As primeiras moedas dos brasileiros

No início do período colonial, o meio circulante brasileiro foi sendo formado de modo aleatório, com as moedas trazidas pelos colonizadores, invasores e piratas que comercializavam na costa brasileira. Assim, ao lado das moedas portuguesas, circulavam também moedas das mais diversas nacionalidades, cuja equivalência era estabelecida em função do seu valor intrínseco (conteúdo metálico) ou seja, valiam o que pesavam.

A partir de 1580, com a formação da União Ibérica, verificou-se uma afluência muito grande de moedas de prata hispano-americanas (Reales), provenientes do Peru, graças ao florescente comércio que se desenvolveu através do Rio da Prata. Até o final do século XVII, os Reales espanhóis constituíram a parcela mais expressiva do dinheiro em circulação no Brasil.

As moedas portuguesas que aqui circulavam eram as mesmas da Metrópole, oriundas de diversos reinados. Cunhadas em ouro, prata e cobre, essas moedas tinham os seus valores estabelecidos em réis e possuíam às vezes denominações próprias, como Português, Cruzado, São Vicente, Tostão, Vintém. A moeda de 1 real, unidade do sistema monetário, era cunhada em cobre.

 Figura: Tostão de D. Manuel I

Figura: Real de D. Manuel I

Figura: Moeda hispano-americana de 4 Reales de Carlos I de Espanha, Casa da Moeda do México.

Foto de um raríssimo Tostão do cardeal-Rei D. Henrique.
Ex-Coleção Cruzado Lusitano, vendida em leilão Numisma 72, lote nr. 83.

Moeda de 8 Reales hispano-americano de D. Felipe II de Espanha, Casa da Moeda de Potosi.

“Graças a bem urdidas uniões dinásticas, não raro cimentadas pelo ouro dos astecas do México e a prata das minas de Potosi no Peru, em menos de um século a Espanha se tornara o império mais poderoso do mundo. Seus domínios espalhavam-se da Europa à Ásia, passando pela África e pelo Novo Mundo.

Em 1581, no mesmo ano em que os portugueses coroaram como seu rei o vizinho rei espanhol, no outro extremo da Europa, sob a liedrança da Holanda, algumas ricas possessões espanholas nos Países Baixos proclamaram-se uma república e deram início à guerra pela independência.

Ao amanhecer do dia 9 de maio de 1624, uma armada de vinte e sete navios da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais invadiu Salvador, capital da próvíncia portuguesa do Brasil. Traziam quinhentos canhões e três mil e cem homens, quase todos protestantes ou hebreus. Frente a tal poderio bélico, resistir aos que os jesuítas chamavam de hereges acabou se mostrando inútil. Liderados pelo bispo Dom Marcos Teixeira, a população local fugiu. Ficaram na cidade apenas o governador, sua família, três auxiliares e um morador de idade avançada, que se recusara a partir.

O velho recebeu os invasores à bala e acabou morto. Os holandeses colocaram o governador português e os demais funcionários sob custódia, se estabeleceram na cidade, explicaram suas intenções e convidaram o povo da Bahia a retornar às suas casas e conviver em paz com eles. Contrariando o bispo, a maioria voltou. Já uns poucos, capitaneados por um espanhol, escolheram combater os holandeses em luta de guerrilha.”

“Van Dorth” de Aydano Roriz

Pelo texto de Aydano Roriz, ao que tudo indica, não se tratava de uma invasão pura e simples, com exércitos enviados de uma nação à outra sem um escopo bem definido ou priva de significado, interessada apenas em pilhagem.
O certo é que o breve período em que os holandeses ocuparam as terras que hoje correspondem ao nordeste do Brasil, determinou um notável avanço naquela região. Não somente nas atividades comerciais marítimas, suas contribuições foram também notavelmente significativas na cultura, na ciência e na tecnologia. Esse parece ter sido também um período confuso nas tratativas políticas e sociais entre as três nações (Portugal, Espanha e Holanda), e que durou de 1624 a 1654.

