As cédulas da 2ª familia do Real com chancela errada

Ultimamente temos visto na internet, o anúncio de uma cédula de 50 Reais GJ, da segunda família, com a assinatura "errada" do Presidente do Banco Central, como sendo um caso único (vide figura a seguir). Contudo convém esclarecer que esse, além de não ser o único caso, é perfeitamente normal e já aconteceu em outras ocasiões, com outras cédulas da segunda família. A explicação é simples, bastando para tanto conhecer os diversos métodos de produção e de impressão, em particular, o offset, e as regras de segurança da CMB que definem a logística de tratamento do papel-moeda.

Cédula de 50 Reais GJ, impressa pela CMB, em Outubro de 2016, com a assinatura de Alexandre Antonio Tombini, época em que já havia deixado o cargo de presidente do BC, tendo sido substituído por Ilan Goldfajn
Vejamos:

Na produção das cédulas da segunda família do Real, foi abandonado o tradicional método que vinha sendo utilizado na confecção das cédulas anteriores, com uma letra à esquerda (conjunto de 9.999 séries com 10 algarismos, sendo 4 indicativos da série e os 6 subsequentes dedicados ao número de cada cédula) e uma letra na extremidade direita, indicativa da estampa.
Já na segunda família, as cédulas são identificadas com um par de letras colocadas à esquerda de uma sequência numérica de 9 algarismos. Mesmo que Banco Central, por uma questão de segurança, se recuse a divulgar a lógica empregada na numeração das cédulas da segunda família, com algum esforço e atenção, é simples deduzir o que se segue:

O par de letras, à esquerda da sequência numérica indica, respectivamente, o ano e o mês de emissão.
Exemplo: As letras CG em uma cédula, indicam o terceiro ano de produção (C é a terceira letra do alfabeto) e G o mês em que foi produzida, nesse caso Julho (sétima letra, sétimo mês do ano).

Quando acontece, por exemplo, que a sequência seja interrompida, isso significa que num determinado mês, ou ano, não houve produção. Assim, por exemplo, se uma cédula foi produzida pela primeira vez em Fevereiro de 2011, irá receber o par AB como indicativo do primeiro ano (2011 = A) e B para o mês de Fevereiro (segundo mês do ano, correspondendo à segunda letra do alfabeto). 

Vamos pegar a cédula de 10 Reais como exemplo: Foi posta em circulação, pela primeira vez, em 2012. Dessa forma, a primeira letra (A) corresponde ao ano de 2012, e assim sucessivamente, B = 2013, C = 2014, e assim por diante.

Ministro da Fazenda: Guido Mantega (2ª chancela) / Presidente do Banco Central: Alexandre Antonio Tombini.
01) AA000000001 a AA050000000
02) AF000000001 a AF096400000
03) AH000000001 a AH112200000
04) BA000000001 a BA049200000
05) BB000000001 a BB008400000
06) BC000000001 a BC047400000
07) BD000000001 a BD098400000
08) BG000000001 a BG086400000
09) BH000000001 a BH162000000
10) CA000000001 a CA043800000
11) CB000000001 a CB042600000
12) CH000000001 a CH090000000
13) CJ000000001 a CJ089725000
Ministro da Fazenda: Joaquim Vieira Ferreira Levy / Presidente do Banco Central: Alexandre Antonio Tombini
14) CJ089725001 a CJ138965000
Ministro da Fazenda: Henrique de Campos Meirelles / Presidente do Banco Central: Ilan Goldfajn
15) CJ138965001 a CJ139200000
16) EH000000001 a EH080400000
17) EJ000000001 a EJ071400000
18) FC000000001 a FC061200000
19) FE000000001 a FE...

Todavia, o leitor pode notar que em 02, a letra F indica que o mês de produção foi o de Junho de 2012, não havendo fabricação nos meses de Fevereiro a Maio, inclusive. 
Em 15 e 16, da letra C, correspondente ao ano de 2014, pulamos para a letra E, o que indica o ano de 2016. O salto de C para E, excluindo portanto a letra D, indica que não houve produção em 2015.

Nota: O leitor pode se equivocar ao se deparar com uma cédula de R$ 2,00 Reais, colocada em circulação ao final de Julho de 2013, com um par de letras AA. 
A pergunta seria: Se a segunda letra indica o mês de produção, estas cédulas seriam de Janeiro; então por que consta no BC a data de 29 de Julho para sua emissão?
A resposta é simples: Algumas cédulas da segunda família, foram produzidas em meses anteriores ao da emissão. Por isso encontramos as letras AA para uma produção, e as sucessivas trazendo as letras AF e AG. Isso significa que as primeiras foram produzidas em Janeiro, que o segundo lote foi fabricado em Junho e o terceiro em Julho, mês em que foram efetivamente postas em circulação. Isso também ocorreu com as cédulas de R$ 10,00 Reais AA, postas em circulação a partir de 23 de Julho de 2012, seguidas pelo par AF (Junho), e com as cédulas de R$ 20,00 Reais AA, postas em circulação a partir de 23 de Julho de 2012, seguida pelos pares AD (Abril) e AE (Maio). Tudo se deve ao processo de impressão em offset. As folhas recebem, inicialmente, a numeração sequencial, em seguida, antes de serem impressas, recebem as chancelas.


CÉDULAS COM UMA OU DUAS MICROCHANCELAS ERRADAS

Esse “erro” ocorre em razão da Casa da Moeda não haver providenciado a tempo, as novas placas de estampa. Para a impressão das cédulas atuais, as folhas recebem, inicialmente, a numeração sequencial das cédulas e, sucessivamente, as microchancelas, sempre impressas em offset, ou seja: em diversas folhas do papel, onde as cédulas serão impressas já constam: somente a numeração sequencial ou a numeração mais as microchancelas, dependendo da ocasião em que entram em produção. Por esse motivo, em algumas ocasiões, nos deparamos com cédulas contendo uma ou duas microchancelas de autoridades que já haviam deixado o cargo, com um par de letras indicando época posterior à exoneração ou anterior à nomeação da autoridade. Estes "erros" (na verdade não são erros e sim detalhes, consequências do processo de impressão e de segurança que não podem ser mudados) são detectados em mais de uma cédula da segunda família, e se dividem, como já citado anteriormente, em dois casos:

1. O par de letras indica época POSTERIOR à exoneração da autoridade

1A. Cédulas de R$ 50,00 (BA e BB) com as microchancelas de Guido Mantega e Henrique de Campos Meirelles - Neste caso, a primeira letra (B) indica o ano de 2011 como sendo o de produção (a letra A indica o ano de 2010, quando as cédulas foram produzidas pela primeira vez) e a segunda letra o mês em que foram efetivamente produzidas (no caso acima, A é Janeiro e B, Fevereiro). Todavia, a partir de 1° de Janeiro de 2011, Henrique de Campos Meirelles não era mais o presidente do BC. Em seu lugar havia assumido Alexandre Antonio Tombini.

1B. Cédulas de R$ 100,00 (BB), com as microchancelas de Guido Mantega e Henrique de Campos Meirelles - A mesma explicação dada anteriormente. 

1C. Cédulas de R$ 50,00 (GJ), com as microchancelas de Henrique de Campos Meirelles e Alexandre Antonio Tombini - Neste caso, o par de letras indicam o mês de Outubro de 2016, época em que Alexandre Antônio Tombini não era mais o presidente do Banco Central (deixou o cargo em 9 de Junho de 2016). Quando essa cédula entrou em circulação, o presidente do BC já havia sido substituído por Ilan Goldfajn.

2. O par de letras indica época ANTERIOR à nomeação da autoridade

2A. Cédulas de R$ 10,00 (CJ) com as microchancelas de Joaquim Vieira Ferreira Levy e Alexandre Antônio Tombini - O par de letras indica o mês de Outubro de 2014 como produção. Contudo, Joaquim Vieira Ferreira Levy foi nomeado para o cargo Ministro da Fazenda, em Janeiro de 2015. 
Explicação: Nas folhas onde serão impressas as cédulas, são impressos, inicialmente, o par de letras e os números sequenciais. Ulteriormente, são impressas as microchancelas. Isso significa que, como ainda existiam folhas com o par CJ, mas sem as microchancelas, foram utilizadas para imprimir as cédulas com as atuais chancelas de Joaquim Vieira Ferreira Levy e Alexandre Antonio Tombini. O mesmo se deu com as cédulas de R$ 10,00 CJ contendo as microchancelas de Henrique de Campos Meirelles e Ilan Goldfajn.

2B. Cédulas de R$ 2,00 (CJ) com as microchancelas de Henrique de Campos Meirelles e Alexandre Antônio Tombini - Mesma explicação de 2A.

2C. Cédulas de R$ 5,00 (CD) com as microchancelas de Henrique de Campos Meirelles e Alexandre Antônio Tombini - Mesma explicação de 2A.

2D. Cédulas de R$ 20,00 (CD) com as microchancelas de Joaquim Vieira Ferreira Levy e Alexandre Antônio Tombini - Mesma explicação de 2A.

2E. Cédulas de R$ 50,00 (EJ) com as microchancelas de Joaquim Vieira Ferreira Levy e Alexandre Antônio Tombini - Mesma explicação de 2A.

