As moedas de Alexandre o Grande - Introdução

Hoje iniciamos o nosso primeiro trabalho hercúleo nesse blog; um estudo particular e minucioso sobre as moedas de Alexandre III (Ἀλέξανδρος Γ’ ὁ Μακεδών – Aléxandros trίtos ho Makedόn), também conhecido como Alexandre o Grande ou Alexandre Magno, Rei da Macedônia a partir de 336 a.C.

Após anos e anos de estudo, leitura e dedicação à biografia do grande estrategista militar, concluímos que muito de sua vida ainda está envolta em um grande mistério, e que muitas de suas biografias (são inúmeros os autores), na verdade são obras de escritores com excasso conhecimento específico sobre o tema. Durante anos procuramos comparar o que consideramos estudos sérios realizados por historiadores do passado, com as atuais publicações. Confrontando-as, conseguimos filtrar o que realmente pode ser considerado tangível, daquilo que não deveria nem estar exposto à venda, por tratar-se de literatura ruim, muitas vezes desonesta.
Não pretendemos escrever obra completa sobre assunto, exaustivamente tratado por competentes historiadores. Seria por demais pretensioso caso acreditássemos poder inovar sobre o tema; e ingênuo demais por achar que poderíamos expor tudo nas páginas de um blog.
Todavia reconhecemos a necessidade de nos afastar da puerilidade e superficialidade ao tratar de assunto de interesse geral e que tanta emoção e paixão desperta naqueles que, como nós, amam a história universal, os seus grandes personagens e seus grandes feitos e, no nosso caso particular, a ciência numismática.

Antes de iniciar, gostaríamos de salientar aos iniciantes que porventura acompanhem esse blog, dizendo que o nosso hobby é antes de tudo uma paixão; requer paciência, sobriedade, dedicação e muitas horas de exaustivo estudo, debruçado sober livros, em bibliotecas públicas, universidades, arquivos gerais, museus, etc; sendo assim, pedimos paciência a todos. Em outras palavras: não pretendemos exaurir tema tão complexo em um único post, mas sim em vários que serão publicados nesse blog, durante o ano, até a conclusão final.

Como já dissemos anteriormente, não pretendemos aqui fazer exame superficial sobre o assunto. Mas reconhecemos que seria humanamente impossível esmiuçá-lo à perfeição; nem mesmo o mais perfeccionista entre os perfeccionistas estaria capacitado a tal tarefa. Basta para tanto citar as incontáveis cunhagens e as numerosas Casas que cunharam “moedas de Alexandre” que, mesmo “armado” do Muller e do Price, por si só, já seria uma tarefa tremenda.
Mas vamos ao que interessa! Tentarei (agora falo por mim) ser o mais preciso e lógico na argumentação. Para tal – e não poderia deixar de ser (mesmo porque estaria sendo intelectualmente desonesto comigo mesmo) – não irei me furtar de escrever algo sobre a biografia do grande “condotiero”; pelo menos aquilo que considero fundamental ao estudo da “moedagem” de Alexandre; e também para dar ao leitor algo que não trate somente das moedas, como acontece em alguns poucos catálogos especializados. Afinal, a biografia de Alexandre, por si só, já é obra que desperta um grande interesse do público, amplia nosso universo cultural e nos ajuda a entender o presente, investigando o passado as campanhas do jovem general.

Nesse ponto, antes de iniciar, gostaria de salientar que gostaria de receber críticas sinceras de outros autores e estudiosos do assunto. Acredito que esta seja a melhor forma de se aprender: debatendo pontos de vista diversos, o que será um privilégio para mim, antecipo. Peço também que me dêem um “toque”, caso esteja me aprofundando demais na parte histórica ou ao esmiuçar os pormenores das moedas me detendo mais o que o necessário, já que o assunto me desperta tanta paixão.


Um pouco de história

Sobre Alexandre (Pella, 6 ecatombeone* 356 a.C. – Babilonia, 30 targelione* 323 a.C.), o Grande “Condotiero”, muito se tem escrito. São inúmeras as fontes literárias que mantém viva a memória do jovem e intrépido general, amado por muitos e odiado por tantos outros.

Dos clássicos gregos aos estudos sérios de Arriano, Plutarco, Diodoro, Quintus Curtius Rufus e Justino; das manipulações erroneamente atribuídas a Callistene – contemporâneo de Alexandre e historiador oficial da expedição na Pérsia – às inumeráveis reelaborações fantasiosas dos romancistas atuais, muita verdade, mas também muitas inverdades, foram ditas sobre o excepcional estrategista e conquistador.

O incauto leitor poderá se ver “entrapolado” por literaturas pueris e tendenciosas sobre o grande macedônico; muitas delas, lendas que falam de sua ascensão ao céu, do fascínio real e romântico de um personagem homossexual (é necessário entender o contexto da época, antes de levantar hipóteses fantasiosas que possam nos transportar ao conceito atual de homossexualidade) e de suas campanhas, além de dar vazão à sua pretensiosa divindade.

As fontes citadas, e que podemos usar como referência à vida de Alexandre não são contemporâneas à sua época. São, contudo, o resultado de pesquisas e consultas feitas por antigos historiadores que se basearam em obras hoje perdidas. O que temos hoje, na verdade, é o eco de um eco; e se muito nos leva a crer que sucedeu desta ou daquela forma, temos motivos mais do que justificáveis para excluir também muitas obras, principalmente aquelas de romancistas tendenciosos e desonestos com o público leitor.

Já admiti que não dispomos mais das obras de Callistene, de Ptolomeu Lágida, de Cristobulo, Nearco, Clitraco, Efippo e Onesicritus, o que dificulta bastante quem pretende se aventurar por essa estrada. Diante dos incontáveis estudos sobre a historiografia de Alexandre, espalhados por diversas livrarias e fontes na internet, aconselho muita cautela. Os mistérios que ainda envolvem a vida e as campanhas de "Alessandro" exigem uma bibliografia específica. Àqueles que desejam se aprofundar no tema, recomendo iniciar pela página dedicada às fontes fidedignas disponíveis sobre este grande personagem. O leitor poderá encontrá-la (uma entre tantas sugestões) nas páginas do Birkbeck College, da Universidade de Londres, no seguinte endereço: Clique aqui para ter acesso ao Birkbeck College…pesquisando ou entrando em contato com o College, através de seu endereço e-mail. De qualquer forma, me comprometo em postar extensa bibliografia ao final do trabalho.

VÍDEOS: Assista, clicando aqui, aos quatro capítulos da série "Seguindo os Passos de Alexandre o Grande".


A Grécia e o Reino da Macedônia

Tendo se livrado dos persas com as batalhas de Platéia* e Mycale (479 a.C.), os gregos começaram uma longa série de conflitos pela hegemonia da região, sem jamais esquecerem o insulto, o ultraje que lhes foi imposto por Xerxes, e a perda das cidades gregas da Jônia.

A tentativa espartana de intrometer-se na disputa entre Ataxerxes e Ciro Menor em 400 a.C. se concluiu com a derrota de Ciro e com a retirada dos gregos e seus aliados sob o comando de Xenofonte que narrou o cansativo retorno das tropas em sua obra maior , a “Anabasi”. A sucessiva expedição de Agesilau II (306 a.C.) na Ásia Menor se concluiu somente dois anos mais tarde com o retorno ao Peloponeso, onde outras cidades se moviam contra Esparta, aproveitando-se da ausência do Rei.

As cidades gregas continuaram seu combate pela hegemonia do território, até o momento em que surge a figura de Filipe III, Rei dos Macedônios que propôs a idéia de um ataque à Pérsia.
*A batalha de Platéia de 20 de agosto de 479 a.C., com a morte do comandante em chefe persa Mardônio e a derrota imposta ao seu exército diante das tropas elênicas sob o comando de Pausânia, estabelece o fim das invasões persas na Grécia.
Precedentemente à essa batalha, a sorte do conflito foi marcada pela breve e espetacular resistência das forças do rei espartano Leônidas nas costas das Termópolis (11 de agosto de 480 a.C.) e no mar, por duas batalhas navais, a de Campo Artemísio (agosto de 480 a.C.) e sobretudo a batalha de Salamina (setembro de 480 a.C).

*A Batalha de Mycale, foi uma das duas grandes batalhas que puseram fim à invasão dos persas na Grécia. A batalha ocorreu em torno a 27 de agosto de 479 a.C. nas encostas do Monte Mycale, no território da Jônia, em frente à ilha de Samos. Esta batalha levou à destruição da maioria das forças persas na Jônia, bem como da sua frota no Mediterrâneo.
Essa, mais a batalha de Platéia, praticamente no mesmo dia, no continente grego, decretaram a derrota das forças dos persas, que foram obrigados a se retirar, colocando um fim definitivo ao domínio persa na região.
O conhecimento dessas duas batalhas, com todos os seus pormenores, chegaram a nós graças às narrativas do historiador grego Heródoto de Halicarnasso.
A coalizão grega reuniu um exército de cerca 110.000 homens, consistindo de 38.700 Hóplitas e 71.300 de infantaria leve, acrescidos de 1.800 homens de Téspias. Segundo o relato de Heródoto, os hoplitas tinham origem em diversas cidades-estado.
Moderna reconstrução de uma falange (*1). Os Hóplitas (*2), exceção feita àqueles espartanos, não formavam um grupo homogêneo. Cada soldado usava seus próprios ornamentos, decorando sua armadura com as suas próprias cores.
*1 - A falange era uma antiga formação de combate, composta por infantaria pesada com soldados empunhando lanças, piques e escudos (ou armas semelhantes). A falange era típica do mundo grego e helenístico, mas também foi adotada por outros povos como os etruscos. Foi Filipe II, pai de Alexandre a introduzir as sarissas (lança muito longa, com até 7 metros de comprimento) em seu exército, criando as temidas “falanges macedônicas”
*2 - Hóplita: Os gregos, ao contrário de muitas outras populações, possuíam exércitos de profissionais; exceção feita à Esparta, uma oligarquia governada por uma aristocracia militar. Cada polis, em momentos de necessidade, conclamava seus cidadãos às armas a fim de lutarem em defesa da pátria. O militar grego, na verdade, era um fazendeiro-soldado chamado hóplita, nome que derivava do potente escudo que carregavam, chamado Hóplon.

