A formação dos preços das moedas brasileiras - biênio 2016/2017

Introdução

O mercado numismático em pouco (ou nada) difere dos mercados que envolvem os objetos de arte, colecionáveis e afins. Na verdade, a maioria das moedas, em sua cotação, como veremos a seguir, sofreu uma queda significativa em seus preços em moeda brasileira, pelos motivos expostos a seguir. 
A pergunta que deve ser repensada, antes de ser respondida é: Por que os catálogos devem sempre aumentar os preços das moedas, já que uma valorização sistemática de preços não ocorre com outras (nenhuma delas) mercadoria em todo mundo, nem mesmo com o ouro que volta e meia experimenta uma queda de preços?

Paar responder a esta pergunta é necessário entender o mercado e seus mecanismos regidos por leis na maioria das vezes não observadas pelso leigos. Em outras palavras, muitos irão se surpreender com a queda dos preços, em reais, de diversas moedas brasileiras, ao comparar as duas edições (2015 e 2016) do nosso catálogo; o que é perfeitamente normal (diga-se de passagem). 
Claro que existe uma certa expectativa de que as moedas aumentem de valor, mas é óbvio e lógico que nem sempre isso acontece. Observando as negociações de moedas, nas mais prestigiosas Casas Numismáticas e os valores alcançados nos mais recentes leilões, deduz-se, facilmente, que houve uma queda acentuada nos preços, em moeda brasileira. 
Isso se deve, entre outros fatores, ao “boom” experimentado pelo mercado, durante o triênio 2012/2013/2014, o que gerou uma certa euforia, corroborada com a insistência de alguns em afirmar que as moedas “tem que valorizar”, especulando muito e se aproveitando de “instantes euforizantes” para especular. É recente a enorme especulação envolvgendo as nossas moedas Olímpicas, principalmente as vendidas em sachês.

Mas não só a isso, deve-se a queda nos preços das moedas de coleção! Enfrentamos, atualmente, uma grave crise econômica, uma forte recessão e falta de dinheiro devido aos mais recentes programas e as intenções do governo que já deixou claro que é hora de apertar o cinto e fechar as torneiras. 

A partir de 2015 o mercado numismático refreou o seu “boom” e a euforia deu lugar ao bom senso e à “preocupação de quem pagou muito pelo que não valia tanto”. Em outras palavras, o mercado subiu, e muito, num primeiro momento, para depois sofrer uma queda vertiginosa e, em seguida,  se estabilizar e a partir daí, os preços se equilibrarem. 

Quem pagou, por exemplo, elevadas cifras por Dobras da Bahia ou por barras de ouro do Brasil - temos dois ou três exemplos de investidores brasileiros que amargaram um significativo prejuízo por não terem observado, atentamente, os sinais do mercado - esperando obter um lucro, em curto espaço de tempo, oferecendo o que adquiriu a colecionadores ou em leilões, amargou um prejuízo. Quem comprou, não vendeu (acreditando que o preço iria subir), e continua mantendo determinadas moedas guardadas, a espera de um provável e significativo aumento de preço, está amargando uma longa e extenuante espera, o que é natural, a não ser para nós, latinos, mas inclinados  às emoções do que à razão. 
Sabemos de comerciantes que pagaram elevadas cifras em moedas de ouro de D. João V, por exemplo, e estão com essas moedas paradas, sem comprador, há 8 (oito) anos e, ao que tudo indica, irá ficar assim, por mais 8 anos com a moeda parada, caso não reveja seus conceitos e aceite uma perda. A alternativa seria encarar a compra como investimento de longo prazo, uma “aggiunta” ao patrimônio. Tivemos casos de comerciantes que pagaram U$ 40.000,00 dólares por dobrões de 1924, numa época em que a moeda americana era cotada a R$ 4,00 reais. Ora, foram R$ 160.000,00 pagos numa moeda de ouro de D. João V que hoje está sendo vendida em leilões por cifras abaixo de US$ 25.000,00, para o mesmo estado de conservação (MS 61), o equivalente hoje, em moeda brasileira, a R$ 68.000,00. Por quanto tempo esse comerciante deverá esperar para que essa moeda seja vendida, com algum lucro, em reais?

