O estado e a conservação das cédulas

Entre as correspondências eletrônicas que recebemos diariamente, muitas são relativas às dúvidas de jovens que iniciam na numismática. Alguns simplesmente nos pedem opinião sobre o preço de um determinado exemplar que pretendem adquirir, outros perguntando quanto vale este ou aquele exemplar, etc. Na medida do possível respondemos a maior parte destes e-mails que nos chegam diariamente.
Todas as dúvidas tem sua carga de relevância, uma mais, outras menos. Algumas nos chamam a atenção por se tratar de temática polêmica, já que a opinião dos numismatas divergem muito com relação ao que seria a resposta mais conveniente. É o caso da pergunta que recebemos hoje em nossa caixa de mensagens de um neófito que nos confessa a sua paixão pelas cédulas brasileiras (emissões em papel-moeda, seria o termo mais correto).

Sua principal dúvida diz respeito ao estado de conservação das cédulas e qual a melhor forma de armazenar as peças de seu acervo, de forma a protegê-las, conservando-as em seu aspecto original, aquele em que se encontrava na hora da compra.

A fim de evitar a prolixidade de um assunto que tem sido objeto de debates entre numismatas, perferimos resumir desta forma simples e objetiva:

"EM TERMOS DE CONSERVAÇÃO, COLECIONAR CÉDULAS É COMO COLECIONAR SELOS"

Nada existe de diferente entre os cuidados com selos e o dedicado a um acervo das emissões de Papel-Moeda. Estocagem, armazenagem, material utilizado na conservação e no manuseio, enfim, tudo exatamente igual, guardadas as devidas proporções o que, logicamente, diz respeito às dimensões das cédulas, quando comparadas aos selos.

No nosso Catálogo de Papel-Moeda do Brasil, a ser lançado no próximo mês de Junho, explicamos como se deve manusear e guardar sua coleção de cédulas, o que nada tem de misterioso, desde que alguns aspectos importantes sejam sempre observados com a devida atenção. O fato de serem, por assim dizer, de "papel", em nada deixam a desejar às outras formas de colecionismo culto. Para se ter uma idéia, em geral, coleções de selos valorizam, por exemplo, muito mais do que coleções de moedas e aí estão os leilões como da casa Feldman que não nos deixam mentir.

Não existe diferença entre "guardar" o "Pack Strip", o mais famoso e um dos mais valiosos conjuntos filatélicos dos numerais da filatelia brasileira, e uma cédula Flor de Estampa de um conto de Réis. Tudo depende muito mais de uma espécie de filosofia do colecionismo do que propriamente da suposta "fragilidade" do papel. Do contrário não teriam chegado aos dias de hoje, cédulas flor de estampa de emissões do Tesouro Nacional. O que dizer então de objetos de cerâmica que em leilões batem cifras vultosas? Se fossem considerados aspectos como a fragilidade de porcelanas Chantillon, por exemplo, estas não seriam tão disputadas em leilões internacionais.

Resumindo: Com o devido cuidado, um belo acervo de emissões de Papel-Moeda pode permanecer belo e sempre com o mesmo aspecto. Isso independe do material com o qual foi fabricado. Depende, sim, de quem o manuseia.

Por falar em "Pack Strip", deixamos com os nossos leitores, a seguir, o excelente artigo do insigne filatelista Paulo Comelli.


O "PACK STRIP"

Artigo de autoria do filatelista Paulo Comelli, originalmente publicado no London Philatelist, órgão da Royal Philatelic Society, London, Inglaterra, edição nº 1300, de novembro de 2002.

Descrição:

Par vertical de 30 rs + 60 rs “se-tenant” – Olhos-de-Boi – Chapa 2 composta, Estado D (chapa regravada). Os selos de 30 rs nas posições 11 e 17 do painel superior da folha e o 60 rs na posição 5 do painel intermediário. Obliterado com dois carimbos pretos do Correio Geral da Corte (PA.1185), mal batidos com a data de 16.??.1844 (o mês parece ser: 06). Peça lavada, apresentando a margem direita curta, a inferior normal e as margens esquerda e superior são largas. O selo superior tem um ligeiro “aminci”.

Procedência: ex. Lindgren, Mesquita Martins, Lemaire, Pack, Souren, Contini, Almeida Dias, S. Gibbons, Hubbard, Ângelo Lima, Norman Hubbard.