O Hóplon era um escudo circular com um diâmetro de cerca de 90 centímetros e três centímetros de espessura, construído em madeira e bronze e, em alguns casos, revestido de pele de animais selvagens. Em sua superfície convexa vinha desenhado um brasão muito complexo, quase sempre com motivos derivados da mitologia, tais como Górgonas, o golfinho, elmos, naves, um vaso ou um olho. Em outros casos, eram decorados com as iniciais da cidade de origem do guerreiro, tais como o Alfa ateniense ou o Lambda Espartano (o lambda refere-se ao nome original de Esparta, Lakedaimon). Essa proteção chegava a pesar oito quilos e era dotada de duas alças: a primeira foi uma pulseira onde se enfiava o braço esquerdo enquanto a segunda se colocava corre ao longo do perímetro, sendo envolta pelo punho cerrado.


O Mundo de Alexandre

Dando continuidade à difícil tarefa de tentar passar ao leitor as informações relevantes às cunhagens de moedas na Grécia sob o comando do valoroso condottiero, acredito que nesse momento seja interessante a exibição de um vídeo elaborado pelo History Channel. 
Mais adiante tentarei postar um outro bem melhor (a continuidade da série Seguindo so Passos de Alexandre, o Grande"), e que passa a dimensão exata de quem foi o macedônio. Estamos legendando todos os vídeos (o primeiro já está pronto e o link foi postado mais acima). Os interessados podem adquirir uma das versões em lingua inglesa, espanhol ou italiano.

Convido, também, a assistir ao documentário do History Channel a seguir, dividido em 5 capítulos. É importante tentar "mergulhar" no mundo em que Alexandre viveu, pois isso dá uma dimensão mais clara de sua época, o que facilita o entendimento do que será dito durante a exposição do argumento. Compreender a época histórica, a política, as dificuldades de um período conturbado, onde moral e ética eram muito diferentes das que entendemos hoje, é fundamental para que o entendimento do assunto seja mais rico de informações e, por consequência, mais prazeroso.

A Grécia de Alexandre o Grande - Construindo um Império (The History Channel)













Em busca da Glória


Uma das discussões prioritárias sobre Alexandre o Grande é feita baseando-se em alguma questões fundamentais: 

1. Era Alexandre realmente um homem excepcional ou foram seus biógrafos e a "sorte" a criarem o mito? 

2. É todo seu o mérito dos feitos que lhe foram atribuídos, ou encontrou ele a estrada completamente aberta por seus admiradores e por todos aqueles que o apoiavam? 

Com relação a essas indagações formam-se duas correntes de pensamento: a dos entusiastas e dos detratores. Segundo Rostand foram os humildes personagens a criarem a fama de Alexandre.

Mas no fundo, o que importa se Alexandre III foi um indivíduo sobrehumano, um gênio da guerra, um deus encarnado (o novo Dionísio), um descendente de Hércules e de Aquiles, ou mesmo um louco visionário destruído pelos efeitos do alcool à idade de apenas 32 anos?

Figura: Reis da Macedônia – Alexandre III ‘o Grande’ – 336-323 a.C. AV Stater (8,60 gr). Casa da Moeda de Byblos. Cunhada por volta no período de 330-320 a.C. Cabeça de Athena voltada à direita, portando elmo Ático decorado com serpente, pingente e colar / AΛEΞANΔPOY, Nike* (deusa grega da vitória) em pé, segurando coroa de flores na mão direita estendida; Monograma AP no campo à esquerda.
Vale a pena recordar que quase a metade da população grega o odiava, e que na própria Macedônia, seu sucessor Cassandro executou sua mãe, sua mulher e o filho de Alexandre; tudo sem provocar a menor reação, comoção ou indignação da parte dos gregos. O desprezo que os gregos experimentavam por Alexandre foi citado por Teofrasto (filósofo), Eratóstenes (cientista), Timeu (histórico). Mas evidentemente não faltavam adoradores do soberano e "dono do universo", homens e mulheres que alimentam seu mito, reverenciando-o em Alexandria diante de sua estátua, ou prostrados à frente de seu sarcófago em mármore ou diante de seu féretro em cristal. A ascensão de um líder, jamais é coroada apenas por elogios de seus feitos e narrativas favoráveis de seus seguidores. Na dura vida de um conquistador, o que não faltam são inimigos e outros sedentos de poder, detratores de seus grandes feitos por terem sido obrigados a permanecer à margem dos acontecimentos; o que usualmente, à boca pequena, chamam de invejosos.

Depois da morte do Conquistador, três foram as fontes históricas de maior relevo ideadas e publicadas em Alexandria, cujos escritos foram funadmentais para entender não só o conquistador de terras, mas também a figura humana por trás do condottiero:

a) A "História das Campanhas de Alexandre", em 12 volumes escritos pelo filósofo Clitarco entre 320 e 300 a.C.;

b) As "Memórias" de Ptolomeu Soter, rei do Egito, que são a  fonte principal  da "Anabasi" (ou Subida - em direção à Ásia Superior) de Lúcio Flávio Arriano Xenofonte de Nicomedia (ca. 150 a.C.)

c) e o "Romance de Alexandre", erronemanete atribuído a Calistene de Olinto, historiógrafo da expedição da Ásia, condenado à morte em 327 a.C.

Nessas 3 obras, consideradas as principais fontes da vida do macedônio, se basearam os históricos posteriores àquele período, responsáveis pela esmagadora maioria das informações que chegam até nós a respeito de suas breves vida e campanha.

Na sua "Anabasi de Alexandre", inspirada na estrutura senofontiana do título e na divisão em 7 livros, Arriano narra os dramáticos episódios da expedição, os preparativos que antecederam as dramáticas batalhas e o seu derradeiro fim. O texto se baseia, além de suas efemérides (diários de corte), nas obras de Ptolomeu I (367-283 a.C.) e naquela de Aristóbulo (374-290 a.C. ca.), os dois companheiros do rei em suas empresas.

Decididamente mais romântica - inspirada na obra do grego Clitarco (III sec. a.C.) "L’Historiae Alexandri Magni Macedoniae" - é a biografia escrita em 10 livros, sendo os dois primeiros perdidos, de Q. Curzio Rufo, que usou de tons não sempre favoráveis ao tratar especificamente do conquistador. Nos escritos também surgem com frequência as descrições das coisas estranhas e misteriosas encontradas por Alexandre em sua expedição.

Outras obras fragmentárias permitiram que fossem adicionadas noticias àquelas precedentes. É necessário também lembrar os narradores citados por Polibio (II século a.C.), pelo geógrafo Estrabone e pelo orador Luciano di Samosata (II sec. d.C.). Foram também encontrados diversos fragmentos do comandante da frota macedônica Nearco de Onesicrito, de Eratóstenes e das obras de Arriano, e mais outras tantas. Enfim, se se quer seguir os feitos do homem (não do deus declarado), deve-se levar em consideração os escritos da Vulgata (5 textos) que permitem entrever as fontes da obra de Clitarco, já citada anteriormente.




















Mosaico retratando cena da "Batalha de Isso", ocorrida aproximadamente em 332 a.C., na qual "Alessandro" derrotou Dario III, rei dos persas. O mosaico se encontra no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, Itália

Os objetivos primários de Alexandre sob um ponto de vista hegemônico eram dois:

a) livrar os gregos da Ásia do domínio persa;
b) vingar a Macedônia e a Grécia das atrocidades sofridas entre 490 e 480 a.C. 

Na verdade o verdadeiro objetivo era aquele de conseguir anexar a Ásia à Grécia, conquistando o império do Grande Rei. 
Aristóteles, conselheiro de Filipe II e educador de Alexandre, declara na sua "Política": "A conquista de novas terras representa a função primordial da monarquia macedônica".

E foi o próprio Filipe II e não Alexandre a oferecer os ricos países do Oriente Médio às ambições dos gregos. Filipe deixou uma Macedônia bem organizada política e militarmente. Em 23 anos de reinado, transformou um conjunto de tribos em um estado eficiente e diplomaticamente bem preparado, o que se constituiu na sólida base das conquistas do jovem Alexandre. O exército, muito bem preparado, era nacionalista e combatia pela glória e expansão da Macedônia. Tanto é que o primeiro ato do jovem Alexandre, desembarcando em Kumkale na Ásia menor, foi justamente aquele de clamar por esse conjunto de fatores que exaltavam o ideal grego, cravando sua lança no chão, declarando-a "terra de conquista".

Glossário: Nike

*Niké de Samotrácia (Νίκη em grego – deusa da vitória): A imponente estátua esculpida em mármore de Paro foi encontrada na Samotrácia, uma ilha no Mar Egeu, em 1863, sem braços e cabeça (uma das mãos só foi encontrada em 1950). A estátua representa a deusa alada, jovem filha de Zeus, que traz o anúncio de vitórias militares, enquanto posa na proa de um navio de guerra. Um fragmento de inscrição sob a base revelou que o monumento foi dedicado aos habitantes de Rodes. A estátua de 2,45m encontra-se hoje no Museu do Louvre. À esquerda, a privilegiada posição dada à estátua da deusa no Louvre, mostrando o fascínio que essa cultura ainda desperta nas pessoas nos dias atuais. À direita, um detalhe ampliado. Clique na foto para ampliar.