Apesar da forte oposição lusitana, os holandeses não desistiam em tentar estabelecer na região, a sua própria colônia. Na verdade, foram três as oportunidades em que procuraram firmar sua presença na terra do pau-Brasil. Duas dessas tentativas se deram na Bahia, nos anos de 1624 e 1638; a outra, até certo ponto bem sucedida, teve lugar em Pernambuco, em 1630. Essas localidades foram os principais marcos definidos pelos holandeses en terras brasileiras.

Para a ocupação dessas terras, a Holanda se serviu dos interesses econômicos de uma empresa nacional que pretendia o privilégio de comercializar na América e África, à semelhança do que já fazia no Oriente. Conhecida como West-Indische Compagnie (W.I.C), originalmente em holandês denominada Geoctroyeerde West-Indische Compangnie ou simplesmente G.W.C, Companhia Privilegiada (licenciada ao comércio) das Índias Ocidentais, essa empresa de iniciativa privada intencionava ocupar uma região maior das terras luso-espanholas das Américas.

Com o privilégio de exploração por 24 anos, logo reuniram os recursos, cuja cifra se aproximou de sete milhões de guilders, dos quais 2.846.582 guilders vieram de investidores que viviam em Amsterdam.

A idéia dessa iniciativa surgiu durante as reuniões do conselho dessa Companhia, o que provavelmente fez parte de um plano maior apresentado aos Estados Gerais da União dos Países Paixos. Visto que, após a incorporação de Portugal à Coroa de Castela em 1580, os holandeses sentiram-se prejudicados e ameaçados - uma vez que cidades como Lisboa, Porto e Viena suspenderam seu comércio de produtos exóticos, madeira, tabaco e açúcar - passaram, então, a atacar os domínios da coroa espanhola, na África e no Novo Mundo, priorizando o contato direto com fontes produtoras na América.

A intenção inicial da W.I.C não priorizava a exploração das plantações de açúcar no Brazil. A Companhia das Índias Ocidentais preparou uma esquadra de 26 navios com 1400 marinheiros e 1700 soldados que, sob o comando do almirante Jacob Willekens dirige-se ao Brasil e, em 1624, invade a Bahia. No porto, encontravam-se 15 navios portugueses, dos quais 7 forão destruídos e 8  tomados pelos holandeses.

O governador Diogo Mendonça Furtado é posto sob custódia, assumindo o governo local, o Coronel Johan van Dorth, posteriormente assassinado em uma emboscada em 17 de junho de 1624.

Confiantes de que tal operação havia confirmado seu domínio no Brasil, em São Salvador na Bahia, a esquadra partiu. No fim de Julho de 1624 o almirante Jacob Willekens retorna à Holanda. Em 5 de agosto de 1624 , o vice-almirante Pieter Pieterszoon Heyn ou Piet Heyn se dirige para Angola.

De Angola Piet Heyn parte em Fevereiro de 1625 para retornar ao Brasil. Em 3 de Março de 1625 o conselho dos oficiais navais havia decidido retornar à província do Espírito Santo, com intuito de verificar a possibilidade de tomarem posse do local.

Em 13 de Março de 1625, Piet Heyn desembarca ali com 250 homens, porém, é vigorosamente repelido pela população local e pelas tropas de Salvador Corrêa de Sá no comando de 250 homens brancos e índios em quatro canoas e uma caravela que seu pai Martim de Sá, governador do Rio de janeiro, mandara em seu auxílio.

Derrotado, um imediato do almirante Jacob Willekens, que atacara a Bahia, foi enviado para o Caribe para atacar vários pontos da costa americana, mais precisamente o México (Nova Hispania). Em 1628 Piet Heyn estava liderando uma frota de 20 grandes navios e 11 yachts. Em Setembro, sua frota havia tomado cerca de 15 navios mercantes espanhóis em Matanzas Bay, apossando-se  da prata que ia do México para Espanha, num montante em torno de 13 a 14 milhões de guilders, dos quais cerca de 7 milhões de guilders em prata.

Esse montante foi fundamental para preparar a expedição que objetivava o retorno ao Brasil com a conquista de Pernambuco. Ainda, na Bahia, organiza-se uma resistência que poria fim ao domínio holandês na região, pelo período de aproximadamente 1 ano.

