia 5 de abril Roosevelt (foto ao lado) emanou uma nova diretiva que depois de ter precisado o teto cumulativo (100 dólares), impôs explicitamente aos privados a obrigação de restituir ao Tesouro Americano o ouro de que mantinham posse; uma exceção era consentida somente para as moedas de ouro “raras e inusuais” procuradas pelos colecionadores. As pressões pelo retorno do ouro nos cofres do Federal Reserve continuaram até que o Gold Reserve Act, aprovado pelo Congresso e assinado por Roosevelt no dia 30 de janeiro de 1934 estabelecesse definitivamente que todo o ouro amoedado (revalutado de 20,67 a 35 dólares a onça) pertencia ao governo dos E.U.A., que o transformaria em lingotes de peso e título estabelecidos pelo Secretário do Tesouro (refundindo portanto as moedas) destinando o produto final a ser estocado no novo depósito em construcão em Fort Knox.

Já depois do primeiro decreto de 5 de março de 1933, a Casa da Moeda de Filadélfia poderia ter suspendido a cunhagem das moedas de ouro, não mais admitidas como instrumento de pagamento. Como a burocracia, porém, tem seus próprios tempos e inércias, um primeiro quantitativo de double eagles de 1933 foi cunhado entre 15 e 24 de março, seguidos por mais 200.000 entre 7 e 27 de abril e pelos últimos 145.500 entre 8 e 19 de maio. A inteira cunhagem, embalada em sacos de 250 moedas, cada um pesando cerca 8,4 quilos, foi trancada no cofre F da Casa da Moeda, de onde nunca mais sairia se não 3 anos depois para a refusão. A única exceção foram dois sacos contendo 500 peças ao todo de onde deveriam ser retirados os exemplares destinados ao laboratório da Casa da Moeda e à Comissão de análise para que fossem verificados o peso e o título do metal, tendo sido confiados aos cuidados do tesoureiro e fechados na sua caixa-forte.

Monumento de Augustus Saint Gaudens ao general William T. Sherman.



ESPERANDO PELA FUSÃO


É sobre as 500 peças que ficaram sob o controle direto do tesoureiro-caixa - cargo que, depois da aposentadoria de Harry Powell no fim de 1933 e a saída de cena de seu sucessor designado Hibberd Ott, por motivos de saúde, foi assumido no dia 20 de março de 1934 por George McCann, figura chave nos acontecimentos sucessivos - que devemos voltar a atenção para entender como, quando e quantos “double eagles de 1933” tenham saído ilegalmente da Casa da Moeda de Filadélfia e alcançado o mercado, sempre à espera de oportunidades, por novidades e, com estas, as chances de lucro.

Como resulta da documentação do arquivo da casa da moeda de Filadélfia, 20 das 500 moedas foram enviadas a Washington, mais especificamente ao laboratório da casa da moeda dos EUA para o controle do título, exigência para a qual fossem todas refusas. Das que sobraram, 446 foram mantidas à disposição da Comissão de Análises, convocada na metade de fevereiro de 1934, enquanto outras 34 foram pegas por Edward McKernan, responsável pela câmara de segurança, em 2 de fevereiro. Nao ficou claro se estas moedas foram depositadas novamente nos cofres junto com o grosso do contingente ou se (hipótese mais provável, levando em consideração o reduzido quantitativo e as verificações ainda em curso), se tenham unido as outras em contemporânea custódia do caixa.

A Comissão de Análise, reunida no dia 14 de fevereiro de 1934, destruiu 9 moedas para determinar o peso e o título, resultados ambos regulares segundo quanto o certificado do dia 15 de fevereiro, e no dia 20 as outras 437 foram restituídas a Hibberd Ott, caixa em função e que as repôs na própria caixa-forte junto aos 34 exemplares recebidos em precedência por McKernan (para um total de 471 peças).


A reserva federal de ouro de Fort Knox.


