Ave, Caesar, morituri te salutant

A construção do Anfiteatro Flávio, que deve o seu nome à gens Flávia (Flaviana), é obra do imperador Vespasiano, edificada  apartir de 72 d.C. e financiada com a pilhagem romana da conquista de Jerusalém em 70 d.C., inaugurado pelo seu filho Tito e concluído durante o governo de Domiciano, segundo filho de Vespasiano, no ano 82 da era Cristã.
É talvez o monumento mais famoso da antiguidade, idealizado como parte de um projeto de reestruturação de Roma, ainda sob o choque do grande incêndio ocorrido durante o governo de Nero.

O grande anfiteatro surgiu sobre o lago artificial (o stagnum, citado por Marco Valério Marcial em seus escritos) construído por Nero para enfeitar a sua Domus Aurea, consequência de uma damnatio memoriae em prejuízo do imperador apontado pela história como o pirômano que mandou incendiar a cidade. Esse espelho d'água, alimentado por fontes que surgiam das fundações do templo do Divo Cláudio, foi aterrado por ordem de Vespasiano - uma espécie de ato reparatório contra a política do tirano Nero que havia usurpado o terreno público, destinando-o a uso privado - numa tentativa de mostrar à população a linha da fronteira que separava o velho do novo e atual principado.

A Domus Áurea, a monumental vila residencial construída por Nero que se apoderou de um espaço público para construir sua moradia. Em primeiro plano vê-se o lago artificial, aterrado por ordem de Vespasiano e onde se ergueu o Coliseu. No fundo, ao alto, vê-se parte da enorme estátua de Nero (o colosso) que deu origem ao nome popular do Anfiteatro Flávio. Clique na imagem para ampliar.

Ao seu redor foram construídas pequenas estruturas de apoio: depósitos, academias de exercitação física e um hospital para dar suporte aos feridos na arena. Ao que se conseguiu apurar em documentos históricos, os últimos espetáculos foram realizados em 523 d.C.

Vespasiano. AD 69-79. AV Áureo (19mm, 7.10 g). Casa da Moeda de Roma, batida em torno a AD 73. Anv.: IMP CΛES VESP ΛVG CEN, cabeça laureada de Vespasiano, voltada à direita /  Rev.: VES TΛ, Templo com quatro colunas e estátuas de Vesta.

Entre o final do século V e inicio do VI, foram desmontadas as estruturas do setor sul e executadas as obras de aterro da arena dos espetáculos. A partir da metade do século VI, com a perda total das suas funções para as quais foi idealizado, o Anfiteatro cai em fase de total abandono, sofrendo contínuas e sucessivas espoliações de material: o travertino da estrutura de ingresso, os revestimentos em mármore, os grampos metálicos que uniam os blocos de pedra, tijolos e diveros outros materiais foram subtraídos através dos anos, pela própria população paar construção de habitações. Os furos que hoje podem ser vistos no que restou do  travertino são a consequência desse saqueamento.

O Coliseu foi inaugurado pelo filho de Vespasiano, o imperador Tito, mas o projeto só foi concluído por seu irmão e sucessor, Domiciano.

Por ocasião da inauguração (antes mesmo do projeto terminado), Tito mandou bater um sestércio (figura a seguir) que retrata o Anfiteatro Flávio com admiráveis detalhes. Assim como foi executado na retratação do porto de Ostia, foi usado no desenho da moeda uma interessante combinação de duas perspectivas, de forma a ver representado seja o interno que o externo do anfiteatro. Pode-se observar com extraordinária nitidez a presença das estátuas em cada arcada. No interno notam-se as gradinatas com as respectivas subdivisões para o público, além do magote que lotava o anfiteatro durante os espetáculos, a maior parte deles bizarros, degradantes e aviltantes aos nossos olhos (pelo menos a maior parte).