Outras tentativas como a de Pieter Pieterszoon Heyen de 1627 que saqueou o Recôncavo baiano se seguiram, o que estimulou a W.I.C. em promover novos ataques contra os portugueses. Porém a companhia encontrava-se sem fundos, e dessa forma não se arriscaria a outra grande expedição, com tropas de desembarque se não houvesse um reforço financeiro, o que só ocorreu graças a uma vitória naval, promovida pela frota de Piet Heyn, contra D. Juan Benevides, o que rendeu aos holandeses um montante de aproximadamente nove milhões de ducados.

As riquezas naturais da Capitania de Pernambuco (Zuikerland - Terra do açúcar) no início do séc. XVII já eram bastante conhecidas pelas grandes potências da época. Os Países Baixos necessitavam do açúcar que era produzido no Brasil, cuja produção de 121 engenhos, somente   em Pernambuco, despertou o interesse dos diretores da Companhia que, com o apoio da Inglaterra e França, rancorosos inimigos da Espanha mandaram armar uma extraordinária esquadra de 67 navios e 7.280 homens dos quais 2.325 eram soldados e 2515 marinheiros, sob comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck.

Em 15 de fevereiro de 1630, inicia-se a operação comandada pelo almirante Lonck.

Assume o trono o nobre João de Bragança, que se transforma em D. João IV, procurando desde cedo, retomar as relações de amizade com todas as potências inimigas da monarquia espanhola.

Em 12 de junho de 1641, Portugal celebra com a Holanda um “Tratado de Aliança Defensiva e Ofensiva”. Porém, o Tratado não tem efeito nas colônias portuguesas em poder dos holandeses, no Brasil, que só recebem a notícia somente em 3 de Julho de 1642.

Diante dessas circunstâncias, aproveitando-se do momento, o conde Maurício de Nassau-Siegen amplia os domínios de seu governo ocupando Sergipe, Ceará e Maranhão. Pouco tempo depois, em 28 de fevereiro de 1644, os holandeses são expulsos do Maranhão e passam a concentrar suas atenções em Pernambuco.

Durante a administração do conde Maurício de Nassau-Siegen, o progresso vigorou de forma impressionante. As fronteiras foram finalmente estabelecidas do Maranhão à foz do Rio São Francisco. A cidade do Recife passou por inúmeros melhoramentos urbanísticos, como a instalação de duas pontes de grandes dimensões - a primeira ligando Recife à ilha Antônio Vaz e a outra da ilha Antônio Vaz ao continente. Supostamente essas foram as primeiras pontes construídas no Brasil.

Nesse período, Nassau construiu o palácio de Friburgo e a Casa da Boa Vista - um Horto Zoobotânico. Instalou o primeiro Observatório Astronômico das Américas e diversas outras obras de infra-estrutura, como nunca havia se visto na região.

Em 22 de maio de 1644, o conde Maurício de Nassau se vê obrigado a retornar à Europa, após sete anos de governo, por pressão da Companhia das Índias Ocidentais, que desejava imprimir à colônia rumos diferentes das nobres intenções de Nassau, um mecenas e desejava formar do Brasil holandês, uma nação próspera e forte, governando com justiça e sabedoria.

Procurou expandir o comércio, as artes, a indústria e as profissões liberais e incentivou a lavoura e a pecuária. 
Porém, seu programa de governo, ocasionaria despesas e reduziria os recursos imediatos da Companhia e, por isso, perdeu seu prestígio. 

Na verdade, a finalidade da Companhia era retirar o máximo proveito financeiro da colônia, pouco importando o progresso ou o futuro da mesma, arrancando-lhe tudo o que podia. Após a retirada de Nassau, a W.I.C. passou a extorquir os moradores locais e portugueses. Os colonos, então, procurando salvar suas economias, enterram o que possuíam no interior das florestas, o que provocou, cada vez mais, a falta de dinheiro em circulação. Para minimizar essa situação caótica, a Companhia enviou para Pernambuco 27.000 florins em moedas de um soldo, dois soldos e xelins; porém, a situação tornara-se irreversível.
Em 13 de junho de 1645, tem início a Insurreição Pernambucana e, com ela, cresceu o problema da crise monetária. O momento era de entressafra do açúcar e não havia dinheiro suficiente sequer para pagar as tropas, que eram compostas de mercenários de todas as nacionalidades, expostas aos ataques das tropas luso-brasileiras. Nesse meio tempo foi declarada a guerra entre Holanda e a Inglaterra (1652-1654). Esse fato favoreceu a Insurreição Pernambucana, visto que a Holanda ficava impossibilitada de socorrer sua colônia no Brasil. 