O processo posto em movimento pelo Gold Reserve Act, enquanto isso continuava avançando inexoravelmente. No dia 4 de agosto de 1934 Nellie Tailoe Ross , diretora da Casa da Moeda dos EUA , telegrafou aos diretores dos estabelecimentos de Denver, Filadélfia e São Francisco para dar início à fusão de todo o estoque nacional de moedas de ouro, com a finalidade de tranformar o produto da fusão em lingotes de ouro 900‰ (mesmo teor das moedas, para “não perder temp e nem dinheiro”); uma missão que, devido aos consistência dos recursos e a capacidade das instalações, levaria mais de 2 anos, com uma previsão de conclusão que somente se daria em julho de 1937, com a chegada ao Fort Knox das cargas de lingotes escoltados pelas guardas armadas da Casa da Moeda.

Baseado na documentação oficial, entre 6 de fevereiro e 18 de março de 1937, na Casa da Moeda de Filadélfia foram fundidas e transformadas em lingotes, precedidas por milhares de outras moedas de ouro de 2,5; 5; 10 e 20 dólares, 445.000 “double eagles” de 1933, que nunca saíram do cofre F, mais as 471 em posse do caixa. Das 471 moedas qu erestaram das análises e testes, se devem subtrair os dois exemplares que em 2 de outubro de 1934 George McCann enviou, sob a disposição da diretora Nellie Tayloe Ross, ao Smithsonian Museum, para serem inseridas na coleção numismática do referido museu. A conta, formalmente, estaria correta: das 445.500 moedas cunhadas, 29 foram hipoteticamente destruídas em testes, duas foram doadas ao Smithsonian (fato comprovado), e as outras 445.469 foram fundidas (?). Mais nenhum exemplar do double eagle de 1933 – nunca posto em circulação pela Casa da Moeda Americana – deveria ou poderia ter “sobrevivido”. Mesmo assim.....

A ordem executiva de 5 de abril de 1933.



COMEÇA A CAÇA AO TESOURO


Os primeiros indícios que mostravam que as coisas não tinham ocorrido em conformidade com os documentos oficiais afloraram a partir de abril de 1937, quando um periódico numismático declarou, indicando rumores dos ambientes do colecionismo, que alguns exemplares teriam escapado à fusão, e os que terminaram nas mãos de colecionadores e comerciantes vinham sendo tratados a preço “de afeição”. A notícia não suscitou particular estupor, nem reações por parte das autoridades monetárias. O mundo do colecionismo e do comércio numismático nao era tido sob particular consideração e nem mesmo quem havia desenrolado um papel importante durante a subtração das moedas destinadas à fusao, fazendo-as sair ilegalmente da casa da moeda teria qualquer interesse em “colocar lenha na fogueira”.

Um outro periódico reportou que, sempre em abril de 1937, o conhecido colecionador Fred Boyd teria mostrado algumas semanas antes, na reunião do New York Numismatic Club, um exemplar de double eagle de 1933 em sua posse. O próprio Boyd voltou a expor a moeda em 1938 em Columbus e no ano seguinte em Nova York. Nas revistas numismáticas começaram a aparecer os primeiros anúncios alusivos a quem gostaria de adquirir o último dos double eagles cunhados, e no número de fevereiro de 1941 de “Numismatist” apareceu a primeira proposta de venda; Smith & Son, comerciantes de Chicago, ofereciam (com várias fotos ilustrativas) um double eagle de 1933, “a mais rara da série - exceto pelo exemplar de 1849 - e um dos únicos 3 exemplares conhecidos até hoje. O preço só seria fornecido a pedido dos adquirintes interessados”.

Na época o anúncio não suscitou particular interesse (talvez por causa do preço pedido), tanto que a oferta foi repetida em março e em junho, quando finalmente apareceu um comprador. Nenhuma reação porém, mais uma vez, partiu das autoridades monetárias. Para que isso se verificasse, foram necessários que se passassem outros três anos. De fato, em 18 de março de 1944, Enest Kehr, folheando o catálogo da Casa de Leiloes Stack’s - a ser realizado no dia 25 do mesmo mês - foi pego pela curiosidade de saber o que fazia do lote 1681 (double eagle 1933) uma raridade, e teve a idéia de se dirigir ao escritório do diretor da Casa da Moeda para um esclarecimento. Em 20 de março a questão chegou aos ouvidos da diretora Ross, que pediu a Filadélfia uma resposta. Esta chegou no dia 22 sob forma de um relatório detalhado de 10 páginas, nas quais resultavam os números de moedas cunhadas, destruídas nos testes e refusas, além obviamente das duas entregues ao museu Smithsonian. Nenhuma moeda tinha sido entregue ao Tesouro (e deste aos bancos) para ser distribuída, portanto nenhuma podia, oficialmente se encontrar em circulação. Se isto estava acontecendo, se supunha que o lote oferecido por Stack’s era de uma moeda “falsa” ou “roubada”.