Nessa foto vê-se, nitidamente, o detalhe da proa de uma embarcação, onde Nike posava anunciando as vitórias em batalhas.

Reis da Macedônia - Demetrios I Poliorketes (306-283 a.C). Tetradracma de prata (28mm, 17.24 g). Casa da Moeda de Pella. Cunhada entre 294-293 a.C.. Nike de pé na proa da embarcação / Poseidon Pelagaios de pé, prepara golpe com tridente, monograma à esquerda; golfinho acima da estrela, à direita.

O filho dos deuses

Mas como o Macedônico foi visto pelos persas poucos séculos depois de sua morte? 

Reportamos uma transcrição do período fulgido sassânida (introdução ao Arta Viraf Namak): 
"O maldito Arimano, o danado, para fazer perder aos homens a Fé e o respeito pela lei, convenceu o maldito Iscandro, o Grego, a vir ao Iran para trazer a opressão, a guerra e a devastação. Chegou e tirou a vida dos governadores das províncias iranianas. Saqueou e abateu a Porta dos Reis, a capital. A lei, escrita com letras de ouro em pele de boi, se conservava na fortaleza dos escritos a capital. Mas o cruel arimano suscitou o malvado Iscandro e este queimou os livros da Lei. Fez perir os sábios, os homens de lei e os sabedores  do país de Iran. Disseminou o ódio e a discórdia entre os potentes, até que ele memo, infranto, não se precipitou no inferno".

A genialidade do herói nasce, para quem o considera descendente de comuns mortais, de duas opostas tendências hereditárias:

1. Aquela do pai que representa o perfeito tipo di fundador do Império. Clareza de pensamento, amplitude de observação, precisão de cálculo, reflexão e previdência, rapidez de decisões, desprezo de escrúpulo, ductibilidade insinuante, energia brutal. Mas Filipe é assassinado em 336 a.C. Em linha paterna, Alexandre descende de Hércules. A dinastia, que continua com ele, tem sua origem no ramo heróico mais nobre de Argo; não na do Peloponeso, mas na de Orestides, nos confins do Epiro e da Iliria; esta cidade, colônia do filho de Agamenon Orestes, foi "anexada" pela famosa capital de Agamenon, e que obteve o direito de participar aos grandes jogos de Olímpia, em quanto, mesmo que impropriamente, fizesse parte da comunidade grega;

2. O da mãe Olímpia, princeaa do Epiro, mulher ardente, exuberante, desenfreada, que seguia a religião dionisíaca, cujo culto residia no o êxtase que se obtinha sobretudo através da música e a dança. Dava-se lugar a uma embriaguez, uma felicidade que derivava da sabedoria de uma nova vida e portanto os eleitos participavam à imortalidade.  O frenesi de Olímpia era inigualável. Desde jovem esta orgulhosa descendente de Aquiles; frequentou a "Feliz Pieria", onde os reis da dinastia Argeadiana tinham estabelecido como sede de suas festas olímpicas. E foi sem dúvida ali, aos pés do monte Olimpo, que ela abandonou o nome de Polixena para usar o de Olímpia, em honra da sagrada montanha, onde as mulheres "inspiradas" se abandonavam ao delírio divino. Exagerava nos rituais do fanatismo sagrado, levando consigo serpentes domesticadas que, ao som dos instrumentos, deslizavam fora dos cestos e se enrolavam em volta das coroas das Menades e, "mediante a horrenda amalgamação da receptação ofidica com a orquestra do bacanal", assustavam o circulo dos presentes.

Figura: Reis da Macedônia. Filipe II (359-336 aC). Estupendo Stater de ouro (8,56 g), com maginífica pátina e excepcional estado de conservação. Casa da Moeda de Kolophon (Sicilia e Magna Grecia). Batida sob o reinado de Filipe III, por volta de 323-319 aC. A/Busto laureado de Apollo, voltado à direita com as características de Alexandre, o Grande. R/Biga com condutor, em posição de combate, com lança na mão direita. Tripé, embaixo, à direita. Thompson, “Posthumous Philip II Staters of Asia Minor”. Acervo particular, coleção Bentes. Foto ampliada.

A noite do nascimento de Alexandre, Olímpia sonha com um relâmpago, seguido por um trovão, que a atinge no seio. Virgem, concebe imaterialmente, ao passar desta luz fulgurante, um filho do qual fisicamente, depois das núpcias, Filipe vira pai. 

Também em linha materna Alexandre tem a mesma origem; ela é filha de Neoptolemo, rei dos Molosseus, descendente de Aquiles. Estas descendências eram na época extremamente importantes: eram artigos de fé, influenciavam a vida politica, eram invocadas nas pretensões de hegemonia, nos conselhos de guerra, etc. 
Portanto, desde seu nascimento Alexandre era um "homem-deus". A união de uma dupla decendência de heróis leva ao apogeu as qualidades tão diferentes, herdadas de seus pais.

Figura: Reis da Macedônia - Alexandre III, o Grande (336-323 a.C.). Stater de ouro (8,64 gr). Casa da Moeda de Byblos. A/CabeÇa de Atena, com elmo, voltada à direita. R/ALEXANDROU, Nike de pé, voltada à esquerda, monogram AP. Acervo particular, coleção Bentes. Foto ampliada.


Casas da Moeda

Para uma correta correspondência das moedas de Alexandre às numerosas Casas de Moeda que as cunharam, é necessário consultar obras especializadas como o Müller ou o Price. A puro título de exemplo, colocamos aqui algumas ilustrações das tipologias existentes. A imagem de Zeus, estampada no reverso, é colocada aqui apenas como referência, não servindo como fator de determinação, já que estas imagens variam de acordo com a Casa da Moeda e as datas em que as peças foram batidas. As marcas foram super-dimensionadas para favorecer a consulta, não estabelecendo nenhuma proporção com as dimensões da moeda estampada como exemplo. 
Exemplo



...continua em breve...


Os preços das moedas de coleção

São frequentes as vezes que nos perguntam: Qual critério devo adotar ao adquirir uma nova moeda para minha coleção ?

É fato que em primeiro lugar está o amor pelo nosso hobby, mas devemos, e temos obrigação de ser honestos, em dizer que o argumento "investimento" é bastante relevante ao adquirirmos um novo exemplar. Ninguém gosta de “jogar dinheiro fora” ou ter a sensação de que, anos mais tarde, aquilo que possuímos possa valer menos do que pagamos no passado. Adquirir moedas para um acervo é assunto sério e, de forma alguma, deve ser feito improvisamente e sem critério.

Muitas vezes nos perguntam qual a melhor forma de escolher uma moeda que deverá assumir posição de destaque em uma coleção.
Os critérios são muitos, começando por adquirir moedas que façam parte de um tema, período ou metal que nos agrade. Mas sobre isto devemos planejar antes de iniciarmos uma coleção, de forma a que possamos estabelecer uma lógica dentro daquilo a que nos propomos. Podemos colecionar moedas por metal (ouro, prata, cobre, etc), por tamanho (moeda tamanho dólar, piastra, etc), pela cronologia (período em que reinou um determinado soberano, em um determinado país), etc.
Ninguém seria humanamente capaz de colecionar todas as moedas imperiais romanas ou moedas gregas, por exemplo, caso fosse um destes o critério adotado inicialmente (moedas romanas ou gregas). Por isso, quem se dedica a esta forma de colecionismo, o faz, escolhendo um determinado período da antiga Roma. Podem ser áureos e denários dos primeiros imperadores (os chamados 12 Césares) ou, no caso das gregas, as moedas cunhadas com a efígie de Hércules com manto de leão, obedecendo às diversas casas monetárias durante o período em que viveu Alexandre Magno ou mesmo adotando as efígies de animais de cada cidade estado na Grécia (Siracusa – golfinho; Atenas – coruja, etc).

Mas não é este o tema que pretendemos abordar ! A proposta é aquela de orientar o colecionador na hora da escolha, na compra de um novo exemplar para o seu acervo.

São várias as perguntas a serem respondidas e isto deve ser feito com sinceridade e honestidade.

1. Devo escolher uma moeda pelo preço estabelecido em um catálogo ou pela pessoa que a está vendendo?
2. Se encontro uma moeda que falta em minha coleção, mesmo estando em estado de conservação que não me agrada, devo comprá-la?
3. Existe grande diferença entre uma moeda soberba e uma flor de cunho?
4. Quando devo adquirir uma moeda em estado de conservação baixo?
5. Quais são os critérios para avaliar o grau de conservação de uma moeda?

Sempre que nos fazem estas perguntas, somos determinados em responder:

-Antes de tudo, devemos sempre adquirir moedas que se encontrem no melhor estado de conservação possível. Assim, se existe a possibilidade de adquirir uma moeda em estado de conservação “flor de cunho”, esta deve ser a nossa escolha. Isto porque as moedas em excelente estado de conservação são sempre as mais negociadas, procuradas e, consequentemente, valorizadas. Basta dizer que em leilões internacionais de que temos participado, a preferência por moedas em excelente estado de conservação é notável, enquanto as de que se encontram em precário estado, se oferecidas individualmente, não despertam o mínimo interesse; quando muio, são oferecidas em lotes contendo diversas delas, a preços muito abaixo do mercado da singular peça de prestígio. Este é um dos motivos pelo qual fazemos constar no nosso catálogo, na escala de conservação, o estado FDCe (flor de cunho excepcional), pois algumas moedas são consideradas acima daquilo que denominamos "flor de cunho". Sob essa ótica, a dúvida do neófito é quase sempre a mesma, pois acredita que esta classificação indique a moeda que jamais circulou, sem "bag marks" (marcas de contato). Quem é conhecedor do assunto, sabe, por exemplo, que existem diferentes graduações do estado FDC, fato desconhecido - ou mesmo ignorado - por alguns numismatas e comerciantes brasileiros. Um bom exemplo disso é a escala de Sheldon, usada na classificação da numária americana e que vem se espalhando por todo o mundo, graças ao trabalho de certificadoras como a NGC e PCGS que atestam, mediante pagamento, o estado em que se encontra uma determinada moeda.

