Carthago delenda est

Introdução

Quando Marco Porcio Catone decretou, com suas proverbiais palavras, o fim de Cartagine, o fez por saber que a potente civilização dos Barca era uma das poucas a rivalizar, comercial e militarmente, com o poderio de Roma. Movidos mais pelo pavor do que propriamente pelo nacionalismo romano, a maior potência da época aniquilou do mapa uma das mais brilhantes, desenvolvidas e prósperas nações da época. Do pouco que chegou até nós, estão as moedas cartaginesas, documentos da história de um grande povo, liderado por maus políticos que preferiram trair seu maior "condottiero", barganhando com os romanos. 

Mercantes e navegadores

A invasão romana da Península Ibérica  teve início no contexto da Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), quando as legiões romanas, sob o comando do cônsul Cneio Cornélio Cipião, foram conduzidas taticamente ao local, a fim de atacar pela retaguarda os domínios de Cartago na região.

De fato, a influência cartaginesa na península Ibérica possibilitava à Cartago um expressivo reforço, tanto de suprimentos quanto de homens. A estratégia do Senado romano visava, desse modo, o enfraquecimento das forças cartaginesas, afastando os seus exércitos da Península Itálica.

O primeiro combate importante entre Cartagineses e Romanos ocorreu em Cissa (218 a.C.), provavelmente próximo a Tarraco (Tarragona), embora alguns historiadores tendam a identificá-la com Guissona, na atual província de Lérida. Os Cartagineses, sob o comando de Hannon, foram derrotados pelas forças romanas sob o comando do próprio Cneio Cipião. 

O líder dos Ilergetes, Indíbil, que combatia aliado aos Cartagineses, teria sido então capturado. Não obstante, quando a vitória de Cneio Cipião parecia concretizada, Asdrúbal Barca veio em socorro dos cartagineses, com reforços que dispersaram os romanos sem, no entanto, os derrotar.
Assim, as forças opostas regressaram às suas bases militares  (os Cartagineses à Cartago Nova, atual Cartagena, e os Romanos à Tarraco) e somente no ano seguinte a frota de Cneio Cornélio Cipião vence Asdrúbal Barca na foz do rio Ebro. Pouco depois chegaram reforços da Itália conduzidos por Públio Cipião, permitindo o avanço dos Romanos em direção a Sagunto.

Atribui-se a Cneio e Públio a fortificação de Tarraco (Tarragona) e o estabelecimento de um porto militar. A muralha da cidade foi provavelmente construída sobre a anterior ciclópica, já que nela se observam algumas marcas de trabalho da pedra tipicamente ibéricas.

Ainda no ano de 216 a.C. há registro de combates de Cneio e Públio contra os íberos (estes provavelmente oriundos de tribos ao Sul do Ebro), embora sem grandes consequências para Roma. 

Já no ano seguinte, os Cartagineses receberam reforços, liderados  por Himilcão, dando-se novo combate nas margens do Ebro, ao que tudo indica, próximo de Amposta ou Sant Carles, naquela que ficou conhecida como a batalha de Hibera, ou Ibera. Para prejuízo de Cartago, deste confronto saíram vencedores os Romanos.

A rebelião de Sifax (aliado de Roma) em 214 a.C. na Numídia (Argel e Orán) obrigou Asdrúbal a regressar à África com as suas melhores tropas, deixando o caminho livre para a progressão Romana. Asdrúbal Barca, já na África, conseguiu o apoio de Gala (outro rei númida) senhor da região de Constantina e, com a ajuda deste e de seu filho (Masinisa), subjugou Sifax.

Regressou, em 211 a.C. à península, fazendo-se acompanhar de Masinisa e dos seus guerreiros númidas.

Entre 214 e 211 a.C., Cneio e Públio regressaram ao Ebro. Sabe-se que em 211 a.C. os “Cipiões” incluíam no seu exército um forte contingente de milhares de mercenários celtiberos que atuavam, frequentemente, como soldados de fortuna.

As forças cartaginesas estruturaram-se em três exércitos, comandados pelos irmãos Barca (Asdrúbal e Magão) e ainda por outro Asdrúbal, filho do comandante cartaginês Aníbal Giscão, morto durante a Primeira Guerra Púnica. Do lado oposto, os romanos organizaram-se em três grupos, comandados por Cneio, Públio, e ainda por Tito Fonteio. Asdrúbal Giscão e Magão Barca, apoiados pelo númida Masinisa, conseguem derrotar Públio Cipião, matando-o no campo de batalha.
Em pleno combate, em 211 a.C., Cneio Cipião assiste à deserção dos mercenários celtiberos (a quem Asdrúbal Barca ofereceu uma soma maior daquela paga por Roma). Obrigado a retirar-se, morre durante o trajeto, deixando os Cartagineses aptos a atravessar o rio Ebro, e só puderam ser contidos graças à intervenção de Gaio Márcio Sétimo, eleito general pelas tropas. O cenário destes combates é, porém, incerto, embora se saiba que Indíbil combatia novamente do lado dos cartagineses.

No ano seguinte, 210 a.C., é enviada uma expedição dirigida por Cláudio Nerão com o objetivo de capturar Asdrúbal Barca; não obstante, Cláudio não manteve a sua palavra e fugiu desonrosamente. O Senado insistiu, e enviou novo exército ao rio Ebro, para conter o avanço das tropas cartaginesas em direção à Itália. O líder desta nova força foi o célebre Cipião Africano, filho do general de mesmo nome, morto em combate em 211 a.C.. Cipião fazia-se acompanhar do pró-consul Marco Silano (que deveria suceder a Cláudio Nerão) e do conselheiro Caio Lélio, chefe de esquadra. 

À sua chegada, os exércitos cartagineses encontravam-se instalados da seguinte forma: aquele dirigido por Asdrúbal Barca encontrava-se próximo da nascente do rio Tejo; o exército de Asdrúbal Giscão na região da futura Lusitânia, próximo à atual cidade de Lisboa; o exército de Magão encontrava-se na zona do estreito de Gibraltar. 

Cipião, aparentemente desprezando a importância da região do Ebro, atacou diretamente Cartago Nova por terra e por mar. A capital púnica peninsular, cuja guarnição insuficiente era dirigida por outro Magão, foi obrigada a ceder, sendo ocupada pelos Romanos. Rapidamente, retorna Cipião a Tarraco antes que Asdrúbal atingisse as desguarnecidas linhas do Ebro. Essa operação marcou o início da submissão de grande parte da Hispania Ulterior. Cipião soube convencer vários líderes ibéricos, até então aliados de Cartago, como Edecão (em conflito com Cartago desde que a sua mulher e filhos foram tomados como reféns), Indíbil (pela mesma razão), e Mandônio (declarado inimigo por Asdrúbal Barca).

No Inverno de 209 a 208 a.C., Cipião avançou em direção ao Sul, chocando-se contra o exército de Asdrúbal Barca que por sua vez se deslocava para Norte, próximo a São Tomé (Jaén), na aldeia de Baecula, onde ocorreu a batalha de mesmo nome. Não obstante Cipião reclamasse para si a vitória, Asdrúbal Barca prosseguiu o avanço em direção ao Norte, com a maior parte das suas tropas, atingindo o sopé  dos Pirineus. Sabe-se que, desta forma, Asdrúbal cruzou os Pirineus passando pelo região basca, provavelmente na tentativa de conseguir uma aliança com estes; mesmo porque os bascos não dispunham de grandes meios de oposição à força cartaginesa. 

Asdrúbal acampou no Sul da Gália entrando na Itália em 209 a.C.. No ano seguinte, Magão transladou as suas tropas para as Baleares e Asdrúbal Giscão manteve-se na Lusitânia.Em 207 a.C., os cartagineses reorganizados e com novos reforços procedentes da África e dirigos por Hannon, conseguiram recuperar a maior parte do Sul da península. Após a submissão desta zona por Hannon, este uniu-se a Asdrúbal Giscão na região, e Magão regressou à península.

Pouco depois, as forças de Hannon e Magão foram derrotadas pelo exército romano a mando de Marco Silano, de onde resultou a captura de Hannon e a retirada de Giscão e Magão para as principais praças-fortes até receberem novos reforços vindos da África (206 a.C.). Entretanto recrutaram contingentes de indígenas e confrontaram-se com os Romanos na batalha de Ilipa (na zona da atual Alcalá del Río), na província de Sevilha. Nesta batalha vence Cipião sem sombra de dúvida, obrigando nova retirada de Magão e Asdrúbal para Gades (Cádiz). 

Cipião tornara-se assim dono de todo o sul peninsular, e pode cruzar a África onde se encontrou com o rei númida Sifax, que já o havia visitado na Hispania.

Aproveitando-se de uma convalescença de Cipião, algumas unidades do exército amotinaram-se exigindo os salários em atraso; por sua vez, a oportunidade foi aproveitada pelos Ilergetes (a mando de Indíbil) e pelos Ausetanos (a mando de Mandônio) que iniciariam uma rebelião dirigida sobretudo aos pró-cônsules L. Lentulo e L. Manlio. Cipião soube conter o motim, colocando um ponto final na revolta dos ibéricos. Mandônio foi preso e executado (205 a.C.), mas Indíbil conseguiu escapar.

Magão e Asdrúbal abandonaram Gades com todos os seus barcos e tropas para acudir a Aníbal, já na Itália. Roma tornava-se assim senhora de todo o Sul da Hispania, desde os Pirineus até o Algarve, no seguimento da costa e, para o interior, de Huesca em direção ao Sul até o rio Ebro, e para Leste em direção ao mar. A partir de então iniciou-se a administração Romana da península Ibérica, inicialmente com o caráter de ocupação militar, com o fim de manutenção da ordem e de exploração dos recursos naturais das regiões ocupadas, doravante integradas no território controlado pela República. Assim, a porção ocupada ficava desde já dividida em duas províncias: a Citerior, ao Norte, e Ulterior, ao Sul, com capital em Córdoba. A administração ficava incumbida a dois pretores e em biênios que nem sempre se cumpriam.


Moedas que testemunham a prosperidade de uma nação

A cunhagem de moedas em Cartago desenvolveu-se relativamente tarde, por volta do V século a.C., e aconteceu mais pela necessidade de pagar as milícias mercenárias baseadas na Sicília do que propriamente para uso no comércio local.

Inicialmente foram batidas moedas na Sicília, sob a autoridade de Cartago ou das cidades púnicas aliadas (moedas siculo-púnicas), imitando frequentemente a cunhagem grega da Sicília (não confundir com a Magna Grécia), em particular às cunhagens de Siracusa.

Nos dois últimos séculos antes de Cristo, as moedas de Cartago experimentaram um desenvolvimento notável, distinguindo-se das demais pelo seu estilo púnico, em geral com o tema recorrente de uma cabeça de mulher voltada à esquerda, ornada com uma coroa de ramos de trigo. Em verdade, essa efígie  que aparece no anverso das moedas representa Tanit, num misto alusivo à Demetrea e à sua filha Persefone,. A deusa púnica e fenícia, principal divindade de Cartago, foi associada por Tertuliano ao sacrifício de crianças, o que parece ter ocorrido realmente até o reinado de Tibério.

O reverso apresenta frequentemente um cavalo em diversas posições (parado, trotando ou saltando), sempre voltado à direita. A presença do cavalo nas moedas pode ser associada à legenda de Didone, a rainha fenícia de Tiro, fundadora de Cartago. Uma palma, geralmente colocada por trás do cavalo, era símbolo de fertilidade. No conjunto, a moeda se revelava como excelente mercadoria de troca, muito bem aceita pelas tropas mercenárias.

Em Cartago, a cunhagem em ouro tem início entre 390 e 360 a.C., com poucas moedas, seguindo o modelo púnico conhecido como Shekel, de peso 7,6 gramas. Durante pelo menos um século (35 a 270 a.C.), foiu grande a produção de “Shekels” de ouro e de electro, com belíssimas representações da deusa Tanit, com o cavalo sempre em posição “parado” no reverso.