2F. Cédulas de R$ 100,00 (EG) com as microchancelas de Joaquim Vieira Ferreira Levy e Alexandre Antônio Tombini - Mesma explicação de 2A.

2G. Cédulas de R$ 100,00 (FJ) com as microchancelas de Henrique de Campos Meirelles e Ilan Goldfajn - Mesma explicação de 2A.

Nota: Como consequência, temos cédulas de baixíssima tiragem e, por esse motivo, consideradas raras.

Aprendendo a interpretar a numeração das cédulas da segunda família do Real

Exemplo: 50 Reais GE027063001 a GE054720000, Henrique de Campos Meirelles / Alexandre Antonio Tombini com o distico “DEUS SEJA LOUVADO”.

O primeiro ano de produção, para essa cédula, foi o de 2010. Sendo assim, a letra A corresponde a esse ano (2010). Em seguida, temos B para 2011 e assim sucessivamente.

Letra G de GE: Corresponde ao ano de 2016. A falta de uma letra na sequência (por exemplo, saltando de E para G) significa que naquele ano (letra F) não houve produção.

Letra E de GE: Corresponde ao mês de Maio (quinta letra = quinto mês)

Quantidade: (54.720.000 - 27.063.001) + 1 = 27.657.000 cédulas impressas.

Nota: No cálculo da quantidade, fazer sempre o último número, menos o primeiro + 1. A explicação vem da aritmética dos inteiros.



O Erário Real não era uma empresa comercial

O Real Erário, também denominado Erário Régio, Tesouro Geral, Real Fazenda, Tesouro Público ou ainda Tesouro Geral, foi uma instituição portuguesa criada por Alvará de 22 de dezembro de 1761, por El-Rei D. José I, da autoria de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, como instituição de topo da administração fiscal portuguesa destinada a centralizar a gestão corrente das contas públicas. O Real Erário, ressalvadas as diferenças institucionais, foi o antepassado direto do atual Ministério das Finanças e do Tribunal de Contas de Portugal.

A sua concepção insere-se na reorganização do sistema de cobrança de impostos e no combate ao fluxo contrabandista, que punha em causa os monopólios comerciais concedidos às companhias de comércio portuguesas.

No Brasil, o Real Erário foi progressivamente assumindo novas funções e novas estruturas, incluindo as repartições da Diretoria Geral dos Diamantes, a Junta Administrativa dos Novos Impostos, o Real Empréstimo, a Tesouraria Geral dos Ordenados e o Dízimo do Açúcar.

Com a Independência do Brasil, em 1822, a parte do Real Erário que permanecia no Rio de Janeiro passou a ser o Tesouro Público do Rio de Janeiro, assumindo o nome Ministério da Fazenda em 1824, por força da entrada em vigor da Constituição do Império.

Durante anos estudando a numária brasileira, particularmente a partir da chegada da Família Rela ao Brasil, o que mais encontramos, principalmente nos textos do senhor Kurt Prober, é a eterna “mania” (uma cantinela que se repete, sendo reproduzida por quase todos os autores) em afirmar que o governo toma decisões com relação às finanças do Estado, objetivando lucro. Falam do carimbo de escudete, por exemplo, como sendo intencional a gerar “lucro” aos cofres da Coroa. O mesmo com relação ao Carimbo de Minas e as recunhagens dos 8 reales, que deram origem aos patacões.

LUCRO? E desde quando o Erário Real era uma espécie de empresa comercial lucrativa?

Se alguém conhece uma alternativa à cobrança de impostos e taxas, como forma de captação de recursos para um governo, por favor, que apresente esta “maravilhosa fórmula”. Do contrário, tente explicar como faria um governo para administrar uma nação, colônia ou seja lá o que for, sem o dinheiro que arrecada junto à população!? Como pagar funcionários públicos, construir estradas, escolas, bibliotecas, encanar a água, manter a segurança da população, cunhar moedas e gerar tantos outros benefícios para o Estado, sem dinheiro ?

Essa “ladainha” de “...foi para obter lucro para os cofres da Coroa” foi dita por dois ou três autores no passado, e alardeada pelo senhor Prober até se transformar em uma espécie de máxima, fazendo com que quase todos acreditem que o Erário Real fosse uma espécie de empresa comercial.

Aliás, o imposto da época, se comparado com as alíquotas atuais, era até muito baixo. O senhor Prober deveria, pelo menos, esclarecer (a título de exemplo) que os pesos castelhanos eram comprados, em média, por 800 réis e carimbados com o valor 960. Não é por acaso que a diferença entre esses 2 valores (160 réis) seja justamente os 20% de impostos (20% de 800 = 160) devidos à Coroa, ou seja, o Quinto.

Apólice do Real Erário (falsa)

Mesmo quando o preço dos pesos aumentou sobremaneira, a Coroa não criou qualquer medida “lucrativa” para seus cofres. Muito pelo contrário, chegou mesmo a pagar 1.100 réis por um 8 reales, recunhando-o com o valor 960. Todavia, nessa hora, em contraponto à afirmação de que a Coroa visava lucro, ninguém sai em defesa do Estado, arguindo um “prejuízo” para o Erário Real.

Conclusão: Muitos vícios, muitas coisas tidas como verdade, de tanto que foram repetidas à exaustão.

“O maior erro do autoritarismo, porém, foi a criação do Estado-empresário, com o seu corolário de ineficiência da maioria das empresas do Estado, e de empreguismo, do qual se valeram sempre os políticos para se eleger ou para alcançar novo mandato popular (...). O Estado-empresário assumiu, no Brasil, o lugar da iniciativa particular. Sua escalada chegou a tal ponto que significa hoje uma participação de 70% na economia nacional, com uma geração de empregos pequena para as necessidades da juventude que chega ao mercado de trabalho todos os anos. A esses jovens, é a iniciativa privada que se tem esforçado para lhes abrir as portas da produção.
Tudo isso representa uma distorção que todos esperávamos fosse logo corrigida pela Nova República. No entanto, nada até agora foi feito, apesar das promessas solenes do governo de que a economia do país há de apoiar-se na iniciativa privada. Os mesmos problemas da velha República estão presentes. O déficit público, o empreguismo, a corrupção. Por isso nada parece mais com a Velha República do que a Nova República”.
Mário Amato
Fico imaginando um Estado emprestando dinheiro a juros, negociando títulos na BOVESPA, apostando como em um cassino, contando com um “lucro” certo para pagar os pensionistas do INPS, ou para construir escolas, estradas, pagar a imensa folha do funcionalismo, etc. Aliás, diga-se de passagem, o funcionário público brasileiro é o mais bem pago do mundo. Somos um raro caso em que o universitário ingressa numa faculdade, mas não planejando uma carreira na iniciativa privada. Quase todos querem se pendurar nas tetas grossas do Estado “paizão”. Na Europa, com algumas exceções, e nos EUA, é o funcinário que menos recebe, quando comparado a quem trabalha na iniciativa privada.

O Estado “empresário” só existe em economias atrasadas como era a brasileira antes da privatização ou no regime comunista marxista. Aliás, o pior empresário que existe é justamente o Estado. Sem contar que o número de funcionários públicos, que já é uma enormidade no país, iria quintuplicar e a iniciativa privada terminaria indo pro buraco, cada vez que o Estado entendesse que deveria aumentar sua “receita”.

NÃO É função do Estado gerar “receita”, disputando espaço com a iniciativa privada. A função do Estado é cuidar da manutenção das cidades, da educação, da saúde, da segurança, da soberania nacional, do policiamento florestal, marítimo e de fronteiras, cuidar da manutenção da ordem, espalhar a justiça e dar assistência ao cidadão que se encontra fora do seu país, através de órgãos de representação diplomática e suas competências, nos respectivos departamentos, etc.

Não deve ser preocupação do Estado administrar fazendas, indústrias, comércio e serviços. Não há o menor cabimento, principalmente numa economia globalizada. A Petrobrás virou um tremendo cabide de emprego, paraíso da corrupção. Somente os Correios, a energia, a água os serviços de comunicação, por serem estremamente estratégicos, deveriam ficar sob a tutela do Estado. Mas no Brasil, começaram a privatização justamente por aí, pelos serviços essenciais à população, deixando o elefante branco Petrobrás, esquecido em um canto.

Chega a ser absurda a idéia de um Estado “empresário”, gerador de receita e mantenedor das obrigações devidas pelos seus cidadãos e de privilégios oferecidos à população. Já funcionou assim na extinta URSS (mas não durou) e hoje está com os dias contados em Cuba.

Quem usa, paga. Um excelente meio de transporte, por exemplo, pode ser adominstrado pelo governo, mas deve ser p cidadão a pagar por esse serviço. Entre outras coisas, isso faz crescer o sentimento de nacionalismo e responsabilidade. Numa nação desenvolvida e ordeira, onde todos pagam seus impostos, a população pode exigir, pode cobrar medidas. Não depredam o patrimônio, não picham as paredes, não destróem os meios de transportes e as cabinas telefônicas e escolas. Ajuda a crescer o sentimento de responsabilidade, faz com que o cidadão entenda que se deseja uma vida melhor, deve pagar por ela.