Mas como saber, com certeza, em que estado se encontra uma determinada moeda?

Em primeiro lugar, o mais cômodo é que o exemplar esteja certificado por um expert, devidamente encapsulada em invólucro com seu código de barras. Na figura a seguir, um exemplo de moeda certificada.

Figura: Exemplo de moeda certificada (NGC). No anverso vê-se o sigilo de segurança com a logomarca da empresa certificadora. No reverso, o código de barras que permite ao usuário localizar no site da empresa a ficha catalográfica da moeda. Logo abaixo, o estado de conservação dado por perito avaliador que atestou a moeda como sendo MS62 que, na escala de Sheldon (vide figura a seguir ... clique na imagem para ampliá-la), corresponde ao flor de cunho um pouco acima da média. O exemplar acima, graças ao seu singular estado de conservação, foi vendido el leilão por US$ 10.281,24 dólares, o equivalente a pouco mais de R$ 45.000,00 (quarenta e cinco mil reais), ao câmbio de hoje (21/01/2016).
As diversas graduações da escala Sheldon para o estado FDC (Mint State)
Clique na imagem, para ampliá-la.


O estado de conservação como variável de peso na cotação de um exemplar

As avaliações, sobretudo aquelas relativas às moedas em grau de conservação FDC, ou àquelas que não se vêem com frequência nas contratações comerciais, são suscetíveis de variações impostas pelo mercado. As cotações presentes no nosso catálogo, por exemplo, refletem a tendência do mercado até o final do segundo trimestre do ano precedente àquele a que faz referimento o manual. Sendo assim, os preços constantes do catálogo de 2015, dizem respeito aos preços praticados até o final do segundo trimestre de 2014, época em que são terminados os trabalhos de revisão e estampa.

As moedas perfeitas, com pátina de medalheiro e em estado de conservação excepcional são citadas em casos particulares, por nós avaliados como sendo necessários a título de referência de mercado, haja vista estas moedas atingirem preços particularmente elevados por seu estado de conservação e por sua beleza. 

Veja, por exemplo, a moeda a seguir. Não é a sua data ou a quantidade cunhada, a determinar a sua raridade, mas sim o seu conjunto, em particular a superposição de datas e o seu excepcional estado de conservação. Tudo somado, o exemplar da figura se constitui em moeda muito rara, alcançando cotação elevada e conferindo ao seu proprietário um significante retorno de capital investido. Enquanto algumas "moedas" permanecem com seus preços invariáveis no tempo, devido principalmente ao seu estado de conservação comum ou abaixo da média, exemplares com excepcional estado de conservação valorizam muito com o passar dos anos, configurando-se como um excelente investimento. Claro que irão aparecer outros exemplares no mercado, mas não como esse.

Figura: Interessante e raríssimo exemplar de 3.200 Réis da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, demonstrando que o cunho foi usado em três datas diferentes (data emendada). A primeira, 1754, onde se pode notar os traços do “4”. Em seguida, a data foi emendada para 1756, com os detalhes do “5” pouco visíveis. A última data, 1756, é a da moeda da foto acima. Essa moeda foi leiloada nos EUA, no mês de janeiro de 2011 (estado de conservação MS 65 - FDCE). A raridade do exemplar se deve não somente à própria moeda (são muito raras, no mercado, as moedas de 3.200 Réis), mas também ao seu excepcional estado de conservação e a particularidade das datas emendadas. A descrição do catálogo americano a define como “Gem Uncirculated”. Sem dúvida, um dos mais belos e raros exemplares de moeda brasileira que tem aparecido nos mercados nacional e internacional, nos últimos anos. Uma verdadeira jóia da nossa numismática. Foto e detalhes ampliados. Valor final de arremate: US$ 43,125.00. A seguir, a foto de anverso, ampliada.

O mercado numismático, assim como o das artes em geral, é influenciado por diversas variáveis, sendo a mais notável a lei da oferta e da procura. Assim, nada mais honesto e justo que dar ao leitor a cotação da época, baseando nossa avaliação na tendência do mercado; esta é a nossa filosofia. Essa "necessidade" de se alterar os preços de todas as moedas não corresponde à realidade. Em alguns casos, o preço de um exemplar pode permanecer inalterado ou mesmo sofrer um decréscimo de um ano para outro, fato que constatamos apenas em pouquíssimos catálogos. É o caso das moedas em estado precário, moedas limpas, adulteradas, datas comuns em estado comum. São exemplares que podem servir aos neófitos, aos iniciantes que não irão amargar grandes prejuízos, desembolsando cifras relativamente baixas em moedas que apesar de atenderem o quesito "colecionismo" não chegam a se configurar como um seguro investimento e consequente retorno do capital investido.



Vamos usar, como exemplo, três moedas de 960 réis (mesmo tipo, mesma data, mesma letra monetária. Enquanto a da extrema direita é considerada moeda comum e vulgar, as outras são invulgares em seu conjunto. Aqui é o estado de conservação a determinar as diferenças de preços. Enquanto o exemplar da extrema direita pode ser encontrado com facilidade no mercado, a preços na linha dos US$ 50 dólares, o da extrema esquerda (MS61) é uma moeda incomum, bem mais difícil de se encontrar no mercado se comparada com a moeda da extrema direita. A moeda do centro (MS63) quase se coloca no âmbito das raridades (raro não significa precioso) devido ao seu incomum e quase singular estado de conservação.
Fica evidente aqui, que os preços não se devem a data (comum), ou à Casa Monetária, mas ao estado de conservação, muito diferente quando comparados entre si. Enquanto a moeda da esquerda, por ser muito comum e encontrada aos milhares no mercado, não irá sofrer variações de preços com o passar do tempo, os outros dois, principalmente o da figura do centro, irão valorizar sobremaneira. Enquanto os US$ 50 dólares pagos na moeda da direita não chegam a ser um investimento, podendo inclusive configurar-se em prejuízo caso o proprietário queira se desfazer do exemplar, as outras duas, principalmente a do meio, são certeza de  um investimento seguro, com ganho certo.









O grau de conservação determinando a raridade:

Como dissemos em outras oportunidades, o que determian o grau de raridade de uma moeda não é apenas a quantidade de exemplares cunhados, a sua variante ou a sua "antiguidade". Todos estes fatores, aliados à lei da oferta/ procura, interesse e, também, ao estado de conservação da moeda formam o conjunto que determina o quanto um exemplar é raro.

Um exemplo de como o estado de conservação influencia no preço, pode ser dado por um exemplar do 2.000 Réis de prata, da República, data 1913A (estrelas soltas), leiloado recentemente nos EUA. Aparentemente uma moeda comum, em data única (1913), todas cunhadas na Alemanha (letra monetária A). A cotação para exemplares FDC é relativamente baixa, justamente por não ser difícil encontrá-los nesse estado de conservação (FDC). Porém, a moeda leiloada nos EUA, vai além do estado FDC. É classificada como PCGS Proof 67. Em outras palavras, é única, já que não se tem notícia de outra semelhante no mercado numismático.

Figura: República - 2.000 Réis 1913 A, em excepcional e único estado de conservação (PCGS proof 67), leiloado nos EUA em 2011, valor final de arremate: US$ 9.200,00. A série completa, composta dos demais valores, 1.000 Réis e 500 Réis, foi negociada no mesmo leilão, alcançando a espetacular cifra (para uma moeda comum) de US$ 19.219,50 para as três peças, sendo US$ 5.462,00 para o 1000 Réis e US$ 4.557,50 para o 500 Réis.

A regra deve ser: Não são as moedas (as genuínas peças de coleção) que devem se ajustar às vicissitudes da vida, às dificuldades financeiras das pessoas ou às crises econômicas de um país. As moedas de coleção, em estado de conservação superior à média, mantém seu preço de mercado, valorizando mesmo em períodos de crise.

Fim do artigo
  

A incrível história de uma moeda que não deveria existir

Agora você irá conhecer uma história fantástica no mundo do colecionismo. Uma história de emoções, paixões, furtos, desilusão, decepções, ansiedade, corrupção, reis e altos funcionários do governo americano, numa trama digna de um filme. Tomará conhecimento dos passos percorridos por uma fantástica moeda que, pela lei americana, jamais poderia existir mas que apesar disso, passou pelas mãos de funcionários da Casa da Moeda da Filadélfia, de um Rei, de pessoas comuns, de altos funcionários do governo americano, de agentes secretos, colecionadores e comerciantes de jóias e de moedas, até chegar à Stack’s e Sotheby’s e ser leiloada pela fantástica soma de 6,6 milhões de dólares, tendo seu comprador desembolsado quase 7,6 milhões devido às comissões das prestigiosas casas de leilão.
Irá conhecer as investigações e de como algumas destas moedas foram parar, inexplicavelmente, num cofre privado, onde seus herdeiros sequer sabiam o tesouro que continha.

Mas deixemos de lado as considerações e passemos diretamente a esta fantástica narrativa ! A incrível e verdadeira história de uma moeda que jamais deveria ter existido. Boa leitura a todos !



A fascinante história de uma raríssima moeda. O US Saint Gaudens Double Eagle de 1933.

O US Saint Gaudens Double Eagle de 1933 vendido no leilão de Stack's e Sotheby's em 30/07/2002.