À esquerda do anfiteatro (direita do observador),  vê-se a representação da Meta Sudans, a elegante fonte erguida ao lado do Coliseu, ainda em época flávia. Do outro lado (esquerda do observador), à direita do monumental anfiteatro, percebe-se, nitidamente, a representação de um pórtico. Trata-se de exemplar da mais alta raridade.

Pouco tempo depois, o segundo filho de Vespasiano, o imperador Domiciano, operou importantes modificações no Coliseu, completando a obra ad clipea (ornamentos com escudos decorativos em bronze dourado), adicionando o maenianum secundum in ligneis e realizando os subterrâneos da arena. Após essa reforma estrutural, não foi mais possível a realização das naumaquias, (em latim naumachia, literalmente "combate naval"), espectáculo no qual se representava uma batalha naval na arena transformada em uma grande piscina.

A naumaquia romana era um espetáculo onde encenavam batalhas navais em arenas transformadas em piscinas. Após as obras realizadas no Coliseu, por Domiciano, esse gênero de espetáculo foi transferido para outra arena, onde hoje se localiza a praça Navona, construída para suprir as exigências materiais da representação teatral do evento.

Durante o governo de Marco Opélio Macrino, um incêndio causado por um relâmpago que atingiu as enormes tendas que protegiam o público da exposição ao intenso sol, causou enormes danos ao anfiteatro, posteriormente restaurado por Heliogábalo (Eliogabalo). Em 223 d.C., durante o governo de Alexandre Severo, teve lugar uma segunda inauguração do Anfiteatro restaurado. Esse imperador mandou bater áureos e sestércios (figura abaixo) com a incisão do Coliseu no reverso das moedas, para comemorar o evento.

O monumento é, mais uma vez, reproduzido com o uso da dupla perspectiva, estudada pelos incisores de Severo, partindo da cunhagem executada por Tito, 150 anos antes. Contudo, nos sestércios de Alexandre Severo, o Anfiteatro tem uma concepção mais estreita, agora com os gladiadores que combatem na arena. No reverso, do lado esquerdo do Anfiteatro (direito do observador), vê-se o imperador assistido por um servo, tendo ao fundo a Meta Sudans. À direita do Anfiteatro, um templo que provavelmente simboliza um ato de sacrifício prestes a ser cumprido por Severo.

O uso da estrutura interna como habitação da plebe e de imigrantes, organizados em torno da praça central (antiga, e agora aterrada, arena), como canteiro de hortos, como abrigo para animais e depósito de mercadorias, ocorridos durante a idade média, degradou continuamente o monumento até a forma como hoje o conhecemos.

Gordiano III também ordenou obras de reestruturação no monumento, recordando seu feito, desta vez, em um medalhão. Com módulo notavelmente maior, permitiu ao sincisores maior liberdade no desenho dos detalhes, como se pode notar na figura abaixo onde se vê, nitidamente, no reverso, a imagem de um touro e um elefante na arena.
Um novo incêndio se abateu sobre o Coliseu em 250 d.C., constringindo Trajano a executar novso trabalho sde reestruturação. Em 405, o imperador Honório aboliu os espetáculos de lutas entre gladiadores, decretando o Coliseu à abscuridade e abandono parcial. Reestruturado pela última vez por Teodorico, tem início o seu declínio.
Terremotos sucessivos (422, 442, 508, 874, 1255, 1349 e 1703) o danificaram ainda mais, abatendo parte do seu perímetro externo. Subtraído durante séculos de seus mármores e estátuas, o que resta hoje são apenas as ruínas de um monumento que abrigou durante séculos a folia de imperadores sedentos de poder e de uma população tão orgulhosa e evoluída, quanto degenerada, fútil e destituída de valores morais.


O nome COLISEU, usado para indicar o Anfiteatro, foi usado pela primeira vez no século VIII, derivado da estátua colossal de Nero que se erguia na vizinhança

O caráter sacro do edifício foi estabelecido pelo Papa Bento XIV que, por ocasião do Jubileu de 1750, mandou erguer uma Cruz Cristã no centro da arena, além das 14 edículas da Via Crucis contornando o perímetro do monumento.