O Estado não é mãe, pai ou entidade beneficente

Aliás, sou de opinião que deveriam, até mesmo, dar um fim às aposentadorias pagas pelo Estado. Aposentar-se e ficar nas costas do Estado, é um tremendo atraso...sem contar que é uma porta aberta a tantos problemas, a começar pela corrupção, seguida da lógica que nos diz que um sistema assim só pode funcionar em detrimento de outros...por exemplo, desviar dinheiro da educação para pagar aposentadoria. Por isso os aposentados recebem cada vez menos...porque dependem do Estado e não da iniciativa privada. Isso deveria ser entregue aos bancos e instituições financeiras que sabem como operar com esse dinheiro no mercado de capitais. Ao Estado compete, apenas, a fiscalização e a garantia de que tudo será feito corretamente.

O patrimônio do Estado são os hospitais, as escolas, as universidades, os museus, a fauna, a flora e não uma fazenda, uma indústria, um comércio. Onde já se viu, um Estado regulador da economia, da iniciativa privada, tomando para si próprio as funções que deveriam ser exclusivamente da iniciativa privada?

As preocupações do Estado devem (deveriam) ser :

1. SAÚDE
2. EDUCAÇÃO E CULTURA
3. SEGURANÇA E JUSTIÇA
4. TRANSPORTES
5. ENERGIA ELÉTRICA
6. ÁGUA
7. SOBERANIA E SEGURANÇA NACIONAL
8. COMUNICAÇÕES
9. SANEAMENTO
10. FISCALIZAÇÃO

O restante compete à iniciativa privada. O Estado é o pior empresário que existe. A empresa administrada pelo Estado é um cabide de empregos, de benefícios e está sempre a mercê das variações do cenário político do país. Ao governo compete apenas fiscalizar paRA que tudo seja feito dentro da lei, julgando e punindo os excessos de acordo com cada caso.

Não há o menor sentido em se falar de “lucro” do Estado, já que é de sua competência administrar dívidas e não ganhos de capital. Chega a ser absurdo e totalmente sem sentido. Fica realmente muito dífícil entender que alguns possam ainda estar defendendo esse modelo de nação atrasada.

Otávio G. de Bulhões, já na década de 50, fazia menção ao crasso erro cometido no Brasil ao considerar a elevação de preços como lucro. O termo “valorization” é um neologismo de origem brasileira. 

Contabilmente, o lucro é o valor excedente de um investimento capitalizacional, resultado da subtração de receita e despesa. Por definição é GANHO LÍQUIDO, BENEFÍCIO OU VANTAGEM.

É tremendamente exagerado atribuir ao Estado tais condições, já que sua função é puramente a de administrar dívidas. O imposto, desde que arrecadado e usado devidamente, não é exploração! É um tributo que todo cidadão deve pagar para ter acesso aos serviços prestados pelo Estado. A alternativa é viver em uma caverna,no meio do mato, sem luz, sem telefone, sem ter acesso à escola pública nem hospitais. Sorte é que com a tecnologia que hoje temos à disposição, pode-se instalar painéis solares que, em parte, resolveria o problema de energia.

O imposto, por maior que seja a alíquota não pode ser definido como lucro. São conceitos diametralmente opostos. Pode, em certos casos como acontece no Brasil, ser utilizado indevidamente; o protecionismo à indústria brasileira, com a elevação de impostos e taxas de importação, a fim de proteger o produto interno de má qualidade, é um exemplo claro do uso indevido da função de arrecadar. Pode também, ainda citando o Brasil, ser indevidamente usado, em benefício de políticos e de uma classe empresarial privilegiada e corrupta.

O superavit - termo mais correto e adequado podendo ser comparado ao conceito de “lucro” mas muitos distante deste - obtido no Estado, serve somente de reserva que será revertida na forma de novos benefícios aos cidadãos. O governo pega o dinheiro e o devolve em serviços à nação. Isso fere totalmente o conceito contábil e a definição de lucro como processo de tirar vantagem como sugerido por Kurt Prober quando se referiu ao Carimbo de Escudete e ao Carimbo de Minas.

FIM

Quinze mil pessoas?

Um erro crasso nos livros de história e de Numismática - A respeito da viagem da Família Real para o Brasil, diversos (quase todos) são os livros de história e publicações numismáticas que afirmam ter sido de 15.000 (quinze mil pessoas) o séquito que acompanhou o príncipe regente. De onte terá saído esse número fantástico e FANTASIOSO? 


Esclarecimentos

1. A Família real portuguesa, escapando das forças napoleônicas, foi obrigada a embarcar e partir de Portugal num prazo de somente 48 horas. 
2. As naves que levaram a corte nessa viagem eram 16, a saber: 8 naus, 3 fragatas, 3 brigues e 2 escunas (temos o nome de todas elas).

Sendo assim, como explicar que praticamente 10% da população de Lisboa, na época com pouco mais de 150.000 habitantes, conseguiu embarcar em 16 naves que não suportam mais do que 30 ou 40 pessoas (passageiros) bem alojadas comodamente?

E mais: Como explicar que um efetivo de tal magnitude não tenha provocado uma crise sem precedentes na história do país, naquela época a principal colônia de Portugal? 
Mais um erro que vem sendo contado nos livros de história do Brasil, repetido à exaustão por professores e até doutores em história, informação totalmente errada que foi repetida em outras publicações, incluindo livros e catálogos de numismática.

Quem foi o culpado por essa informação equivocada que até hoje vem sendo repetida por historiadores e numismatas?
A culpa se deve a um oficial da Marinha inglesa - embarcado a quilômetros de distância do porto de Belém de onde saíram os navios portugueses - chamado Thomas O’Neil que registrou esse fantasioso e absurdo número (15.000 pessoas) em suas memórias, publicadas no século XIX.


Os 14 membros da Família Real foram divididos entre 3 embarcações

1. A nau Príncipe Real conduziu o príncipe regente Dom João, a rainha Dona Maria I, Pedro de Alcântara, Miguel e o infante espanhol Pedro Carlos.
2. A nau Afonso de Albuquerque conduziu Carlota Joaquina e suas filhas.
3. A nau Rainha de Portugal os outros membros da Família Real.

Em 27 de Novembro, por volta das 15 horas, Dom João, Dona Maria I e os demais membros da Família Real embarcaram, encerrando a tarefa da equipe comandada por Joaquim José de Azevedo. Por dificuldades, devido ao tempo que não era favorável à navegação, a esquadra só partiu menos de dois dias depois, em 29 de Novembro. Dessa forma, conclui-se que toda a operação de embarque se deu em menos de 40 horas. Impossível e inadmissível a hipótese de embarcar a multidão de 15 mil pessoas (10% da população de Lisboa) e ainda mais problemático, executar operação de tamanha magnitude em total segredo, em tão curto espaço de tempo. 

Os números das guarnições que constam da tabela de José Acúrsio das Neves, contrastam significativamente com os números que possuímos. Respeitamos o trabalho de historiadores portugueses, mas estes números, principalmente os da Príncipe Real, são exagerados.

Nota 1: Gostaríamos de deixar claro que não é nossa intenção gerar polêmicas desnecessárias sobre o assunto. Nosso objetivo e apenas o de colaborar para que a nossa história seja contada como se deve, com fatos e verdades e não com especulações e citações de fontes não confiáveis

Advertência: É essencial que se leia todo texto pára o bom entendimento. Não “renegamos” informações documentadas; muito pelo contrário, tudo o que dissemos está devidamente catalogado. Não citamos fontes de sites que dizem ser sua matéria baseada em documentos oficiais, sem dizer onde se encontram. Temos tudo relacionado, toda bibliografia das consultas realizadas “in loco”. Ao contrário de negar a informação baseada em documentos da época, exultamos a que os que nos contestam, tragam aqui os documentos que dizem ser os oficiais, Mas não daremos voz contrária às matérias de determinadas revistas ou determinados livros, por considerarmos perda de tempo, já que conhecemos a maioria das publicações que costumam postar com argumento contraditório.

As fontes encontradas no Brasil, as conhecemos todas, inclusive o equivocado artigo da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz e as tabelas sugeridas por José Acúrsio das Neves que se baseou na quantidade de tonéis (medida usada nas embarcações) para chegar ao fantasioso, absurdo e inadmissível efetivo de 950 pessoas embarcadas na Nau Príncipe Real que partiu de Belém. Foi baseado nas medidas náuticas de volume que Acúrsio também supôs os efetivos das outras embarcações, todas elas muito menores que os gigantescos galeões que não constavam da frota, mas que comportariam 200 pessoas a bordo. Foi baseando-se nessa tabela e nas informações equivocadas de Acúrsio que o coronel José Custódio Madaleno Geraldo escreveu um artigo na Revista Militar Portuguesa, espalhando ainda mais a absurda hipótese de que 15.000 pessoas embarcaram com todas as suas tralhas, em total segredo, em menos de 40 horas, com a princesa Carlota Joaquina, inimiga do próprio marido, filha do rei Carlos, aliado de Napoleão, sem que a corte espanhola e as forças napoleônicas desconhecessem o fato. O coronel se limitou a somar as suposições de efetivo das embarcações, que constam na tabela de José Acúrsio das Neves.