O martelo do leiloeiro da venda sob ofertas organizada pela Stack’s e Sotheby’s em Nova York no dia 30 de julho de 2002 para vender uma única moeda – aparentemente a mais rara, e com certeza a mais disputada – parou no valor recorde de 6,6 milhões de dólares, uma soma nunca alcançada precedentemente, e que sobe a 7,59 milhões, se levarmos em conta também a comissão do leiloeiro. Mas o que levou um colecionador anônimo a desembolsar esta incrível soma, pagando “tanto” por uma única moeda de ouro de 20 dólares cunhada apenas 70 anos atrás. E, ainda, por qual razão uma moeda cunhada em quase meio milhão de exemplares se tornou tão rara e disputada?




Esta última pergunta já havia sido feita em 1944 por Ernest Kehr, jornalista responsável pela sessão de filatelia e numismática do New York Herald Tribune que, notando em uma lista de leilão o anúncio da venda de um extraordinário “double eagle de 1933”, pelo qual seu antigo proprietário havia pago um pouco mais de 2000 dólares (valor considerado altíssimo para a época em que foi adquirida), pensou que seria uma boa idéia dirigir-se à Casa da Moeda americana para saber quantos exemplares teriam sidos postos em circulação, e o que poderia justificar uma cotação do gênero.

Foi justamente a curiosidade de Kehr a dar início a uma das mais complexas aventuras numismáticas dos últimos tempos, rica de surpresas, decepções, euforia e desilusões. Uma história que depois de se perder nos anais do colecioismo por mais de 70 anos, ainda hoje não se concluiu definitivamente, e que teve como protagonistas colecionadores ricos e facultosos, comerciantes inescrupulosos, funcionários desonestos da casa da moeda de Filadélfia , agentes do serviço secreto americano, o rei Farouk do Egito , casas de leilão, e, por último, os herdeiros de um dos personagens originalmente envolvidos no “furto” e na venda de alguns exemplares desta moeda, mantidos entre seus bens herdados e trancados num cofre que continha 10 destas raríssimas e “proibidas” moedas. Mas procedamos com ordem.


O FIM DE UMA ÉPOCA

OS 445.500 exemplares do “Double Eagle de 1933” – última cunhagem em ouro das casas da moeda da Filadelfia, de San Francisco e de Denver que desde 1907, colocou em circulação mais de 70 milhões de moedas com desenhos do admirável escultor “Augustus Saint-Gaudens” (na foto ao lado, em seu atelier)– foram cunhadas em Filadélfia em 3 sessões, entre 15 de março e 19 de maio. O contingente tinha sido estabelecido pelo Tesouro Americano em base ao quantitativo de moedas de 20 dólares postas em circulação no ano anterior pelo Federal Reserve Bank, e a abertura dos cunhos se deu em Filadélfia, a partir de 18 de fevereiro.


Em teoria, a cunhagem dos 20 dólares com data 1933 sequer deveria ter sido processada. Logo após a sua eleição em 4 de março de 1933, de fato, o presidente “Franklin Delano Roosevelt” proibiu o uso do ouro (sob forma de moeda ou certificado) em pagamentos, na tentativa de por fim a grave hemorragia de metal amarelo que arriscava comprometer a credibilidade do sistema bancário americano (na semana ente o fim de fevereiro e início de março de 1933, companhias e privados tinham retirado dos bancos, para estocá-los ou transferi-los ao exterior, mais de 200 milhões de dólares em ouro, perfazendo um total - na cotação atual do ouro - cifra que supera os 6 bilhões de dólares).

Roosevelt anunciou a sua decisão (em vigor a partir do dia sucessivo) domingo, 5 de março, decretando ao mesmo tempo o fechamento de todos os bancos por quatro dias, enquanto o Secretário do Tesouro William H. Woodin (retratado a seguir) telegrafava as casas da moeda de Denver, Filadelfia e San Francisco, ordenando que fossem suspensos quaisquer pagamentos em ouro. O Congresso, convocado urgentemente no dia 9 de março, aprovava no mesmo dia a decisão do presidente. A diretiva de Roosevelt proibia também o acumulo de ouro amoedado por parte dos privados e, mesmo que não especificasse qual fosse o limite quantitativo que fizesse com que um acúmulo chegasse a ser considerado um reato, sancionava a posse não autorizada de ouro em moedas ou certificados, com uma multa de até 10.000 dólares e uma pena de detenção de até 10 anos.

A provisão não impunha explicitamente aos cidadãos americanos de restituir o ouro amoedado, que estivesse em sua posse, ao Federal Reserve Bank, mas que este fosse o seu preciso objetivo, nao restava qualquer dúvida, tanto que o público, respondendo ao apelo do presidente, do Congresso e das autoridades monetárias, e uma única semana fez afluir aos bancos mais de 300 mihões de dólares em ouro. A adesão inicial bem cedo perdeu parte do seu vigor e no dia 5 de abril, um mês depois da divulgação da provisão, o ouro “restituído” ao Tesouro chgava a um total de apenas 633 milhões de dólares. Segundo a estimativa do governo, ao apelo presidencial faltavam, pelo menos, mais um outro bilhão de dólares.

Para acelerar o retorno do metal, que ainda estava circulando, aos cofres do Federal Reserve, no dia 5 de abril Roosevelt (foto ao lado) emanou uma nova diretiva que depois de ter precisado o teto cumulativo (100 dólares), impôs explicitamente aos privados a obrigação de restituir ao Tesouro Americano o ouro de que mantinham posse; uma exceção era consentida somente para as moedas de ouro “raras e inusuais” procuradas pelos colecionadores. As pressões pelo retorno do ouro nos cofres do Federal Reserve continuaram até que o Gold Reserve Act, aprovado pelo Congresso e assinado por Roosevelt no dia 30 de janeiro de 1934 estabelecesse definitivamente que todo o ouro amoedado (revalutado de 20,67 a 35 dólares a onça) pertencia ao governo dos E.U.A., que o transformaria em lingotes de peso e título estabelecidos pelo Secretário do Tesouro (refundindo portanto as moedas) destinando o produto final a ser estocado no novo depósito em construcão em Fort Knox.

Já depois do primeiro decreto de 5 de março de 1933, a Casa da Moeda de Filadélfia poderia ter suspendido a cunhagem das moedas de ouro, não mais admitidas como instrumento de pagamento. Como a burocracia, porém, tem seus próprios tempos e inércias, um primeiro quantitativo de double eagles de 1933 foi cunhado entre 15 e 24 de março, seguidos por mais 200.000 entre 7 e 27 de abril e pelos últimos 145.500 entre 8 e 19 de maio. A inteira cunhagem, embalada em sacos de 250 moedas, cada um pesando cerca 8,4 quilos, foi trancada no cofre F da Casa da Moeda, de onde nunca mais sairia se não 3 anos depois para a refusão. A única exceção foram dois sacos contendo 500 peças ao todo de onde deveriam ser retirados os exemplares destinados ao laboratório da Casa da Moeda e à Comissão de análise para que fossem verificados o peso e o título do metal, tendo sido confiados aos cuidados do tesoureiro e fechados na sua caixa-forte.



Monumento de Augustus Saint Gaudens ao general William T. Sherman.



ESPERANDO PELA FUSÃO


É sobre as 500 peças que ficaram sob o controle direto do tesoureiro-caixa - cargo que, depois da aposentadoria de Harry Powell no fim de 1933 e a saída de cena de seu sucessor designado Hibberd Ott, por motivos de saúde, foi assumido no dia 20 de março de 1934 por George McCann, figura chave nos acontecimentos sucessivos - que devemos voltar a atenção para entender como, quando e quantos “double eagles de 1933” tenham saído ilegalmente da Casa da Moeda de Filadélfia e alcançado o mercado, sempre à espera de oportunidades, por novidades e, com estas, as chances de lucro.

Como resulta da documentação do arquivo da casa da moeda de Filadélfia, 20 das 500 moedas foram enviadas a Washington, mais especificamente ao laboratório da casa da moeda dos EUA para o controle do título, exigência para a qual fossem todas refusas. Das que sobraram, 446 foram mantidas à disposição da Comissão de Análises, convocada na metade de fevereiro de 1934, enquanto outras 34 foram pegas por Edward McKernan, responsável pela câmara de segurança, em 2 de fevereiro. Nao ficou claro se estas moedas foram depositadas novamente nos cofres junto com o grosso do contingente ou se (hipótese mais provável, levando em consideração o reduzido quantitativo e as verificações ainda em curso), se tenham unido as outras em contemporânea custódia do caixa.

A Comissão de Análise, reunida no dia 14 de fevereiro de 1934, destruiu 9 moedas para determinar o peso e o título, resultados ambos regulares segundo quanto o certificado do dia 15 de fevereiro, e no dia 20 as outras 437 foram restituídas a Hibberd Ott, caixa em função e que as repôs na própria caixa-forte junto aos 34 exemplares recebidos em precedência por McKernan (para um total de 471 peças).


A reserva federal de ouro de Fort Knox.

O processo posto em movimento pelo Gold Reserve Act, enquanto isso continuava avançando inexoravelmente. No dia 4 de agosto de 1934 Nellie Tailoe Ross , diretora da Casa da Moeda dos EUA , telegrafou aos diretores dos estabelecimentos de Denver, Filadélfia e São Francisco para dar início à fusão de todo o estoque nacional de moedas de ouro, com a finalidade de tranformar o produto da fusão em lingotes de ouro 900‰ (mesmo teor das moedas, para “não perder temp e nem dinheiro”); uma missão que, devido aos consistência dos recursos e a capacidade das instalações, levaria mais de 2 anos, com uma previsão de conclusão que somente se daria em julho de 1937, com a chegada ao Fort Knox das cargas de lingotes escoltados pelas guardas armadas da Casa da Moeda.