CARTAGO (270-264 aC) - AV (ouro) - Tridracma ou 1 1/2 Shekel (23mm, 12.47 gr) em excepcional estado de conservação. A/Cabeça laureada de Tanit, voltada à esquerda, com brinco triplo, colar e coroa de ramos de trigo. R/Cavalo voltado à direita com cabeça virada à esquerda, sem palma. Negociada em leilão na Inglaterra; valor de arremate: US$ 22.500,00.


CARTAGO (290-280 aC) - Electrum - ½ stater. A/Cabeça laureada de Tanit, voltada à esquerda, com brinco. R/Cavalo voltado à direita com cabeça virada à esquerda, com palma. Negociada em leilão na Suiça; valor de arremate: CHF 1.100,00.
Interessante são, do mesmo período, uma variedade de tipos de tetradracmas siculo-púnicos de prata, alguns deles de extraordinária beleza.


Tetradracma siculo-punico da Casa da Moeda da ilha de Cefalônia.

Este estado de coisas continuou até o momento em que a influência cartaginesa no Mediterrâneo foi demasiadamente grande; tão significativa a ponto de incomodar os romanos que viam em Cartago mais uma inimiga em potencial do que propriamente uma aliada comercial. O conteúdo em ouro nas moedas passou a diminuir assim que tiveram início as dificuldades político-financeiras, pouco antes da primeira guerra púnica, contra os romanos (264 a 241 a.C.) e após a revolta líbica também conhecida como “guerra dos mercenários” (241 a 237 a.C.)

A primeira Guerra Púnica foi um conflito travado entre 264 e 241 a.C. entre Cartago e a República de Roma, as maiores potências da região do Mediterrâneo da época. Foi a primeira de três guerras entre os dois povos, todas vencidas pelos Romanos. As baixas e conseqüências econômicas do confronto foram muito altas para ambas as partes.

No meio do século III a.C., Roma já era uma força militar e dominava toda a península da Itália, seja por meio de guerras ou por alianças com outros grupos, entre estes as cidades gregas na península italiana, sendo Tarento a mais importante. Estas, após o fracasso da invasão de Pirro (comandante grego que tentou dominar a Itália e a Sicília entre 280 e 275 a.C.), se renderam à Roma.

Cartago era uma potência comercial e marítima no Mediterrâneo, com portos no norte da África, península Ibérica e na Sicília. Possuía uma inimizade histórica com Siracusa, cidade grega situada ao leste da Sicília, ambas com pretensões de dominar a ilha. Cartago e Roma eram aliados comerciais e tinham inclusive combatido juntas contra Pirro, pouco mais de uma década antes do início da Primeira Guerra Púnica.

Em 288 a.C., uma companhia de mercenários italianos que haviam lutado por Siracusa contra Cartago, os Mamertinos, atacou a cidade de Messina, até então em poder de Siracusa, matando todos os homens e fazendo das mulheres suas esposas.

Os Mamertinos dominaram o Estreito de Messina que separa o sul da Itália da Sicilia, atrapalhando rotas importantes da região. O sucesso da ocupação incentivou uma rebelião semelhante na cidade romana de Rhegium, do outro lado do Estreito de Messina, que só foi controlada dez anos depois em 270 a.C..

Assumindo o poder de Siracusa em 270 a.C., Hiero II decidiu reconquistar Messina e sitiou a cidade. Acuados, os Mamertinos pediram ajuda simultaneamente à Roma e à Cartago. Esta última viu no pedido de ajuda uma oportunidade de prejudicar Siracusa e aumentar seu poder na Sicília, e sendo assim respondeu enviando tropas.

Apesar dos Mamertinos serem italianos, os romanos ficaram relutantes em ajudá-los contra Siracusa, principalmente por terem sofrido em Rhegium um conflito semelhante contra mercenários, mas temiam um aumento do poder de Cartago em suas vizinhanças.
Quando Roma decidiu ajudar os Mamertinos, Cartago já comandava Messina, mas os mercenários preferiram entregar o poder para os romanos. Enfurecida, Cartago se aliou a Hiero contra a nova ameaça ao seu poder na Sicília: os romanos.
A guerra, antes envolvendo o controle de uma cidade nas mãos de mercenários, tornou-se um conflito entre as maiores forças da região do mediterrâneo.


Segunda guerra púnica - Ocorreu entre 218 a.C. e 204 a.C. como oposição da República de Roma à Cartago. Durante o decurso da guerra, o general cartaginês Aníbal e seu exército atravessaram os Alpes com elefantes de guerra e invadiram Itália. Venceram os romanos em várias batalhas, mas não marcharam sobre Roma. Os Romanos se voltaram à conquista da Espanha, destruindo a base logística dos cartagineses e, com o desembarque na África, levaram a guerra ao solo cartaginês. Aníbal, obrigado a retornar à Cartago, foi derrotado por Cipião Africano, em 202 a.C., na batalha de Zama. A pena imposta à Cartago foi severa, tendo que pagar pesados impostos e também ficando proibida de fazer guerra a outros povos sem autorização do Senado Romano.

A Guerra começou em decorrência indireta da Primeira Guerra Púnica. Organizando-se rapidamente após a derrota, os cartagineses expandiram seus territórios na África e invadiram a península Ibérica, dominando todo o Sul e o Leste da região, sob o comando do General Amílcar Barca. Para capital da nova colônia, foi fundada a cidade de Nova Cartago, num dos melhores ancoradouros naturais do mundo.

A Península Ibérica era um dos territórios potencialmente mais ricos do Mediterrâneo, pois além de ótimas terras para a agricultura, possuía minas de prata e uma grande reserva de guerreiros Celtiberos, ideais para servirem nas fileiras do desfalcado exército cartaginês.

Todavia, morre o comandante Amílcar Barca, assasinado em batalha contra uma tribo local. Com isso, o comando das tropas passou a seu filho, Asdrúbal.

Preocupada com a impressionante recuperação da antiga inimiga, Roma pressionou por um tratado, conseguindo que os cartagineses concordassem em conter sua expansão na região, na linha do rio Ebro. Todavia, pouco depois é assassinado o próprio Asdrúbal e, com sua morte, assume o comando do exército outro filho de Amilcar, Aníbal Barca.

Quando empreendeu sua cruzada contra Roma, Aníbal sabia dos percalços, das dificuldades e de toda oposição que iria enfrentar em Cartago, principalmente por parte dos políticos que temiam enfrentar sua rival comercial.

Mesmo assim, o intrépido general cartaginês não se deixou abater, talvez por dar ouvidos ao seu coração guerreiro, ou às promessas feitas ao seu pai, assassinado....não sabemos ao certo. O que sabemos é que as famílias que dominavam o cenário das duas grandes potências se odiavam à morte, e Aníbal pertencia a uma delas, os Barca. Não foi muito difícil conseguir o apoio que necessitava da classe política para combater seu pior inimigo, o Império da temida Roma.

Depois de vencer algumas batalhas e escaramuças contra alguns protegidos ddos romanos, pilhando-os, para espanto de todos, partiu para sua cruzada, atravessando toda Península Ibérica, a Europa e entrando na Itália pelos Alpes, o que ninguém ousaria fazer ou imaginar. Escolheu o gélido inverno justamente porque sabia que os romanos jamais poderiam crer que um “louco” (assim pensavam) pudesse empreender uma ação bélica de tamanha magnitude.

Pois Aníbal fez justamente isso! Atravessou os Alpes, em pleno inverno, sob um frio intenso, enfrentando temperaturas de até 35 graus negativos. Mais do que isso, o fez com seus elefantes e à frente de um exército de mercenários, guerreiros de diversas e distintas culturas, que pensavam diferente e que estavam acostumados a receber ordens de líderes diferentes. Nesse e em outros particulares, Aníbal era superior a Alexandre que comandava um exército disciplinado e de gente que conhecia.

Aníbal, não! Era um general comandando mercenários.  Durante sua travessia dos Alpes foi atacado por diversas tribos bárbaras, perdeu diversos soldados por hipotermia e seu exército foi reduzido à metade. Mesmo assim, continuou a frente do seu exército, dormindo apenas duas horas por noite, comendo menos que todos e vivendo em condições inferiores para se fazer valer pelo exemplo.

Ao término de sua travessia, com um exército enfraquecido e bem inferior em número, subjgou os romanos na batalha de Trasimeno, colocando o Império a seus pés.

Espanha Púnica (237-209 aC). Shekel de prata. A/Cabeça nua, voltada à esquerda, provavelmente representando Cipião Africano. R/Cavalo em pé, voltado à direita, tendo palmeira como fundo. 
Tão logo assumiu o controle do exército, Aníbal sitiou barbaramente a cidade de Sagunto, que ficava bem ao sul do Rio Ebro mas era aliada de Roma. Considerando o ataque um ultraje, Roma pediu que Aníbal Barca fosse preso e entregue para julgamento. O Senado cartaginês recusou-se e teve início a Segunda Guerra Púnica.

Logo de início, Aníbal atacou diretamente a península Itálica, mas usando uma rota absolutamente inesperada. Ao invés de ir por mar, seguiu com seu exército pelo sul da Gália, tentando invadir o território romano pelo Norte. Fez seu exército atravessar o rio Ródano em balsas e chegou ao sopé dos Alpes, velha rota usada pelos invasores celtas do Norte da Itália. 

Sem contar com o apoio destas tribos que dominavam as passagens da cordilheira, teve de lutar metro a metro para conquistar as escarpas das montanhas que dominavam os vales por onde guiava seus homens.
Finalmente, conseguiram atravessar as montanhas e chegar ao vale do Pó, apenas para verem morrer os elefantes que traziam desde a Ibéria. Mas a competência militar de Aníbal e do seu exército compensava o seu cansaço e logo os africanos alcançaram uma impressionante série de vitórias no vale do Pó. Principalmente na batalha do Lago Trasimeno, onde Aníbal fez o seu exército fingir uma debandada para atrair os romanos para uma armadilha, quando o exército cartaginês saiu dos vales e montanhas em volta para cercar os romanos, arrasá-los e destruí-los completamente.

Mas Aníbal não dispunha de máquinas de assédio para tomar Roma, ou talvez não acreditasse que suas tropas pudessem realizar um ataque direto à capital inimiga. De qualquer forma, tentou uma campanha política para granjear o apoio das cidades italianas submetidas à Roma, não obtendo grande sucesso devido à grande necessidade de Aníbal em saquear algumas cidades italianas para suprir seu exército, o que gerou um descontentamento geral na região. Entrementes, irritava ao povo Romano a política desenvolvida pelo ditador Quinto Fábio Máximo de enfraquecer  aos poucos e periodicamente as tropas cartaginesas. 

Por isso, foram eleitos dois cônsules comprometidos politicamente com a idéia de um ataque puro e simples ao exército cartaginês. Para isso, Roma pôs em campo o maior exército de que até então dispusera, e dirigiu-se à Apúlia, no salto da bota italiana, para confrontar o exército de Aníbal, num local cujo nome designaria a batalha para toda a eternidade: Cannae.

Mas o general cartaginês estudara os métodos romanos e os conhecia muito bem. Sabendo que o ataque seria direto e contra o centro de suas forças, Aníbal as dispôs com a infantaria mais fraca no meio de um pequeno vale, secundada por alas de lanceiros à direita e à esquerda, posicionadas nos declives das colinas. 

Além disso, colocou a sua excelente cavalaria Númida nos flancos mais extremos da formação. Quando os romanos atacaram, pareciam uma onda irressistível varrendo o exército cartaginês. Na verdade, estavam caindo numa excepcional armadilha. O centro cartaginês, sob pressão romana, recuou progressivamente, enquanto os lanceiros fechavam o exército romano pelos flancos e a cavalaria lhes atacava a retaguarda. O resultado foi um massacre. Dizia-se que os romanos ficaram tão imprensados uns contra os outros que sequer podiam sacar as espadas. Essa tática, conhecida como duplo envolvimento, e que tem sido estudada até hoje, resultou na morte de cerca de 85 mil soldados romanos e na completa destruição de suas melhores tropas.