A HISTÓRIA

O Terno, nos anos trinta, recebeu a denominação de Pack’s Strip em razão de ter permanecido na propriedade do renomado filatelista Charles Lathrop Pack, que lhe deu fama. Esta alcunha foi dada pelos meios filatélicos de língua inglesa e significa a ‘Tira do Pack’. Posteriormente, o ‘s’ foi retirado, adquirindo a forma final de ‘Pack Strip’.

Primeiro Período – 1843 a 1900

O Terno Xifópago permaneceu na obscuridade por pouco mais de cinqüenta anos. Em 1897, o Jornal Philatelico, editado em São Paulo, de propriedade de M. Copenhagen, relativo ao mês Outubro, apresentou um artigo do Sr. Thadeu Rangel Pestana intitulado ‘Um Erro (?) Desconhecido do Brasil’. É a primeira referência sobre a existência do Terno.

O Sr. Pestana, na época, era presidente do Clube Filatélico de São Paulo e já autor de uma vintena de artigos filatélicos. Dizia ele em trechos do artigo: “Temos hoje o prazer de dar aos nossos leitores ocasião de conhecer uma das maiores raridades da coleção do Brasil, senão a maior até hoje conhecida. Ao nosso particular amigo e distinto colecionador do Rio de Janeiro, Sr. José I. Pereira Lima devemos a amabilidade da oferta da fotografia desta raridade que aqui reproduzimos. Vêem os leitores que trata-se de dois selos de olho-de-boi de 30 ligados a um de 60 réis. Podemos garantir que os três selos são autênticos e que são impressos no mesmo papel, não havendo emendas nem outro qualquer artifício”.

Prossegue ele ao final do artigo: “O feliz possuidor desta preciosa jóia filatélica é o Sr. Carl Johan Lindgren, brasileiro de origem sueca, antigamente residente na Bahia e hoje no Rio de Janeiro. Possui o Sr. Lindgren uma magnífica coleção contendo muitas raridades... É o mais distinto colecionador do nosso País, que jazia desconhecido talvez como tantos outros ainda existam”.

Era conhecido nos meios filatélicos por Charles (ou Chas.) J. Lindgren. Nascido na Bahia (Salvador), em 23 de Dezembro de 1846, foi, como seu pai, Vice-Cônsul da Suécia e Noruega na capital da Província da Bahia. Faleceu no Rio de Janeiro em 14 de Janeiro de 1916.

No mês seguinte ao da divulgação do Sr. Pestana, o mesmo periódico, a edição de Novembro, publicou um artigo do Sr. Bernardo Alves Pereira, datado de 22 de Outubro de 1897, sob o mesmo título. Trecho: “...vi o original: dois selos de 30 réis e um selo de 60 réis unidos no sentido vertical, todos impressos na mesma folha de papel,.... Não se trata pois de um erro...”.


Segundo Período – 1900 a 1906

Em 1900, a revista O Philatelista Paulistano, órgão da Associação Filatélica do Brasil, edição de julho/setembro, editada em São Paulo, noticiava: “O Sr. Felizardo Teixeira de Figueiredo nos comunica ter efetuado a venda de um interessante e raro terno de selos de 1843, sendo dois exemplares do selo de 30 réis e um selo de 60 réis, impressos conjuntamente na mesma folha e obliterados pelo correio. Esta bela raridade foi adjudicada pelo preço de 2:000$000 (dois contos de réis)”. Cerca de US$ 800,00 (oitocentos dólares) ao câmbio da época.

O Sr. Felizardo de Figueiredo era o mais importante comerciante filatélico daquele tempo no Rio de Janeiro e obteve a notoriedade de ser a casa filatélica que tinha as mais raras e bonitas peças do Brasil. Estava sediada na rua Sete de Setembro, quase esquina do Largo do Rocio, hoje Praça Tiradentes.

A revista não informou o nome do vendedor e nem do comprador. Entretanto, em 1963, o Sr. A. G. Santos procurou o Sr. Alfredo Costa, dono da Filatélica J. Costa e filho do Sr. J. Costa, antigo proprietário e autor de uma notícia publicada no O PHILATELISTA, datada de 15 de agosto de 1908, no qual afirmava que “o terno teria sido admirado na exposição de selos raros que se realizou ultimamente na França...”. Citava ainda que eram duas as peças admiradas na França, a segunda era um bloco usado de 15 selos do 600 réis da série dos Inclinados. O Sr. J. Costa ao se referir sobre uma exposição ultimamente realizada na França pode ter cometido um engano quanto às datas, pois na verdade, a tal exposição na França ocorrera, em Paris, mas no ano de 1907.