Os navios da Companhia da Índias Ocidentais também transportavam ouro proveniente da África, mais precisamente da Guiné. Tratando-se de mercadoria valiosa, todas as precauções eram tomadas para se evitar ataques de pirataria ou naufrágios em alto mar.

Os navios da Companhia da Índias Ocidentais também transportavam ouro proveniente da África, mais precisamente da Guiné. Tratando-se de mercadoria valiosa, todas as precauções eram tomadas para se evitar ataques de pirataria ou naufrágios em alto mar.

Os navios, que vinham da costa africana, faziam escala em Recife, onde coletavam correspondências, abasteciam e carregavam o navio de açúcar e pau-brasil e, quando conveniente, depositavam, com segurança, caixas de ouro em pepitas ou em barras, até o momento em que, partindo um comboio de navios para a Europa, pudessem ser transportadas com segurança para os cofres da Companhia, na Holanda.


* Johann Mauritius Van Nassau-Siegen era um homem dotado de qualidades excepcionais. Um nobre cavalheiro de origem alemã que teve formação humanista da melhor qualidade.
Competente como soldado, também conhecia a fundo a arquitetura, a história e as artes plásticas. Cuidou bem da cidade, dotando-a de palácios e fortificações. Sua corte era abrilhantada pela presença e pela obra de homens ilustres como o médico Willem Pies (1611-1678), o botânico Jorge Marcgrave (1610-1644), os pintores Franz Post (1612-ca.1680), Albert van der Eckhout (1637-1664) e Zacahrias Wagener (1617-1668) e pelo biógrafo de Nassau, Gaspar Barléus (1584-1648) autor de Rerum per Octennium in Brasilia (História dos feitos praticados durante oito anos no Brasil), considerada a mais monumental obra sobre o Brasil colonial. Nassau era amante de festas e admirador das belezas tropicais.
A Companhia das Índias Ocidentais era uma empresa de comércio semi-estatal. Nassau, contratado pela companhia, desembarcou no Recife, em 1637, na condição de governador, capitão e almirante-geral do Brasil holandês. 
Sua atuação no Brasil, em contraposição à colonização lusitana, católica, estatal e burocrática, foi uma administração sensata, racional e privatista, pontuada pela ética protestante e pelo espírito do capitalismo.



A primeira vez em que se faz referência à idéia de se cunhar moeda no Brasil pelos holandeses, deveu-se às necessidades militares e às dificuldades da tesouraria da Companhia das Índias Ocidentais. 

Lutando com a falta de numerário, o Alto e Secreto Conselho começou a vender e hipotecar as mercadorias que tinham em depósito. Em ata de 21 de julho de 1645, o órgão supremo da administração local da colônia brasileira, descreve que já havia disponibilizado para venda, aproximadamente 741 kg de ouro, retirados da última remessa vinda da Guiné. 

Com a crítica situação em que se encontravam, pela escassez de numerário face à necessidade de dispor de dinheiro para o pagamento da milícia, serviços e víveres, os holandeses resolvem mandar cunhar moedas de ouro de XII, VI e III florins, tendo de um lado a marca da companhia e do outro a data, conferindo-lhes um aumento de 20% no valor do metal, evitando que as mesmas saíssem do país, podendo ser recolhidas no futuro. 

A decisão de se cunhar moedas só foi tomada pelo Alto e Secreto Conselho na sessão de 18 de agosto de 1645. O Conselheiro Pieter Jansen Bas, foi o encarregado da produção das moedas brasileiras, mediante concessão formal, e isento de qualquer acusação futura. A cunhagem das moedas para suprir as necessidades dos holandeses começou imediatamente, e a 14 de setembro de 1645 foram remetidos exemplares, de cada um dos valores, ao Conselho dos XIX, na Holanda. Finalmente, a 10 de outubro de 1645, Pieter  Bas ordenou o início da cunhagem dos ducados brasileiros para circulação local. 