Dessa forma, não vemos a necessidade de pontuar nossas colocações, baseado no que foi escrito em revistas, matérias ou livros de história, principalmente os publicados no Brasil. À exceção da excelente obra de Eduardo Bueno que conta com pouquíssimos mas muito bem fundamentados registros sobre épocas anteriores à viagem da Família Real, poucos são os que merecem atenção. Não iremos debater fontes postadas ao acaso, daquilo que conhecemos e que consideramos não ter qualquer compromisso sério com a pesquisa científica. Com relação ao artigo da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, citada por alguns como sendo uma “fonte científica”, sabemos que a autora, laureada pela USP, baseou suas conclusões na cantinela que vem sendo repetida desde que os livros de História do Brasil começaram a ser estampados, baseando-se no que alguém leu nas memórias de Thomas O’Neil. A própria autora se contradiz, ao iniciar seu artigo com o subtítulo “Momentos dramáticos marcaram os preparativos de um acontecimento inédito: a transferência em peso de uma casa real européia, a bordo de 15 navios, para o continente americano”. Ora, é absurdo (para não dizer fantasioso) acreditar que 15.000 (ou mesmo 10.000 ou 5.000) com todas as suas bagagens, em menos de 40 horas, tenham embarcado em 15 naves (na verdade foram dezesseis) que não comportam mais do que 100 passageiros “espremidos”. Se não carregassem qualquer bagagem e se subjugassem a passar quase 60 dias em pleno mar, apertados entre marujos, grumetes e moços de bordo, sem as mínimas condições de higiene, e sem qualquer conforto, chegariam ao número máximo de 1500 pessoas.


COMIDA E ÁGUA NUMA VIAGEM DE 60 DIAS ATRAVÉS DO ATLÂNTICO

Não podemos esquecer dos víveres e de toda parafernália necessária a alimentar 15.000 pessoas durante quase dois meses; teria que ser algo realmente fantástico! Estocar carne, verduras, legumes, batatas, animais vivos, ÁGUA POTÁVEL, utensílios de cozinha, medicamentos e tudo que seria necessário para manter 15.000 pessoas navegando espremidas em embarcações atravessando o Atlântico por quase 60 dias, chega a ultrapassar o nível do bom senso...é a mais pura e absurda fantasia contada e recontada nos livros de história. Não existe, é fantasioso e absurdo. Convém recordar que nessa época não existiam rações liofilizadas em pacotes como batatas fritas.

A Família Real era composta de 14 membros, sendo acompanhada de pessoas indispensáveis ao seu serviço particular e daquelas que ocupavam a direção do aparelho administrativo, por sua vez acompanhadas de um mínimo efetivo de familiares. Além dessas pessoas que deveriam, por força, escapar ao subjugo de Napoleão, outras também constavam das listas de passageiros que embarcaram, a saber:

1. Seis conselheiros de Estado: Dom João de Almeida de Mello e Castro, marquês de Angeja, marquês de Pombal, marquês de Belas, visconde de Anadia e Dom Rodrigo de Souza Coutinho.

2. Dois ministros de Estado: Antônio de Araújo Azevedo e João Rodrigues de Sá e Melo Meneses e Souto Maior (visconde de Anadia, já relacionado acima), da Marinha, acompanhados dos seus onze auxiliares. 

Toda estrutura de funcionários de segundo escalão permaneceu em Portugal, principalmente porque sendo a medida de caráter provisório e não tendo estas pessoas o que temer do exército de Napoleão, o chefe da operação, Joaquim José de Azevedo, decidiu corretamente por afrontar sua tarefa de forma lógica e sensata, sob o mais absoluto sigilo possível, providenciando uma partida veloz, escapando de Junot que já se encontrava nos arredores da cidade. A hipótese de uma multidão de “escravos” acompanhando a corte, é absurda, principalmente por saberem que no Brasil os serviçais existiam em abundância. Um ou outro, fiel e muito próximo à família, embarcou, mas eram pouquíssimos.

Não era uma fuga dos que frequentavam a corte e, muito menos, de um maciço percentual da população de Lisboa (quase 10% da cidade). É fantasioso acreditar que as pessoas que nada teriam a temer de Napoleão, iriam abandonar suas Quintas, suas propriedades e terras, seus pertences e tudo mais, escapando para uma terra desconhecida de onde se contavam barbaridades com relação à precariedade e doenças como a malária. Imaginar que todas essas pessoas iriam carregar carruagens (???), móveis (???), jóias, dinheiro, objetos, escravos e muito mais, arrastando tudo isso pelas ruas de Lisboa, em segredo, em menos de 40 horas, debaixo de chuva, é mais do que fantasia...é a conclusão de uma mente delirante. Por isso, há anos, temos nos empenhado em pesquisar a fundo esse episódio que marcou a história do nosso país e que tem forte ligação com a nossa numismática.


A LISTA DOS PASSAGEIROS

As listas de passageiros existem, mas não estão no Brasil e sim na Europa, no Arquivo da Legação, no Arquivo Nacional, nas bibliotecas portuguesas, na biblioteca do Vaticano, em arquivos na Inglaterra, na França, incluindo raríssimos documentos microfilmados que contém a própria lista elaborada por Joaquim José de Azevedo que, se comparada aos nomes que o padre Luiz Gonçalves dos Santos citou em suas memórias, constata-se que o inteiro séquito não passava de 600 pessoas.

Some-se a tudo isso, o fato de que no meio da família, embarcou a princesa Carlota Joaquina - filha de Carlos IV, rei da Espanha, aliado de Napoleão - que já havia tentado tomar o poder das mãos do marido. Sendo fundamental o segredo e a rapidez da operação, não poderiam dar chances à Carlota Joaquina de enviar um mensageiro à corte espanhola, denunciando a fuga. Mais do que isso, não poderiam dar chances à princesa de enviar um mensageiro a Junot, a essa altura acampado em Sacavém, a poucos quilômetros do local de embarque. Tudo deveria ser feito o mais rápido possível, em tempo record de menos de 40 horas. 

Nota 2: Agora imaginem uma mudança normal em suas casas. Imagine mudar de uma casa para outra e reflita bem sobre a logística dessa pequena operação, se comparada com a magnitude dessa fantasia de 15.000 pessoas, saindo de suas casas, em plena noite, em segredo absoluto, arrastando todas as suas tralhas para o porto, sob chuva e com as estradas e ruas com lama e escorregadias. Agora imaginem, com a “tecnologia da época”, embarcar todas essa carga e pessoas, em menos de 40 horas, no porto de Belém, um a um pasando por cima de pranchas de madeira (mulheres, crianças, idosos, etc). 

Nota 3: Com a atual tecnologia, um cargueiro chega a levar 3 dias (ou mais) para embarcar containers num porto ultra-moderno. Uma “crociera” (gigantesca nave moderna de turismo que transporta 2.000 passageiros), chega a levar dois dias inteiros para embarcar seus suprimentos e bagagens. Uma embarcação de médio porte, leva uma inteira jornada para abastecer suas despensas com o rápido e pronto serviço de catering.

Os 14 membros da Família Real foram divididos entre a nau Príncipe Real, onde se alojaram D. João, D. Maria I, Pedro de Alcântara, Miguel e Pedro Carlos. Carlota Joaquina, por motivos óbvios, embarcou em outra nau, a Afonso de Albuquerque. Os outros membros da família embarcaram na nau Rainha de Portugal de mesmo tamanho da Medusa. Todos os outros passageiros da comitiva foram distribuídos entre treze embarcações. Os poucos objetos pessoais destas pessoas, as malas que fizeram às pressas, os baús e quinquilharias (o que não foi abandonado no porto), foram distrubuídas entre as nove embarcações restantes. Tudo isso está devidamente documentado no Arquivo Nacional Português.



COM RELAÇÃO AO REGIMENTO DAS APOSENTADORIAS

Outra “falácia” que vem se espalhando nos livros e artigos escritos no Brasil diz respeito ao “PR” que significa, literalmente, Príncipe Regente - na época se satirizou em “Ponha-se na Rua”, “Prédio Roubado” e outras expressões populares - o arbitrário certificado de confisco da residência. Os que defendem essa tese absurda - e sem qualquer documento que a comprove, dizendo que o séquito que seguiu a família real em sua viagem era de 15.000, 10.000 ou mesmo 5.000 pessoas, carregando suas carruagens e todos os seus pertences e escravos - defendem também a absurda teoria de que os recém-chegados teriam desalojado, arbitrariamente, esse mesmo contingente de 15.000 pessoas de suas casas (existem 147 processos de confisco registrados nos arquivos oficiais para todo o período que antecedeu a República). Só não conseguem explicar onde abrigaram os 15.000 sem-teto que parecem ter esquecido que existiam, deixando-os “navegar” no imaginário dos que acreditam nessa história absurda que, por incrível que pareça, é contada nas salas de aula de escolas e universidades brasileiras. Não existe também qualquer documento que ateste a teoria de que teriam construído casas provisórias para os que chegaram. 

O direito à aposentadoria é anterior à chegada da Família real. Era feito obedecendo a duas categorias distintas, a passiva e a ativa. A primeira assegurava à pessoa que ela não seria desalojada de sua moradia ou atividade comercial. A segunda (ativa), dava a um privilegiado o direito de requerer a posse do aposento. Essa legislação teve origem na necessidade do rei e de seus familiares usufruirem dos melhores aposentos, dignos da realeza. O aposentador-mor ía à frente da comitiva real, agenciando as aposentadorias. Esse mesma legislação se estendeu às pessoas dotadas de privilégios, caso se deslocassem para locais muito distantes das suas residências, em geral estando a serviço do Estado ou de el-Rei.Toda explicação a respeito pode ser encontrada no Regimento do Aposentador-Mor, promulgado em 7/9/1590, que se encontra no Arquivo Nacional Português. Ali também podem ser encontrados os Alvarás, Decretos e toda documentação referente ao assunto, finalizando com as últimas resoluções sobre a matéria, publicadas ao final do século XVIII. 