O Sr. Alfredo Costa informou ainda que “o comprador teria sido um filho do Barão de Itacurussá, cujo nome não mais se lembrava e que depois falecera de tuberculose pulmonar e que residia no Rio de Janeiro”. Apurou-se que o Barão, com grandeza, de Itacurussá (1889) era Manuel Miguel Martins (1831-1911), homem riquíssimo, proprietário de terras e capitalista do Rio de Janeiro. Sua esposa era a baronesa Jerônima Elisa de Mesquita Martins, filha do conde de Mesquita e neta do marquês de Bomfim. O Barão foi o grande comprador do Leilão do Paço Imperial, onde além de muitas preciosidades, adquiriu todo o serviço de porcelana do casamento de D. Pedro I e D. Amélia de Leuchtemburg. Seu filho, além de exímio flautista, importante filatelista de seu tempo e o comprador do Terno Xifópago chamava-se José de Mesquita Martins (1874-1916), nascido no Rio de Janeiro e falecido em Lisboa, aos 42 anos de idade.


Terceiro Período – 1906 a 1916

Durante uma reunião do Collectors Club de Nova York realizada em Março de 1932, especialmente dedicada aos selos da primeira emissão postal do Brasil, o Sr. Charles J. Phillips (que entre Outubro1909 e Fevereiro de 1910 fizera uma viagem ao Brasil para pesquisas filatélicas visando atualizar o já famoso Catálogo de Selos Universais e comprara cerca de quinhentos mil selos brasileiros para a Casa Stanley Gibbons, da qual era um dos proprietários), participante da mesma reunião, escreveu um artigo a respeito, que foi publicado, na revista da mencionada agremiação filatélica, em abril de 1932. Trechos traduzidos: “...pois que a coleção do Sr. Pack possui uma tira vertical de dois selos de 30 réis, um espaço em branco, e um selo de 60 réis,...”. Prosseguindo afirma o Sr. Phillips: “...que viu essa peça mais ou menos há 25 anos atrás com seu amigo Theo Lemaire, da Av. Ópera, em Paris. O Sr. Lemaire vendeu essa peça de raro valor filatélico ao Sr. Jorge E. Rodriguez, radicado em Buenos Aires...”, e “...quando essa coleção foi dividida em 1916, veio ter nas mãos do Sr. Pack, famoso colecionador...”.

Mais ou menos há vinte e cinco anos atrás, corresponde, mais ou menos ao ano de 1907, quando essa peça foi vista nas mãos do Sr. Lemaire, editor e negociante francês de selos, localizado na 16 Avenue de l’Opéra. A explicação para essa peça ter aparecido na França pode estar na combinação das histórias contadas por J. Costa e Antônio Pereira da Silva, senão vejamos: J. Costa dizia em um trecho de seu artigo: “Segundo estamos informados, tempos depois o referido filatelista, desgostoso com a moléstia que foi acometido, fez doação da sua magnífica coleção, na qual dispensou mais de quatrocentos contos de réis aos frades do Castelo. Estes ignorantes do valor dos exemplares que encerrava a referida coleção distribuíram ou venderam a baixo preço tudo que ela encerrava. Eis aí, porque aquelas raridades foram aparecer em Paris”.

E a história contada pelo Sr. Antônio Pereira da Silva, no Brasil Filatélico, nº 163, de Dezembro de 1971, onde em determinado trecho de suas ‘Recordações Filatélicas’, falando sobre o início do Século XX, afirma: “...eu passei a parar na porta da casa de Felizardo Figueiredo, na rua Sete de Setembro quase esquina da Praça Tiradentes, onde olhava o que só os milionários podiam comprar como por exemplo o filho do Barão de Itacurussá, seu maior freguês, cuja coleção foi mais tarde doada a uma irmandade religiosa da França”.

O significado da expressão mais tarde pode ser exatamente por volta de 1906 e por certo na referida doação o Terno Xifópago estava incluído. É de se supor que os frades do Castelo pertenciam à mesma ordem religiosa da França, citada por Pereira da Silva, e para lá enviaram a totalidade da coleção doada ou parte dela. O certo é que o Sr. Lemaire comprou em 1906, ou talvez no início de 1907, essa peça da tal ordem religiosa da França, pois o Terno Xifópago fora mostrado em uma exposição em meados de 1907 na França. Mais ainda, em uma exposição de caráter internacional, realizada em Paris entre os dias 21 a 30 de junho de 1913, o Sr. Jorge Rodriguez obteve o Grande Prêmio da Exposição, um vaso de Sèvres, oferta do Presidente da França. Esta coleção ocupava uma grande sala e a revista L’Écho de la Timbrologie referindo-se a essa coleção afirmava: “...a coleção premiada era composta exclusivamente de selos novos de diversos paises”. O texto completo da notícia publicada no São Paulo Philatelico, de agosto de 1913, descreve vários dos selos mostrados, mas não faz menção alguma à participação do Terno na coleção do Sr. Rodriguez.