Mundo Grego. Itália Grega. Bruttium (?), Casa da Moeda incerta. Hanibal Barca. Meio shekel, 215-205 a.C. Anv/ Cabeça de Tanit-Persephone voltada à esquerda. Rev/ Cavalo parado voltado à direita, tendo acima, disco solar, 3.66gr., diam: 18.00mm. 

Por alguma razão desconhecida, Aníbal recusou-se a marchar diretamente sobre Roma, descontentando seu comandante de cavalaria, Maharbal, que o censurou dizendo: “Sabes vencer Aníbal, o que não sabes é aproveitar a vitória”. Aníbal insistia na política de dissensão das cidades italianas, conseguindo o apoio de Cápua, a mais importante da Campânia, mas em geral falhando em seu objetivo político.

Nesse meio tempo, como decorrência da monumental derrota, os romanos se voltaram à estratégia de Quinto Fábio Máximo, desgastando o exército cartaginês com vários pequenos combates, enquanto reconstruíam suas tropas no norte da Península.

O irmão de Aníbal, Asdrúbal Barca, tentou enviar tropas de reforço através da rota ao sul da Gália, mas ao chegar à Itália seu exército foi inteiramente derrotado e ele próprio morto.

Diz-se que sua cabeça foi atirada de uma trincheira romana para posições cartaginesas e que ao vê-la Aníbal teria dito que acabara a última esperança de uma vitória na guerra. 

Entretanto, os romanos já estavam fortes, e sob o comando de Cipião Africano reforçaram suas posições na própria Península Ibérica, tomando Nova Cartago.

Depois, ainda sob o comando de Cipião, invadiram o Norte da África, e Aníbal foi chamado a defender sua terra natal. Lá, ao invés de lhe dar combate direto, Cipião conseguiu atraí-lo para batalha em zona distante e onde os cartagineses não tinham água nem posições que os sustentassem em caso de derrota. Ali, finalmente, Cipião obteve sua vitória final, em Zama, onde o exército cartaginês foi totalmente derrotado.
Com as províncias ocupadas, seu próprio território sob ocupação inimiga e seu exército arrasado, o Senado Cartaginês, que anos antes se recusara a enviar reforços a Aníbal na Itália, foi obrigado a pedir a rendição.

Terminava assim a Segunda Guerra Púnica.


Lusitanos

A derrota dos cartagineses, entretanto, não garantiu a ocupação pacífica da península. A partir de 194 a.C., registraram-se choques com tribos de nativos, denominados genericamente como Lusitanos, conflitos que se estenderam até 138 a.C., denominados por alguns autores como guerra lusitana. A disputa foi mais acesa pelos territórios mais prósperos, notadamente na região da atual Andaluzia.

Nesse contexto, destaca-se um grupo de Lusitanos liderados por Viriato, eleito por aclamação. Esse grupo inflingiu várias derrotas às tropas romanas na região da periferia andaluz, vindo a historiografia clássica a torná-lo um mito da resistência peninsular.

Ao se iniciar a fase imperial romana, a pacificação de Augusto também se fez sentir na península Ibérica: a partir de 19 a.C. as suas legiões ocuparam a região norte peninsular, mais inóspita, ocupada por povos cântabros e astures. Com essa ocupação, asseguravam-se as fronteiras naturais e pacificava-se essa região mais atrasada, de modo a que não constituísse ameaça para as populações do vale do rio Ebro e da chamada Meseta, já em plena fase de Romanização.


A Influência romana

Na península Ibérica, a Romanização ocorreu concomitantemente com a conquista, tendo progredido desde a costa mediterrânica, passando pelo interior, até a costa do Oceano Atlântico. 
Para esse processo de aculturação foram determinantes a expansão do latim e a fundação de inúmeras cidades, tendo como agentes, a princípio, os legionários e os comerciantes.

Os primeiros, ao se miscigenarem com as populações nativas, constituíam famílias, fixando os seus usos e costumes, ao passo que os segundos iam condicionando a vida econômica, em termos de produção e consumo. Embora não se tenha constituído uma sociedade homogênea na península, durante os seis séculos de romanização registraram-se momentos de desenvolvimento mais ou menos acentuado, atenuando, sem dúvida, as diferenças étnicas do primitivo povoamento.

A língua latina acabou por se impôr como língua oficial, funcionando como fator de ligação e de comunicação entre os vários povos. As povoações, que então predominavam nas montanhas, passaram a surgir nos vales ou planícies, habitando casas de tijolo cobertas com telha. Como exemplo de cidades que surgiram com os Romanos, temos Braga (Bracara Augusta), Beja (Pax Iulia), Conímbriga e Chaves (Aquae Flaviae).

Ocupação Romana na Península Ibérica. Denário Serratus*(3,91 g), Roma 79 a.C. Anv.: SC, busto de Diana com o diadema, coberto com um arco e uma aljava sobre o ombro esquerdo Rev.: TI TI CLAVD F / N AP (todos na seção, em parte, ligadura), Vitória com grinalda e ramo de palma em Biga.

A indústria desenvolveu-se, sobretudo a olaria, as minas, a tecelagem, as pedreiras, o que ajudou a desenvolver também o comércio, surgindo feiras e mercados, com a circulação da moeda e apoiado numa extensa rede viária (as famosas “calçadas romanas”, de que ainda há muitos vestígios no presente) que ligava os principais centros de todo o Império.

A influência romana fez-se sentir também na religião e nas manifestações artísticas. Tratou-se de uma influência profunda, sobretudo ao sul, zona primeiramente conquistada. 
Os principais agentes foram os mercenários que vieram para a Península, os grandes contingentes militares romanos acampados na região, a ação de alguns chefes militares, a imigração de romanos para a Península, e a concessão da cidadania romana.

Finalizado o processo de conquista, a província foi integrada ao Império, dividida administrativamente em três partes:
  • Tarraconense, a Norte e Nordeste, até os Pirineus; 
  • Bética, a Sul; e 
  • Lusitânia, com capital em Emerita Augusta (atual Mérida), que estendia-se entre os rios D’ouro e Guadiana. 

Registra-se neste período uma etapa de paz e prosperidade econômica, marcada pela construção de cidades e de uma rede de vias, elemento marcante da administração romana. A maioria das cidades na península adquiriu progressivamente a sua autonomia, vindo posteriormente a se constituir em sede de municípios. A autoridade que emitia podia ser uma cidade como Corinto ou Antióquia ou mesmo uma região como o Egito ou a Mésia.

Lucio Roscio Fabato [*1] - 59 a.C. Denário Serratus [*2] (19mm, 3,97 g, 7h). Casa da Moeda de Roma. Anv.: Cabeça de Juno voltada à direita, vestindo touca de pele de cabra, para trás, amarrados com faixa e cornucópia. Rev.: De pé, voltada à direita, alimentando serpente, atrás do leme.

AD 136 -138 - AV Aureus (19mm, 7,36 g, 6h). Casa da Moeda de Roma.  Cunhado sob o governo de Adriano, AD 137. Anv.: L • AELIVS CAESAR, busto nu voltado à direita.Rev.: TRIB POT COS II, Pietas de pé voltada à direita, prendendo acerra e erguendo a mão sobre o altar iluminado e enfeitado. 
* 1 - Lucio Roscio Fabato: Serviu como questor de Júlio César durante a conquista da Gália, a partir de 54 a.C. 
* 2 - Serratus: Forma tardia de denário republicano. Seu nome deriva da borda denteada (latim: apertar serragem), presente no processo de cunhagem, a fim de evitar o cerceio.

Aspectos culturais e econômicos

Assim como em diversas outras regiões do Império, também foram erguidas na península, pontes, teatros, termas, templos, aquedutos e todo o tipo de edifícios públicos e privados, civis e militares.
No campo da religião, registra-se a sobrevivência de divindades primitivas ao lado de divindades romanas, por vezes, também na forma de sincretismo.

Durante a Romanização da península, a economia de subsistência das primitivas tribos foi paulatinamente substituída por grandes unidades de exploração agrícola em regime intensivo (as villae), produzindo azeite, cereais e vinho, ao mesmo tempo em que o primitivo artesanato deu lugar a indústrias especializadas como as da cerâmica e da mineração. A atividade agro-pecuária localizava-se, particularmente, ao Sul do rio Tejo. 
Também houve desenvolvimento na atividade pesqueira, que por sua vez demandava o desenvolvimento da extração de sal e das atividades de construção naval.

No tocante à exploração mineral, na qual a península era particularmente rica, todas as minas passaram a pertencer ao Senado de Roma, sendo exploradas por escravos. Entre elas destacava-se a região que se estende de Grândola a Alcoutim, de onde era extraído o cobre e a prata.

Para esse desenvolvimento, muito contribuiu a circulação das moedas romana. A moedagem provincial romana trata das moedas emitidas pelas colônias de Roma e por seus aliados.

Trata-se, principalmente, de moedas subsidiadas ou de moedas emitidas pelos romanos, utilizando tipos que fossem melhor compreendidos pela populações locais. 

As moedas provinciais foram emitidas em áreas conquistadas por Roma que, após a dominação, continuou usando, pelo menos em parte, um sistema monetário diferente daquele do Império Romano. Essas moedas representavam uma continuação do sistema monetário original que existia nas regiões antes da chegada dos romanos. As moedas provinciais foram prevalentemente usadas no Oriente e nas regiões adjacentes.

Inicialmente eram simplesmente a continuação das moedas originais de uma determinada área que naquele momento estivesse sob dominação romana. É o caso da Cilicia, por exemplo (mas não só essa), onde foram concedidas pelo imperador autorização para a manutenção do padrão monetário (Assarion), com a sua efígie.

Desta forma, nestas provincias circulavam moedas com padrão monetário romano (denários, sestércios, etc), porém usando legenda em uma língua franca, geralmente o grego, e moedas que conservavam o padrão monetário do povo sob dominação romana. A maior parte destas moedas eram cunhadas em bronze ou latão (mistura de cobre e zinco), e somente uma mínima parte em prata (jamais em ouro). As cunhagens em prata eram controladas diretamente por Roma e o monopólio do denário (moeda de prata) era utilizado para controlar a economia dessas áreas do Império.

Devido à longa distância do Império, as cunhagens dessas regiões eram confiadas ao governador da província. Dessa forma as cunhagens eram realizadas por autoridades cívicas que prestavam contas ao Império Romano.

Mésia (Moesia, em latim) era uma região geográfica limitada ao sul pelos Bálcãs e pelo monte Šar, ao oeste pelo rio Drina, ao norte pelo Danúbio e a leste pelo mar Euxino (atualmente conhecido como Mar Negro). A área era habitada principalmente por trácios e o seu nome origina-se de uma tribo trácia, os mesos ou mésios (moesi, em latim). Atualmente o território corresponde à Sérvia e à Bulgária.

Em 75 a.C., um exército romano, chefiado por Scribonius Curio, procônsul da Macedônia, atingiu o Danúbio, derrotando os habitantes da região, os quais foram subjugados definitivamente por Marco Licínio Crasso, bisneto do triúnviro do mesmo nome e mais tarde também procônsul da Macedônia (c. 29 a.C.). A área foi organizada como província romana apenas no final do reinado de Augusto.

Inicialmente uma única província, sob um legado consular imperial (que provavelmente também controlava a Aquéia e a Macedônia), a Mésia foi posteriormente dividida por Domiciano em Mésia Superior (Moesia Superior, porção ocidental) e Mésia Inferior (Moesia Inferior), com o rio Cebrus como fronteira. Cada uma delas era governada por um legado consular imperial e um procurador.

Sendo uma província de fronteira, a Mésia era protegida por postos e fortalezas erigidas ao longo da margem meridional do Danúbio; uma muralha foi construída de Axiópolis até Tomi (hoje a cidade de Constanţa, na Romênia) como proteção contra os citas e os sármatas.

Após a evacuação da Dácia, ordenada por Aureliano, seus cidadãos foram realocados na parte central da Mésia, que passou a se chamar Dácia Aureliana (Dacia Aureliani, em latim), por sua vez dividida em Dácia Ripense (Dacia Ripensis) e Dácia Interior.