Após o terremoto de 1803, foram executados os primeiros trabalhos de consolidação, com a realização de duas contenções no lado oriental (1805-1807) e ocidental (1827), primeiar fase de um longo processo de recuperação e de pesquisas arqueológicas que transformaram o Coliseu em um rude monumento.

Modelo do Coliseu, relizado em madeira. Fim do século XVIII, início do século XIX.


Arquitetura

A estrutura do Anfiteatro foi realizada em blocos de travertino (muros perimetrais e pilastras dos pórticos). O externo do edifício se dispõe em quatro estilos superpostos, atingindo uma altura de quase 50 metros. A última secção hospedava uma colunata em mármore (colunas e capitéis).
O inteiro edifício tem planta elíptica, com o eixo maior medindo 188 metros e o menor 156 metros. Ao centro do edifício, a arena, onde tinham lugar os jogos.

O Anfiteatro era dotado de 80 arcadas de ingresso, 76 delas numeradas, destinadas aos espectadores e 4, orientadas segundo os pontos cardeais, reservadas ao imperador, às autoridades políticas e religiosas e ao sprotagonistas dos espetáculos. Os ingressos monumentais ao norte e ao sul do edifício conduziam a dosi palcos de honra, adjacentes à arena, sendo um deles de uso exclusivo do imperador.

Os locais assinalados e percursos obrigatórios, através das arcadas numeradas, conduziam diretamente aos assentos.

Disposição dos assentos ao interno do Coliseu. Clique na imagem para ampliar. 


Os jogos

Os espetáculos eram gratuitos e representavam para quem os oferecia (editor) a possibiliadde de demonstrar sua generosidade.
Em, Roma, o editor por excelência era o imperador e, excepcionalmente, um magistrado que, nesse caso, era obrigado a financiar os jogos com seus próprios recursos. Em ocasião de particulares eventos, os espetáculos podiam prolongar-se por muitos dias, como aconteceu quando foi inaugurado pelo imperador Tito, em 80 d.C., que se prolongou por 100 dias consecutivos. Foi nesse período que, antes da construção dos hipogeus em alvenaria, a área central foi usada como um lago artificial para a exibição das batalhas navais (naumaquias).

Os combates, ao contrário do que se imagina, raramente eram mortais. Frequentemente, o público consentia a “graça” ao gladiador. Eram em suas maioria escravos ou prisioneiros de guerra de propriedade de um empresário especializado no setor (lanista) que recebia, também,  em sua “escola”, homens livres que desejavam seguir a carreira de gladiador, na esperança de obter fama e fazer fortuna.

Um dos mais famosos lanistas foi Lêntulo Batiato. Em 73 a.C., Batiato era dono de uma escola de preparação de gladiadores em Cápua, Campânia (Itália), que reunia principalmente escravos gauleses e trácios. Segundo Plutarco, em sua “Vida de Crasso”, os maus-tratos infligidos por Batiato levaram cerca de duzentos escravos à revolta e a tentar fugir da escola. Setenta e cinco deles conseguiram, entre eles Espártaco, que viria a se tornar o principal líder da Terceira Guerra Servil (73 a.C. - 71 a.C.), a maior revolta de escravos ocorrida na Itália Romana.

Os gladiadores viviam e treinavam em grupos e depois de um certo número de combates, podiam “aposentar-se”. No caso de escravos, ganhavam a liberdade concedida pelo imperador. Alguns deles, muito amados do público, se transformaram, em verdadeiros ídolos das massas.


A jornada dos jogos era assim dividida:

Pela manhã, após uma parada inicial de todos os participantes (pompa), tinham lugar as venationes, espetáculos de combates e exibições de animais domesticados, provenientes de todo Império. A cenografia era muito acuradas, reproduzindo o habitat natural dos animais, com o uso de muitos efeitos especiais.

