God Save the Queen

No dia 9 de Setembro de 2015, em homenagem à Rainha Elizabeth II, a monarca que por mais tempo ocupou o trono britânico, a Royal Mint mandou cunhar uma moeda de prata de 20 Libras, com o mais recente retrato da soberana, juntamente com os outros quatro que o precederam.
O anverso da moeda (onde aparecem os cinco retratos da Rainha) foi criado pelo projetista Stephen Taylor, enquanto o reverso, onde aparece a singular efígie de Elizabeth II, é obra do artista Jody Clark.

O último retrato da Rainha foi apresentado ao público em Março deste ano. É o quinto retrato da monarca desde sua ascensão ao trono em 1952. Os outros retratos foram criados, respectivamente, nos anos de 1968, 1985 e 1998.

Jody Clark é o primeiro projetista da Royal Mint a ser escolhido para executar o atual retrato da soberana, em mais de 100 anos. Jody é o mais jovem entre os projetistas responsáveis pelos retratos anteriores. O elegante retrato criado por Jody mostra a monarca endossando o colar e coroa com diamantes, indumentos reais usados na sua coroação. 


Desde quando iniciou sua carreira na Royal Mint, Jody Clark trabalhou em alguns projetos importantes, a exemplo da medalha cunhada para celebrar a Ryder Cup 2014. O retrato da Rainha, executado por Jody, dà à monarca um semblante simpático, com um singelo sorriso, o que reflete a visão moderna da Rainha que conhecemos hoje.

Jody Clark disse: “Gosto muito dos quatro retratos anteriores; cada um deles é belo ao seu modo. Espero de haver feito justiça à Sua Majestade, com o meu trabalho. Ainda náo consigo acreditar que o retrato que fiz será inciso em milhões de moedas”.

Motivo de orgulho - Adam Lawrence, Chefe Executivo da Royal Mint, disse: “Esta mudança do retrato fará de 2015 um ano especial e um motivo de orgulho para todos nós. O último incisor da Royal Mint, encarregado de realizar um retrato real foi George William de Saulles, que projetou o retrato de Eduardo VII, em 1902.”



Os retratos anteriores:

1. O retrato de Gillick, de 1953 - Em 1952, a princesa Elizabeth foi coroada Elizabeth II, a monarca que por mais tempo ocupou o trono britânico. O primeiro retrato da monarca foi criado por Mary Gillick, escultora britânica natural de Nottingham (1881). No retrato de Gillick vê-se uma jovem rainha endossando uma coroa de louros, ao contrário da coroa habitual.

2. O retrato de Machin (a seguir, à esquerda), de 1968 - Os preparativos para uma nova moeda foram iniciados em segredo, em 1962, depois da Rainha estar ocupando o trono há 15 anos. O trabalho do escultor Arnold Machin, nascido em Stoke-on-Trent,em 1911, na Inglaterra, foi selecionado entre os desenhos iniciais, depois modificado e aperfeiçoado. Nele, insolitamente, a Rainha é vista quase de costas.


3. O retrato de Maklouf (acima, à direita), de 1985 - Raphael Maklouf nasceu em Jerusalém, em 1937, transferindo-se em Grã-Bretanha depois da segunad guerra. O seu retrato foi o terceiro inciso sobre as moedas com a efigie da Rainha, colocadas em circulação em 1985. Trata-se de uma representação formal do semblante da soberana.



4. O retrato de Rank-Broadley (acima, à direita), de 1998 - O quarto retrato da Rainha foi criado e introduzido no meio circulante, em 1998, criação do escultor Ian Rank-Broadley. O seu projeto, muito complexo, levou meses para ser executado. Rank-Broadley preferiu dar ênfase à integridade do retrato, sem fixar-se exclusivamente sobre o vulto da soberana.




As moedas com a nova efígie entrarão em circulação até o final deste ano (2015), em todo Reino.





O atentado contra S.M. Imperial D. Pedro II

Nota inicial: A íntegra deste artigo se encontra no Manual do Colecionador de Moedas Brasileiras, edição única, especial de luxo, de Bentes Editores.