Neste ponto, a Casa da Moeda colocou a questão aos cuidados do serviço secreto, competente nesta matéria por ser o responsável pela repressão à violação ao Gold Reserve Act. Do caso se ocupou pessoalmente o diretor do serviço, Frank J. Wilson, que confiou as investigações aos agentes especiais Harry w. Strang e James Haley. Como estavam efetivamente em presença de um reato, era necessária uma medida veloz, pois ao leilão Stack’s faltavam somente dois dias. No dia 24 os dois agentes foram a Nova York para encontrar o jornalista cuja iniciativa tinha dado início ao caso. Mas Kehr não conseguiu fornecer nenhum outro elemento que pudesse auxiliar nas investigações. Tudo o que sabia, já havia sido relatado. Os agentes então se dirigiram à sede da Stack’s para interrogar os titulares.
Na imagem ao lado, retrato de Nellie Tayloe Ross, a primeira mulher americana a ser eleita ao cargo de governador (Wyoming em 1922) e primeira mulher a ser nomeada, pelo presidente Franklin Delano Roosevelt, diretora da Casa da Moeda, cargo que ocupou de 1933 a 1953.

Considerados totalmente estranhos a qualquer comportamento ilícito, os irmãos Joseph e Morton Stack não tiveram dificuldades em exibir a moeda em sua posse; além disso confirmaram que no catalogo do referido leilão havia um erro; diferentemente de quanto indicado, o precedente proprietário (o coronel Flanagan) não havia pago 2200 dolares pela moeda, mas sim 1250, como vieram a saber uma semana antes. Os irmãos Stack disseram também aos agentes que um outro exemplar da mesma moeda estava notoriamente em posse de Max Berenstein, um joalheiro cuja loja se encontrava a alguns quarteirões dali.

As atuais instalações da Casa da Moeda de Filadélfia.


A este ponto o agente Strang explicou que, de acordo com as documentações do Tesouro, a moeda nunca teria sido posta em circulação, e portanto se tratava presumivelmente de um exemplar falso ou “roubado”, que o serviço secreto teria que sequestrar diante da expectativa de desenvolvimentos posteriores. Durante a tarde, após entregarem aos irmãos Stack, como seu álibi regular, uma fatura pelo double eagle de 1933, os dois agentes saíram da casa de leiloes dos irmãos para se dirigirem à joalheria de Berenstein. A caça ao tesouro ilegalmente “roubado” tinha começado.



UMA INCRÍVEL COINCIDÊNCIA

Aqui é oportuno dar alguns passos atrás. Exatamente um mês antes, dia 25 de fevereiro de 1944 (o que ainda não era do conhecimento dos investigadores), um funcionário da embaixada egípcia em Washington tinha ido ao escritório da Casa da Moeda, no Ministério do Tesouro, para pedir a permissão de exportação de uma moeda que o seu soberano, o rei Farouk (foto ao lado), havia comprado dois dias antes, de um comerciante de Fort Worth, Texas, pagando 1575 dólares; tratava-se de um double eagle de 1933. Baseado no Gold Reserve Act, a exportação de moedas de ouro dos EUA era permitida somente se se tratava de exemplares de interesse especial para os colecionadores, “status” delegado pelo referido escritório da Casa da Moeda.

Depois de um funcionário compilar o pedido e receber o double eagle de 1933, o escritório da Casa da Moeda entrou em contato com Theodore Belote, curador da coleção numismática do Smithsonian que, recordando, possuía os dois únicos exemplares “legais” do s20 dólares de 1933, entregues a este pela Casa da Moeda de Filadélfia. Isto a fim de obter um parecer necessário aos procedimentos formais, o que foi ultimado, sem dificuldades, como favorável à exportação.
Completadas as formalidades burocráticas, em 29 de fevereiro a licença de exportação estava pronta e em 11 de março de 1944, o funcionário da embaixada do Egito retornou ao escritório da Casa da Moeda, a fim de retirar a moeda, acompanhada da referida licença.