Nessa época, o perímetro urbano do Rio de Janeiro, contava com cerca 8.000 imóveis, dos quais mais da metade eram alugados. Devido ao reduzido número de aposentadorias que constam nos documentos encontrados no Arquivo Nacional, do agrupamento que chegou acompanhando a Família Real, sabe-se que a maioria conseguiu alugar (pagou por isso) algum imóvel de sua conveniência, ou acomodou-se em casas de parentes e amigos com quem mantinham estreito vínculo comercial. 

Nota 4: No Arquivo Nacional (Ministério do Reino) das pessoas que viajaram ao Brasil, constam apenas dezenove (19) que lançaram mão do privilégio da Aposentadoria. São eles, na ordem em que aparecem no documento: 

1. Afonso Maria Furtado de Mendonça
2. Vasco Manuel de Figueiredo Cabral da Câmara
3. Custódio de Campos
4. Diogo Joaquim de Souza Galvão
5. Francisco José Salvador
6. Francisco Maximiano de Souza
7. Francisco de Paula Magessi
8. Francisco Xavier de Noronha
9. Henrique José Maria Souza Galhardo
10. João Eleutério da Rocha Vieira
11. João de Souza Mendonça Corte Real
12. Joaquim José de Azevedo
13. José Estevão Seixas Gusmão
14. José Maria Araújo
15. José Maria Vieira da Silva
16. Marcos Antonio Azevedo Coutinho
17. Antônio de Almeida Soares Portugal.
18. Henrique José de Carvalho 
19. Melo e Maurício José de Mello Coutinho.

Quem mais utilizou o recurso da aposentadoria foram os membros diretos da Família Real. Desalojaram os frades carmelitas dos seus aposentos e instalações, os desembargadores e todos os seus funcionários do Tribunal da Relação, além do vice-rei e sua família. Tomaram posse também do teatro de Manoel Luiz Ferreira, que funcionava ao lado do Paço, além do sítio e da casa de campo do comerciante Elias Antonio Lopes, localizados no atual bairro São Cristóvão, hoje conhecida como a Quinta da Boa Vista.


Os componentes do governo que acompanharam o reduzido séquito, tomaram posse da biblioteca real, da impressão régia, do museu de história natural, alguns quartéis e de todas as repartições necessárias à instalação do novo governo. Em breve todos seriam recompensados por D. João que reconheceu o trastorno que sua corte havia causado a alguns moradores, muitos deles ilustres cidadãos.

Além das 423 pessoas relacionadas em listas oficiais, mais os 101 oficiais que acompanharam a Família Real, convém incluir mais 18 pessoas que não constam dessas listas e que não vem ao caso relacionar, mas que se supõe tenham acompanhado seus familiares (lembrando que agora sim, é só uma suposição e não a certeza como é o caso das 423 pessoas listadas em documentos oficiais):

1. As filhas do conde de Caparica
2. Os familiares do visconde de Rio Seco, de José Egídio Álvares de Almeida e de José Maria Almeida
3. Os filhos do conde de Belmonte. 

Pedimos, por obséquio, que se um dos leitores desse blog tenha encontrado outros nomes, estes serão prontamente adicionados à “lista de embarque”, mas desde que nos apresentem os documentos originais desses registros e não matérias de revistas, artigos de professores ou livros de história do Brasil. Nosso intuito é o de instruir, fornecendo informação segura e precisa. Caso alguém tenha informação irrefutável ou que pelos menos saiba dizer, com certeza, onde se encontra o documento oficial que ateste sua teoria, teremos imenso prazer em rever nossos estudos. Do contrário, não levaremos em conta especulações, teorias fantasiosas retiradas de artigos de revistas brasileiras, livros escolares ou toda imensa e equivocada bibliografia da qual já temos conhecimento.

Nota 5: Sugerimos que, além de pesquisar a documentação da época (o que deve ser feito em Portugal, Espanha, França, Itália e na Inglaterra), quem se interessar pelo assunto, procure conhecer os artistas da corte, em particular os que se dedicavam às gravuras (portugueses, italianos, franceses, alguns poucos ingleses, etc), que se encontravam no local e deixaram retratadas as cenas do embarque. Tem-se uma boa idéia do que acontecia no porto nessa ocasião. A hipótese de que todos estes artistas possam ter combinado em retratar as poucas pessoas e caravelas no porto, é inadmissível. Dessa forma, mesmo não sendo um retrato fiel, são as imagens do que mais se aproxima da realidade do que aconteceu. Pesquisem, por exemplo a respeito do artista italiano Francesco Bartolozzi que se encontrava no local na época da partida da família real e que deixou registrado em gravura a reprodução do óleo do francês Nicolas Delarive, pintor e histórico da época que também se encontrava em Lisboa por ocasião da partida da família real. É um bom começo.



A RESPEITO DO LIVRO DE KENNETH LIGHT

Na sua publicação “A viagem marítima da família real”, obra mais recente que trata o tema, o autor Kenneth Light, afirma que a nau Principe Real possuía as seguintes medidas (exageradas para uma nau, mas corretas para um galeão): 67,5 metros de comprimento (não especifica se tal medida foi tirada entre as perpendiculares baixadas nos limites de proa e popa) e 16,5 metros de boca. O autor afirma que nessa nave, 1050 pessoas viajaram ao Brasil.

Baseados nessa informação, fizemos um cálculo aproximado da superfície útil do convés da nau, área superior ao compartimento de carga. Deve-se levar em consideração que as pessoas não podem ser distribuídas no convés, principalmente devido ao perigo extremo que essa viagem representa (não são pessoas habituadas às viagens como os homens de mar) e muito menos esprimidas. no porão da nau Mesmo assm, dando vazão á fértil imaginação do autor, resolvemos fazer um cálculo bastante otimista da situação (vide imagem a seguir).


Mesmo distribuindo as pessoas na proa e popa do convés da embarcação - o que não é possível, já que são áreas destinadas aos trabalhos de manutenção e navegação (só possível no filme Titanic, onde o casal faz um passeio tranquilo pela proa) - a área ocupada seria de aproximadamente 970 metros quadrados.

Dividindo 1050 pessoas por 970 metros quadrados, chegamos ao número de mais de uma pessoa por metro quadrado (olhe para o chão e imagine um quadrado de 1 metro de lado e coloque nele mais de uma pessoa, numa viagem de 60 dias pelo oceano Atlântico).

Num cálculo mais correto, a área útil seria a correspondente ao retângulo de dimensões 52 x 16 metros, o que nos daria daria uma área de 832 metros quadrados, com cada 4 quadrados de 1 metro de lado alojando 5 pessoas. Em outras palavras, 5 pessoas (passageiros, sem contar a tripulação) dentro de um quadrado de 2 x 2 metros, por 60 dias, em mar aberto.


A POPULAÇÃO DO RIO DE JANEIRO

Em 1799, a população do Rio de Janeiro era de 43.376 habitantes, dos quais mais da metade era composta de escravos e libertos. Em 22 (vinte e dois) anos, essa população nem mesmo chegou a dobrar, pouco passando dos 79.000 habitantes entre brancos, escravos e libertos. Calculando um aumento de aproximadamente 36.000 habitantes nesse período, chega-se à média de crescimento de 1.635 habitantes por ano, normal para uma cidade como o Rio de Janeiro na época.

Além disso, não existe qualquer registro de uma quantidade significativa de “despejos” de cidadãos, para que essas supostas 15.000 pessoas se alojassem. Esse efetivo causaria um verdadeiro casos na cidade, o que não foi encontrado em qualquer registro da época. Nenhum documento cita tal multidão desembarcando no Rio de Janeiro, num mesmo momento, vindos de Portugal

De 1800 a 1820, a população do Rio de Janeiro pouco mudou. Apesar do primeiro censo ter sido realizado somente em fins do século XIX, pela documentação arquivada tem-se uma ótima idéia da população da época. Dos 43.376 habitantes da cidade, no início do século XIX, apenas 19.578 eram brancos, distribuídos da seguinte forma:

1. Sé Catedral: 5579
2. São José: 2305
3. Candelária: 4082
4. Santa Rita: 6750
5. Conventos: 682 habitantes

O restante da população era composta escravos (negros e mestiços livres), num total de 8.812, e escravos não libertos (14.896 no total)
Fonte: Serviço Nacional de Recenseamento. Resumo Histórico dos inquéritos censitários realizados no Brasil. Arquivo Nacional da Polícia da Corte.