As moedas cunhadas pelos Holandeses em Pernambuco nos anos de 1645 e 1646 e, posteriormente sob cerco em 1654, foram as primeiras cunhagens efetuadas em território brasileiro com a indicação “Brasil”.

Essas moedas eram batidas em “placas” quadrangulares de ouro, nos valores XII; VI e III florins com as iniciais da Companhia e valor (dentro de um colar de pérolas) no anverso; e as palavras ANNO/BRASIL (e data), dentro de um colar de pérolas, no reverso. Foram também batidas, em prata, moedas no valor XII soldos, unifaciais, com a indicação da data de emissão, do valor, e das letras GWC, sigla da Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais (Geoctroyeerde West-Indische Compangnie).
  
As remessas de florins, soldos e xelins provenientes da Holanda não eram suficientes para atender as necessidades da administração holandesa no Brasil, durante os anos de ocupação. Para suprir a falta de recursos, o Conselho utilizou o ouro vindo da Guiné destinado à Holanda para cunhar, em 1645, moedas de XII, VI e III florins e no ano seguinte fez nova emissão com o restante do ouro.  

Estas moedas chamadas de obsidionais* (de emergência ou de necessidade do invasor) foram as primeiras cunhadas no Brasil e são muito raras. São destacadas das demais moedas pela sua forma quadrangular e pela pouca espessura.  As moedas de prata de XII soldos de 1654 foram produzidas após a capitulação dos holandeses, com características semelhantes às de ouro, consideradas também moedas de necessidade do invasor.

Os valores X, XX, XXX e XXXX soldos, segundo vários pesquisadores e estudiosos, são falsas, jamais tendo sido cunhadas pelos holandeses. 

Um estudo preliminar de algumas moedas holandesas  da  Coleção do Museu Histórico Nacional, foi realizado em 2007 pelo Centre de Recerche et de Restauration des Musées de France,  juntamente com Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCT) e pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT/MCT).

Foram examinadas as moedas de III, VI e XII Florins de 1645, aléem de um XXXX sooldos de 1654. O estudo, porém, não é conclusivo sobre a autenticidade da cunhagem pelos holandeses. Pode ter sido cunhada durante aquele período, o que não atesta a sua autenticidade. 

É importante esclarecer que não existe qualquer documentação, nos arquivos da GWC que atestem a cunhagem de moedas de X, XX, XXX ou XXXX soldos. Sendo o sistema duodecimal, admitia múltiplos e submúltiplos de 12, o que certamente excluía tais valores.

A seguir, foto da análise do XXXX soldos, pertencente à Coleção do Museu Histórico Nacional, constante no referido estudo realizado pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCT).



A seguir, o desenho do raríssimo XII soldos.


São visíveis as diferenças. A iniciar pelo “W” de GWC, a exemplo do “X” em REX, o “W”, composto de “2 Vs”, tem seus traços direitos duplos, fato observado por qualquer abridor de cunhos. Somente isso já demonstra que o cunho foi aberto por um leigo e não por um profissional que conhecia seu trabalho. Também é “gritante” a diferença entre o “6” do XXXX soldos e o do XII soldos. A pesquisa faz referência a defeitos que atribui à má qualidade de gravação do cunho (pág. 297 do artigo publicado na Revista Brasileira de Arqueometria, Restauração e Conservação, Vol. 1, nr. 6)

Segue parte do texto do referido estudo:

Foram observadas as letras “G” e “C” na região de cruzamento do “W” . As imagens em elétrons retroespalhados obtidas no MEV  nessa região, mostram os efeitos do gume de cunho e o defeito gravação de cunho do topo da letra “C”.

Foram também observados os três últimos “X” da legenda “XXXX”, bem como os detalhes do cunho no topo do terceiro “X” desta legenda.

Quando a imagem é ampliada, um certo número de inclusões de cor branca surgem na região em torno do terceiro “X”. De modo a explicar estas inclusões, também encontradas em muitas outras zonas da moeda, procedemos a uma análise por intermédio do sistema EDS do MEV.