Devido a uma fortuita e incrível coincidência temporal, a moeda adquirida pelo rei Farouk obtinha, desta forma, a permissão necessária para deixar legalmente o território dos EUA sendo que duas semanas mais tarde, tal procedimento teria sido certamente impossível.

Em 24 de março de 1944, depois de terem deixado a sede da Stack’s, os agentes do serviço secreto providenciaram o sequestro da moeda que estava na posse de Berenstein e depois de uma primeira perícia realizada na Assay Office de Nova York, as duas moedas foram confirmadas como autênticas e, coisa ainda mais importante, obtiveram do joalheiro os elementos necessários para iniciarem a reconstruir um quadro detalhado de toda situação; quantos eram os exemplares conhecidos no mercado, quem os possuía pelas mãos de quem haviam passado.

Nas três semanas sucessivas, assistidos por alguns colegas, Strang e Haley interrogaram colecionadores, numismatas, comerciantes e funcionários da Casa da Moeda em diferentes localidades dos EUA, e em 14 de abril já estavam prontos para apresentar ao seu superior um primeiro balanço das investigações; um elenco dos 10 primeiros exemplares dos 20 dólares de 1933 já haviam aparecido no mercado até aquele momento (três dos quais haviam sido sequestrados pelos agentes no decurso das investigações e um exemplar levado ao Egito com regular licença de exportação) e mais uma concreta série de indícios que conduziam a Israel “Izzy” Switt, um grande joalheiro da Filadélfia, como sendo a fonte comum de todas as moedas.




A colocar os agentes na pista justa foi James Macallister, um numismata de Filadélfia que afirmou ter adquirido o primeiro exemplar de “double eagle de 1933” (moeda que nunca tinha aparecido em precedência no mercado). Comprou-o de Switt, no dia 15 de fevereiro de 1937 por 500 dólares, revendendo-o logo em seguida a Max Berenstein por 1600 dólares. Assim, quatro dias depois, em 19 de fevereiro, Macallister voltou à loja de Switt e comprou um segundo exemplar por 500 dolares, também este em seguida revendido (por 1100 dólares). Uma terceira moeda, sempre por 500 dólares, foi adquirida no início de julho de 1937, seguido por outros dois (um em julho e outro em dezembro) pelo qual a quantia a ser paga tinha subido a 550 dólares. Depois ele parou – disse Macallister aos agentes – não porque a fonte se tivesse exaurido, mas porque se convenceu que existiam muitos exemplares no mercado para se dizer que era uma moeda de extrema raridade.

Switt foi interrogado pelo serviço secreto em 30 de março, mas mesmo assumindo a venda de 9 double eagles de 1933 no passado, declarou não se lembrar onde as adquiriu e de não ter conservado nenhuma documentação que pudesse ajudá-lo a identificar quando, de quem tivesse comprado, a quem tivesse vendido e por qual valor as tivesse adquirido. Mesmo sob pressão dos agentes, negou sempre de ter mantido contato com o pessoal da casa da moeda da Filadélfia, além do necessário requerido pela sua profissão (venda de restos de ouro para fundição), e declarou sob juramento que não possuia outros exemplares da moeda incriminada.

Nas semanas sucessivas os investigadores examinaram as escrituras contábeis de Switt, sem porém concluir nada de útil para suas investigações que, sem descartar possíveis alternativas, se dirigiam agora a um objetivo bem preciso: a investigação de uma ligacão entre Switt e alguém que tivesse tido acesso às moedas saídas ilegalmente do estabelecimento onde foram produzidas.

Na lista de suspeitos incluiu-se, em particular, o ex-caixa da Casa da Moeda de Filadélfia George McCann: um personagem que, além de ter sob sua custódia - por vários anos e na própria caixa-forte - centenas de exemplares do double eagle incriminado, tinha precedentes discutíveis, tendo sido preso em 1940 sob acusação de ter “roubado” do caixa 339,90 dólares em “trocados” retirados de circulação, levados à Casa da Moeda por privados e comerciantes para serem substituídos por moedas novas do cunho. Mccann se assumiu culpado, e foi condenado a um ano e um dia de prisão, mais uma multa de 500 dólares.
Mesmo não conseguindo provar um contato direto entre McCann e Switt, os agentes descobriram que quase seguramente existia um entre McCann e Edward Silver, cunhado e sócio de Switt cuja assinatura aparecia, entre outros, nos cheques girados por Macallister para pagar as moedas compradas pelo primeiro. Novamente interrogado, Macallister adicionou novos particulares ao caso: em ocasião de cada compra, Switt pretendia que o preço fosse primeiro aprovado por Silver e em num certo momento disse, a propósito dos double eagles de 1933, que “seu sócio Ed(ward Silver) poderia arrumar quantas quisesse”, já que tinha comprado 25 e revendido até então somente 14.