A partir de 1820, a dinâmica agrícola e rural fez com que diversas família deixassem o centro urbano, aventurando-se no interior do Estado. Inteiras famílias do norte oriental europeu, desembarcaram no Brasil, motivados pelos subsídios propostos pelo governo imperial que doava terras aos que chegassem. Apesar dessa corrente migratória ter sido mais intensa no sul do país, estados da região sudeste também acolheram pequenas colônias de agricultores. Essa movimantação das massas fez a população crescer dos 43.376 habitantes para 89.086 habitantes. Contudo, a população dos centrso urbanos diminuiu significativamente, se levarmos em consideração que passaram mais de 20 anos, desde que a Polícia da Corte fez o levantamento no final de 1799. Sabe-se que os 43.376 que habitavam o centro urbano, foram reduzidos a 43.139 habitantes, distribuídos por 10.151 residências, número que pouco mudou, se levarmos em conta a quantidade de residências registradas no início do século XIX.
Fonte: Arquivo Nacional, Cod 808, volume IV, Estatística, 1790-1865, folha 17.

Já em 1838, registravam-se apenas 9.246 estrangeiros (pessoas não nascidas no Brasil) no país, para um total urbano de 60.025 pessoas livres e 37.137 escravos, totalizando 97.162 habitantes, distribuídos por 13.423 residências.
Fonte: Arquivo Nacional, Caixa 761, pacote 2, Mapas de População de Províncias, 1809-1889.

Até o censo demográfico de 1849 (nota: no Rio de Janeiro), não existe qualquer registro da entrada de 15.000 estrangeiros na cidade ou no país. Os dados catalogados e arquivados pela Polícia da Corte não fazem qualquer referência à entrada de uma multidão de pessoas no Brasil, num único momento. O que existe são os registros ao longo dos anos que mostram a maciça entrada de estrangeiros a partir de 1821, vindos principalmente do norte oriental da Europa, incentivados pela política de colonização do Império que dava terras a todos que se dispunham em cultivá-la, o que fez a população crescer enormemente

A partir de 1850 e até 1885, o Brasil registrou um lento crescimento nas entradas de estrangeiros, passando de alguns milhares para trinta mil ao ano. Aao final da década essa taxa subiu, ultrapassando 100.000 entradas anuais para atingir o notável volume de 215.000, em 1891. Somente a partir de 1861, quando D. Pedro II ordenou a desapropriação das terras que pertenciam ao perímetro da Mata Atlântica, a população urbana do Rio de Janeiro teve novamente um significativo incremento. Quando o problema da faltá d’água foi detectado e atribuído ao desmatamento da Floresta da Tijuca, o imperador ordenou que todos os proprietários de terras da região deixassem a Mata Atlântica, a fim de que, sob o comando do Major Archer, pudessem iniciar os trabalhos de reflorestamento. Isso fez grande parte da polulação migrar do interiro para os centros urbanos.


Concluindo:

1. Não existe registro da entrada de 15.000 estrangeiros - A Polícia da Corte teria anotado essa significativa massa de pessoas ingressando na cidade. Não existe este registro em lugar nenhum, nem no Brasil nem na Europa. Se alguém o encontrou, diga-nos por favor onde se encontra, para que possamos ir até lá e conferir.
2. O número de estrangeiros registrados no Rio de Janeiro, em 1838, era de apenas 9.246 habitantes.
3. O número de “PRs” registrados é muito baixo, o que contraria a teoria infundada de que multidões de pessoas tivessem sido despejadas de suas casas.
4. Nos arquivos, não encontramos qualquer registro de construção de residências a escopo de receber as tais 15.000 pessoas, o que é defendido por diversos historiadores. Se alguém sabe desse registro, por favor, nos diga, pois não encontramos em lugar algum.
5. Se dermos crédito à teoria de que 15.000 pessoas foram desalojadas de suas residências, onde foram parar os 15.000 desabrigados ?
6. Se a população urbana chegou mesmo a diminuir a partir de 1820, onde foram parar os 15.000 que, segundo alguns historiadores, desembarcaram com a família real, no Rio de Janeiro ?


SOBRE AS EMBARCAÇÕES

Uma nau, nas condições que já demonstramos por um cálculo aproximado, poderia até conter 948 tripulantes, em condição extrema, com praticamente uma pessoa ocupando um quadrado de um metro, distribuídos pelo convés e porão, mas não creio que essa fosse a norma quando prevista uma viagem longa de 60 dias em mar aberto, carregado de nobres e seus familiares. Uma esquadra em missão militar, tripulada por homens de mar, circundando a Europa até atingir o Mediterrâneo, com a possibilidade de fundear (ou aportar) próximo aos diversos portos espalhados pela costa, não é a mesma coisa que passageiros acostumados ap cotidiano de suas vidas em cidade, espremidos entre a tripulação, atravessando o Atlântico, em meio a tempestades, numa aventura de 60 dias em mar aberto.

Conhecemos a maioria das obras citadas, mas isso em nada muda a nossa conclusão. Mesmo tendo sido escritas por professores, doutores e historiadores, isso não significa que suas anotações estejam corretas. Seria falacioso afirmar que uma determinada tese fosse a expressão da verdade, somente porque foi escrita por alguém respeitado no meio acadêmico. Não foram poucas as vezes que encontramos erros crassos em obras de prestigiosos autores.

Logicamente a população do Rio de Janeiro aumentou muito após a chegada da Família Real, mas isso não se deu em um único momento, com 15.000 pessoas desembarcando na cidade, vindas de Portugal. Certamente a permanência dos reais, durante longo período no Rio de Janeiro, atraiu muitas pessoas, vindas de diversas partes do mundo, incluindo da África. O problema não é esse, mas sim a fantasiosa tese de que 15.000 pessoas viajaram para o Brasil, espremidas em naus, escunas e brigues, de uma só vez, por ocasião da fuga da Família Real. É mais do que um exagero...é um absurdo!

A seguir vê-se uma imagem do gigantesco transatlântico TITANIC. Sua capacidade máxima era de 3.600 pessoas, entre passageiros e tripulação. Acreditar que uma NAU carregasse a terça parte do efetivo do Titanic numa viagem oceânica de 60 dias, não é exagero...é delírio.


Nem a plebe aceitava as acomodações da terceira classe em meio a ratos e sujeira...e aqui estamos falando de uma nave moderna, se comparada às banheiras flutuantes do século XVIII. Além disso, observadas as proporções, uma nau, se comparada com as dimensões do Titanic, seria como um pequeno automóvel ao lado de um Boeing. Mesmo que abarrotassem o transatlântico com 9.000 passageiros, o efetivo atribuído a nau seria a nona parte disso, o que continua sendo absurdo.

Acreditar que 1.000 reais ficaram espremidos dentro de uma nau, com as piores condições de higiene, dividindo espaço com a tripulação que deveria se ocupar de dar comida e água a todos eles, durante 60 dias, em meio a tempestades e borrascas, numa aventura pelo Atântico, com todos chegando ao Brasil são e salvos, não é fantasia...é o mais puro delírio. Imaginar que essas pessoas, em menos de 40 horas, embaixo de chuva, correndo em meio às ruas cheias de lama, à noite, arrastando tudo o que tinham, abandonando suas belas casas e pertences, embarcaram nessas naves para correr atrás da Família Real, com medo de Napoleão que nada tinha contra eles, é surreal. Seria mais simples admitir que 99% do que foi escrito sobre o tema até hoje, é fruto da imaginação, a consequente cantinela que passaram a repetir à exaustão, desde que alguém disse que embarcaram 15.000 pessoas (10% da população de Lisboa) da corte portuguesa naquela noite em Belém.