Mosaico mostrando combate entre gladiadores, encontrado na vila romana de Dar Buc Ammera, nos arredores de Leptus Magna, II século d.C. Vêem-se representadas as categorias Retiarius, o Secutor, o Oplomachus, o Traex do período republicano e o Mirmillo ou Mirmillone (nomenclatura definida a partir da idade augustea). 

No intervalo do almoço, a arena passava a ser palco de execuções públicas, entre as quais a damnatio ad bestias  que era a mais agressiva das penas capitais, em que o condenado era talhado com pequenos cortes e jogados a grandes felinos famintos.
À tarde tinham início os combates entre gladiadores. Existiam diversas tipologias de equipamentos que correspondiam a determinadas técnicas usadas em combate. As classes mais populares eram:


Período republicano:

1. O Samnes - A classe de gladiadores mais antiga. Su aarmadura, assim como seu nome, deriva dos guerreiros sanitas.

2. O Gallus - Provavelmente fez sua primeira aparição em época cesariana, após a campanha da Gália.

3. Traex republicano - Terceira e última classe desse período. Seu nome tem origem nos guerreiros trácios, com os quais os romanos tiveram contato pela primeira vez durante a guerra contra o rei Mítridates VI.

Belíssimo tretradacma de Mitridates VI. Mitrídates VI ou Mitridates IV (132 a.C. — 63 a.C.), chamado Eupátor Dionísio, também conhecido como Mitrídates o Grande, foi rei de Ponto (região na costa meridional do mar Negro, que atualmente se situa no nordeste da Turquia) de 120 a 63 a.C. na Anatólia, foi um dos mais formidáveis inimigos de Roma, havendo combatido três dos melhores generais romanos da Baixa República.
O Reino do Ponto estendeu-se a leste do rio Hális. A dinastia persa que fundaria o reino havia governado a cidade grega de Cio, na Mísia. O primeiro membro conhecido dessa dinastia foi Ariobarzanes I de Cio (ou da Frígia) e o último governante que teve a sua capital em Cio foi Mitrídates II de Cio. O filho deste, tornar-se-ia Mitrídates I Ktistes do Ponto.


Idade imperial:

4. Traex imperial - Este período da história de Roma, em particular o I século d.C., pode ser considerado como clássico, no que diz respeito à armadura e classes dos gladiadores. Na pesquisa da documentação da época, encontra-se uma definição bastante ampla sobre o equipamento dos gladiadores. É nessa época que os elmos sofrem uma profunda mudança, especialmente durante o período correspondente à dinastia Giulio-Claudia, com a couraça cobrindo praticamente toda face, como uma máscara com apenas dois furos para os olhos, protegidos por uma grelha. Uma espécie de capacete (tesa), protegia o alto da cabeça, indo até a nuca.
Entre o período neroniano e a disnastia Flávia, os elmos sofreram uma notável modificação. Os dois furos circulares para os olhos são substituídos por uma única grande abertura protegida por uma grelha, e a cobertura antes retilínea, agora é flexionada para baixo, em ambos os lados. Eram muito utilizados nas arenas dos anfiteatros de Pompéia e região campana do sul da Itália. Essa modificação se estendeu por toda idade médio-imperial, passando a identificar a classe de gladiadores conhecida como dos Murmillos (Mirmilones)

Cena mostrando um Traex do período imperial, em diversas posições de combate.



Elmo de um Traex do período imperial.


5. O Retiarius - Fazia uso de rede e tridente. Era o único gladiador que tinha a permissão de escapar ao combate frontal, correndo pela arena na intenção de cansar seu adversário. Não era um tipo de combatente apreciado pelo público.

6. O Murmillo - Era a classe mais comum entre os gladiadores, onde o mais famoso deles foi Espártaco. Seu nome, provavelmente, se deve a um peixe de nome murma (em grego) que adornava seu elmo, expondo-o à captura com a rede do Retiarius.


Elmo de um Murmillo.

7. O secutor.
8. O Provocator.
9. O Eques.
10. O Essediarius
11. O Saggitarius.
12. O Veles.
13. O Bestiarius
14. O Dimachero.
15. O Spataharius