A informação dada pelo Sr. Phillips, que esta peça tenha pertencido ao Sr. Rodriguez, carece de fundamento. É provável, senão quase certo, que tenha cometido um engano, pois como dito linhas acima o Sr. Rodriguez era colecionador apenas e tão somente de selos novos. Mais ainda, para corroborar de modo definitivo que houve um engano do Sr. Phillips encontrei publicado no Stanley Gibbons Monthly Journal, de 30 de outubro de 1911, página 15, em artigo assinado pelo Sr. Pierre Mahé, por cortesia do Sr. T.H. Lemaire, a relação dos filatelistas premiados na Exposição Filatélica de Buenos Aires, realizada entre o dia 28 de agosto e 9 de setembro de 1911.

O nome do Sr. Theo Lemaire consta como expositor e, inclusive, é mencionada a relação de algumas da peças por ele expostas: um bloco de 4 usado do 300rs Inclinados; um bloco de 4 novo do 600rs Inclinados; um bloco de 15 obliterado à pena do 600rs Inclinados e o terno vertical de 30rs, 30rs e 60rs.

É evidente e bastante provável que todas estas peças, já que as duas últimas pertenceram, ora em poder do Sr. Lemaire, tenham pertencido ao acervo do Sr. Mesquita Martins e doadas aos padres franceses.


Quarto Período – 1916 a 1944

Em 1916, segundo Charles J. Phillips, a coleção do Sr. Rodriguez foi retalhada e vendida, quando então o TERNO XIFÓPAGO de Olhos-de-Boi passou a pertencer ao colecionador norte-americano Charles Lathrop Pack. Na verdade, o terno foi vendido diretamente pelo Sr. Lemaire ao Sr. Pack e com ele permaneceu durante 28 anos. Em suas mãos essa bela raridade mundial obteve fama e prestígio mundiais.

Em 1944, o Brasil Filatélico, edição do mês de setembro, na face interna da última capa, publicou um anúncio da casa de leilões Harmer, Rooke & Co sobre um leilão a ser realizado em Nova York. Eis o texto: “Grande Leilão, em 4 de Dezembro de 1944 da célebre coleção de C. L. Pack... Harmer, Rooke têm o orgulho de anunciar a venda em leilão desta famosa coleção mundial avaliada em US$500.000 dólares (dez milhões de cruzeiros)... O conjunto de Argentina, Brasil e Espanha contêm diversas peças únicas. Magníficos Rivadávias. Brasil primeira e segunda emissões, inclusive uma tira de olhos-de-boi dos valores de 30, 30 e 60”.

O Pack Strip foi leiloado no dia 8 de Dezembro de 1944 e estava catalogado como o lote número 824. Estava explicitado no catálogo: “Selos raros da coleção do finado Charles Lathrop Pack a serem vendidos por autorização dos atuais proprietários Srs. Arthur N e Randolph G. Pack. – Lote 824 – 30, 30 e 60 réis. Tira com 3 selos. Os dois selos de cima de 30 réis e o de baixo com 60 réis. A tira tem margens de todos os lados e está levemente obliterada. O selo de cima tem um ligeiro adelgaçamento. Uma das jóias da coleção de Pack, considerada única. Uma peça maravilhosa (veja foto, prancha 29)”.

O valor estimado não estava mencionado, ficando em aberto. Este fato normalmente acontece, até nos dias de hoje, com as grandes raridades incluídas nos catálogos de leilões.

Após o leilão, a casa Harmer distribuiu a relação das peças vendidas com os respectivos preços alcançados e para o lote 824 constou o valor de US$ 6.250.00 (seis duzentos e cinqüenta dólares). Hugo Fraccaroli na crônica Conversa Fiada, publicada em Dezembro de 1944, no Brasil Filatélico, previa que a peça atingiria o preço mínimo de US$ 5.500,00, pois uma oferta partira do Brasil com esse valor, sem mencionar o nome do interessado. Em Março de 1945, o mesmo Hugo Fraccaroli, na mesma coluna, aponta que o valor da venda era equivalente a Cr$125.000,00 (cento e vinte e cinco mil cruzeiros).