Após constantes incursões dos godos e de outros bárbaros, os primeiros obtiveram a permissão do Imperador Valente para atravessar o Danúbio e instalar-se na província. Em seguida, Fritigerno, o chefe dos godos, derrotou Valente na Batalha de Adrianópolis (378 d.C.). No século VII, os búlgaros e os sérvios colonizaram a região e fundaram a Bulgária e a Sérvia.

As principais cidades da Mésia Superior eram Singidunum (hoje Belgrado), Viminacium (Kostolac), Bononia (Widdin, Vidin) e Ratiaria (Arčar). As da Mésia Inferior eram Oescus (ou colonia Ulpia, hoje Gigen), Novae (próximo a Sistova), Nicopolis ad Istrum (hoje Nikup), Odessus (Varna) e Tomi (Constanta).


Durante o principado de Trajano, Antióquia foi a principal Casa da Moeda para a emissão de dracmas e tetradracmas que foram cunhados inclusive em bilhão (Liga metálica de baixo teor de prata, empregada na Idade Antiga e na Idade Média para cunhar moedas. A palavra tem origem no latim medieval billia, “tronco de madeira”, através do francês bille, “lingote”, “peça de moeda”).


Nomenclatura e unidades

1 Talento = 60 Minas; 1 Mina = 100 Dracmas; 1 Stater = 2 Dracmas; 1 Dracma = 6 Óbulos

Talento: Antiga unidade de medida de massa. Os babilônicos e os Sumérios possuíam um sistema onde 60 shekel formavam uma mina e 60 minas formavam um talento. O talento romano era formado por 100 libras que tinham massa inferior à mina. Quando era usado como medida monetária, se entendia como “um talento de ouro”.  
Durante a Guerra do Peloponeso na Grécia antiga o talento era a quantidade de prata necessária para pagar a tripulação de uma trireme (nave de guerra que usava a vela e remadores como sistema de propulsão) por um inteiro mês. Um talento ático corrispondia a 26,2 kg de prata.

Mina: Do grego mna, latim mina, é uma antiga moeda grega. Era inicialmente uma unidade de medida oriental. Existiam a mina babilônica e a mina hebraica. Uma mina hebraica era constituída por 50 shekels. 
O talento era formado por 60 minas. O peso se situava entre 500 e 800 gramas. Com Ezequiel a mina passa a valer 60 shekels, igual àquela babilônica.

Shekel: Era uma antiga unidade de peso em uso no Oriente Médio e na Mesopotâmia. Na verdade era uma antiga unidade de peso hebraica. A palavra derivava do termo pesar. O valor variou muito no tempo e de acordo com os locais onde era adotado como medida.
Com o mesmo nome se indicavam moedas seja em prata que em ouro de peso 1 shekel. Na Mesopotâmia era avaliado em 1/16 de darico (7,5 óbulos áticos), isto è ½ grama de ouro.
O uso de unidades de peso como unidade monetária era comum no mundo antigo até a Idade Média, com traços inclusive nos nossos dias. Em inglês, a palavra pound indica tanto a libra peso quanto a esterlina, enquanto no italiano a palavra Lira e Libra derivam do latim libra no sentido de balança. 
O peso do shekel hebraico podia variar entre 10 e 13 gramas.   Um shekel valia 20 gueras e 20 shekels formavam uma mina. Um talento era o equivalente a 3000 shekels (entre 30 e 40 kg – Êxodo 38,25-26)
Acredita-se que as “30 moedas de prata” de Judas fossem shekels de Tiro.
Um shekel de prata era, naquela época, o salário diário de um trabalhador. A atual unidade monetária de Israel é o sheckel.

Dracma: Era o nome de uma moeda da antiga Grécia. Foi retomada depois de 1832 para indicar o Dracma Grego que valeu no país até a entrada do Euro. 
O nome dracma deriva do verbo δράττω (aferrar). Inicialmente um dracma era um punhado de 6 óbulos, espeto de metal utilizado como moeda até 1100 a.C.. 
Na Antiga Grécia, o termo dracma indicava também uma unidade de peso. Era usada por todo o mundo grego e emitida pela maior parte das cidades. 
As primeiras emissões mostram imagens de animais, na maior parte das vezes, animais falantes e provém do VI século a.C..

Devido a técnica de cunhagem usada (martelo), os dracmas são, em sua maior parte, “achatados” no reverso e particularmente artísticas no anverso. Com o passar do tempo, a cunhagem atingiu um valor artístico elevado e extremamente refinado. Como consequência, a partir da Renascença, as moedas passaram, cada vez mais, a ter cunhagens de valor estético mais apurado.
Depois da conquista de Alexandre o Grande, o nome “dracma” passou a ser usado em muitos dos reinos helenísticos no Oriente Médio, entre os quais o Reino Ptolomaico do Egito. O dracma foi também a primeira moeda de prata batida pela Antiga Roma no III século a.C.
A unidade monetária árabe conhecida como dirham e que remonta ao período pré-islâmico, deriva, através da Pérsia Sassanida, do antigo dracma e, como a moeda persa, também era de prata.
É difícil atribuir um valor a essa moeda que se possa comparar com os valores conhecidos atualmente, devido as profundas diferenças entre as diversas economias. Os históricos clássicos afirmam regularmente que próximo ao fim da República Romana e ao início do Império Romano, o salário de um operário era de 1 dracma.
O sistema monetário grego antigo era baseado no precedente sistema asiático que possuía como unidade de medida principal o talento, cujo peso era de 30,25 kg de prata, que era dividido em 60 minas. 
Tais “valutas” jamais foram “batidas”, mas serviam de sistema de referência para a economia do estado. Bem cedo, graças a expansão econômica de Atenas, o mundo Helênico adotou como sistema de referência para trocas aquele Ático, em prata.
Além destas moedas, foi de grande importância o Estater (2 dracmas) com um peso de 8,7 gramas.

Estater: É o nome de diversos tipos de moedas da antiguidade. A moeda foi batida por várias cidades gregas nos diversos standards monetários, em prata, ouro e eletro.
O estater de prata era a moeda mais difusa na antiguidade grega. Era o mais alto valor nominal normalmente batido e valia, em geral, o dobro de um dracma. Podia valer tambem 4 dracmas, dependendo de onde fosse cunhada.

A Terra onde quase tudo que reluz é ouro

"De seu calmo esconderijo,
O ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, folha, barra,
prestígio, poder, engenho... 
Borda flores nos vestidos,
sobe a opulentos altares,
traça palácios e pontes,
eleva os homens audazes,
e acende paixões que alastram
sinistras rivalidades."
Cecília Meirelles - Romanceiro da Inconfidência

A descoberta das lavras de ouro nas Minas Gerais, no final do século XVII e início do século XVIII, seguidas dos achados em Jacobina e no Rio das Contas na Bahia, nos de Forquilha e Sutil no Mato Grosso, e o que se extraiu no sertão de Guaiás em Goiás, foi o acontecimento mais espetacular da história econômica do Brasil colonial. Desde os primórdios da colonização, acreditava-se que o Brasil tinha ouro e outros metais e pedras preciosas. Só que, passados dois séculos de ocupação, não haviam sido encontrados em volume significativo.

Lentamente, a economia colonial abandonou sua predominância extrativista e coletora dos primeiros tempos e do tráfico com pau-brasil para uma exploração mais racional e estável, graças à implantação dos engenhos de açúcar e das lavouras de tabaco que se espalharam por todo o litoral do Nordeste.

Num contexto de limitado progresso econômico - os portugueses começavam a enfrentar a concorrência da produção colonial dos holandeses, franceses e ingleses, que implantaram engenhos açucareiros nas Antilhas - a Coroa passou a pressionar seus funcionários e demais habitantes no sentido de estimulá-los, particularmente os paulistas, a desbravarem o sertão em busca do precioso ouro.

Uma data importante foi a emissão da Carta Régia de 27 de janeiro de 1697, que enviava uma ajuda de custos de 600$000/ano (seiscentos mil réis por ano) ao governador para auxiliar nas buscas. Dar-se-iam aos paulistas beneméritos “as mesmas honras, e mercês de hábitos, e foros de fidalgos da Casa”, desde que encontrassem e explorassem as lavras auríferas. Finalmente em 1º de março de 1697 o agitado governador do Rio de Janeiro, Castro Caldas remetia ao rei o resultado das últimas façanhas dos paulistas que haviam encontrado nos sertões de Taubaté “ouro em quantidade e da melhor qualidade”.

“Um certo Honório que acompanhava uma bandeira paulista, encontrou uns granitos amarelados no Cerro Tripuí, que vendeu depois em Taubaté a preço irrisório, sem saber o que havia encontrado. Mandaram umas amostras para o governador do Rio de Janeiro e verificou-se que era ouro puríssimo”
Padre Antonil - Cultura e Opulência do Brasil

A notícia da descoberta do metal precioso no interior do Brasil, o maior manancial até então encontrado em toda história ocidental, provocou a primeira corrida do ouro da história moderna (achados só superados depois pelo da Califórnia em 1848 e o do Yukon em 1890). Antonil observou que a “cada ano vêm nas frotas quantidades de portugueses e de estrangeiros, para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, muitos índios de que os paulistas se servem.” 
Os navios “da Repartição do Sul” dirigidos ao porto do Rio de Janeiro, passaram a ser vigiados e vistoriados, terminando por adotar-se as licenças especiais e o passaporte em 1709 como uma maneira de refrear o fluxo dos aventureiros.

Mesmo na Colônia, a disparada em massa dos moradores em direção às minas provocou alarme das autoridades. Muitos chegavam de Taubaté, de Guaratinguetá, de Santos, do sertão da Bahia, e de outros rincões. Em 1702, o governador-geral do Brasil, D. Rodrigo Costa comunicou ao rei D.Pedro II (de Portugal) que a situação tornava-se calamitosa, constatando que as capitanias achavam-se quase desertas porque seus moradores “esquecendo-se totalmente da conservação das próprias vidas e segurança dos seus mesmos domínios”, rumavam para os garimpos. 

Selvas, montanhas e rios estão transidos de pasmo,
É que avançam , terra adentro, os homens alucinados (...)
Que a sede de ouro é sem cura, e, por ela subjugados,
os homens matam-se e morrem, ficam mortos, mas não fartos.
Cecília Meirelles - Romanceiro da Inconfidência

Chegavam lá pessoas de todas as condições, homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, clérigos e religiosos de várias instituições (os padres foram convidados a se retirarem das Minas em 1738). Iniciava-se assim a ocupação do interior do Brasil. A população naquele século decuplicou, ultrapassando a casa dos 3 milhões de habitantes; 650 mil concentravam-se na área das minas.
Foi tamanho o fluxo que o rei D.João V, resolveu, por lei de 1720, controlar a saída dos seus súditos com medo do despovoamento das aldeias e dos campos portugueses. Não evitou porém que, ao longo do século XVIII, 800 mil portugueses fossem parar nos garimposda Colônia. 

A legislação que tratava da exploração das minas derivava das Ordenações Filipinas e determinava que o descobridor de veeiros ou minas de prata, de ouro, ou qualquer outro metal - considerados propriedade da Coroa - necessitava da autorização especial do provedor de metais para sua exploração. Cabia a este demarcar ao concessionário um quadrilátero de exploração. O descobridor do veio era obrigado a ceder uma data para El’Rei e outra para o Guarda-mor; além disso era obrigado a pagar o quinto de tudo aquilo que garimpasse. Devido a tais excessos tributários foi fatal que a sonegação imperasse. O sábio Alexander von Humbold, conjecturou que de 20 a 35% do ouro foi contrabandeado do Brasil.

"Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre!
De cada ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para fausto d’El-Rei: para a glória do imposto
Que restou do esplendor de outrora? Quase nada:
pedras....templos que são fantasmas ao sol-posto."
Manoel Bandeira - Ouro Preto - Lira dos 50 anos

Quanto ao teor, o ouro brasileiro alcançava a média de 21 a 22,5 quilates, sendo de cor variável. O brilhante ouro amarelo, o mais cobiçado pela sua tonalidade, existia em abundância, o mais chamativo deles. Um outro tinha cor de latão; outro era chamado de ouro preto e finalmente o avermelhado ou cor de bronze. Existia também um, apelidado de ouro podre, pela inexistência de brilho.
Quanto aos números de valor e peso extraídos, estes são muito diversos: o Barão von Eschwege estimou em 130.000.000 de libras esterlinas , num total de 951.255 toneladas, extraídos entre 1600-1800; Pandiá Calógeras atingiu mais ou menos a mesma cifra: 135.000.000 de libras esterlinas, com 983 toneladas, extraídas entre 1700-1801; já o Barão von Humbold estimou o volume em 194.000.000 de libras esterlinas, cobrindo um período maior, de 1500 a 1803. Seja como for, para Roberto C. Simonsen, em História Econômica do Brasil, entre 1700-1770, a produção do ouro brasileiro alcançou cerca de 50% do total que o restante do mundo extraiu entre o início do século XVI e final do século XVIII.

“Do Carmo a Vila, e a Vila do Ouro Preto
Formarão das conquistas o projeto: Junto ao Rio,
a que as Velhas deram nome."  
Cláudio Manuel da Costa - Vila Rica (Canto IX)

A política da Coroa foi procurar fixar a população em aldeamentos. Para tanto, o Governador Antônio Albuquerque tratou de fundar vilas, tais como a do Ribeirão do Carmo, chamada Mariana (em abril de 1711), a Vila Rica de Ouro Preto (em julho de 1711), a Vila Real de Sabará (também em julho de 1711) e, entre 1713-1718, as vilas de Nova Rainha, de Pitanguí, a de São João del Rei, de São José e a Vila do Príncipe.

De certa forma, esse trabalho foi facilitado pela mudança na extração do ouro. Numa primeira fase, de 1693-1720, os faiscadores formavam uma população ambulante, cigana, que se deslocava atrás do ouro aluvial, indo de lavra em lavra, de barranca em barranca. Posteriormente, após 1720, com o esgotamento desse processo, socorreram-se do ouro da montanha que exigia outros recursos técnicos de mineração, escavação e estocagem, obrigando os garimpeiros a construir suas casas próximas das datas de minas a que tinha direito explorar.

Situada na Serra de Ouro Preto, esporão da Serra do Espinhaço, a 1.061 metros de altitude, Vila Rica de Ouro Preto converteu-se rapidamente no maior garimpo da lavra do ouro da região. A partir de 1711, tornou-se a capital da Província, situação que manteve até 1897. Nela construíram-se as mais belas igrejas das Minas Gerais, tornando-se um centro cultural e civilizador. Acolheu as liras musicais, os escultores, pintores, artesãos e os arquitetos. Foi também a sede do primeiro movimento literário expressivo do Brasil, a chamada Escola Mineira, ou Movimento Arcadiano, que teve em Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, seus representantes mais consagrados, tornando-se o núcleo da consciência nacional, quando um grupo de intelectuais, funcionários, padres e militares, imaginaram a possibilidade de livrar as Minas do colonialismo português, no mal sucedido episódio da Inconfidência Mineira de 1789.


No início do reinado de D. João V, as quantidades de ouro extraídas eram enormes, gerando riqueza e importantes tratativas comerciais para a Coroa. Sob a supervisão do Estado, era extraído por privados, estando sujeito ao pagamento de um imposto de 20% (o quinto). A quantidade de metal extraído era tão grande que impulsionou a reabertura da Casa da Moeda da Bahia, em 1714, e a criação, em 1724, da importante Casa de Fundição de Vila Rica de Ouro Preto, em Minas Gerais.

O ouro passava a circular livremente, após a comprovação do pagamento da quinta parte do seu valor oficial, devido a El-Rei. Os grandes negócios faziam-se em parte com o pagamento de ouro em pó, acompanhado do comprovante do imposto. Nas regiões de maior extração, já ao final do governo de D. João V, foram estabelecidas Casas de Fiscalização que passaram a controlar a extração e a fundir esse ouro em pó. A barra obtida era marcada com o selo da oficina, o ano em que fora realizada, o teor do ouro após a fundição, expresso em quilates, o peso, expresso em marcos e as suas frações até ao grão, além do número da barra. A da figura acima, com o número 6502, foi realizada na Casa de Fundição de Sabará no ano de 1809, com o teor de ouro de 22 quilates, o peso oficial de 1 onça e 44 grãos. 

O ouro em pó começou a aparecer no Brasil, em quantidade cada vez maior, ao final do século XVII, passando a circular livremente como moeda. A partir do início do século XVIII, a entrega do ouro nas Casas de Fundição, passou a ser obrigatória. Na ato da entrega uma fração era retirada para pagamento do imposto de 20% (o quinto) devido à Coroa. O restante do ouro era fundido e entregue ao seu proprietário em forma de barra. Nela eram impressos o selo oficial da oficina, o número de série, a data, o respectivo peso em marcos, onças ou oitavas, até grãos ou frações, bem como o teor do ouro, apurado pelo ensaiador, em  quilates e respectivos grãos por toque. A barra, acompanhada da correspondnte guia, circulava como moeda, tendo esse sistema vigorado até 1833, aproximadamente.


Figura: Acervo do Museu de Valores do Banco Central do Brasil. Barra de ouro nr. 3711, “quintada” na Casa de Fundição de Sabará em 1809. O ensaiador AP registrou o toque de 23 quilates e 3 grãos, e respectivo peso de 2 onças e 12 grãos (57,5 gramas, aproximadamente). Imagens gentilmente cedidas pelo MVBC. Clique na imagem para ampliar.

O controle era muito rígido, o que se pode concluir ao consultar o capítulo, desta obra, reservado às Repartições Fazendárias do Brasil Colonial. Até mesmo os passageiros e a tripulação dos navios que seguiam para a metrópole, eram controlados. Qualquer quantidade de ouro transportada era registrada em livro próprio para, em seguida, ser entregue ao comandante que deveria conduzir tudo à Casa da Moeda de Lisboa para que fosse amoedado. Retirado o imposto devido a El-Rei, o restante era devolvido a seu legítimo dono.


Uma fortuna incalculável

Mais do que um recurso natural; mais do que um artigo de exportação; o que se descobriu em Minas Gerais, depois de dois séculos de colonização, foi fortuna em estado puro.

Ao contrário do que ocorria com a produção de cana-de-açúcar no Nordeste, o metal extraído dos leitos dos rios mineiros não dependia da demanda internacional e suas oscilações de cotação. Já vinha em forma de dinheiro, pronto para ser posto em circulação ali mesmo. O ouro em pó transformou-se imediatamente na principal moeda das Minas Gerais naquele final do século XVII. E era tão abundante que, embora quase sempre tivesse Portugal como destino, causou enorme impacto econômico e social também do outro lado do Atlântico, em sua principal Colônia.

Uma verdadeira corrida pelo ouro tomou de assalto a capitania, até então pouco habitada. Levas de gente chegavam de toda parte atrás do sonho da riqueza imediata, disputando as margens dos rios para montar seus arraiais, muitas vezes com violência. A ganância movia todos, e era preciso aproveitar antes que a Coroa decidisse impor regras e restrições de acesso àquela fortuna natural.

Quase todo o ouro se encontrava em terrenos de aluvião – nas margens ou na foz dos rios, onde a erosão deposita cascalho, areia e argila. O sistema de extração era simples: ficava-se dentro dos ribeiros, com água até a cintura. Com uma bateia, lavavam-se as areias auríferas, até que os materiais mais leves ficassem na parte superior, de onde eram retirados. No fundo ficava o ouro, misturado a outros minerais. A época mais adequada para a atividade era o inverno, quando o nível da água dos rios estava mais baixo, o que permitia trabalhar melhor os leitos. O ouro assim extraído já vinha em pó ou em pepitas – não requeria, para se dissolver das rochas, o uso de mercúrio para formar amálgamas. Recém-retirado das bateias, podia ser usado como moeda.


Dois grupos de trabalhadores se dedicavam à mineração: de um lado, os escravos dos grandes proprietários; da outra parte, os trabalhadores livres, chamados de garimpeiros ou “faiscadores”. E se nos primeiros tempos da corrida do ouro a riqueza ficava com quem chegasse primeiro e defendesse melhor o seu quinhão, com o tempo a exploração gerou forte concentração de renda: o grosso ficava com os grandes proprietários, que se contavam nos dedos, enquanto os muitos “faiscadores” dividiam o resto.

Em 1710, por exemplo, apenas cinco pessoas foram responsáveis por 47,65% de todo o ouro produzido na Intendência do Rio das Mortes. Um século depois, quando o volume extraído já minguava, a desigualdade ainda era regra: os cinco maiores produtores conseguiram extrair quase 82 quilos de ouro (uma média de 16 quilos para cada um), enquanto os 568 produtores menores dividiram entre si menos de 184 quilos (média de 347 gramas para cada um deles). O detalhado censo realizado em 1814 mostra ainda que havia 5.747 garimpeiros atuando na região. Juntos, eles produziram cerca de 413 quilos, o que rendeu a cada um, em média, 71 gramas do metal. 
Embora importante para a economia colonial, era pequena a quantidade de pessoas envolvidas na mineração. A maior parte da população da capitania morava nos campos e vivia dos trabalhos agrícolas e pastoris. 

Marc Ferrez (1888) - Garimpo de ouro no interior de Minas Gerais

A extração de ouro, setor que gerava os mais valiosos rendimentos fiscais para a Coroa, mobilizava, no máximo, 5% dos moradores de Minas Gerais. E nem todos de modo exclusivo, já que muitos se dedicavam também à agricultura.

Mesmo assim, a disponibilidade de uma enorme quantidade de moeda, distribuída por um número de pessoas bem maior do que até então se vira, explica o impacto que da mineração sobre a economia local. Sem exagero, pode-se afirmar que o ouro estimulou a produção de gêneros de muitos setores da economia brasileira daquele século, especialmente a agricultura e a pecuária voltadas para o abastecimento interno.

Em Minas Gerais, na contabilidade das lojas e vendas, na coluna ao lado do valor em réis, aparecia a unidade monetária fundamental: a “oitava” de ouro (o equivalente a 3,586 gramas). A oitava (ler nota abaixo), por sua vez, dividia-se em 32 frações que eram os “vinténs de ouro(explicação mais adiante). Cinco vinténs davam um “tostão”, e 20 vinténs completavam um “cruzado de ouro”. Quem acumulasse um quilo de ouro podia ter acesso a bens consideráveis. Este valor era suficiente para comprar 75 cabeças de gado ou 2.250 sacos de milho com cerca de 30 quilos cada um. Ou, ainda, para adquirir uma mercadoria muito valorizada na economia da época: um saudável e forte escravo africano.

O maior desafio do governo era a cobrança do quinto (20% devido à Coroa, calculado em cima de qualquer quantidade de metal ou pedra preciosa extraída na Colônia). Após várias tentativas de se encontrar o sistema mais eficaz de cobrança, chegou-se finalmente ao método adotado a partir de 1751, com a criação de quatro Casas de Fundição, nas sedes das quatro comarcas de Minas Gerais: Vila Rica, Rio das Mortes, Serro Frio e Sabará.

Ficou, a partir de então, proibida a circulação do ouro em pó. Nas Casas de Fundição, o metal ganhava a forma de barras e o carimbo real, com o devido desconto do Quinto. A nova ordem também tabelou o preço do ouro. Ao dar entrada, em pó, nas Casas de Fundição, ele valia 1.200 réis a oitava. Ao sair, já quintado, seu valor era de 1.500 réis a oitava.

Essa diferença gerava uma situação curiosa, detectada pelo barão Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855). A revolta contra o pagamento do Quinto era atenuada. Eschwege esteve no Brasil em 1810, a convite do príncipe regente D. João VI, para compreender as causas do declínio da produção de ouro. Sabia-se que a cobrança do Quinto gerava insatisfação entre os mineradores, que o qualificavam de “exorbitante”. Para surpresa do barão, no entanto, os produtores tinham a impressão de que seu prejuízo não era tão grande, justamente por causa da cotação mais alta da oitava quintada. A lógica era a seguinte: cinco oitavas de ouro em pó valiam 6 mil réis (1.200 x 5). Depois de fundidas, o proprietário recebia uma barra com apenas quatro oitavas, já que a quinta parte era deixada como pagamento do Direito Régio. Mas ele possuía os mesmos 6 mil réis, pois cada oitava em barra valia 1.500 réis (1.500 x 4 = 6 mil). Claro que melhor seria não pagar imposto algum, mas ao Quinto “não podia resistir nenhum homem honesto”, argumentavam, segundo Eschwege.