A análise da composição destas inclusões mostra que se trata de finas partículas de Au incluídas na matriz de Ag. Essas inclusões são possivelmente devidas ao fato de as moedas de Au e Ag terem sido fabricadas com elementos de um mesmo equipamento de cunhagem.
Foram também observados vários detalhes da data de emissão, onde aparecem claramente defeitos no número “6”. Esses defeitos podem ter sido devidos à má qualidade da gravação do cunho.

Curiosamente, o relevo na zona central do bordo desta moeda, observado no MO mostra, ao contrário do que se observa nas moedas de Au, que provavelmente deve ter sido cortado com um instrumento do tipo de tesoura. 

O corte talvez não tivesse sido efetuado até o final do bordo, tendo o último pedaço sido “arrancado” em vez de completamente cortado.
É necessário esclarecer que o tempo que separa as últimas cunhagens de Florins de ouro, das primeiras dos Soldos de prata é de, pelo menos, 9 anos. As partículas de ouro presentes nos cunhos das moedas de prata, somente servem a atestar que foram batidas na mesma época e não em períodos diversos, com espaçamento de 9 anos. 

Junte-se a isso as moedas falsas de ouro da “botija de Recife” nos valores de X, XX, XXX, e XXXX florins para concluir o óbvio.


HOLANDESAS - AS PRIMEIRAS MOEDAS COM O NOME BRASIL

Estas moedas, chamadas de obsidionais* (de emergência ou de necessidade do invasor), foram as primeiras cunhadas no Brasil e são muito raras. São destacadas das demais moedas pela sua forma romboidal e pela pouca espessura.  As moedas de prata de XII soldos de 1654 foram produzidas após a capitulação dos holandeses, com características semelhantes às de ouro, consideradas também moedas de necessidade do invasor, sendo muito mais raras que as de ouro.
Face à inexistência de ferramentas e materiais adequados, bem como à urgência do trabalho, as moedas foram feitas de forma bastante rudimentar, como mostrado na figura a seguir.


Em meados de julho de 1645, o navio Zeeland, recém chegado da Guiné, transportava 360 marcos ou cerca de 309 quilogramas de pepitas de ouro. A Companhia das Índias Ocidentais que encontrava-se sitiada e constantemente atacada pelos luso-brasileiros, resolveu lançar mão de  aproximadamente 90 quilogramas dessa carga,  para  comercialização imediata e transformação do metal em moeda, com aumento de 20% do valor para posterior recompra, dessa forma suprindo suas necessidades básicas como alimentação e pagamento dos soldos dos mercenários contratados para sua proteção.

Legalmente, um Marco de ouro (247,047 g.) de título 9162/3, deveria fornecer, durante o processo de cunhagem, 32 moedas de XII Florins (com peso de 7,72 gr. ou 5 engels) e para as de VI e III Florins, 64 e 128 moedas respectivamente, com peso proporcional.

Em trabalho intitulado “The Coins of the Dutch Overseas Territories”, C. Scholten indica como peso legal, 7,690 gr; 3,845 gr e 1,920 gr, respectivamente.


Tal se deveu ao fato de haver tomado por base, de forma equivocada, o Marco de Amsterdã que pesava 246,084 gr., quando o correto seria fazê-lo pelo Marco da Batávia que pesava 247,047 gr. ou 160 engels.

Os holandeses comercializavam o ouro da Guiné a 37 Florins por Onça, ou seja, 296 Florins por Marco. Cunhando as moedas, apuravam um valor muito maior, já que estas entravam em circulação com um valor superior em 20% ao seu valor intrínseco. Porém, para a G.W.C., o ano de 1646 tratou-se de um período bastante complicado.

Na realidade, o que se seguiu foi a maior crise que a Companhia sofreu durante toda a ocupação em terras brasileiras. A situação econômica e social agravou-se a tal ponto, que a população, devido ao flagelo da fome, passou a dar a caça a todos os animais da região. Cavalos, aves, cães, gatos e ratos chegaram ao limiar de sua extinção durante aquele período.

A exigüidade de moeda obrigou os holandeses a repetir a operação de retirada de ouro dos navios que vinham da África com destino à Europa. Em agosto de 1646, retiraram 405 marcos de ouro, dos quais 50 foram vendidos a peso e 355 foram entregues ao Conselheiro Pieter Janssen Bas, para a cunhagem de novas moedas obsidionais.