Outras confirmações aos suspeitos vieram da análise da situação financeira de McCann, que entre fevereiro e junho de 1936 tinha registrado, sem uma justificativa aparente, entradas de mais de 9.800 dólares, uma soma equivalente a mais do triplo do seu salário anual, e quase coincidente com quanto retirado no mesmo período por Edward Silver de uma conta bancária sua. McCann, segundo a teoria desenvolvida pelos agentes do serviço secreto teve, por um longo tempo, acesso às moedas que provavelmente conseguiu fazer sair da Casa da Moeda, de pouco em pouco (na época não existiam detectores de metal), substituindo os double eagles de 33 com outros de data comum, para que pesos e números resultassem sempre regular no caso de um eventual controle; tinha mantido contato com Silver; tinha registrado em 1936 uma entrada conspícua e não justificada, contemporaneamente a uma equivalente saída de dinheiro da conta de Silver: os indícios era mais do que consistentes, mesmo se em ausência de uma confissão por parte dos suspeitos.
No final de 1944 o trabalho dos investigadores já havia terminado, e os agentes tiveram uma conferência com o chefe dos Serviços Secretos, Frank Wilson, confiantes de poder começar a fase do plano que levaria os suspeitos para a cadeia. Em dezembro, Wilson mandou a própria relação ao Procurador Federal com o pedido de proceder, mas a resposta, que chegou em janeiro de 1945, foi negativa: os indícios eram sólidos, mas a decorrência dos termos punha os suspeitos ao reparo de qualquer tipo de incriminação.

Medalha prêmio realizada por Augustus Saint Gaudens e Barber para a Exposição Colombiana de 1892-1893.

A impossibilidade de perseguir os culpados pela subtração das moedas não mudava todavia uma coisa: os double eagles de 1933 em circulação nunca tinham sido emitidos, por isso eram propriedade do governo, do qual foram roubadas; o governo tinha portanto o direito de exigir a restituição e, caso o atual proprietário se negasse em fazê-lo, o governo poderia confiscá-las.
Nem sempre os colecionadores - que para terem a moeda tinham desembolsado os “olhos da cara” - estavam dispostos a aceitar tal imposição. Entre junho de 1944 e agosto de 1952 o serviço secreto conseguiu todavia sequestrar , ou receber por “livre e espontânea restituição”, outros seis doubles eagles de 1933 que se encontravam na posse de cidadãos americanos: o único exemplar conhecido em circulação permanecia a tal ponto a moeda adquirida em 1944 pelo rei Farouk do Egito, transferida ao Cairo.


A MOEDA QUE FALTAVA


Enquanto internamente os pedidos de restituição das moedas sequestradas, encaminhados pelos colecionadores ao governo, eram negados, o Governo americano decidiu colocar as coisas em dia com o governo egipcio, onde o rei Farouk tinha perdido o trono no dia 23 de julho de 1952 depois de um golpe de estado. O novo governo fez saber imediatamente que tinha intenção de leiloar os bens do ex-soberano, e que o lucro deveria ser utilizado em benefício do povo. Entre tais bens constava a coleçao numismatica do ex-soberano, composta de mais de 8.800 moedas de ouro, sendo que entre as raridades estava o “double eagle de 1933”. A responsabilidade de cuidar do leilão, executado no dia 24 de fevereiro de 1954, foi dada a casa inglesa Sotheby’s, cujo catálogo denominado “Palace Collections of Egypt” (o nome do rei tinha sido retirado em consideração ao novo governo), reportava no lote número 185, junto com outros 16 double eagles, o exemplar “único” de 1933.


Página do catálogo da coleção Farouk, onde se vê o lote 185. Sublinhado em vermelho a data 1933, correspondente ao cobiòado Double Eagle Saint Gaudens .