Quinto Período – 1944 a 1954

No ano de 1945 essa peça foi oferecida a alguns importantes colecionadores brasileiros, entre eles: Carlos Augusto Seabra e Niso Vianna. Este último, em suas reminiscências publicada no Brasil Filatélico afirma textualmente: “Foi em 1945 que compareceu no meu escritório um tal de Sr. Souren que me mostrou a peça e pediu 100 contos de réis. Este senhor era um jogador viciado e corria mundo. Quando ganhava dinheiro comprava selos e quando necessitava os vendia. Quando veio ao meu escritório, mal trajado e mal arrumado, a sua oferta me deu muita desconfiança; entretanto, durante nossa palestra, verifiquei que não havia qualquer trapaça de sua parte. Ele apresentou uma nota de compra legalizada e outros documentos que fizeram com que minha desconfiança desaparecesse. Como já disse, não comprei a peça porque o Figueiredo achou o preço muito alto”. Cem contos de réis na época eram equivalentes a US$ 5.000,00 (cinco mil dólares).

Estava desfeito o mistério, o verdadeiro proprietário do Terno era o Sr. Y. Souren, que o comprara no leilão da Harmer, Rooke & Co.


Sexto Período – 1954 a 1963

A revista norte-americana Life, em edição espanhola de 5 de Julho de 1954, publicou importante reportagem sobre ‘Los Sellos mas Raros Del Mundo’, com oito páginas ilustradas e a cores. Em uma das páginas aparece a fotografia do Terno e sob a fotografia o preço de US$15.000,00 (quinze mil dólares). No texto, com o título de ‘La Crema de las mas Grandes Coleciones’, a seguinte informação: “43 – Brasil 1843, un par de 30 réis junto con uno de 60; testamentária de Y. Souren, Nueva Iorque”.

A revista Bahia Filatélica número 29, edição de Março de 1955, em artigo assinado por Edgard Teixeira dá conta da notícia oriunda da Associated Press da venda do Terno pela importância de quinze mil dólares feita pelo negociante de selos de Nova York, Sr. Robert Lyman.

O Sr. A. G. Santos enviou, em 16 de Maio de 1968, uma carta ao Sr. Robert Lyman, comerciante de selos de Boston, pedindo esclarecimentos a respeito. Na resposta, o Sr. Lyman afirmou textualmente: “...Comprei o Pack Strip do espólio do finado Y. Souren em Nova York. Atuando com negociante, vendi então a peça ao finado Manoel Galvez, de Madrid, que por sua vez a vendeu ao colecionador italiano Contini de Firenze. Com a dispersão do espólio de Contini, a peça foi adquirida pelo Dr. J. A. Almeida Dias, a quem você pode contatar para maiores informações”.

O Sr. Galvez era um importante negociante espanhol de selos, que falecera em 1960. O Sr. A. G. Santos enviou carta ao Dr. Almeida Dias, médico e colecionador de Lisboa, solicitando informações, mas nunca recebeu uma resposta. Tentou uma segunda vez, através de um amigo, portador da carta, e também ficou sem resposta.

Entretanto, durante a Exposição LUBRAPEX’72, em Aveiro - Portugal, Maurino Ferreira, grande expositor brasileiro da década de 70 e 80, recebeu a visita do Dr. Almeida Dias no hotel em que estava hospedado. Em meio à conversa lhe foi contado alguns detalhes de como o Pack Strip chegou às mãos do Dr. A. Dias. Maurino Ferreira publicou no jornal Diário de Notícias, de Belo Horizonte, do dia 2 e 3 de junho de 1985, um artigo sobre o assunto, onde diz textualmente em um dos trechos: “Com a morte do Conde Di Contini, os herdeiros entregaram-no à venda ao comerciante de Londres, Boajanowicht (polonês naturalizado inglês) e este vendeu-o ao Dr. J.A. Almeida Dias, em Londres, em junho de 1959, juntamente com um grande lote de excepcionais raridades, inclusive o grande bloco de 90rs Inclinado, papel grosso. Em 30 de novembro de 1962, o Dr. Almeida Dias vendeu o Pack Strip, juntamente com toda sua valiosa coleção, ao comerciante Michel, ou seja, para a firma Hamer Hooke, que, com ela, fez um grande leilão em Londres, em 1963”.

Em resumo, ficaram faltando apenas as informações da data da venda de Galvez a Contini e os valores monetários envolvidos em ambos os casos.

