O grau de raridade e a cotação das moedas

Afinal, qual o critério que se adota para estabalecer o grau de raridade e, principalmente, o valor de um exemplar?

A procura por uma moeda pode aumentar significantemente seu valor. Um exemplar comum que seja altamente estimado por colecionadores terá, sem dúvida, um valor maior que aquelas moedas pouco procuradas; moedas raras terão maior demanda que moedas comuns da antiguidade clássica. Por exemplo, algumas moedas da Grécia e de Roma, apesar de sua idade, são relativamente pouco cotadas em razão de sua abundância. Abrindo um parênteses, convém recordar que o número de peças cunhadas não é indicativo da disponibilidade da moeda. Algumas moedas, mesmo que tenham sido cunhadas em grande quantidade, são raras ou raríssimas. Um exemplo bastante significativo é o do Saint Gaudens Double Eagle de 1933, da mais alta raridade. Devido às diversas vicissitudes históricas (dispersão, retirada de circulação, fusão, etc), pode acontecer que determinadas moedas, cunhadas em número elevado, com o tempo venham a ser consideradas mais raras do que outras cunhadas em quantidades consideravelmente menores. Destarte, o grau de raridade se refere à dificuldade em se encontrar (pelos diversos motivos citados) uma determinada moeda. No nosso catálogo, por exemplo, graduamos a raridade em conformidade com o descrito acima, indo desde as moedas muito comuns (CC ou C2), até a peça única, passando pela classificação R5 (RRRRR) que corresponde ao exemplar da mais alta raridade.


Mas quando podemos afirmar que um determinado exemplar seja raro ? 

A resposta espontânea deveria ser: Quando não é facilmente encontrada.

Mas não é assim tão simples; justamente porque o conceito de raridade envolve mais do que a mera interpretação do porque uma moeda se define rara.

Uma moeda é considerada rara por que existem poucos exemplares ou por que não aparece regularmente no mercado? 

Poder-se-ia argumentar que o importante é que seja definida como rara e que isso seria o bastante para exaurir o assunto. Apesar de ser difícil contestar tal acertiva, é importante esclarecer o motivo pelo qual algumas dessas raridades valem muito mais do que outras.

Suponhamos uma moeda definida como Raríssima (R4), porque conhecemos apenas 10 (dez) exemplares, onde 7 (sete) deles pertençam a acervos conhecidos. Os 3 (três) exemplares restantes, seriam propostos no mercado por longo período, mesmo por anos, sem que pudessem experimentar uma valorização. Podemos até arriscar que, dependendo da oferta e do número de vezes que venham expostas à venda, se arriscam até mesmo a sofrerem uma desvalorização. 
Comentário: Presenciamos um caso desses há alguns anos. Um comerciante oferecia uma raridade (uma moeda de 960 réis 1816R, recunhada sobre carimdo de Minas, onde a contramarca era totalmente visível)...essa moeda é única. Porém, foi o próprio comerciante a contribuir para a sua desvalorização. Ofereceu a muitos colecionadores, mostrando-a a todos e deixando que alguns ficassem com ela por bom tempo, sem compromisso, a fim de examiná-la e "refletirem sobre a proposta". No mercado dão um nome a isso..."QUEIMAR A PEÇA". Acontece até no movimentado mercado das artes e antiguidades.
Ao contrário do que foi dito acima, uma moeda Muito Rara, cunhada em tiragem de apenas 100 exemplares, mas com a vantagem do interesse de 200 potenciais compradores (por exemplo), seria facilmente negociada, gozando sempre de uma valorização, justamente porque se coloca numa relação de oferta e procura de 1 para 2 ou seja, uma moeda diputada por dois interessados em adquiri-la. Essa é a lei, a da oferta e procura, que regula o mercado e determina o seu valor. Mesmo com variações, é determinante. Assim, podemos concluir que a raridade de um exemplar é, SIM, importante a fim de que se possa estabelecer um valor, mas não determinante.

Um clássico exemplo, reside nos 960 réis. Usaremos como exemplo, o 1815R Legenda Alternada: Trata-se de exemplar muito raro, que costuma aparecer no mercado a cada 10 anos, principalmente se em condição soberba. Mesmo que quiséssemos atribuir a este exemplar o valor que merece como raridade, tal cotação estaria bem acima do real valor de mercado (o valor que o colecionador estria disposto a pagar), já que a lei que rege a comercialização dessa variante não lhe é muito favorável. Com o recente interesse do mercado internacional pelas nossas moedas, esperamos que esse quadro mude, valorizando cada vez mais a coleção numismática brasileira.


VALORES

As avaliações, sobretudo aquelas relativas às moedas em grau de conservação FDC, ou àquelas que não se vêem com frequência nas contratações comerciais, são suscetíveis de variações impostas pelo mercado. As cotações presentes no nosso catálogo, por exemplo, refletem a tendência do mercado até o final do segundo trimestre do ano precedente àquele a que faz referimento o manual. Sendo assim, os preços constantes do catálogo de 2015, dizem respeito aos preços praticados até o final do segundo trimestre de 2014, época em que são terminados os trabalhos de revisão e estampa.