Uma cópia do catálogo acabou nas mãos do serviço secreto americano, que através do Departamento de Estado fez intervir a Embaixada do Cairo para retirar a moeda de venda. Somente 36 horas antes da realização do leilão a Embaixada conseguiu confirmar que o presidente egípcio Naguib tinha acolhido o pedido, se resevando todavia o direito de decidir sobre a sorte da moeda. Em 25 de fevereiro o lote 185, reduzido de 17 a 16 moedas, foi regularmente vendido por 2.800 libras; mas enquanto nos EUA a Casa da Moeda da Filadélfia começava a refundir, em agosto de 1956, em base as disposições do Gold Reserve Act, as nove moedas sequestradas pelo serviço secreto, a peça que pertenceu a Farouk desaparecia no nada.

Todas as pistas seguras do double eagle que faltava (aparentemente permanecia no Egito, com quem tinha acesso aos bens sequestrados de Farouk pelo governo nacionalista de Naguib e de seu sucessor Nasser), se perderam por quase quarenta anos, até 1994, quando André de Clermont, um ex-funcionário da Casa de Leilões inglesa Spink’s e por época já trabalhando pro conta própria, comentou com seu novo sócio Stephen Fenton, dono de uma loja numismática em Duke Street, de uma supreendente oportunidade: uma sua fonte egípcia (da qual já tivera a oportunidade de adquirir muitas moedas raras, algumas das quais certamente proveniente da coleção de Farouk), tinha mencionado a possibilidade de dispor também do 20 dólares de 1933.

A negociação – iniciada com um pedido do interlocutor egípcio de 325.000 dólares – começou a “esquentar” no tardo verão de 1995, e no dia 3 de outubro a negociação chegava ao seu clímax. Fenton transferiu para a conta do egípcio - um joalheiro do Cairo – 220.000 dólares, e, depois de 41 anos, entrou em posse da moeda retirada do leilão em 1954 (deste fato não se tem certeza absoluta, dado que a licença de exportação concedida em favor de Farouk não era acompanhada por uma documentação fotográfica, e nem no catálogo do leilão Sotheby’s de 1954 aparecia uma imagem da moeda; mas todas as circunstâncias levam a crer que a moeda nas mãos de Fenton fosse efetivamente a que pertenceu ao soberano egipcio).
Quando a adquiriu, o comerciante britânico tinha passado por um grande risco, ligado tanto a quantia paga, quanto ao “estado” ilegal da moeda (pelo menos, assim era, aos olhos do governo americano). O problema agora era encontrar um comprador, de preferência nos Estados Unidos, que pudesse garantir a ele e ao seu sócio De Clermont um lucro adequado.

Para resolver essa situação Fenton se dirigiu a um amigo na Alemanha que, depois de algumas tentativas em vão, obteve uma resposta interessada da parte de Jasper Parrino, titular de uma loja especializada em moedas raras em Kansas City, que acreditava haver um potencial cliente para a moeda na pessoa de Jack Moore, um mediador sempre a procura de moedas de ouro para um facultoso industrial em Oklahoma. No fim de 1995, Fenton começou a discutir com Parrino sobre a venda do double eagle em sua posse, pelo qual pretendia pedir 750.000 dólares. Parrino pediu a Moore o dobro, mas o caminho pelo qual se desenrolava o negócio conduzia na verdade a uma perigosa armadilha.

Moore, em parte incentivado por motivos de “vingança” (dizia que tinha sido enganado no passado por Parrino, com relação a algumas comissões de venda), se dirigiu a um agente do FBI informando-o que um comerciante estrangeiro estava oferecendo na praça um double eagle de 1933 por 1.500.000 dólares. O FBI o colocou prontamente em contato com o Serviço Secreto, que decidiu montar uma isca com o objetivo de sequestrar a moeda. Moore teria que fazer uma contra-oferta a Parrino, para ganhar tempo, mas sobretudo tinha que pedir que a transação ocorresse nos EUA onde o comprador poderia verificar a autenticidade da peça (na verdade, para o serviço secreto se apropriar da moeda).