Nota: A oitava tratada aqui, corresponde à oitava parte da onça de ouro portuguesa do sistema criado por D. Manuel I (28,6875 gramas), diferente da atual onça que corresponde a 31,1035 gramas. Sendo assim, dividindo o valor 28,6875 por 8, obtemos o valor da oitava, ou seja: 3,586 gramas.
As antigas unidades de medida portuguesas foram utilizadas em Portugal, Brasil e em alguns domínios coloniais portugueses até à introdução do sistema métrico. Estas unidades tiveram origem nas unidades de medida romanas, árabes e outras, e evoluíram ao longo dos tempos.
O sistema métrico de unidades foi introduzido em Portugal por Decreto de 13 de Dezembro de 1852 e foi adotado, na prática, pelo Brasil somente em 1872, quando houve a regulamentação da Lei Imperial 1.157, de 1862.

O Decreto de 20 de Junho de 1859 estabeleceu como obrigatório o uso exclusivo do sistema métrico. Este decreto entrou em vigor para as medidas lineares, em Lisboa, em 1 de Janeiro de 1860 e nas restantes localidades em 1 de Março do mesmo ano. A obrigatoriedade da utilização das restantes medidas, entrou em vigor, em todo o território nacional, em 1 de Janeiro de 1862.
Quando se começou a projetar a introdução do sistema métrico decimal, no século XIX, as unidades de medida lineares e itinerárias, e bem como as unidades de peso, tinham já padrões legais únicos em Portugal. As restantes unidades variavam de região para região, e mesmo de localidade para localidade, embora se situassem na ordem de grandeza dos padrões de Lisboa.

Os valores das unidades foram variando ao longo dos tempos. Na tabela 1, logo acima, à esquerda (clique na imagem da tabela, para ampliar), são apresentados os valores em vigor em 1862, quando o sistema métrico passou a ser o único oficial em todas as medidas. Estes valores são, essencialmente, os estabelecidos pelo Rei D. Manuel I em 1495.

TOQUE - Ao contrário daquilo que se supõem, as peças de ourivesaria não são feitas de metais preciosos no seu estado puro, já que os metais preciosos nesse estado são pouco tratáveis.
Se uma comum aliança de casamento, por exemplo, fosse feita em ouro fino, a sua resistência à deformação seria tão pequena que as atividades habituais do dia a dia seriam suficientes para danificá-la.
Sendo assim, os ourives tiveram, desde sempre, necessidade de adicionarem outros metais àqueles preciosos com que trabalhavam, de forma a obterem uma liga adequada ao tipo de trabalho que visavam produzir.
A quantidade de metal precioso existente na liga é traduzida através da indicação do TOQUE. Isso significa que quanto mais elevado é o toque duma peça, maior é o conteúdo de metal precioso existente por unidade de massa do objeto. Toque é o percentual de metal puro contido numa liga. O termo TÍTULO é também utilizado muitas vezes em lugar de toque.

MILÉSIMAS e QUILATES: O toque, por sua vez, é habitualmente designado em milésimas ou em quilates, embora as milésimas sejam cada vez mais utilizadas, pois são de muito mais fácil leitura para o consumidor.

Quando se diz, por exemplo, que um objecto tem um toque de 750 milésimas está a informar-se ao eventual interessado que para 1000 unidades de massa da liga com que foi feito o objecto de metal precioso, existem 750 unidades de metal precioso puro. No entanto, se fossem utilizados os quilates para dar a mesma informação, deveríamos usar a expressão TOQUE DE 18 QUILATES, o que parece ter muito menos significado para o leigo. A seguir, algumas equivalências entre milésimas e quilates: 333 milésimas equivalem a 8 Qt; 375 milésimas equivalem a 9 Qt; 585 milésimas equivalem a 14 Qt; 750 milésimas equivalem a 18 Qt; 800 milésimas equivalem a 19,2 Qt; 1000 milésimas equivalem a 24 Qt.

É útil saber também que é impossível detectar, à olho nu, qual o toque dum determinado objeto. Se tem 333 milésimas, por exemplo, pode ser absolutamente igual, no que diz respeito ao seu aspecto, a um outro de 800 milésimas.

Exemplos de ligas de ouro e de prata:
  1. Liga de ouro vermelho com toque de 800 milésimas (800 ‰) em 100g - 80gr de ouro fino, 16 gr de cobre e 4 gr de prata fina.
  2. Liga de ouro amarelo com toque de 800 milésimas em 100g - 80gr de ouro fino, 10 gr de cobre e 10 gr de prata fina.
  3. Liga de prata com toque de 925 milésimas (925 ‰)  em 100gr - 92,5gr de prata fina e 7,5 gr de cobre
  4. Liga de prata com toque de 835 milésimas em 100gr - 83,5gr de prata fina e 16,5 gr de cobre.
Figura: D. João V - Casa da Moeda da Bahia. Dobra de 8 escudos, diâmetro 36 mm e peso 28,68 gramas, o equivalente a 8 oitavas do sistema de D. Manuel I, cunhada à razão de 1$600 réis a oitava. Toque (ou título) 916,6 ‰, o que significa que se a moeda fosse dividida em 1000 partes, 916,6 delas seriam de ouro fino. 


Amoedação nas Casas de Fundição e da Moeda de Vila Rica

As Casas de Fundição e Moeda de Vila Rica, que funcionaram entre 1724 e 1735, cunharam mais moedas do que as Casas da Moeda de Lisboa e do Rio de Janeiro, juntas, nesse período. Enquanto a Casa da Moeda de Vila Rica cunhou uma média mensal de 215:303$847 réis nos 33 meses decorridos entre agosto de 1724 e maio de 1727, as Casas da Moeda de Lisboa e do Rio de Janeiro, nos 48 meses de janeiro de 1724 a dezembro de 1727, cunharam uma média mensal de, respectivamente, 91:500$000 e 81:986$000 réis [*1]. Por si só, estes dados permitem levantar questões sobre a oferta monetária de um e de outro do Atlântico.
*1 - Os dados da amoedação na Casa da Moeda de Lisboa foram tomados de SOUSA, Rita Martins de. Moeda e metais preciosos no Portugal setecentista. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2006, p.268; para os dados da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, cf. SOETBEER, Adolf. Edelmetall-Produktion und Werthverhältniss zwischen Gold und Silber seit der Entdeckung Amerikas bis zur Gegenwart. Gotha: J. Perthes, 1879, p.86-87. 
Partindo da contabilidade e das rotinas de amoedação das Casas de Vila Rica, bem como da análise do volume de remessas líquidas feitas pelas Casas da Moeda e Fundição de Vila Rica, Rio de Janeiro e Bahia para a Metrópole na primeira metade do século XVIII, é fundamental discutir a monetização da economia brasileira no período, e chamar a atenção para a necessidade de uma revisão urgente da perspectiva adotada largamente no que diz respeito à circulação monetária na Colônia.

De imediato, uma advertência pouco usual, em se tratando de um órgão da administração colonial mineira, tão pródiga em documentos: A exigüidade de fontes sobre seu funcionamento. Muito intriga esta absoluta ausência de qualquer traço contábil das Casas de Fundição que funcionaram entre 1725 e 1735, assim como dos livros da capitação de 1736 a 1750. Quanto aos primeiros, Eschwege assinalara que,
“...embora as Casas de Fundição fossem estabelecidas em 1725 e funcionassem até o ano de 1735, em que foram suprimidas, todos os livros de escrituração do quinto arrecadado nesse período foram remetidos então para o Rio de Janeiro, onde se conservam perdidos em algum arquivo...”
ESCHWEGE, Wilhelm von. Pluto Brasiliensis. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1922, p.389. 
No entanto, a busca meticulosa no Arquivo Nacional resultou inútil.

De fato, tanto Eschwege quanto Cunha Matos devem ter lido, num dos livros de registros de ordens e provisões da Provedoria da Fazenda, a Ordem Régia de 30 de julho de 1739, que determinou que todos os livros da receita, pertencentes à Casa da Moeda das Minas Gerais, fossem remetidos para a cidade do Rio de Janeiro. Mas, de fato, nem um, nem outro acompanhou a seqüência dos fatos. Esta ordem foi cumprida, sem dúvida, pelo governador Gomes Freire, que disto deu parte a el-Rei por carta de 25 de abril de 1740. 

Três semanas depois, o mesmo governador enviava outra carta ao Conselho Ultramarino, informando que o ex-tesoureiro geral das Casas de Fundição, André Álvares Rainho, havia-lhe requerido fossem os ditos livros remetidos para o Tribunal dos Contos da Corte, onde pretendia prestar contas, “por lhe ser assim mais conveniente e também útil à Fazenda Real”  [*2]. O despacho a este requerimento sugere ter sido atendida a solicitação do antigo tesoureiro: “responda-se-lhe que remeta as ditas "contas" deste tesoureiro na forma de estilo à Secretaria deste Conselho. Lisboa, 2 de setembro de 1740”.

No entanto, ainda em 22 de abril de 1745, os livros não haviam saído do Rio de Janeiro. Em novo requerimento, o ex-tesoureiro informava que estava dando contas nos Contos do Reino por seu procurador, e para os poder findar, era-lhe necessário que o rei lhe mandasse passar provisão.
“...para que os livros da arrecadação que se recolheram à Casa da Moeda do Rio de Janeiro sejam remetidos a esta Corte, passando-se certidão do número deles e, no caso que falte alguns ou estejam comidos do tempo, se declare na dita certidão com toda a especificação e seja remetida com os ditos livros...”
Requerimento de André Álvares Rainho, que foi tesoureiro da Casa da Moeda de Minas Gerais, solicitando provisão para serem remetidos para o Reino todos os livros de arrecadação da referida casa, tirando-se certidão do seu número; s.l., 22 de abril de 1745.
O requerimento recebeu despacho favorável, em princípio (“fiat iustitia”; “haja vista o procurador da Fazenda. Lisboa, 22 de abril de 1745”). Contudo, submetia a decisão final ao Provedor da Casa da Moeda do Rio de Janeiro (“informe o Provedor da Casa da Moeda do Rio de Janeiro com seu parecer. Lisboa, 4 de maio de 1745”) [*3].

O documento constitui a segunda prestação de contas feita pelo superintendente. Do ponto de vista do rigor contábil, contudo, é a primeira. Em 11 de junho de 1726, Eugênio Freire de Andrada justificava este atraso:
“...sem embargo de estarem tirados os canhenhos (isto é, cadernos de anotações) do rendimento destas duas casas de fundição e moeda, é tal a opressão da fundição do ouro das partes para se lhes quintar e poderem fazer as suas remessas e negociações que, havendo de entregar os sacos das vias em o dia data desta, se esteve fazendo entrega ao comissário do que leva para o Rio de Janeiro para ir nas naus de guerra para essa Corte, em nove, dia de Páscoa do Espírito Santo até alta noite, e nas duas oitavas, dez e onze se esteve fundindo na mesma forma que nos dias de fazer, e sem ter sossego para poder armar as importantes contas da receita e despesa das ditas casas, o qual fica fazendo com toda a pressa para ainda irem nesta frota, posto que fora dos sacos das ditas vias, ou pela frota da Bahia ou pelas Ilhas, por ser impraticável fazer-se remessa de todo o rendimento até a última hora da partida do comissário, e irem juntamente armadas as contas de cabedal tão considerável qual é o das ditas casas...”
AHU. MAMG. Cx.8, doc.89. Carta de Eugênio Freire de Andrade, superintendente das Casas de Fundição e Moeda das Minas, participando o modo de fazer a relação das receitas e despesas, assim como o modo de as enviar ao Reino; Vila Rica, 11 de junho de 1726. 
*2 - Arquivo Histórico Ultramarino. (AHU). Manuscritos Avulsos de Minas Gerais. (MAMG). Cx.41, doc.95. Carta (1a. via) de Gomes Freire de Andrade, governador das Minas Gerais, a D. João V, informando que André Álvares Rainho, tesoureiro-geral das Minas, espera ordem para remeter os seus livros de receita, para o Tribunal das Contas do Reino; Vila Rica, 15 de maio de 1740 [cx.39, doc.43]. Em 5 de dezembro de 1741 o mesmo ex-tesoureiro solicitou enviasse sua carta ao Tribunal de Contas. AHU. MAMG. Requerimento de André Álvares Rainho, que serviu de tesoureiro em Minas Gerais, solicitando que se envie a sua carta ao Tribunal de Contas, para poder tirar a sua quitação, s.l, 5 de dezembro de 1741.
*3 - Este procedimento não foi único. O mesmo ocorreu com os livros da tesouraria geral da Fazenda de Minas: AHU. MAMG. Cx.47, doc.89. Requerimento de José de Almeida Machado, que serviu o ofício de tesoureiro geral da Fazenda Real de Minas Gerais, solicitando ordem régia para que o provedor da referida capitania lhe remeta as suas contas para o Reino, à semelhança do que foi concedido ao seu antecessor, André Coelho de Barros [por ordem régia de 1740, registrada a fl.220v. do livro 3o. de ordens de partes da Secretaria do Conselho Ultramarino], s. l., 27 de dezembro de 1746. É isto o que explica que, para a capitação de 1736 a 1750, disponhamos tão somente de três livros para Vila Rica em 1746. 