As moedas perfeitas, com pátina de medalheiro e em estado de conservação excepcional são citadas em casos particulares, por nós avaliados como sendo necessários a título de referência de mercado, haja vista estas moedas atingirem preços particularmente elevados por seu estado de conservação e por sua beleza. 

Veja, por exemplo, a moeda a seguir. Não é a sua data, a quantidade cunhada, o seu estado de conservação, etc, que determinam sua raridade, mas sim o seu conjunto, tudo somado. Claro que irão aparecer outros exemplares no mercado, mas como esse, só se o próprio retornar.

Figura: Interessante e raríssimo exemplar de 3.200 Réis da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, demonstrando que o cunho foi usado em três datas diferentes (data emendada). A primeira, 1754, onde se pode notar os traços do “4”. Em seguida, a data foi emendada para 1756, com os detalhes do “5” pouco visíveis. A última data, 1756, é a da moeda da foto acima. Essa moeda foi leiloada nos EUA, no mês de janeiro de 2011 (estado de conservação MS 65 - FDCE). A raridade do exemplar se deve não somente à própria moeda (são muito raras, no mercado, as moedas de 3.200 Réis), mas também ao seu excepcional estado de conservação e a particularidade das datas emendadas. A descrição do catálogo americano a define como “Gem Uncirculated”. Sem dúvida, um dos mais belos e raros exemplares de moeda brasileira que tem aparecido nos mercados nacional e internacional, nos últimos anos. Uma verdadeira jóia da nossa numismática. Foto e detalhes ampliados. Valor final de arremate: US$ 43,125.00. A seguir, a foto de anverso, ampliada.

O mercado numismático, assim como o das artes em geral, é influenciado por diversas variáveis, sendo a mais notável a lei da oferta e da procura. Assim, nada mais honesto e justo que dar ao leitor a cotação da época, baseando nossa avaliação na tendência do mercado; esta é a nossa filosofia. Essa "necessidade" de se alterar os preços de todas as moedas não corresponde à realidade. Em alguns casos, um exemplar possa permanecer inalterado ou mesmo sofrer um decréscimo de um ano para outro, fato que constatamos apenas em pouquíssimos catálogos.

Consideramos um erro classificar a raridade em função do número de exemplares conhecidos, como fazem alguns catálogos. É assunto extremamente relevante e deve ser tratado com seriedade. Assim, estabelecemos um critério nosso, a fim de conceder a um moeda, o "título" de "da mais alta raridade". A seguir, exponhos o método de como procedemos na classificação da rariadde de uma moeda:

Muito comum (CC ou C2) - Frequentemente disponível no mercado.

Comum (C ou C1) - Facilmente encontrada no mercado.

Escassa (E ou E1) - Exemplar encontrado com alguma dificuldade.

Muito Escassa (EE ou E2) - Exemplar encontrado com dificuldade.

Rara (R) - A dificuldade em se encontrar um exemplar em bom estado, acentua-se cada vez mais.

Muito rara (R2 ou RR) - Difícil de ser encontrada no mercado, em curto período de tempo.

Raríssima (R3 ou RRR) - Aparece com grande dificuldade no mercado

Extremamente rara (R4 ou RRRR) - De grandíssima raridade, aparecendo poucas vezes no mercado, num período não inferior a 30 anos.

Da mais alta raridade (R5 ou RRRRR) - Quatro, no máximo, 5 exemplares, de melhor conjunto (data, tiragem, estado de conservação, etc). Praticamente inexistente no mercado.

Única - Termo que jamais pode ser abreviado. Indica o exemplar do qual não se conhece outro.


O grau de conservação determinando a raridade:

Como disse anteriormente, o qu determian o grau de raridade de uma moeda não é apenas a quantidade de exemplares cunhados, a sua variante ou a sua "antiguidade". Todos estes fatores, aliados à lei da oferta/ procura, interesse e, também, ao estado de conservação da moeda formam o conjunto que determina o quanto um exemplar é raro.

Um exemplo de como o estado de conservação influencia no preço, pode ser dado por um exemplar do 2.000 Réis de prata, da República, data 1913A (estrelas soltas), leiloado recentemente nos EUA. Aparentemente uma moeda comum, em data única (1913), todas cunhadas na Alemanha (letra monetária A). A cotação para exemplares FDC é relativamente baixa, justamente por não ser difícil encontrá-los nesse estado de conservação (FDC). Porém, a moeda leiloada nos EUA, vai além do estado FDC. É classificada como PCGS Proof 67. Em outras palavras, é única, já que não se tem notícia de outra semelhante no mercado numismático.

Figura: República - 2.000 Réis 1913 A, em excepcional e único estado de conservação (PCGS proof 67), leiloado nos EUA em 2011, valor final de arremate: US$ 9.200,00. A série completa, composta dos demais valores, 1.000 Réis e 500 Réis, foi negociada no mesmo leilão, alcançando a espetacular cifra (para uma moeda comum) de US$ 19.219,50 para as três peças, sendo US$ 5.462,00 para o 1000 Réis e US$ 4.557,50 para o 500 Réis.