Em Portugal, há alguns anos, no contexto de uma UE com sua economia “quebrada”, comerciantes brasileiros compravam peças de ouro (6.400 réis) a 500 euros e as vendiam no Brasil com um lucro considerável, num momento em que o câmbio era muito favorável aos brasileiros. Isso não tem acontecido ultimamente! Os compradores, mesmo os menos experientes, hoje conhecem a internet e, se antes não tinham (seja por descaso ou desconhecimento) acesso aos preços internacionais, hoje fazem isso com um ou dois cliques.

Um exemplo: Um comerciante brasileiro comprou, há 5 anos, uma moeda de ouro, pagando por ela R$ 25.000,00 reais, dividindo o pagamento em 10 cheques de R$ 2.500,00. Hoje, esse mesmo comerciante está fazendo fadiga em vender a moeda por R$ 40.000,00 reais (preço pedido). E por que? Simples! Porque apesar de bela e bem conservada, essa moeda tem aparecido em diversos sites especializados por U$ 8.000,00, justamente o equivalente ao que o comerciante pagou parcelado, em Reais, apostando numa valorização que não aconteceu e, ao que tudo indica, vai levar muito tempo para acontecer.

Figura: Brasil Colônia - D. João V, Casa da Moeda de Vila Rica, Minas Gerais, letra monetária MMMM - 20.000 réis da série dos dobrões, data 1724, estado de conservação AU 58, leiloado nos EUA em 2013 por U$ 38.187,50 dólares americanos.
Figura: Brasil Colônia - D. João V, Casa da Moeda de Vila Rica, Minas Gerais, letra monetária MMMM - 20.000 réis da série dos dobrões, data 1724, estado de conservação MS 62, leiloado nos EUA em 2014 por U$ 28.200,00 dólares americanos.
Figura: Brasil Colônia - D. João V, Casa da Moeda de Vila Rica, Minas Gerais, letra monetária MMMM - 20.000 réis da série dos dobrões, data 1724, estado de conservação MS 62, leiloado nos EUA em 2015 por U$ 21.735,50 dólares americanos.


O mercado no Brasil

Para quem não entende (ou entende pouco) de economia, trabalhar com “futuros” num mercado instável como o brasileiro é um risco muito grande. Falando em “mercado numismático”, a situação, a grosso modo, é a seguinte (exemplo):

Quem pretende investir no mercado, paga, por exemplo, US$ 5.000,00 dólares por uma moeda, quando a cotação do dólar estava na casa dos R$ 4,00. Sendo brasileiro, a conta feita pelo comprador é a seguinte: Paguei 5.000 x 4,00 = R$ 20.000. Quero um lucro de 50%, então devo vender a moeda por R$ 30.000,00. Dois anos depois, a cotação da moeda americana cai para R$ 3,00 e o preço da moeda, em dólares, sobe para US$ 5.500,00 que, em valores atuais (os do exemplo, com dólar a R$ 3,00), correspondem a 5.500 x 3,00 = R$ 16.500,00. Apesar da moeda ter valorizado, em dólares, a situação, em Reais, coloca em ânsia o “investidor” que não entende que SE COMPROU EM DÓLARES, DEVE RACIOCINAR COM A MOEDA AMERICANA, SEM CONVERSÃO.

Ora, sabemos que existe, no mercado brasileiro, essa “mania” (esperança) de que as moedas de coleção valorizem sempre. Isso era até admissível num mercado fechado, como era a numismática brasileira há 10 ou 15 anos. Mas num mercado globalizado, onde o que manda e determina os preços é a moeda americana, todo cuidado é pouco. Por isso existem os catálogos e, por isso, o nosso é (era) anual...justamente por que os preços mudam e nem sempre para mais.
Infelizmente, por ainda ser um mercado em desenvolvimento, onde o interesse pelas moedas de coleção não é grande como nos EUA e nos países europeus, fomos obrigados a editar o catálogo a cada dois anos, a partir da próxima edição.

Recentemente fomos alvo de duras críticas, quando dissemso que o preço da moeda de 1 Real (Bandeira Olímpica), no estado de conservação FDC, iria superar a barreira dos 70 reais. Os mais afoitos logo dispararam seus argumentos passionais, nos xingando até. Hoje, o preço desta moeda, já ultrapassou a resistência que havíamos delimitado e agora é vendida por R$ 100,00 reais, o que é natural para quem entende como o mercado funciona. A filatelia brasileira amarga um período ruim, atualmente, justamente por não ter observado o comportamento do mercado.