Utilizando-se do mesmo regimento, a “Instrução” de 10 de outubro de 1645, Pieter Janssen Bas convocou os mesmos ourives que realizaram o trabalho de cunhagem das moedas, no ano 1645.

Em 27 de agosto de 1646, deu-se início às atividades de cunhagem, operação realizada com grande dificuldade devido à péssima qualidade e capacidade dos cadinhos para fundição do ouro e dos equipamentos empregados.

Durante a cunhagem de 1646, de acordo com a documentação oficial existente, foram abertos 16 novos cunhos, mas se verifica que pela perolagem das moedas conhecidas como autênticas, foram utilizados 18 cunhos. Devemos recordar que nesse período foram usados cunhos de 1645, devidamente restaurados. No entanto, há de se considerar que somente os cunhos de anverso, por não apresentarem a data da moeda, puderam ser restaurados e reaproveitados. 

Figura: Imagem ampliada de um VI Florins em excelente estado de conservação, vendido pela casa de leilões numismáticos Kunker em 21/06/2005, lote nr. 235 - Valor final: € 12.500 (12.500 euros). Acervo particular. Coleção Bentes.


Figura: Imagem ampliada de um raro III Florins ano 1645 em excelente estado de conservação. Acervo particular.
  
Observações: Alguns autores consideram a expressão “moedas obsidionais” (do latim obsidio, obsidionis, invasão), como um equívoco no que tange as moedas cunhadas pelos holandeses no Brasil. Segundo estes estudiosos, as moedas de necessidade se dividem em dois tipos principais: as dos invasores, que cunham geralmente para o pagamento dos soldados, e a dos invadidos, que na necessidade de fazer circular dinheiro durante a “reclusão”, usam metal não precioso, por vezes até não-metal. As moedas cunhadas pelos invadidos seriam chamadas de obsidionais, enquanto que as cunhadas pelos invasores (o que seria o caso dos holandeses, responsáveis pelos florins e stuivers), seriam chamadas CASTRENSES, do latim castris, castris – acampamento.

1) As moedas de X, XX, XXX e XXXX soldos que frequentemente aparecem em alguns catálogos e leilões eletrônicos são falsas. A única moeda obsidional de prata reconhecida autêntica por nós, e por autores especializados no assunto, é aquela de XII soldos.

2) Existem falsificações de todos os valores em grande quantidade. São extremamente raros os exemplares autênticos e da mais alta raridade o XII soldos de prata. Devido ao fato de serem moedas desejadas por todos os colecionadores, pelo seu significado histórico e raridade, existe no mercado grande número de moedas falsas batidas com cunhos grosseiros e vendidos por comerciantes inescrupulosos. Assim, aconselhamos a máxima cautela em adquiri-las.

3) A expressão “obsidionais” deriva do do latim obsidio (obsidionis – invasão). O termo é assim usado em referência às moedas “batidas” durante a ocupação de um território, em caráter de emergência, para pagamentos gerais e das tropas. Porém, alguns autores preferem dividir estas moedas moedas de necessidade em dois tipos distintos:

• Aquela dos invasores, cunhadas geralmente para o pagamento dos soldados, e

• Aquela dos invadidos, que na necessidade de fazer circular dinheiro durante a “reclusão”, usam metal não precioso, por vezes até não-metais. Na opinião destes estudiosos,  “obsidionais” seriam as moedas cunhadas pelos invadidos, enquanto aquelas cunhadas pelos invasores (no caso os holandeses, responsáveis pela cunhagem de florins e stuivers, que invadiram o nordeste do Brasil em 1612),  deveriam ser denominadas “CASTRENSES”, do latim castrum, castri (acampamento).

4) Após a derrota na Batalha de Tabocas, e encontrando-se sitiados no Recife, os holandeses encontravam-se em dificuldades devido à falta de numerário para o pagamentos gerais (despesas de manutenção e soldados). Assim, ordenaram a cunhagem de Florins (Ducados) em caráter de emergência nos anos 1645 e 1646.

5) No ano de 1654, “bateram” moedas de prata (Stuivers ou Soldos), em liga de baixo teor, somente para pagamento das tropas, no único valor de XII Soldos, apesar da autorização para cunharem também os valores I e III que não chegaram a ser cunhados.