É este o motivo que levou o superintendente a (felizmente para nós) prestar contas do período, desde o início do funcionamento das Casas de Fundição e da Moeda. Tendo em vista a escassez de trabalhos sobre o tema, seria conveniente apresentar as rotinas contabilísticas nas Casas, seguindo o roteiro do próprio superintendente em sua prestação de contas (Tabela 3. clique para ampliar).

Fontes: AHU. MAMG. Cx.11, doc. 13. Razão das contas gerais dos mapas das Casas de Fundição e Moeda, enviada por Eugênio Freire de Andrada, superintendente das referidas casas; Vila Rica, 2 de agosto de 1727. O primeiro relatório do superintendente cobriu a amoedagem efetuada de 26 de agosto de 1724 a 16 de maio de 1725; AHU. MAMG. Cx. 6, doc. 56. Carta (2) de Eugênio Freire de Andrade, superintendente das Casas de Fundição e Moeda, dando conta do ouro que entrou, para dele se pagar o Quinto à Sua Majestade; Vila Rica, 17 de maio de 1725. Nesse período, a média mensal ficou em torno de 244 contos de moeda cunhada.
Abreviaturas (legenda):
A: Ouro entrado na Casa da Moeda de 26 de agosto de 1724, data do início de seu funcionamento, até 31 de maio de 1727.
B: Total entrado de 26 de agosto de 1724 até 31 de maio de 1726 (21 meses, nuam média mensal de 241:799$325 réis de moeda cunhada)
C: Total entrado de 1° de junho de 1726 até 31 de maio de 1727 (12 meses, numa média mensal de 200:477$409 réis de moeda cunhada).
D: Total remetido em ser, isto é, sem amoedar, ao Conselho Ultramarino.
E: Total retido para ser amoedado.
F: Valor a mais do preço por que foi comprado o ouro, decorrente do excesso de um grão de liga dad a mais em cada partícula para evitar os quebrados.
G: Total, em réis, retido para ser amoedado.
H: Total de liga adicionada ao ouro para reduzi-lo à Lei de 22 quilates
I: E + F, isto é, peso da massa total resultante da adição da liga ao ouro para reduzi-lo à Lei de 22 quilates, a 96$000 réis o marco somado à liga, entregue ao mestre da fundição.


A Tabela 3 encerra lições importantes, que merecem ser detalhadas. Como se sabe, o grau de pureza de uma determinada porção de ouro (chamado de toque ou lei) é medido em quilates ou em milésimos. Quando medido em quilates, o grau máximo de pureza é dado pelo número 24; quando em milésimos, o número 1 representa a máxima pureza. 

Por exemplo, uma porção de ouro em pó de 18 quilates contém 75% de ouro e 25% de outros metais, que constituem a liga da peça, porque o número 18 corresponde a 75% de 24. Medido em milésimos, esta mesma peça seria denominada de 0,750 milésimos (750/1000 ou 750 ‰). Do mesmo modo, uma barra de ouro 22 quilates tem o TOQUE (ou lei) de 0,9166 (916,6 ‰, valor resultante da divisão do número 22, correspondente aos quilates da barra, por 24, o grau máximo de pureza). 

Cada quilate, se subdivide em 4 grãos, e cada grão, por sua vez, em 8 oitavas. Assim, cada quilate é formado por 32 oitavas de grão. São estas subdivisões que determinam as variações do preço das peças de ouro segundo seu grau de pureza. Tome-se, por exemplo, uma dada quantidade de ouro de 24 quilates, com grau máximo de pureza, que, para facilitar os cálculos, será avaliada em 2.400 réis. 

Poder-se-ia dizer também que esta peça contém 24 partes de ouro puro. Para se apurar o preço pelo qual seria comprada uma peça de igual peso, mas com 23 quilates e 4 oitavos de ouro puro bastaria efetuar um cálculo a partir do seguinte raciocínio:

  1. Se 2.400 réis é o preço da peça com grau máximo de pureza (24 quilates), cada quilate de ouro puro vale 100 réis (2.400 ÷ 24 = 100);
  2. Como cada quilate é formado por 32 oitavos de grão, cada oitavo de grão vale 3,125 réis (100 ÷ 32 = 3,125); logo,
  3. Uma peça de 23 quilates e 4 oitavos valeria 2.312,50 réis (23 x 100 + 4 x 3,125 = 2.312,50).

O padrão monetário português vigente ao longo dos anos setecentos teve origem na Lei de 4 de agosto de 1688, que determinou que a Casa da Moeda recebesse cada marco de ouro de 22 quilates (isto é, com 91,66% de ouro puro, ou, expresso em milésimos, da lei de 0,9166) por 96$000 réis (um marco equivale a 229,504 gramas e a 4.608 grãos). Assim, cada grão de ouro valia 20,8333 réis (96$000 ÷ 4.608 = 20,8333 réis). 
Após a moedagem, o mesmo marco de ouro era emitido por 102$400. Isto porque, ao valor do marco de ouro de 22 quilates, eram acrescidos os custos de braçagem – os custos propriamente de produção – e a senhoriagem – o direito pago ao rei pela moedagem – da ordem de 6,66%.

Na Tabela 3, observa-se que a Casa da Moeda recebeu ouro por valores que variaram conforme seu toque, entre 23 quilates e 4 oitavas (cada grão de ouro avaliado em 21,89 réis) e 23 quilates e 3 oitavas (cada grão de ouro avaliado em 21,85 réis). Para se chegar a estes valores, basta dividir o total expresso em réis pelo peso de cada rubrica, de A a E [*4].
Retirado o montante remetido à metrópole (D), permaneceram na Casa da Moeda de Vila Rica 65.921 – 2 – 2 – 60 (lê-se 65.921 marcos, duas onças, duas oitavas e 60 grãos de ouro, ou 303.765.324 grãos) avaliados em 6.642:053$997 réis [*5]. Cada grão foi avaliado, em média, a 21,8657 réis, o que equivale a um toque de 23 quilates e três oitavos de grão. Para facilitar os cálculos, foram acrescidos 253 réis (F), de forma que a avaliação da massa total de ouro destinada ao fabrico de moeda ficou em 6.642:054$250 réis (G). 
*4 - Uma completa tabela com o preço do ouro fundido em barras nas Casas de Fundição é apresentada por ESCHWEGE, Wilhelm von. Pluto brasiliensis. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1922, p.300-307).
*5 - Um marco contém 4.608 grãos; uma onça, 576 grãos; e uma oitava, 72 grãos)

Restava, portanto, saber quanto de liga deveria ser adicionada para que se obtivesse uma massa total contendo 91,66% de ouro puro e 8,33% de outros metais. O cálculo era o seguinte:

1. Como foi visto, a massa original de ouro pesava 303.765.324 grãos e tinha de toque 23 quilates e 3 oitavos (ou 23,09 quilates); aplicando-se uma regra de três simples, verifica-se que destes 303.765.324 grãos, 292.250.387 eram ouro de 24 quilates, e 11.514.937 outros metais (303.765.324 x 23,09 ÷ 24 = 292.250.387; 302.765.324 – 292.250.387 = 11.514.927).
2. este ouro puro, de 24 quilates, equivalente a 292.250.387 grãos, deveria corresponder a 91,66% do total de uma massa de 22 quilates. Logo, uma operação de regra de três simples dá o resultado seguinte:

292.250.387     -     0,916666
x      -      1

x = 292.250.387 ÷ 0,916666
x = 318.818.604

Como alternativa pode ser efetuado o seguinte cálculo: 292.250.387 x 24 ÷ 22 = 318.818.604 grãos, ou 69.188 marcos, 4 oitavas e 12 grãos de ouro. A diferença entre 318.818.604, correspondente ao peso total da massa a ser transformada em moeda, e a quantidade total de ouro puro (292.250.387), era de 26.568.217 grãos. Como já havia 11.514.387 grãos de outros metais na massa entregue para ser cunhada, bastava adicionar, à liga, 15.053.280 grãos, ou 3.266 marcos, 6 onças, uma oitava e 24 grãos (H).

Curiosamente, o mestre de fundição entregou ao tesoureiro geral não os mesmos 69.188 marcos, 4 oitavas e 12 grãos fundidos em barras de ouro (I), mas 69.298 marcos, 3 onças, 5 oitavas e 46 grãos em barras de ouro de 22 quilates, isto é, um excesso de 110 marcos, 3 onças, uma oitava e 34 grãos ao que havia originalmente recebido (equivalentes a 10:598$208,3 réis). 
Este foi o volume repassado ao fiel para ser transformado em moeda. Na avaliação do superintendente, este valor excedente ao que deveria ser esperado podia parecer “impossível sem haver erro contra as partes, ou no peso dos seus ouros, ou nos quilates pelos toques e ensaios”. Contudo, esclarecia ser “tão certo e racional o tal acréscimo que, não o havendo, necessariamente se deve entender que, ou houve desvio dele, ou não se sabe a verdadeira forma de ligar”. 

E, de fato, a razão para esta discrepância era muito simples: cada porção de ouro comprada aos particulares continha frações de grãos às quais não se lhe dava valor. Os 508.774 grãos que surgiram após a fundição correspondiam a 0,16% de toda a massa comprada a particulares que não haviam sido avaliadas, porque se tratavam de parcelas ínfimas individualmente. Assim, nas palavras do superintendente, “o que separado em pequenos pesos não se lhe dá valor, unido em milhões produz a maioria referida”.

Depois de cunhada, toda a moeda pesou 69.217 – 0 – 1 – 47, o que equivalia a 6.644:834$479 1/6 réis (o peso multiplicado pelo valor do marco de ouro de 22 quilates, isto é, 96$000 réis). 
Houve, portanto, uma perda de 81 marcos, duas onças, três oitavas e 71 grãos em relação ao total registrado de 69.298 – 3 – 5 – 46. 
Foram cunhadas pelo fiel 7.105:026$960 réis as seguintes quantidades de moedas (consultar a tabela 4, a seguir).

Tabela 4 - clique na imagem para ampliar

A primeira conclusão que se pode tirar destes números é bem clara: pelo menos as 397.074 moedas com valor igual ou superior a 4$800 réis não se destinavam à circulação interna na capitania, mas a pagamentos no Reino.
Seu valor elevado não se presta às transações comerciais de varejo. Isto pode ser facilmente demonstrado pela contabilidade de uma loja de Vila Rica, recentemente estudada por Alexandra Pereira. A moeda corrente em Minas Gerais continuava sendo o ouro em pó. Na realidade, esta conclusão não é nova. Soetbeer já a havia apresentado há um século e meio, no que foi seguido por Michel Morineau: “il n’y [au Brésil] reste rien des émissions au bout d’un an seulement”.