Depois de um vai-e-vém de contatos e negociações, Fenton – que havia firmado o preço em 750.000 dolares - concordou em encontrar Parrino e o cliente final em 8 de fevereiro de 1996, em Nova York, em um apartamento do hotel Waldorf Astória que, a esta altura, já havia sido posto sob total vigilância pelo serviço secreto, com videocâmeras e registradores, com agentes que ocupavam um apartamento adjacente.
Uma vez acertado que Fenton tinha efetivamente consigo a preciosa moeda, os agentes irromperam no apartamento onde a negociação estava em curso, e prenderam o numismata inglês, caído na armadilha sem haver levantado a menor suspeita, tanto é que, no início, temeu de ser vítima de um roubo.

Enquanto os agentes sequestravam o double eagle, Fenton foi algemado como um criminoso comum e levado ao subsolo do hotel, onde um automóvel o aguardava para conduzi-lo ao escritório do serviço secreto de Nova York, situado em uma das torres do World Trade Center. Fenton, convocado a se apresentar diante do juiz com a acusa de ter tentado vender uma propriedade roubada ao Governo dos EUA, foi solto graças ao intervento do advogado, e no fim de um dia alucinante, saiu das dependências do Serviço Secreto profundamente abalado com o acontecido, tendo em seu bolso uma fatura de um “artigo de contrabando” sequestrado pelo governo dos EUA, o double eagle no qual tinha investido 220.000 dolares (e com o qual esperava ganhar muito mais).

A disputa aberta entre Fenton (determinado a fazer prevalecer a propria boa fé e seus direitos) e a Casa da Moeda americana (também decidida a reentrar em posse da moeda roubada sessenta anos antes) se fechou somente cinco anos mais tarde, em 15 de janeiro de 2001, com um acordo extra-judicial em base ao qual Fenton cedia a moeda à Casa da Moeda e que essa se empenhava em colocá-la em venda, sendo o lucro relativo a esta venda dividido em partes iguais. A Casa da Moeda insistiu em inserir uma cláusula na qual se especificava que o compromisso feito com Fenton não teria se constituído num precedente para outro exemplar, eventualmente existente, do “20 dolares de 1933”. Caso aparecessem outros, seriam efetivamente sequestrados.

O Federal Reserv Bank de Nova York.
Enquanto a moeda estava sendo temporaneamente transferida por seguranças ao Fort Knox, ocorreu uma outra singular e trágica coincidência: se tivesse permanecido por alguns meses mais no escritório do serviço secreto em Nova York, a moeda se teria perdido seguramente devido ao atentado terrorista de 11 de setembro que destruiu as Twin Towers).

Sotheby’s e Stack’s estavam sendo selecionadas para organizar o leilão onde, segundo as estimativas, a peça poderia chegar a um valor entre 4 e 6 milhões de dólares. O leilão público teve início às seis da tarde de 30 de julho de 2002 partindo de um preÇo inicial de 2,5 milhões de dólares. Exatos 6 minutos mais tarde, um colecionador anônimo arrematava a moeda mais disputada da história por 7.590.020 dólares.
Aos 6,6 milhoes do preço de compra tinham que ser adicionados outros 990.000 dólares de direitos e outros 20 dólares devidos ao departamento do tesouro para “monetizar”, pela primeira e única vez, o double eagle de 1933.


FIM DA HISTÓRIA?

Nem por sonho!

Prova disso é o novo “golpe de cena”, ocorrido em setembro de 2004. Pouco mais de dois anos depois do leilão que parecia ter posto um fim a longa e aventurosa história desta fantástica e bela moeda, se começava a desenrolar um novo (e imprevisto) capítulo. As declarações feitas por Switt a Macallister, e por este, em 1944, referida ao agente Strang, sobre o número total de double eagles de 1933 saídos ilegalmente da Casa da Moeda, deram uma tardia mas sensacional confirmação quando a casa da moeda reentrou em posse, de uma única vez, de outros 10 exemplares da mítica moeda. Isso mesmo ! Dez exemplares de uma só vez, encontrados apenas dois anos após do leilão milionário.

A se mostrar viva as autoridades foi Joan Switt Langbord, filha e herdeira do joalheiro Israel Switt (morto em 1990 com 95 anos), que através de seu advogado Barry H. Berke (o mesmo que tinha defendido os interesses de Fenton durante a longa disputa com a Casa da Moeda entre 1996 e 2001), informou ao governo e à Casa da Moeda americana do achado de 10 moedas entre os bens do pai, acreditando desta forma poder fazer o que bem quisesse e entendesse com os 10 exemplares. Os representantes da Casa da Moeda solicitaram então que a senhora Langbord entregasse as moedas com a desculpa de poder controlar a autenticidade das mesmas; um pedido que a senhora Langbord prontamente aceitou, em acordo realizado através de seu advogado, em troca de um documento no qual a Casa da Moeda se empenhava em reconhecer todos os direitos que Joan Switt Langbord e seus familiares poderiam ter sobre as moedas.