Baseado na documentação oficial, entre 6 de fevereiro e 18 de março de 1937, na Casa da Moeda de Filadélfia foram fundidas e transformadas em lingotes, precedidas por milhares de outras moedas de ouro de 2,5; 5; 10 e 20 dólares, 445.000 “double eagles” de 1933, que nunca saíram do cofre F, mais as 471 em posse do caixa. Das 471 moedas qu erestaram das análises e testes, se devem subtrair os dois exemplares que em 2 de outubro de 1934 George McCann enviou, sob a disposição da diretora Nellie Tayloe Ross, ao Smithsonian Museum, para serem inseridas na coleção numismática do referido museu. A conta, formalmente, estaria correta: das 445.500 moedas cunhadas, 29 foram hipoteticamente destruídas em testes, duas foram doadas ao Smithsonian (fato comprovado), e as outras 445.469 foram fundidas (?). Mais nenhum exemplar do double eagle de 1933 – nunca posto em circulação pela Casa da Moeda Americana – deveria ou poderia ter “sobrevivido”. Mesmo assim.....



A ordem executiva de 5 de abril de 1933.


COMEÇA A CAÇA AO TESOURO


Os primeiros indícios que mostravam que as coisas não tinham ocorrido em conformidade com os documentos oficiais afloraram a partir de abril de 1937, quando um periódico numismático declarou, indicando rumores dos ambientes do colecionismo, que alguns exemplares teriam escapado à fusão, e os que terminaram nas mãos de colecionadores e comerciantes vinham sendo tratados a preço “de afeição”. A notícia não suscitou particular estupor, nem reações por parte das autoridades monetárias. O mundo do colecionismo e do comércio numismático nao era tido sob particular consideração e nem mesmo quem havia desenrolado um papel importante durante a subtração das moedas destinadas à fusao, fazendo-as sair ilegalmente da casa da moeda teria qualquer interesse em “colocar lenha na fogueira”.

Um outro periódico reportou que, sempre em abril de 1937, o conhecido colecionador Fred Boyd teria mostrado algumas semanas antes, na reunião do New York Numismatic Club, um exemplar de double eagle de 1933 em sua posse. O próprio Boyd voltou a expor a moeda em 1938 em Columbus e no ano seguinte em Nova York. Nas revistas numismáticas começaram a aparecer os primeiros anúncios alusivos a quem gostaria de adquirir o último dos double eagles cunhados, e no número de fevereiro de 1941 de “Numismatist” apareceu a primeira proposta de venda; Smith & Son, comerciantes de Chicago, ofereciam (com várias fotos ilustrativas) um double eagle de 1933, “a mais rara da série - exceto pelo exemplar de 1849 - e um dos únicos 3 exemplares conhecidos até hoje. O preço só seria fornecido a pedido dos adquirintes interessados”.

Na época o anúncio não suscitou particular interesse (talvez por causa do preço pedido), tanto que a oferta foi repetida em março e em junho, quando finalmente apareceu um comprador. Nenhuma reação porém, mais uma vez, partiu das autoridades monetárias. Para que isso se verificasse, foram necessários que se passassem outros três anos. De fato, em 18 de março de 1944, Enest Kehr, folheando o catálogo da Casa de Leiloes Stack’s - a ser realizado no dia 25 do mesmo mês - foi pego pela curiosidade de saber o que fazia do lote 1681 (double eagle 1933) uma raridade, e teve a idéia de se dirigir ao escritório do diretor da Casa da Moeda para um esclarecimento. Em 20 de março a questão chegou aos ouvidos da diretora Ross, que pediu a Filadélfia uma resposta. Esta chegou no dia 22 sob forma de um relatório detalhado de 10 páginas, nas quais resultavam os números de moedas cunhadas, destruídas nos testes e refusas, além obviamente das duas entregues ao museu Smithsonian. Nenhuma moeda tinha sido entregue ao Tesouro (e deste aos bancos) para ser distribuída, portanto nenhuma podia, oficialmente se encontrar em circulação. Se isto estava acontecendo, se supunha que o lote oferecido por Stack’s era de uma moeda “falsa” ou “roubada”.



Nellie Tayloe Ross, a primeira mulher americana a ser eleita ao cargo de governador (Wyoming em 1922) e primeira mulher a ser nomeada, pelo presidente Franklin Delano Roosevelt, diretora da Casa da Moeda, cargo que ocupou de 1933 a 1953.

Neste ponto, a Casa da Moeda colocou a questão aos cuidados do serviço secreto, competente nesta matéria por ser o responsável pela repressão à violação ao Gold Reserve Act. Do caso se ocupou pessoalmente o diretor do serviço, Frank J. Wilson, que confiou as investigações aos agentes especiais Harry w. Strang e James Haley. Como estavam efetivamente em presença de um reato, era necessária uma medida veloz, pois ao leilão Stack’s faltavam somente dois dias. No dia 24 os dois agentes foram a Nova York para encontrar o jornalista cuja iniciativa tinha dado início ao caso. Mas Kehr não conseguiu fornecer nenhum outro elemento que pudesse auxiliar nas investigações. Tudo o que sabia, já havia sido relatado. Os agentes então se dirigiram à sede da Stack’s para interrogar os titulares.

Considerados totalmente estranhos a qualquer comportamento ilícito, os irmãos Joseph e Morton Stack não tiveram dificuldades em exibir a moeda em sua posse; além disso confirmaram que no catalogo do referido leilão havia um erro; diferentemente de quanto indicado, o precedente proprietário (o coronel Flanagan) não havia pago 2200 dolares pela moeda, mas sim 1250, como vieram a saber uma semana antes. Os irmãos Stack disseram também aos agentes que um outro exemplar da mesma moeda estava notoriamente em posse de Max Berenstein, um joalheiro cuja loja se encontrava a alguns quarteirões dali.



As atuais instalações da Casa da Moeda de Filadélfia.


A este ponto o agente Strang explicou que, de acordo com as documentações do Tesouro, a moeda nunca teria sido posta em circulação, e portanto se tratava presumivelmente de um exemplar falso ou “roubado”, que o serviço secreto teria que sequestrar diante da expectativa de desenvolvimentos posteriores. Durante a tarde, após entregarem aos irmãos Stack, como seu álibi regular, uma fatura pelo double eagle de 1933, os dois agentes saíram da casa de leiloes dos irmãos para se dirigirem à joalheria de Berenstein. A caça ao tesouro ilegalmente “roubado” tinha começado.


UMA INCRÍVEL COINCIDÊNCIA

Aqui é oportuno dar alguns passos atrás. Exatamente um mês antes, dia 25 de fevereiro de 1944 (o que ainda não era do conhecimento dos investigadores), um funcionário da embaixada egípcia em Washington tinha ido ao escritório da Casa da Moeda, no Ministério do Tesouro, para pedir a permissão de exportação de uma moeda que o seu soberano, o rei Farouk (foto ao lado), havia comprado dois dias antes, de um comerciante de Fort Worth, Texas, pagando 1575 dólares; tratava-se de um double eagle de 1933. Baseado no Gold Reserve Act, a exportação de moedas de ouro dos EUA era permitida somente se se tratava de exemplares de interesse especial para os colecionadores, “status” delegado pelo referido escritório da Casa da Moeda.

Depois de um funcionário compilar o pedido e receber o double eagle de 1933, o escritório da Casa da Moeda entrou em contato com Theodore Belote, curador da coleção numismática do Smithsonian que, recordando, possuía os dois únicos exemplares “legais” do s20 dólares de 1933, entregues a este pela Casa da Moeda de Filadélfia. Isto a fim de obter um parecer necessário aos procedimentos formais, o que foi ultimado, sem dificuldades, como favorável à exportação.
Completadas as formalidades burocráticas, em 29 de fevereiro a licença de exportação estava pronta e em 11 de março de 1944, o funcionário da embaixada do Egito retornou ao escritório da Casa da Moeda, a fim de retirar a moeda, acompanhada da referida licença.

Devido a uma fortuita e incrível coincidência temporal, a moeda adquirida pelo rei Farouk obtinha, desta forma, a permissão necessária para deixar legalmente o território dos EUA sendo que duas semanas mais tarde, tal procedimento teria sido certamente impossível.

Em 24 de março de 1944, depois de terem deixado a sede da Stack’s, o sagentes do serviço secreto providenciaram o sequestro da moeda que estava na posse de Berenstein e depois de uma primeira perícia realizada na Assay Office de Nova York, as duas moedas foram confirmadas como autênticas e, coisa ainda mais importante, obtiveram do joalheiro os elementos necessários para iniciarem a reconstruir um quadro detalhado de toda situação; quantos eram os exemplares conhecidos no mercado, quem os possuía pelas mãos de quem haviam passado.
Nas três semanas sucessivas, assistidos por alguns colegas, Strang e Haley interrogaram colecionadores, numismatas, comerciantes e funcionários da Casa da Moeda em diferentes localidades dos EUA, e em 14 de abril já estavam prontos para apresentar ao seu superior um primeiro balanço das investigações; um elenco dos 10 primeiros exemplares dos 20 dólares de 1933 já haviam aparecido no mercado até aquele momento (três dos quais haviam sido sequestrados pelos agentes no decurso das investigações e um exemplar levado ao Egito com regular licença de exportação) e mais uma concreta série de indícios que conduziam a Israel “Izzy” Switt, um grande joalheiro da Filadélfia, como sendo a fonte comum de todas as moedas.