O golpe militar que afastou o Imperador D. Pedro II do trono e implantou o regime republicano no Brasil, ocorrido em 15 de novembro de 1889, mobilizou a atenção de um público variado em diversos países europeus, especialmente em Portugal. Um dos resultados disso foi a publicação, em periódicos ilustrados do “Velho Mundo,” de imagens retratando acontecimentos e agentes vinculados à proclamação da República. Um papel importante nesse processo foi desempenhado por  “A Ilustração”, um periódico luso-brasileiro cuja redação à época estava instalada em Paris. Dirigida pelo escritor e jornalista português Mariano Pina, “A Ilustração” não só publicou uma quantidade considerável de imagens relativas à implantação do novo regime político no Brasil, como também intermediou a publicação desse material em outras revistas européias. 
A Ilustração foi um periódico quinzenal que somou 184 números publicados entre maio de 1884 e janeiro de 1892, que pertencia ao gênero de outras afamadas revistas ilustradas européias, como The Illustrated London News, L’Illustration, Le Monde Illustré ou o Illustrirte Zeitung. Até novembro de 1890, o periódico foi editado e impresso em Paris, de onde era remetido para Lisboa e Rio de Janeiro, onde se encontravam seus principais públicos-alvo. Em sua política editorial, as imagens desempenhavam um papel central: entre outras funções, elas ilustravam acontecimentos cotidianos dos mais diversos; retratavam personalidades de destaque na política, nas artes ou nas ciências; reproduziam obras de pintura, escultura, arquitetura, etc. Justapostas de maneira mais ou menos coerente, as imagens d’A Ilustração eram acompanhadas em todos os números por uma seção escrita chamada “As Nossas Gravuras,” usualmente anônima, que descrevia a parte iconográfica do periódico e orientava o olhar do leitor.
É importante recordar que, durante o século XIX, Paris havia se tornado um centro internacional para o gênero das revistas ilustradas. Na “Cidade-Luz,” editores estrangeiros como Mariano Pina podiam se beneficiar das mais novas tecnologias para obter uma qualidade de impressão melhor do que aquela que obteriam em seus países de origem - e isso com custos de produção suficientemente baixos para compensar aqueles envolvidos no transporte do material impresso. 
O atentado contra S.M. Imperial D. Pedro II. Retrato de Adriano do Valle.

Além disso, os editores de revistas ilustradas podiam se beneficiar de um mercado de gravuras de “segunda mão,” ou seja, gravuras já utilizadas por outras publicações cujo custo era consideravelmente mais baixo do que a produção de gravuras inéditas. Essa prática está bem documentada em um orçamento de impressão d’A Ilustração endereçado a Mariano Pina pelo chefe da Imprimerie da Société Anonyme de Publications Périodiques em 1883. Nesse orçamento se encontra indicado, inclusive, aquele que se tornaria o principal fornecedor de gravuras para o periódico luso-brasileiro: o hebdomadário francês Le Monde lllustré, cuja redação nos anos 1880 estava instalada no nr. 13 do Quai Voltaire, o mesmo endereço da redação d’A Ilustração durante a maior parte do tempo em que esta esteve em Paris.
Imagens relacionadas ao Brasil foram publicadas por A Ilustração desde as suas primeiras edições. O periódico estampou, por exemplo, reproduções de algumas obras do pintor brasileiro Rodolpho Amoêdo e uma série de paisagens brasileiras desenhadas por artistas portugueses como Antônio Ramalho e Francisco Villaça. Embora a frequência na publicação de imagens relativas ao Brasil tenha diminuído sobretudo a partir de 1886, o país nunca deixou de estar na pauta da revista. Não é de se espantar, portanto, que quando sinais do desprestígio da Monarquia brasileira se tornaram evidentes, A Ilustração tenha lhes dado destaque.

Foi esse o caso da edição de 5 de outubro de 1889, que estampou uma gravura do “atentado contra S. M., o Imperador do Brasil”, D. Pedro II (figura acima), ocorrido no Rio de Janeiro na noite de 15 de julho de 1889, quando o monarca deixava, com a sua família, o Teatro Sant’Anna. O repúdio a esse ato por parte dos responsáveis por A Ilustração parecia mais do que necessário, uma vez  que o perpetrador do atentado fora um português chamado Adriano do Valle, cujo retrato foi reproduzido na gravura (vide detalhe na figura da página anterior). Nesse sentido, o texto anônimo referente a essa imagem, publicado na seção “As Nossas Gravuras,” era explícito: 
“A ILUSTRAÇÃO de novo se associa a todas as manifestações que tem partido de Portugal, protestando contra semelhante atentado, e fazendo votos pela saúde e longa vida do ilustre monarca que tão digno é do respeito dos povos.” 

Como usualmente ocorria, a gravura do atentado contra D. Pedro II era oriunda da redação de Le Monde Illustré, que a havia publicado com algumas semanas de antecedência. 
A relativa dependência do periódico luso-brasileiro com relação ao hebdomadário francês pode ser percebida também no referido texto de  “As Nossas Gravuras,” que reincidiu no lapso de Le Monde Illustré e reportou a data do atentado como sendo 16, e não 15, de julho.
Mas essa dependência seria de certa maneira invertida quando a proclamação da República no Brasil ocorreu. O evento foi seguido com interesse pelas nações européias e se revestiu de particular interesse para Portugal por diversas razões. Em sua “Crônica” d’A Ilustração de 5 de dezembro de 1889, Mariano Pina se referiu, por exemplo, à preocupação disseminada entre certos setores da população portuguesa de que algo semelhante à abolição da Monarquia brasileira ocorresse também em Portugal. Ainda na edição de 5 de dezembro, a atenção conferida por A Ilustração à recepção da proclamação da República brasileira em Portugal se expressou em uma detalhada “resenha das opiniões mais importantes da imprensa portuguesa de todas as cores políticas, acerca da revolução no Brasil.”
As primeiras imagens relativas à “revolução no Brasil” foram estampadas na capa dessa mesma edição de 5 de dezembro. 