Portanto, a aparência de que as moedas de ouro jorravam em Minas - e, claro, no Brasil - é falsa. Mas muita atenção: não se vá cair na armadilha de tomar o fato de estas moedas de ouro não circularem na colônia como prova de escassez monetária. Isto porque a circulação monetária em Minas - vale dizer, de uma outra forma de moeda - ocorria intensamente antes de ir para as fundições. Mais uma vez, é a contabilidade dos estabelecimentos comerciais que permitem demonstrá-lo.



D  João V, monarca absolutista e religioso, deixou para a posteridade, um extraordinário conjunto de séries monetárias, hoje considerado como um dos mais importantes, belos e extraordinários da numismática, a nível mundial.

Nascido em Lisboa, em 1689, construiu aquedutos, conventos, igrejas e palácios; impulsionou a indústria e foi um grande mecenas das artes e das letras.

O reinado de D. João V marcou o apogeu da numismática brasileira, pela diversidade, riqueza e beleza das moedas cunhadas, particularmente aquelas em ouro. 
Com o auge do ciclo do ouro, em Minas Gerais, deu-se a cunhagem da série de dobrões, nos valores de 400, 1.000, 2.000, 4.000, 10.000 e 20.000 Réis, essa última com peso de 53,78g, uma das maiores e mais pesadas moedas de ouro já circuladas no mundo.

No ano da última cunhagem dos dobrões, surgem as dobras (o novo padrão de 12.800 réis), situadas entre os mais belos exemplares da coleção numismática brasileira e de todo mundo. São moedas grandes, belas, vistosas, imponentes; as primeiras, no Brasil, a carregar a efígie do soberano. 

As dobras de D. João V, e seus respectivos submúltiplos (peças, meias peças, escudo, meio escudo e o quartinho), foram cunhadas nas Casas da Moeda da Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais. As da Casa da Moeda da Bahia (raríssimas), estão entre as mais cobiçadas pelos numismatas, sendo muito disputadas em leilões nacionais e internacionais.

A emissão de moedas de prata foi incipiente durante o reinado deste soberano. Na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, foram cunhadas moedas de 160, 320 e 640 Réis, de 1748 a 1750 e em Lisboa, no ano de 1749, foi cunhada uma série de 80, 160, 320 e 640 Réis para circulação no Maranhão e Grão Pará.

Também são dessa série as moedas de ouro de 1.000, 2.000 e 4.000 Réis e as de cobre, nos valores de V, X e XX, todas de 1749 e sem letra monetária. Por serem iguais às do padrão monetário corrente, sua circulação estendeu-se a todo o território brasileiro.



O Vintém de Ouro


“...em 1818, a Casa da Moeda do Rio de Janeiro, 
desativada desde 1734, foi reaberta para 
cunhar uma das moedas mais intrigantes da 
história numismática mundial .”

O Sistema Monetário Colonial do Brasil mantinha uma clássica ordem de valores dobrados, baseados nas dezenas (5, 10, 20, 40, 80, 160, 320 e 640 réis), o que em grande parte minimizava a problemática do troco. Na província de Minas Gerais, entretanto, no início da segunda década do século XIX, uma particular dificuldade em gerar o troco afetou diretamente os interesses da Metrópole, exigindo medidas drásticas para evitar grandes perdas para a Coroa.

O problema tem origem justamente na comercialização do ouro de aluvião que era retirado, em grande quantidade, naquela região. O ouro em pó, encontrado aflorando à superfície, na forma de pequenos grãos, era garimpado em bateias e comercializado, muitas vezes ainda bruto. O peso do ouro era medido em onças e uma unidade muito corrente era a oitava, que consistia na oitava parte da onça portuguesa (28,6848 gramas), o que correspondia a 3,5856 gramas.
As dificuldades surgiam no momento da comercialização. Para frações maiores, sempre podia encontrar-se o troco; mas à medida que estas frações decresciam, a falta de troco acabava por beneficiar os faisqueiros, com prejuízo para o Reino.

O problema já existia anteriormente, tendo sido contornado durante o governo de D. José I. A primeira tentativa, no intuito de facilitar as transações comerciais do ouro em pó, foi realizada durante o governo desse soberano, ao criar a conhecida série J (600 réis, 300 réis, 150 réis e 75 réis). Como a oitava de ouro custava 1200 réis, 1/2 oitava, por exemplo, poderia ser paga com uma moeda de 600 réis de prata, que carregava a inicial deste soberano; 1/4 de oitava, poderia ser pago com uma moeda de 300 réis e 1/8 da oitava com uma moeda de 75 réis da série J.

Todavia, durante o reinado de D. João VI, não atentando para a necessidade dessas moedas (série J), que deveriam circular somente naquela região, foi dada a ordem de carimbar todas as moedas da série criada no governo de D. José, equiparando-as aos valores citados no ínicio. Assim, com uma contramarca de escudo (carimbo de escudete), as moedas de 600, 300, 150 e 75 réis, passaram a valer, respectivamente, 640, 320, 160 e 80 réis. Se por um lado, isso resolvia o problema gerado com a circulação de moedas de mesmo valor intrínseco, mas com numerais diferentes, por outro lado, trazia de volta o problema do troco para as transações comerciais com o ouro na região de Minas Gerais.


Como vimos, uma oitava de ouro, que correspondia a 1200 réis - que antes se podia pagar com duas moedas de 600 réis, sem necessidade de troco - passou a ser paga, por exemplo, com 2 de 640 réis e recebendo-se de troco um cobre de 80 réis; por 1/2 oitava, correspondente a 640 réis, podia ser dada uma de 640 réis, recebendo um troco de 40 réis; 1/4 de oitava, poderia ser pago com 320 réis, recebendo-se um troco de 20 réis, e assim sucessivamente. A problemática criada pelo troco, situação que de certa forma havia sido contornada no governo de D. José I, retorna com força total.


A situação se agrava

O problema maior começava com a fração 1/16 de oitava que poderia ser paga com uma moeda de 75 réis da série J (D. José I), numa operação simples. Acontece que essa moeda, agora escudetada, não valia mais 75 réis e sim 80 réis. Dessa forma, pagando com 80 réis essa fração do ouro, o faisqueiro deveria receber V réis de troco. Todavia, desde 1799, não se cunhavam mais as moedas de V réis de cobre. As últimas haviam sido cunhadas, nesta data, em Lisboa e em pequena quantidade. Com o Alvará de 8 de abril de 1809, ordenou-se a carimbagem com a contramarca do escudo, conhecida entre os numismatas como Carimbo de Escudete, a ser aplicada nas moedas anteriores a 1799, duplicando-lhes o valor. Dessa forma, grande parte das moedas de 5 réis, cunhadas em 1786, 1787, 1790 e 1791 passaram a valer 10 réis.

Este ainda não era o maior problema. Segundo o historiador Rocha Pombo, o mais normal era se comercializar o metal do fundo de uma bateia, ao final de um dia de trabalho, medido em vinténs. Assim, se a oitava de ouro correspondia a 1200 réis, então a fração 1/16 da oitava, seria o equivalente a 75 réis e 1/32 da oitava, iguais a 37,5 réis. Como não existia mais a moeda de V réis para o troco - o pagamento era efetuado com a moeda de 80 réis, por exemplo - e, muito menos a possibilidade de se dar um troco de 2,5 réis, essa pequena margem era deixada aos faisqueiros (faiscadores), que não podiam dar troco, pela inexistência de moedas iguais, ou menores, que cinco réis, o que representava uma perda de 6,67% no momento da compra do ouro. Multiplicado por milhares de operações, realizadas mensalmente, o montante representava uma perda de muitas onças.


Uma solução inusitada

Para resolver o problema, em 1818, a Casa da Moeda do Rio de Janeiro, desativada desde 1734, foi reaberta para cunhar uma das moedas mais intrigantes da história da numismática mundial, o Vintém do Ouro (e não o Vintém de Ouro, como é conhecido pela maioria).
Apesar do nome sugerir uma moeda de 20 réis, cunhada em ouro, na verdade tratava-se de moeda de cobre com o valor de 37 ½ réis, batida no Rio de Janeiro para circular somente em Minas Gerais.

Também neste ano, a Casa da Moeda de Minas, que estava em funcionamento desde 1810, começou a produzir o Vintém do Ouro, batendo moedas de 1818 a 1821 e de 1823 a 1828. Entre 1818 e 1821, a Casa da Moeda de Minas Gerais fabricou, também, as moedas de 75 réis (2 Vinténs do Ouro). Em 1823, a Casa da Moeda de Goiás cunhou moedas no valor de 75 réis.


Concluindo

Podemos dividir os efeitos da descoberta do ouro sobre o Brasil colônia em três grandes dimensões; o primeiro deles é de ordem geo-administrativa, na medida em que deslocou em definitivo o centro da atividade econômica e o aparelho político-administrativo para o eixo centro-sul do país. O Rio de Janeiro tornou-se em 1763 a capital do Vice-reino devido a supressão do Estado do Maranhão e sua integração ao Estado do Brasil, formando ambos uma nova entidade político-administrativa. Estimulou a fixação da população, que até então vivia tal um "caranguejo" preso ao litoral ou como erráticos nômades vagando aos bandos pelos sertões e pradarias do país.
Minas Gerais tornou-se, por sua vez, um ponto de partida para a ocupação de outras regiões até então desertas de civilização, como o Goiás e o Mato Grosso. Foi lá também que se gerou o primeiro complexo urbano composto pelas vilas auríferas e diamantíferas, fazendo nascer uma sociedade diferenciada da que existia no Nordeste ou em São Paulo. Demograficamente, segundo Contreras Rodrigues, deu-se o maior salto populacional até então visto: de 300 mil habitantes em 1690, para 3.250.000 em 1798.

Economicamente representou a formação do primeiro mercado interno do Brasil colonial. Até então, toda a produção (açúcar, tabaco, algodão, e produtos de extração diversos) tinha destino externo. Como as terras ao redor das minas eram estéreis, os alimentos custavam muito. Estimulou-se a expansão da criação do gado para corte e para carga, fazendo com que vastas regiões fossem transformadas em estâncias de criação, desde Campinas em São Paulo, até Vacaria e Soledade no Rio Grande do Sul. Foi também para abastecer as minas que surgiu a indústria do charque, ao redor de 1780, na área de Pelotas, espalhando-se para o vale do Jacuí, no RS. O Rio de Janeiro tornou-se o principal porto do país, simultaneamente o maior mercado escravista da Colônia e exportador de mineral precioso. Nunca se importaram tantos escravos de uma vez só como no auge da exploração aurífera, entre 1730-50, fazendo com que, juntamente com os pardos escravizados, atingissem ao total de l.581.000, ou 48,8% da população existente.

Social e culturalmente fez com que surgisse pela primeira vez no Brasil colonial uma classe média de artesãos, de profissionais das minas, de comerciantes e funcionários, de militares, de artistas e músicos, além de uma poderosa plutocracia que enriquecera com o ouro. Foram eles que esboçaram, ainda que fracassada, a primeira tentativa de independência do Brasil. Os seus intelectuais e poetas tiveram atuação marcante na vida cultural das Minas Gerais, mesmo que temática e esteticamente dependentes do movimento arcadiano europeu. O barroco mineiro, estilo predominante na construção de casas, de igrejas e de palácios, tem sido apontado como a mais bela herança dos tempos do ouro.



Bibliografia:

1. Alves Carrara, Angelo - Coinage and monetary offer in Minas Gerais/Brazil the Mint House in Vila Rica.
2. Antonil, André João - Cultura e opulência do Brasil, Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1967.
3. Antunes, Fernando - Ouro para o bem do Brasil. MBA Editori Associati, em língua italiana.
4. Carnaxide, Visconde de - O Brasil na administração pombalina, Editora Nacional, São Paulo, 1940
5. ESCHWEGE, Wilhelm von. Pluto Brasiliensis. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1922.
6. Zemella, Mafalda P. - O abastecimento das capitania das Minas Gerias no século XVIII - Hucitec-Usp, São Paulo, 1990