Nós não “chutamos” os preços das moedas. Nós estudamos o mercado, o seu comportamento, é as variáveis que agem diretamente sobre as cotações. É um mercado fascinante e maravilhoso, como é, e sempre foi aquele que lida com objetos de arte e colecionáveis.

Fatores que influenciaram as cotações no biênio 2015/2016 e a estabilidade dos preços para 2017

Relativamente às cotações das moedas no ano de 2016 e as previsões para 2017, é de se notar uma notável tendência de QUEDA dos preços, principalmente nas moedas de ouro e prata. Os fatores que mais influenciaram as cotações das moedas, nesse período, foram:

1. Estabilidade dos preços do ouro e da prata, no mercado global, com previsão de queda no mercado de futuros.
2. Estabilidade do Real em relação ao euro e ao dólar.
3. Crise global.
4. Forte recessão.
5. Desemprego.

Apesar das moedas em estado de conservação, até a terceira coluna (sob), terem sofrido uma significativa redução dos preços, o que pode ser constatado nos principais leilões e nas comercializações diretas com as numismáticas e comerciantes autônomos, as moedas muito belas, em estado FDC ou FDCe, tiveram uma ligeira valorização em relação aos estados de conservação inferiores, corroborando com nossas previsões com relação ao estado de conservação como fator determinante no grau de raridade dos exemplares, influenciando notavelmente, para mais, em suas cotações.

As moedas, a exemplo das de ouro da Colônia, que no quinquênio 2009/2013 experimentaram um vertiginoso aumento de preços, hoje fazem fadiga em se manter estáveis. Com raras exceções, constatamos uma queda de até 50% nos preços dessas moedas, nas mais prestigiosas Casas Numismáticas e nos leilões nacionais e internacionais durante o biênio 2015/2016.

Notamos também uma grande quantidade de negócios parcelados com cheques pré-datados e promessas de pagamento em muitos meses, para estas peças, além da redução nos preòos, como atrativos para os colecionadores, reticentes em desembolsar cifras pagas no passado. Para conseguir vender, muitos comerciantes autônomos e casas numismáticas tem reduzido seus preços notavelmente, dando descontos e parcelando os valores, sem correção dos preços que chegam a ser parcelados em até 15 vezes. Moedas como determinadas dobras da Bahia, que antes trocavam de mãos por cifras elevadas, agora são negociadas por valores que correspondem até a metade do que os compradores eram dispostos a pagar há 5 ou 6 anos.

Acreditamos que, com o tempo (4 ou 5 anos), o mercado irá voltar ao normal, recuperando as perdas derivadas desse período nebuloso para a economia mundial. No Brasil, principalmente devido à forte recessão, ao desemprego, à alta dos juros e ao impacto na economia, causado pelas medidas fiscais adotadas pelo novo governo, esse quadro irá perdurar pelos próximos 5 anos.
Destaque para algumas moedas de metais “não nobres”, em particular as de cobre e as moedas da República, que devido à sua baixa cotação, principalmente no que diz respeito às moedas FDC, conseguiram um verdadeiro salto em seus preços, com valorizações que chegam a 500% em relação ao biênio 2014/2015.

Concluindo: Nada do que foi dito aqui significa que as moedas de coleção sejam um mau investimento. Significa apenas que os preços, como em qualquer mercado, respondem às regras em economia, reagindo como o que é previsto em momentos de crise econômica e falta de dinheiro. De acordo com nossas observações e análise do mercado numismático, o momento é favorável à compra, principalmente no que se refere às moedas de ouro e de prata.

Nota: Publicamos catálogos, não criamos as cotações. Estas dependem do mercado. Um catálogo é um periódico. Um elenco sistemático de objetos afins. É um livro que contém e ilustra estes objetos, ou os de uma mostra (apresentação de produtos ou serviços para venda ou divulgação), acompanhados das suas fichas de catalogação ordinária, segundo um determinado critério e/ou princípio adotado (autores, argumento tratado, etc).
O que fazemos é observar, estudar, analisar atentamente as variáveis que influenciam os preços, o momento econômico e as tendências para, ao final, elencar os preços praticados no mercado.