Eram os retratos de quatro dos principais responsáveis pelo movimento (figura ao lado), designados pelos cargos que passaram a ocupar no novo regime: o Marechal Deodoro da Fonseca, Presidente do Governo Provisório; Benjamin Constant, Ministro da Guerra; Quintino Bocayuva, Ministro dos Negócios Estrangeiros; e Ruy Barbosa, Ministro da Fazenda - militares e civis dividiam equitativamente, desse modo, as atenções dispensadas pela revista. Como complemento, na seção “As Nossas Gravuras,” era apresentada uma síntese do papel que cada um desses quatro agentes desempenhou no processo de instauração da República. O comentarista anônimo manifestou então o desejo de publicar o retrato dos outros ministros brasileiros, mas isso não podia então ser feito por ser “impossível encontrar tanto em Paris como em Lisboa retrato de cada um deles.” Tal lacuna só pôde ser preenchida por A Ilustração um mês depois, na edição de 5 de janeiro de 1890, que estampou uma página com retratos “escrupulosamente desenhados de uma folha litográfica que apareceu no Rio, e onde se viam as fisionomias de todos os membros do governo provisório.” É possível que a referida “folha litográfica” fosse o suplemento do nr. 569 da Revista Illustrada do Rio de Janeiro, publicado em 16 de novembro de 1889, que mostra o “Primeiro Ministério dos Estados Unidos do Brasil” (figura abaixo).


Periódicos de outros países se adiantaram com relação à Ilustração na publicação de todos esses retratos. Por exemplo, em 30 de novembro de 1889, La Ilustracion Española y Americana, uma revista sediada em Madrid, publicou exatamente a mesma série de quatro retratos estampada n’A Ilustração de 5 de dezembro (figura abaixo). Le Monde Illustré de 30 de novembro também publicou uma série de quatro retratos de republicanos brasileiros que só diferia daquela no periódico luso-brasileiro por apresentar o Ministro da Justiça Campos Salles, ao invés de Ruy Barbosa. Se considerássemos somente as datas das respectivas publicações, poderíamos pensar que A Ilustração novamente trabalhava com gravuras de “segunda mão” de suas congêneres européias, mas uma análise mais detida das publicações indica que a circulação dessas imagens na Europa seguiu um caminho mais tortuoso.



Na edição de 5 de janeiro de 1890 d’A Ilustração, mais duas gravuras referentes às agitações do 15 de novembro foram publicadas. A primeira mostrava o “atentado contra o Barão de Ladário (figura ao lado),” Ministro da Marinha do Império, que resistira a uma ordem de prisão dada a ele por um oficial a mando do Marechal Deodoro; a segunda gravura mostrava o próprio ato de proclamação da República (figura ao lado), em frente ao quartel-general do Rio de Janeiro. Paradoxalmente, a publicação da imagem do “atentado” servia para reforçar a idéia de que a instauração da República no Brasil teria ocorrido de maneira essencialmente não-violenta, pois o texto em “As Nossas Gravuras” sublinhava o caráter excepcional do incidente: 
“Eis a única cena de sangue provocada pela revolução brasileira. E de certo não se teria dado, se o Barão de Ladario se tivesse submetido ao movimento revolucionário, com a mesma bonomia com que o fizeram outros ministros do imperador, que só depois de se apanharem sãos e salvos na Europa, é que se mostram terríveis contra aqueles que proclamaram a República no Brasil”. 
Já a imagem da proclamação da República parecia afirmar a predominância do Exército no evento, pois apenas militares podem ser inequivocamente nela identificados.

Nota: José da Costa Azevedo, primeiro e único barão de Ladário, (Rio de Janeiro, 30/11/1823 - 24/9/1904) foi um militar, nobre e diplomata brasileiro. Foi ministro da Marinha, deputado geral e senador da República de 1894 a 1897 e de 1903 a 1904. Foi a única vítima da Proclamação da República Brasileira, tendo sido baleado por um atirador desconhecido, por ter resistido à uma ordem de prisão dada por Deodoro da Fonseca, sobrevivendo porque um estudante, Carlos Vieira Ferreira, o socorreu.