A partir de 1959 a coleção de selos do Dr. Almeida Dias esteve em várias exposições internacionais, sempre com a presença do Terno Xifópago. SICILIA’59, em Palermo, de 16 a 26 de Outubro, onde obteve a Medalha de Ouro e um Prêmio Especial. Na Exposição Internacional de BARCELONA’60, de 26 de Março a 5 de abril de 1960, recebendo a Medalha de Ouro e vários votos para o Grande Prêmio da exposição. Na LONDON’60 conquistou a Medalha de Ouro.


Sétimo Período – 1963 a 1969

A empresa Harmer, Rooke & Co, de Londres, distribuiu o catálogo, em dois volumes (um de texto e outro de fotografias), do leilão de peças filatélicas da coleção Almeida Dias, que foi realizado nos dia 7 e 8 de Março de 1963. O Terno recebeu o número de lote 134 e estava assim descrito: “O famoso Pack Strip, compreendendo uma tira vertical de três selos, com exemplares de 30 réis (nºs 11 e 17) e um de 60 réis (nº 5), margens limpas de todos os lados, largas em três delas. O 30 réis superior tem um quase imperceptível adelgaçamento. Uma peça muito atrativa. Além de ser a única é uma das maiores raridades filatélicas do mundo, certamente também do Brasil (Fotografia)”. O preço estimado da peça foi estabelecido em £ 8.000 (oito mil libras inglesas).

Realizado o leilão, a peça alcançou a cifra de £ 8.250 (oito mil duzentos e cinqüenta libras), na época cerca de dezesseis milhões de cruzeiros. Em consulta do Sr. A. G. Santos ao Sr. Rolf Meyer, importante comerciante de selos radicado em São Paulo, datada de 28.8.1965, este esclareceu que a peça em referencia não fora realmente vendida, mas sim negociada internamente, pois era dado como vendida ao negociante inglês W. E. Lea. Esclarece ele: “acontece que a firma Harmer, Rooke & Co e o negociante Lea (salvo equívoco meu com relação ao Sr. Lea) fazem parte do grupo Stanley Gibbons. Portanto, a peça foi negociada internamente”.

Continua o Sr. Meyer: “Tempos depois do leilão, o Ferdinad d’Almeida adquiriu a peça em permuta de uma coleção de Hong Kong e mais outros selos, porém a peça permaneceu em Londres a fim de ser entregue após a conclusão da transação a pedido do próprio d’Almeida. O Sr. d’Almeida teve um problema de saúde e encontra-se gravemente enfermo, se bem que fora de perigo de vida. É provável que esta transação seja cancelada, o que está sendo tratado agora”.

Ferdinad J. d’Almeida, apesar de súdito britânico, nasceu em Hong Kong, motivo de sua especialização filatélica, era um conhecido colecionador radicado em São Paulo. Quando adoeceu, em meados de 1965, embarcou de maca para Londres, onde possuía também residência, objetivando a recuperação de sua saúde.

Outra carta dirigida pelo Sr. Áureo G. Santos ao comerciante Rolf Meyer, cuja resposta é datada de 22.3.1968, esclarece mais alguns pontos. Senão vejamos: “A peça foi vendida no leilão Almeida Dias ao negociante inglês Lea. Eis o que consta oficialmente e foi exposto no Stanley Gibbons Centenary Stamp Show como pertencente ao filatelista paulista Ferdinad d’Almeida. A transação não se concretizou, ou melhor, foi desfeita definitivamente depois da enfermidade deste filatelista que sofrera um ataque cerebral”.

No London Philatelist nº 871, edição de Julho de 1965, a Casa Stanley Gibbons fez publicar um anúncio publicitário de página inteira com a figura do Terno Xifópago. Em resumo, a venda dessa raridade para o Sr. d’Almeida nunca se concretizou e a peça permaneceu na propriedade da empresa Stanley Gibbons até 1969.


Oitavo Período – 1969 a 1986

O catálogo de selos do ano de 1968, da casa filatélica Stanley Gibbons, em página inteira, intercalada no setor referente aos selos do Brasil, foi publicado um texto publicitário sobre o Terno, inclusive com a fotografia.

No ano seguinte, Stanley Gibbons promoveu um leilão internacional da coleção do eminente filatelista Lars Amundsen com selos clássicos da Europa, Ásia e América do Sul, entre os dias 5 e 7 de Fevereiro de 1969. Possuindo este catálogo em minha biblioteca filatélica, pude verificar que dentre as peças ofertadas estava incluído o Terno Xifópago, listado como lote número 185 e informando em seu texto descritivo a existência de Certificado da Royal Philatelic Society, datado de 1967. O catálogo apresenta os valores estimados em libras e dólares, ou seja, £8.000 e US$19.200 respectivamente. Assim, pode-se verificar que taxa de câmbio daquela época era US$2,40 por Libra Inglesa.