Depois de te-las tranferidas a Washington em junho de 2005 para garantir a autenticidade, confirmada tanto pelas provas de laboratório quanto pela comparação com os exemplares do Smithsonian Institute, a Casa da Moeda anunciou publicamente em 11 de agosto, com grande tristeza para a senhora Joan Switt Langbord, a “recuperação” das moedas (retendo-as como propriedade do governo - a Casa da Moeda decidiu, obviamente, não usar os termos “sequestro” ou “requisição”), que foram mais tarde tranferidas ao Fort Knox, devendo ali permanecer, aguardando uma decisão sobre seus destinos. Três coisas são, de qualquer modo, certas:

  1. Que as moedas não serao destruídas (o Gold Reserve Act foi abrogado por Nixon em 1971);
  2. Que não serão monetizadas (portanto o double eagle de 1933 vendido em leilão em 2002 será o único legal em posse de um cidadão privado);
  3. Que nao serão restituidos aos herdeiros de Switt.

Se por um lado a Casa da Moeda pensa em valorizar os double eagles de 1933 recentemente recuperados como “manufatos históricos” em ocasião de mostras ou exposições, ou consignado-os a um certo número de museus, por outro lado o advogado da senhora Langbord proclama batalha; uma batalha que se mostra toda em subida, tendo em vista os precedentes invariavelmente a favor do governo (mesmo se o valor das moedas disputadas, estimável em muitos milhões de dolares, é tal que não justifica uma desistência incondicionada por parte dos Switt).


O presidente americano Richard Nixon.

Esperando para conhecer qual será o destino das 10 peças depositadas em Fort Knox, um outro interrogativo espera uma resposta:


Afinal, quantos são os double eagles de 1933 em circulação?

Até 2004 eram conhecidos somente 3 exemplares: os dois do Smithsonian, e o vendido em 2002 em leilão. Com o “achado” de 2004 o total sobe para 13, mas Israel Switt afirmou, na época das investigações, que teve à disposiçao 25 moedas, um número que hoje é impossível de se verificar, mas em conformidade com os 9.800 dólares embolsados pelo caixa Mc Cann em 1936 (mesmo sendo possivel que parte desta cifra tenha servido para pagar outros “favores” feitos ao dueto Switt-Silver).

Tomando a sério as afirmações de Switt, e levando em conta que das 25 moedas passadas, segundo ele, pelas suas mãos, se devem subtrair nove fusas em 1956, uma vendida em leilão em 2002, e dez encontradas em 2004; isto significa que existem, em posse de um ou mais cidadãos, ainda desconhecidos graças a “prudência” ou simplesmente a sorte, outros 5 double eagles “proibidos”. Uma “presa” que permanece, em todos os casos, sob mira dos agentes do serviço secreto americano , prontos a confiscá-las assim que elas surjam da neblina que a sorte as circundou até hoje.

Da próxima vez que você for a uma numismática e verificar que existe um Double Eagle Saint-Gaudens à venda, esteja atento(a) à data. Afinal, ainda existem no mínimo 5 destes exemplares “perdidos” por aí. Talvez sejam bem mais do que apenas cinco.

FIM

Bibliografia:
Livros:
Don Taxay: The Us Mint and Conaige, Arco Publishing Co., New York 1966.
David Tripp: Illegal Tender - Gold, Greed, and the Mistery of the lost 1933 Double Eagle, Free Press, New York 2004.
Allison Frankel: The epic story of the world's most valuable coin, W.W. Norton, New York 2006.
Revistas:
Leon Worden: Barry Barke: 1933 double "legal", in COINage Magazine, janeiro 2006.
Catálogos de leilões:
Sotheby's: Palac Collection of Egypt, O Cairo, 25 de fevereiro de 1954.
Sotheby's New York, Stack's: The 1933 Double Eagle, - July 30, 2002.