A maioria nunca fuçou os arquivos, quase todos os que escreveram a respeito nunca viram um documento, nunca basearam suas conclusões na investigação in loco, limitando-se em apenas citar o que leram em outra obra, dando continuidade a um processo que se assemelha àquela brincadeira com peças de dominó que caem uma depois da outra até derrubar a última. Aceitaremos fatos concretos, que tenham uma razoável margem de sensatez e que se originem de uma investigação e não de um “ouvi dizer ou li em algum lugar”.
Lembretes: Convém esclarecer que capacidade não é o mesmo que lotação. Eu posso colocar 15 pessoas dentro de um automóvel de 5 passageiros, mas isso não significa que seja essa a sua previsão de lotação. Distribuir 1000 pessoas (estamos falando de membros da corte) em 900 metros quadrados (a maior das naus ... nem todas as embarcações eram naus) e viajar pelo Atlântico por dois meses, não é só a conclusão de uma fértil imaginação...é puro delírio.
Não eram marinheiros...eram fidalgos, aristrocratas, nobreza e pessoas não acostumadas a esse tipo de operação. 
Segundo: Quem tinha algo a temer das tropas de Napoleão eram os membros diretos da Família Real e não o restante da corte. É surreal acreditar que estas pessoas abandonassem suas quintas, seus pertences, seus escravos, suas propriedades alugadas, suas terras, seu comércio, suas rendas e tudo mais para partir em meio à chuva, percorrendo quilômetros até o porto, em meio à lama, carregando caixas, móveis e até diligências como afirmam alguns irresponsáveis “historiadores”, como se uma nau fosse um cargueiro moderno da MSC. É bem difícil acreditar que estas pessoas iriam abandonar tudo para seguir a Família Real para além do Atlântico, por dois meses, espremidos, cada um, num espaço de 1,5 metros quadrados, em meio à tempestades, frio, chuva, ventos, borrascas à noite. Inclusive porque as histórias contadas a respeito do Brasil, na corte, eram de apavorar qualquer um que pretendesse se meter em tal aventura carregando seus familiares em tal aventura bem ao estilo das pelícolas de Hollywood. Aliás nem mesmo é delírio...é além da imaginação...pura ficção.  
Terceiro: É fantasioso acreditar que todas estas pessoas - deslocando-se de madrugada, debaixo de chuva, em meio ao lamaçal - tenham embarcado em pouco mais de 30 horas no porto, com todas as suas bugingangas (um embarque numa crociera moderna, com toda tecnologia do século XXI, leva um inteiro dia...se formos considerar a carga, um embarque pode levar até 3 dias ou mais). Principalmente por não se tratar de homens de mar (eram velhos, mulheres crianças e fidalgos não acostumados a este tipo de operação), a coisa vai além do plausível...é o delírio de uma mente febril. Só para se ter uma idéia, a coisa era tão confusa e caótica que até os acostumados a esse tipo de vida, volta e meia caíam das rampas que conduziam às embarcações...alguns (como aconteceu a um oficial de marinha), morriam afogados nesse caos generalizado...que dirá velhos, homens não habituados, acompanhados de suas mulheres e crianças. Nem vou tocar no assunto higiene a bordo, água, comida prá toda essa gente, animais, em alto mar, por 60 dias...também não vou considerar o escorbuto, a diarréia, a febre, salmonelas, disenterias, e outras mazelas que assombravam estas embarcações em longas viagens...não eram só os piolhos como dizem alguns em seus livros (quem dera fossem só piolhos).
Por último: Não se trata de lógica matemática. Esta entra apenas como uma das inúmeras variáveis que devem ser analisadas em tal situação. Citando a sua comparação para lá de exagerada ao escrever: “...creio que é erro tentar fazer essa comparação,desde que seja matematicamente possível colocar um volume e um peso,o resto deve ser admitido como possivel...”, sugiro tentar uma viagem através da Europa, partindo de Lisboa até Roma (por terra...bem mais simples que por mar aberto), colocando 15 pessoas num automóvel onde cabem confortavelmente cinco. 
Compreendemos o romantismo e a tendência das pessoas em dar vazão às fantasias aventurosas dos romances das mil e uma noites, sonhando com as viagens de Marco Polo, mas acredite: É IMPOSSÍVEL!!! Toda essa balela vem se arrastando por décadas, só porque alguém leu os apontamentos de um militar inglês exagerado que nem mesmo estava presente por ocasião do embarque.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A documentação

Além de ser vasta, só faz corroborar com a tese de que não chegaram a 700 pessoas (entre tripulantes e passageiros) a acompanhar a Famílai Real em sua viagem. Não só os documentos em Portugal, mas também os que existem no Vaticano, na Inglaterra, na França e no Brasil onde, por sinal, não existe qualquer registro dessa massa de pessoas desembarcando no Rio de Janeiro o que teria criado um caos na cidade. Na documentação da época fporam poucos os PR executados em favor da nobreza, o que por sí só, desmente as tais 15.000 pessoas que teriam desembarcado no Rio de Janeiro.

O problema é que de tanto repetirem essa bobagem, essa teoria absurda acabou sendo aceita como verdade.

“...tenho resolvido, em benefício dos mesmos Meus Vassalos, 
passar com a Rainha Minha Senhora e com toda a Real Família 
para os Estados da América, e estabelecer-me na cidade do 
Rio de Janeiro até a Paz Geral...”. D. João (26.11.1807)

A Família Real embarcou no dia 27 de novembro de 1807. Após a assinatura do Tratado de Fontainebleau, apenas 30 dias antes, os planos de D. João eram o de enviar seu filho Pedro de Alcântara ao Brasil, na condição de primeiro dignitário do Reino. Foi a partir de então que o regente passou a cogitar o que estava sendo aconselhado pelos seus ministros.

Por volta da meia-noite do dia 25 de Novembro, exatamente 60 horas antes da partida, D. João reuniu-se com seus ministros e tomou a decisão, nomeando Joaquim José de Azevedo para comandar as operações de logística e embarque. Se fosse como o senhro supõe, Carlota Joaquina teria tido tempo suficiente para alertar o pai que, por sua vez, alertaria Junot. Mais simples que isso, Carloat teria enviado mensageiro às tropas francesas acampadas a poucos quilômetros de Lisboa. É ingenuidade imaginar que 15.000 pessoas estivessem se aprontando para essa viagem, em segredo, por meses a fio, sem que Carlota Joaquina desconfiasse de nada.

Os franceses não precisavam colocar um exército em Lisboa. Bastava retardar a partida, o que seria simples de se realizar, mesmo com um pequeno efetivo. A verdade é que nem Junot se mexeu de onde estava, já que não descnfiava minimamente do que estava para aconetcer.

Não eram 40 navios...isso é fruto de fantasia e imaginação de pessoas que ao invés de ater-se aos fatos, preferem romantizar a história, floreando os acontecimentos de pompas e glórias hollywoodianas, com Errol Flynn como protagonista. Tinham muitas embarcações no porto, mas apenas algumas estavam ali para dar cobertura à fuga, principalmente para manter tudo em segredo. O restante eram navios mercantes que normalmente estavam fundeados no porto, um local onde as naves transitam normalmente (acho que isso todos entendem perfeitamente). Não estavam todos ali só para dar fuga à Família Real. Assim que partiram, foram tomados por uma tempestade logo de cara o que fez dispersar a pequena esquadra. Apenas 4 naves de guerra inglesas escoltaram a Família até o Brasil para logo em seguida retornarem. Não sou eu quem está dizendo...está escrito num documento que se encontra na Biblioteca da Ajuda.

Aceitar ou não a nossa tese, não a invalida. Seria muita ingenuidade da nossa parte acreditar que os tantos que escreveram essa bobagem dos "15.000 que desembarcaram no Brasil", em livros, artigos e revistas, fossem concordar com o que escrevemos

O número 423 está lá, nos documentos. Depois de andarmos por todas as bibliotecas e instituições onde poderíamos encontrar algo a respeito, não encontramos nenhuma lista que ultrapassasse esse efetivo. Todos os nomes estão lá, para quem quiser ver e tiver vontade, é óbvio.

Evidentemente, concordamos que eram pessoas extraordinárias e que cumpriam feitos extraordinários. Michelangelo era um deles, mas não esculpiu o David em 3 dias. O Brunelleschi também não realizaou a cúpula de Santa Maria del Fiore em tão pouco tempo. As obras do gênio humano são muitas, mas não foram realizadas como uma carga de cavalaria em campo aberto. Para isso era necessário tempo, logística, planejamento, condições favoráveis e muitas outras variáveis. A Sagrada Família é uma obra espetacular de Gaudi, mas até hoje não foi terminada. 

FIM

A Casa da Moeda de Soho e os ensaios dos 960 Réis

A chegada da familia real portuguesa ao Brasil, desconsiderando os aspectos negativos, trouxe consigo um ímpeto que fez com que a principal Colônia de Portugal prosperasse, saindo do seu estado “bárbaro” de “terra de conquista”, passando ao status de Casa da Nobreza metropolitana. Antes da mudança de endereço da Casa Real, Portugal tinha feito muito pouco pelo desenvolvimento do Brasil; a principal preociupação dos governantes era a de investir apenas o necessário para extrair suas riquezas naturais. Assim que El-rei, acompanhado de sua corte, desembarcou no Brasil, escapando das tropas de Napoleão, se deu conta de que a infrastutura necessária ao sustento e instalação da nova sede do reino era precária e que diversas mudanças eram necessárias a fim de hospedar os recém-chegados. Surgiram assim, as primeiras universidades, jornais, e bibliotecas. Estradas e ferrovias foram construídas ou melhoradas, e a infra-estrutura adaptada às necessidades do rei e de sua corte. Como parte destas reformas, o governo idealizou a criação de uma moderna Casa da Moeda, tirando vantagem das últimas tecnologias advindas da cunhagem a vapor, desenvolvida na Inglaterra. Assim, o governo contratou a empresa de Boulton & Watt para construir uma Casa de Cunhagem, completa com equipamentos e tudo que fosse necessário à fabricação de moedas.


BOULTON and WATT

A fábrica de Matthew Boulton, localizada em Soho, na Inglaterra, foi uma das primeiras com linhas de montagem próprias da revoluão industrial. Em parceria com James Watt, iniciada em 1774, melhoraram o design e a prestação do motor a vapor, inicialmente idealizado por James Watt, para que pudesse ser aplicado comercialmente na recém-criada fábrica. A bem da verdade, Boulton & Watt construíram os motores que deram vida a revolução industrial inglesa.   
Durante o último quarto do século XVIII, na Inglaterra, existiam tantas moedas falsas em circulação que a Casa da Moeda inglesa foi obrigada a parar, por alguns anos, a cunhagem das moedas no território. A rudimentar tecnologia de cunhagem facilitava a contrafação, o suficiente para que falsos pudessem ser produzidos em profusão.                                                                        
Matthew Boulton, quem já produzia pequenos artigos em metal em sua fábrica, viu na necessidade de se cunhar moedas, a oportunidade de prosperar, bastando para tanto, investir na melhoria do precário processo de cunhagem existente até então. Assim, fundou a Casa da Moeda de Soho, em 1788, operando sob contrato com o governo de Sua Majestade britânica, cunhando moedas e discos para a Inglaterra e para outros países (incluindo discos de cobre para os EUA e para o Brasil). Com uma produção industrial, mais rápida e menos onerosa, tilizando seu maquinário a vapor, fabricava moedas produzidas sob rígido padrão de qualidade, dificultando a falsificação.