Assim procedendo, Stanley Gibbons deu a impressão que a raridade brasileira pertenceria ao famoso colecionador Amundsen. Na verdade não era o caso, era apenas uma grande jogada promocional. A peça neste período sempre pertenceu à casa inglesa de negociantes de selos.

O Terno foi vendido por £8.700 (oito mil e setecentas libras inglesas) e uma vez mais o negociante americano Robert Lyman, desta vez atuando como intermediário, envolvera-se no negócio, representando o famoso colecionador norte-americano Norman S. Hubbard, o verdadeiro comprador final.

O excelente conjunto de selos do Brasil do Sr. Hubbard composto de Olhos de Boi em pares, tiras e blocos novos e usados, além de muitas cartas, todas peças soberbas e entre elas o Terno Xifópago foi exposto na WIPA’81 e premiado com uma Medalha de Ouro Grande.


Nono Período – 1986 a 1994

Durante a realização da Exposição Mundial AMERIPEX’86, nos Estados Unidos na cidade de Chicago, entre os dias 22 de maio e 1 de Junho de 1986, também se realizou um importante leilão internacional promovido pela empresa Robert A. Siegel Auction Galleries Inc. O evento teve lugar no Hyatt Regency O’Hare Hotel, no dia 25 de Maio, nos salões United A/B, onde foi leiloada a coleção ‘The Gordon N. John of Classic Brazil’. A casa filatélica Siegel produziu um belo catálogo com quarenta e seis páginas, capa preta e dourada e com fotos em preto e branco, exclusivo para os selos Olhos-de-Boi integrantes da referida coleção. Na capa a fotografia do famoso Terno Xifópago, que estava listado como o lote número 2024. Assim explicitava a descrição: “2024 – 30rs preto, par vertical em uma tira de três ‘se-tenant’ com 60 rs – o ‘Pack Strip’ (1A). Segunda chapa composta, Estado ‘D’, 30rs posições 11 e 17, 60rs posição 5. De larga para grandes margens. Duas linhas externas e linha central divisória entre o valor de 30rs inferior e o 60rs. Nítido carimbo ‘Correio Geral da Corte’ sem borda exterior de 1844, leves dobras são mencionadas apenas para constar, pois em nada diminui o valor deste Único Tesouro Filatélico considerado como sendo uma das dez maiores raridades do mundo, estando na mesma classe do ‘1p Magenta da Guiana Inglesa e da carta ‘Mauritius Post Office’, ex Pack, Almeida Dias, Amundsen. Valor Estimativo: US$250.000,00 a US$300.000,00”.

É evidente que a citação de Lars Amundsen como antigo proprietário da peça, como o fez Stanley Gibbons, no leilão de 1969, tinha apenas o objetivo de dar maior valorização ao Terno. Verdadeiramente nunca pertencera a ele. Assim também, comentava-se que o verdadeiro proprietário da peça até aquele instante ainda era o norte-americano Mr. Hubbard e não o que constava no catálogo sob o nome de Gordon N. John, sendo apenas um pseudônimo para efeito público.

Estive presente neste evento acompanhando o Sr. Ângelo Lima, já que éramos expositores na AMERIPEX e ele sempre tentara demonstrar que seu interesse pela famosa raridade era relativo. Durante as ofertas travou-se uma batalha de lances entre um agente comprador e o Sr. Peter Meyer, negociante de selos no Brasil e radicado em São Paulo. O agente levou a melhor pelo lance de US$250.000,00 (duzentos e cinqüenta mil dólares). Alguns dias depois o Sr. Ângelo Lima, português de nascimento e brasileiro naturalizado por opção, industrial no Estado de São Paulo, eufórico e feliz, confidenciava-me que fora ele o comprador final. O Terno Xifópago deixara o exterior e radicava-se no Brasil, pela segunda vez, após 86 anos.

O Sr. Ângelo Lima tornou-se o maior expositor brasileiro de todos os tempos com sua coleção Brasil Império 1843-1866 e o maior campeão nacional, expondo internacionalmente pelo Brasil, senão vejamos: Grande Prêmio Internacional e Medalha de Ouro Grande na PHILEXFRANCE’89 e o Grande Prêmio da Classe dos Campeões na PHILANIPPON’91. Além de duas Medalhas de Ouro Grande em anos anteriores a 1989.