A colocar os agentes na pista justa foi James Macallister, um numismata de Filadélfia que afirmou ter adquirido o primeiro exemplar de “double eagle de 1933” (moeda que nunca tinha aparecido em precedência no mercado). Comprou-o de Switt, no dia 15 de fevereiro de 1937 por 500 dólares, revendendo-o logo em seguida a Max Berenstein por 1600 dólares. Assim, quatro dias depois, em 19 de fevereiro, Macallister voltou à loja de Switt e comprou um segundo exemplar por 500 dolares, também este em seguida revendido (por 1100 dólares). Uma terceira moeda, sempre por 500 dólares, foi adquirida no início de julho de 1937, seguido por outros dois (um em julho e outro em dezembro) pelo qual a quantia a ser paga tinha subido a 550 dólares. Depois ele parou – disse Macallister aos agentes – não porque a fonte se tivesse exaurido, mas porque se convenceu que existiam muitos exemplares no mercado para se dizer que era uma moeda de extrema raridade.

Switt foi interrogado pelo serviço secreto em 30 de março, mas mesmo assumindo a venda de 9 double eagles de 1933 no passado, declarou não se lembrar onde as adquiriu e de não ter conservado nenhuma documentação que pudesse ajudá-lo a identificar quando, de quem tivesse comprado, a quem tivesse vendido e por qual valor as tivesse adquirido. Mesmo sob pressão dos agentes, negou sempre de ter mantido contato com o pessoal da casa da moeda da Filadélfia, além do necessário requerido pela sua profissão (venda de restos de ouro para fundição), e declarou sob juramento que não possuia outros exemplares da moeda incriminada.
Nas semanas sucessivas os investigadores examinaram as escrituras contábeis de Switt, sem porém concluir nada de útil para suas investigações que, sem descartar possíveis alternativas, se dirigiam agora a um objetivo bem preciso: a investigação de uma ligacão entre Switt e alguém que tivesse tido acesso às moedas saídas ilegalmente do estabelecimento onde foram produzidas.
Na lista de suspeitos incluiu-se, em particular, o ex-caixa da Casa da Moeda de Filadélfia George McCann: um personagem que, além de ter sob sua custódia - por vários anos e na própria caixa-forte - centenas de exemplares do double eagle incriminado, tinha precedentes discutíveis, tendo sido preso em 1940 sob acusação de ter “roubado” do caixa 339,90 dólares em “trocados” retirados de circulação, levados à Casa da Moeda por privados e comerciantes para serem substituídos por moedas novas do cunho. Mccann se assumiu culpado, e foi condenado a um ano e um dia de prisão, mais uma multa de 500 dólares.
Mesmo não conseguindo provar um contato direto entre McCann e Switt, os agentes descobriram que quase seguramente existia um entre McCann e Edward Silver, cunhado e sócio de Switt cuja assinatura aparecia, entre outros, nos cheques girados por Macallister para pagar as moedas compradas pelo primeiro. Novamente interrogado, Macallister adicionou novos particulares ao caso: em ocasião de cada compra, Switt pretendia que o preço fosse primeiro aprovado por Silver e em num certo momento disse, a propósito dos double eagles de 1933, que “seu sócio Ed(ward Silver) poderia arrumar quantas quisesse”, já que tinha comprado 25 e revendido até então somente 14.

Outras confirmações aos suspeitos vieram da análise da situação financeira de McCann, que entre fevereiro e junho de 1936 tinha registrado, sem uma justificativa aparente, entradas de mais de 9.800 dólares, uma soma equivalente a mais do triplo do seu salário anual, e quase coincidente com quanto retirado no mesmo período por Edward Silver de uma conta bancária sua. McCann, segundo a teoria desenvolvida pelos agentes do serviço secreto teve, por um longo tempo, acesso às moedas que provavelmente conseguiu fazer sair da Casa da Moeda, de pouco em pouco (na época não existiam detectores de metal), substituindo os double eagles de 33 com outros de data comum, para que pesos e números resultassem sempre regular no caso de um eventual controle; tinha mantido contato com Silver; tinha registrado em 1936 uma entrada conspícua e não justificada, contemporaneamente a uma equivalente saída de dinheiro da conta de Silver: os indícios era mais do que consistentes, mesmo se em ausência de uma confissão por parte dos suspeitos.
No final de 1944 o trabalho dos investigadores já havia terminado, e os agentes tiveram uma conferência com o chefe dos Serviços Secretos, Frank Wilson, confiantes de poder começar a fase do plano que levaria os suspeitos para a cadeia. Em dezembro, Wilson mandou a própria relação ao Procurador Federal com o pedido de proceder, mas a resposta, que chegou em janeiro de 1945, foi negativa: os indícios eram sólidos, mas a decorrência dos termos punha os suspeitos ao reparo de qualquer tipo de incriminação.


Medalha prêmio realizada por Augustus Saint Gaudens e Barber para a Exposição Colombiana de 1892-1893.


A impossibilidade de perseguir os culpados pela subtração das moedas não mudava todavia uma coisa: os double eagles de 1933 em circulação nunca tinham sido emitidos, por isso eram propriedade do governo, do qual foram roubadas; o governo tinha portanto o direito de exigir a restituição e, caso o atual proprietário se negasse em fazê-lo, o governo poderia confiscá-las.
Nem sempre os colecionadores - que para terem a moeda tinham desembolsado os “olhos da cara” - estavam dispostos a aceitar tal imposição. Entre junho de 1944 e agosto de 1952 o serviço secreto conseguiu todavia sequestrar , ou receber por “livre e espontânea restituição”, outros seis doubles eagles de 1933 que se encontravam na posse de cidadãos americanos: o único exemplar conhecido em circulação permanecia a tal ponto a moeda adquirida em 1944 pelo rei Farouk do Egito, transferida ao Cairo.


A MOEDA QUE FALTAVA


Enquanto internamente os pedidos de restituição das moedas sequestradas, encaminhados pelos colecionadores ao governo, eram negados, o Governo americano decidiu colocar as coisas em dia com o governo egipcio, onde o rei Farouk tinha perdido o trono no dia 23 de julho de 1952 depois de um golpe de estado. O novo governo fez saber imediatamente que tinha intenção de leiloar os bens do ex-soberano, e que o lucro deveria ser utilizado em benefício do povo. Entre tais bens constava a coleçao numismatica do ex-soberano, composta de mais de 8.800 moedas de ouro, sendo que entre as raridades estava o “double eagle de 1933”. A responsabilidade de cuidar do leilão, executado no dia 24 de fevereiro de 1954, foi dada a casa inglesa Sotheby’s, cujo catálogo denominado “Palace Collections of Egypt” (o nome do rei tinha sido retirado em consideração ao novo governo), reportava no lote número 185, junto com outros 16 double eagles, o exemplar “único” de 1933.


Página do catálogo da coleção Farouk, onde se vê o lote 185. Sublinhado em vermelho a data 1933, correspondente ao cobiçado Double Eagle Saint Gaudens .

Uma cópia do catálogo acabou nas mãos do serviço secreto americano, que através do Departamento de Estado fez intervir a Embaixada do Cairo para retirar a moeda de venda. Somente 36 horas antes da realização do leilão a Embaixada conseguiu confirmar que o presidente egípcio Naguib tinha acolhido o pedido, se resevando todavia o direito de decidir sobre a sorte da moeda. Em 25 de fevereiro o lote 185, reduzido de 17 a 16 moedas, foi regularmente vendido por 2.800 libras; mas enquanto nos EUA a Casa da Moeda da Filadélfia começava a refundir, em agosto de 1956, em base as disposições do Gold Reserve Act, as nove moedas sequestradas pelo serviço secreto, a peça que pertenceu a Farouk desaparecia no nada.
Todas as pistas seguras do double eagle que faltava (aparentemente permanecia no Egito, com quem tinha acesso aos bens sequestrados de Farouk pelo governo nacionalista de Naguib e de seu sucessor Nasser), se perderam por quase quarenta anos, até 1994, quando André de Clermont, um ex-funcionário da Casa de Leilões inglesa Spink’s e por época já trabalhando pro conta própria, comentou com seu novo sócio Stephen Fenton, dono de uma loja numismática em Duke Street, de uma supreendente oportunidade: uma sua fonte egípcia (da qual já tivera a oportunidade de adquirir muitas moedas raras, algumas das quais certamente proveniente da coleção de Farouk), tinha mencionado a possibilidade de dispor também do 20 dólares de 1933.

A negociação – iniciada com um pedido do interlocutor egípcio de 325.000 dólares – começou a “esquentar” no tardo verão de 1995, e no dia 3 de outubro a negociação chegava ao seu clímax. Fenton transferiu para a conta do egípcio - um joalheiro do Cairo – 220.000 dólares, e, depois de 41 anos, entrou em posse da moeda retirada do leilão em 1954 (deste fato não se tem certeza absoluta, dado que a licença de exportação concedida em favor de Farouk não era acompanhada por uma documentação fotográfica, e nem no catálogo do leilão Sotheby’s de 1954 aparecia uma imagem da moeda; mas todas as circunstâncias levam a crer que a moeda nas mãos de Fenton fosse efetivamente a que pertenceu ao soberano egipcio).
Quando a adquiriu, o comerciante britânico tinha passado por um grande risco, ligado tanto a quantia paga, quanto ao “estado” ilegal da moeda (pelo menos, assim era, aos olhos do governo americano). O problema agora era encontrar um comprador, de preferência nos Estados Unidos, que pudesse garantir a ele e ao seu sócio De Clermont um lucro adequado.
Para resolver essa situação Fenton se dirigiu a um amigo na Alemanha que, depois de algumas tentativas em vão, obteve uma resposta interessada da parte de Jasper Parrino, titular de uma loja especializada em moedas raras em Kansas City, que acreditava haver um potencial cliente para a moeda na pessoa de Jack Moore, um mediador sempre a procura de moedas de ouro para um facultoso industrial em Oklahoma. No fim de 1995, Fenton começou a discutir com Parrino sobre a venda do double eagle em sua posse, pelo qual pretendia pedir 750.000 dólares. Parrino pediu a Moore o dobro, mas o caminho pelo qual se desenrolava o negócio conduzia na verdade a uma perigosa armadilha.