Décimo Período – 1995 a 2008

Após obter os dois galardões máximos da filatelia internacional, O Grande Prêmio Internacional e o Grande Prêmio da Classe dos Campeões o Sr. Lima decidiu vender sua coleção. A empresa leiloeira escolhida foi David Feldman S/A. Em 1993, o Terno Xifópago do Sr. Lima foi apresentado ao mercado filatélico no catálogo nº 3, relativo à América Latina, produzido por David Feldman S/A, à pagina 11 e sob o número de lote 30045, que assim explicitava: “30rs par vertical em uma tira de três ‘se-tenant’ com 60 rs – o famoso ‘Pack Strip’ da segunda chapa composta, Estado ‘D’, 30rs posições 11 e 17, 60rs posição 5. De larga para grandes margens. Duas linhas externas e linha central divisória entre o valor de 30rs inferior e o 60rs, Obliterado duas vezes pelo ‘Correio Geral da Corte’ sem borda exterior de 1844, leves dobras apenas mencionadas para constar. Charles Lathrop Pack (1857-1937) foi o maior comprador dos leilões da coleção Ferrari e formou notáveis estudos especializados dos selos clássicos do mundo. Sua coleção do Brasil foi uma legenda durante toda a sua vida. Esta tira ‘se-tenant’ ganhou fama sendo reconhecida como a mais espetacular peça de toda a coleção Pack e tornou-se aceita como sendo uma das dez maiores raridades do mundo em toda a filatelia. Claramente a mais importante peça do Brasil e da América do Sul. Ex Pack, Almeida Dias, Amundsen. Valor Estimativo: Sfr 1.000.000,00”.

Novamente vemos o nome de Amundsen citado como antigo proprietário dessa peça. Nada a ver. O resultado do leilão dado a conhecer em lista fornecida aos interessados apresentava como vendida pelo preço estimado, ou seja, um milhão de francos suíços. Na verdade a raridade não fora vendida e, posteriormente, o mercado filatélico internacional deixou circular a informação de que o Terno Xifópago, em negociação de trato privado com a casa leiloeira, no ano de 1995, voltara para as mãos de seu antigo dono, o norte-americano Norman S. Hubbard. Os detalhes do negócio, até os dias de hoje, continuam envolvidos em brumas e sem confirmação oficial, entretanto, sabe-se através de comentários da comunidade filatélica internacional que o Sr. Hubbard pagou a importância de US$ 650.000,00 (seiscentos e cinqüenta mil dólares) pela Tira Pack, além de também ter comprado por mais um apreciável volume financeiro outras lindas e importantes peças da filatelia brasileira da ex-coleção do Sr. Lima, tais como: a quadra nova do 300rs Inclinado; um bloco de 18 selos do 90rs Olhos-de-Boi + um olho-de-boi de 60rs sobre um grande fragmento obliterado com o carimbo do Rio Grande do Norte; bloco de 6 usado do 180rs Inclinado e uma quadra nova de 600rs Inclinado.

Infelizmente, e uma vez mais, o PACK STRIP deixou o Brasil.

“UMA DAS MAIORES RARIDADES DA FILATELIA BRASILEIRA E DA AMÉRICA LATINA. ÚNICA”.

Décimo Primeiro Período - 2008 em diante

Em 5 de junho de 2008 a empresa Siegel Auction Galleries, Inc, situada em Nova York, informou a venda, através de leilão público, da Coleção Islander de selos brasileiros. O Terno Xifópago fez parte da venda, recebendo o número 17 no belo catálogo produzido e foi arrematado pelo preço recorde de $1.900.000 (mais 15% de comissão paga ao leiloeiro pelo comprador). Foi de longe o maior preço alcançado por uma peça filatélica da América Latina e o comprador final permaneceu no anonimato. Segundo uma fonte interna o negociante americano Irwin Weinberg comprou cerca de 20% dos lotes da coleção Islander. Para algumas outras fontes o comprador seria um investidor, outras fontes informam que, na verdade, o Terno Xifópago não foi vendido e ainda permanece nas mãos do proprietário da Coleção Islander, o norte-americano Sr. Norman S. Hubbard. Uma terceira fonte informa que o item for realmente vendido em razão de ter havido uma oferta de $ 1.8 M do Sr. Armand Rousso, que estava presente na sala de leilão, sendo seu lance conberto por um ofertante ao telefone que deseja, por hora, permanecer anônimo.