Moore, em parte incentivado por motivos de “vingança” (dizia que tinha sido enganado no passado por Parrino, com relação a algumas comissões de venda), se dirigiu a um agente do FBI informando-o que um comerciante estrangeiro estava oferecendo na praça um double eagle de 1933 por 1.500.000 dólares. O FBI o colocou prontamente em contato com o Serviço Secreto, que decidiu montar uma isca com o objetivo de sequestrar a moeda. Moore teria que fazer uma contra-oferta a Parrino, para ganhar tempo, mas sobretudo tinha que pedir que a transação ocorresse nos EUA onde o comprador poderia verificar a autenticidade da peça (na verdade, para o serviço secreto se apropriar da moeda).
Depois de um vai-e-vém de contatos e negociações, Fenton – que havia firmado o preço em 750.000 dolares - concordou em encontrar Parrino e o cliente final em 8 de fevereiro de 1996, em Nova York, em um apartamento do hotel Waldorf Astória que, a esta altura, já havia sido posto sob total vigilância pelo serviço secreto, com videocâmeras e registradores, com agentes que ocupavam um apartamento adjacente.
Uma vez acertado que Fenton tinha efetivamente consigo a preciosa moeda, os agentes irromperam no apartamento onde a negociação estava em curso, e prenderam o numismata inglês, caído na armadilha sem haver levantado a menor suspeita, tanto é que, no início, temeu de ser vítima de um roubo.
Enquanto os agentes sequestravam o double eagle, Fenton foi algemado como um criminoso comum e levado ao subsolo do hotel, onde um automóvel o aguardava para conduzi-lo ao escritório do serviço secreto de Nova York, situado em uma das torres do World Trade Center. Fenton, convocado a se apresentar diante do juiz com a acusa de ter tentado vender uma propriedade roubada ao Governo dos EUA, foi solto graças ao intervento do advogado, e no fim de um dia alucinante, saiu das dependências do Serviço Secreto profundamente abalado com o acontecido, tendo em seu bolso uma fatura de um “artigo de contrabando” sequestrado pelo governo dos EUA, o double eagle no qual tinha investido 220.000 dolares (e com o qual esperava ganhar muito mais).

A disputa aberta entre Fenton (determinado a fazer prevalecer a propria boa fé e seus direitos) e a Casa da Moeda americana (também decidida a reentrar em posse da moeda roubada sessenta anos antes) se fechou somente cinco anos mais tarde, em 15 de janeiro de 2001, com um acordo extra-judicial em base ao qual Fenton cedia a moeda à Casa da Moeda e que essa se empenhava em colocá-la em venda, sendo o lucro relativo a esta venda dividido em partes iguais. A Casa da Moeda insistiu em inserir uma cláusula na qual se especificava que o compromisso feito com Fenton não teria se constituído num precedente para outro exemplar, eventualmente existente, do “20 dolares de 1933”. Caso aparecessem outros, seriam efetivamente sequestrados.

O Federal Reserv Bank de Nova York.

Enquanto a moeda estava sendo temporaneamente transferida por seguranças ao Fort Knox, ocorreu uma outra singular e trágica coincidência: se tivesse permanecido por alguns meses mais no escritório do serviço secreto em Nova York, a moeda se teria perdido seguramente devido ao atentado terrorista de 11 de setembro que destruiu as Twin Towers).

Sotheby’s e Stack’s estavam sendo selecionadas para organizar o leilão onde, segundo as estimativas, a peça poderia chegar a um valor entre 4 e 6 milhões de dólares. O leilão público teve início às seis da tarde de 30 de julho de 2002 partindo de um preÇo inicial de 2,5 milhões de dólares. Exatos 6 minutos mais tarde, um colecionador anônimo arrematava a moeda mais disputada da história por 7.590.020 dólares.
Aos 6,6 milhoes do preço de compra tinham que ser adicionados outros 990.000 dólares de direitos e outros 20 dólares devidos ao departamento do tesouro para “monetizar”, pela primeira e única vez, o double eagle de 1933.


FIM DA HISTÓRIA?


Nem por sonho!

Prova disso é o novo “golpe de cena”, ocorrido em setembro de 2004. Pouco mais de dois anos depois do leilão que parecia ter posto um fim a longa e aventurosa história desta fantástica e bela moeda, se começava a desenrolar um novo (e imprevisto) capítulo. As declarações feitas por Switt a Macallister, e por este, em 1944, referida ao agente Strang, sobre o número total de double eagles de 1933 saídos ilegalmente da Casa da Moeda, deram uma tardia mas sensacional confirmação quando a casa da moeda reentrou em posse, de uma única vez, de outros 10 exemplares da mítica moeda. Isso mesmo ! Dez exemplares de uma só vez, encontrados apenas dois anos após do leilão milionário.

A se mostrar viva as autoridades foi Joan Switt Langbord, filha e herdeira do joalheiro Israel Switt (morto em 1990 com 95 anos), que através de seu advogado Barry H. Berke (o mesmo que tinha defendido os interesses de Fenton durante a longa disputa com a Casa da Moeda entre 1996 e 2001), informou ao governo e à Casa da Moeda americana do achado de 10 moedas entre os bens do pai, acreditando desta forma poder fazer o que bem quisesse e entendesse com os 10 exemplares. Os representantes da Casa da Moeda solicitaram então que a senhora Langbord entregasse as moedas com a desculpa de poder controlar a autenticidade das mesmas; um pedido que a senhora Langbord prontamente aceitou, em acordo realizado através de seu advogado, em troca de um documento no qual a Casa da Moeda se empenhava em reconhecer todos os direitos que Joan Switt Langbord e seus familiares poderiam ter sobre as moedas.
Depois de te-las tranferidas a Washington em junho de 2005 para garantir a autenticidade, confirmada tanto pelas provas de laboratório quanto pela comparação com os exemplares do Smithsonian Institute, a Casa da Moeda anunciou publicamente em 11 de agosto, com grande tristeza para a senhora Joan Switt Langbord, a “recuperação” das moedas (retendo-as como propriedade do governo - a Casa da Moeda decidiu, obviamente, não usar os termos “sequestro” ou “requisição”), que foram mais tarde tranferidas ao Fort Knox, devendo ali permanecer, aguardando uma decisão sobre seus destinos. Três coisas são, de qualquer modo, certas:

1) Que as moedas não serao destruídas (o Gold Reserve Act foi abrogado por Nixon em 1971);
2) Que não serão monetizadas (portanto o double eagle de 1933 vendido em leilão em 2002 será o único legal em posse de um cidadão privado);
3) Que nao serão restituidos aos herdeiros de Switt.

Se por um lado a Casa da Moeda pensa em valorizar os double eagles de 1933 recentemente recuperados como “manufatos históricos” em ocasião de mostras ou exposições, ou consignado-os a um certo número de museus, por outro lado o advogado da senhora Langbord proclama batalha; uma batalha que se mostra toda em subida, tendo em vista os precedentes invariavelmente a favor do governo (mesmo se o valor das moedas disputadas, estimável em muitos milhões de dolares, é tal que não justifica uma desistência incondicionada por parte dos Switt).

O presidente americano Richard Nixon.

Esperando para conhecer qual será o destino das 10 peças depositadas em Fort Knox, um outro interrogativo espera uma resposta:

Afinal, quantos são os double eagles de 1933 em circulação?


Até 2004 eram conhecidos somente 3 exemplares: os dois do Smithsonian, e o vendido em 2002 em leilão. Com o “achado” de 2004 o total sobe para 13, mas Israel Switt afirmou, na época das investigações, que teve à disposiçao 25 moedas, um número que hoje é impossível de se verificar, mas em conformidade com os 9.800 dólares embolsados pelo caixa Mc Cann em 1936 (mesmo sendo possivel que parte desta cifra tenha servido para pagar outros “favores” feitos ao dueto Switt-Silver).
Levando a sério as afirmações de Switt, e levando em conta que das 25 moedas passadas, segundo ele, pelas suas mãos, se devem subtrair nove fusas em 1956, uma vendida em leilão em 2002, e dez encontradas em 2004; isto significa que existem, em posse de um ou mais cidadãos, ainda desconhecidos graças a “prudência” ou simplesmente a sorte, outros 5 double eagles “proibidos”. Uma “presa” que permanece, em todos os casos, sob mira dos agentes do serviço secreto americano , prontos a confiscá-las assim que elas surjam da neblina que a sorte as circundou até hoje.

Da próxima vez que você for a uma numismática e verificar que existe um Double Eagle Saint-Gaudens à venda, certifique-se de que não seja o de data 1933. Afinal, ainda existem no mínimo 5 destes exemplares “perdidos” por aí. Talvez sejam bem mais do que apenas cinco.

FIM

Bibliografia:
Livros:
Don Taxay: The Us Mint and Conaige, Arco Publishing Co., New York 1966.
David Tripp: Illegal Tender - Gold, Greed, and the Mistery of the lost 1933 Double Eagle, Free Press, New York 2004.
Allison Frankel: The epic story of the world's most valuable coin, W.W. Norton, New York 2006.
Revistas:
Leon Worden: Barry Barke: 1933 double "legal", in COINage Magazine, gennaio 2006.
Catálogos de leilões:
Sotheby's: Palac Collection of Egypt, O Cairo, 25 de fevereiro de 1954.
Sotheby's New York, Stack's: The 1933 Double Eagle, - July 30, 2002.