OS ENSAIOS DOS 960 RÉIS

Em julho de 1808, Boulton & watt receberam uma carta do Brasil pedindo informações sobre a construção de uma Casa da Moeda. A carta foi escrita por Manoel Antônio de Paiva, sócio de John Lucena, escolhidos por Chevalier Dom Domingos Antonio de Souza Couttinho para inspecionar as máquinas de Boulton. Souza Couttinho tinha recebido ordens de comprar, em nome do governo brasileiro, e deu carta branca a Paiva e ao seu sócio, para analisar e decidir sobre a compra do maquinário. Na carta, Paiva faz dois pedidos: 
1) A construção de uma casa da moeda completa.
2) Detalhes sobre como recunhar 8 reales espanhois, assim como a Inglaterra tinha feito com os 5 Shillings de 1804.  
Foi em resposta a este segundo pedido que boulton & watt produziram o ensaio de 960 Réis de 1809. Provavelmente, o plano era que o Brasil iria utilizar o maquinário para fazer os recunhos localmente, e os ensaios foram uma demonstração do que seria o resultado final. O ensaio foi gravado por Conrad Heinrich Küchler. 
Küchler nasceu em Flandres por volta de 1740. Chegou à Inglaterra pela primeira vez em Março de 1793, onde foi empregado como gravador da Casa da Moeda de Soho, de propriedade de Matthew Boulton. Era o único artista de Boulton para a idealização do design e abertura de cunhos. Produziu o design de várias moedas, medalhas e tokens, incluindo os Cartwheel penny e pence, e medalhas da batalha de trafalgar, Luis XVI e Maria Antonieta. Tempos depois, deixou a Casa da Moeda, mas contiuou trabalhando poara a empresa de Boulton, até a sua morte, ocorrida em 1810, em Handsworth.
Vista da fábrica de Soho, em Birminghan.

Inglaterra, um Penny 1797 GEOERGE III Cartwheel
Ferdinando IV di Borbone, 1759 -1825. Medalha, ano de fabricação 1799, obra de Conrad Heinrich Kuchler. Æ 53,53 gramas; 48,2 mm;  FERDINAN IV D: G SICILIAR ET HIE REX Busto encouraçado do Rei, à direita. Abaixo do busto C.H.K. (medalhística de origem flamenga).
Luís XVI e Maria Antonieta, com familiares. Medalha, ano de fabricação 1799, obra de Conrad Heinrich Kuchler.



O COLAR DE DROZ

Antes do estabelecimento da Casa da Moeda de Soho, em 1789, a maioria das moedas eram cunhadas com prensas manuais. Seus diâmetros o que dava às peças fabricadas um aspecto rudimentar, presa fácil de contrafatores. Matthew Boulton empregou em sua fábrica, o suiço Jean-Pierre Droz, gravador  dotado de grande habilidade na confecção de matrizes. Foi Droz quem elaborou um colar, ou plateau, que agia como terceiro cunho, e que trabalhava em conjunto com os de anverso e reverso. O colar era usado para que anverso, reverso e serrilha fossem cunhados com o mesmo golpe da prensa de cunhagem, dando ao inteiro conjunto um aspecto uniforme. O bordo podia ser serrilhado, liso, com ou sem legenda. Apesar de inovativo, o colar de Droz não obteve o sucesso almejado; foi modificado por James Lawson em 1790, resultando em um colar de uma única peça, que desta vez passou a funcionar para produção de moedas em larga escala, e não somente para a de ensaios e medalhas. 
Com o uso de colares, cada moeda saía da linha de produção em disco circular, sem defeitos ou alterações no diâmetro; o que não acontecia com as moedas nacionais anteiormente  colocadas em circulação.
    A Casa da Moeda britânica não conseguiu adotar os colares com sucesso como foi feito em Soho. Boulton escreveu em 1789: 
“...eu também ouvi falar de tentativas do uso do colar realizadas nas cunhagens na Torre, mas tiveram tantos problemas e dificuldades no seu uso e manuseio que acredito não tenham cunhado mais do que meia dúzia de peças; e se tal coisa tivesse sido proposta aos moedeiros teriam concluido que custaria, no mínimo, um penny para produzir meio penny”.
Finalmente, o restante dos aparelhos e maquinário, fabricados e utilizados na Casa da Moeda de Soho, foram introduzidos na Casa da Moeda britânica.
O colar de Droz, após se demonstrar não adequado para cunhar grandes quantidades de moedas, permaneceu em uso apenas na Casa da Moeda de Soho, sendo utilizado apenas na fabricação de ensaios e medalhas. O colar modificado de Lawson, adotado por Matthew Boulton e seu time na Casa da moeda de Soho deu origem a nossa cunhagem moderna. 

A máquina de cunhar de Boulton, onde foram fabricados os ensaios dos 960 Réis

Ensaios dos 960 rèis, fabricados na Casa da Moeda de Soho

Nota: O artigo é parte de um inteiro capítulo, dedicado à Casa da Moeda de Soho e às falsas de Birminghan, contido no Livro Completo dos 960 Réis, editado por MBA Editores, em parceria com Bentes Edizioni Numismatiche.


Os equívocos de Prober

Que nos perdoem os que defendem que tudo o que foi dito pelo grande estudioso e numismata não pode ser contestado. A verdade é que ninguém é infalível. 
Já demonstramos, em algumas ocasiões - clique aqui para saber mais ou aqui para acompanhar um debate - que Kurt Prober errou em suas afirmações e agora, ao que tudo indica, aí vem mais uma. Fazemos isso não para demonstrar que o grande numismata errou, mas para alertar que não se pode dar crédito, cegamente, a tudo que lemos, simplesmente porque foi escrito por alguém que é (ou foi), considerado uma sumidade em determinado assunto, alguém que sobressai (ou sobressaiu) entre os do seu círculo, pelo saber.

Na página 82 do seu Catálogo de Moedas Brasileiras (terceira edição, revista e aumentada), no terceiro parágrafo, Kurt Prober escreveu: 

“ - Durante os anos de 1817 e 1818, a Casa da Moeda da Bahia, embora ativa, usou exclusivamente os cunhos com data 1816, e só em 1819 cunhou as primeiras moedas com as Armas do Reino Unido, mas para MOÇAMBIQUE. Todas as moedas de 1817, 1818 e 1819, com a letra monetária B são FALSAS, seja qual for o metal.”

Na página 102 do mesmo catálogo, na data 1819, Kurt Prober sequer deu numeração ao 960 réis que se encontra entre as moedas P-1174H e P-1175, afirmando que o patacão do Reino Unido, cunhado na Bahia, com a data 1819 e letra monetária B, é FALSO.

Ora, sabemos que não existem 960 réis com a letra “B” nas datas 1817 e 1818, mas o que dizer com relação aos três exemplares conhecidos do patacão cunhado na Bahia com a data 1819 e letra monetária “B”?

Ao final do ano de 1815, Portugal passou a ser um Reino Unido, admitindo ou ascendendo o Brasil a esta condição (Reino Unido ao de Portugal e Algarves). Em consequência, foi ordenado que a partir daquele momento as moedas passassem a ter uma nova legenda alusiva ao Novo Reino, cunhando as moedas em conformidade com o novo modelo a ser adotado para os cunhos. 

Nessa época, D. João ainda era Principe Regente e como o novo desenho ainda não havia sido criado, foi cunhada em 1816, na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, uma série de 5 moedas com letra monetária R, onde apenas a legenda foi alterada, demonstrando a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves; entre elas uma de 960 réis, com legenda nova, mas com desenho igual ao anterior para comemorar o evento.

Essa série de 5 moedas, hoje conhecida como série especial, e composta de:

● 2 moedas de cobre ( 20 e 40 réis ),
● 2 moedas de ouro ( 4000 e 6400 réis ) e
● 1 moeda de prata ( 960 réis ).

Convém ressaltar que, de início, o desenho colonial não foi alterado. A alteração somente se deu em meados de 1818. Em 1817 e parte de 1818, as moedas voltaram a ser cunhadas com legenda e desenho da Colônia. No patacão da série especial, a legenda de anverso passou a ser JOANNES.D.G.PORT.BRAS.ET.ALG.P.REGENS(JOANNES.Dei.Gratia.PORTugaliae.BRASiliae.ET.ALGarbiorum.Princeps.REGENS), mostrando a elevação do Brasil a condição de Reino Unido a Portugal e Algarves. (Patacão da série especial).

Figura: D. João Príncipe Regente. Patacão da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, 1816, Colônia, com legenda original JOANNES ● D ● G ● PORT ● P ● REGENS ● ET ● BRAS ● D ● (JOANNES ● Dei ● Gratia ● PORTugaliae ● Princips ● REGENS ● ET ● BRASiliae ● Dominus).
Figura: D. João Príncipe Regente. 960 Réis da Casa da Moeda do Rio de Janeiro, 1816, Colônia. Patacão com desenho colonial e legenda alterada para:
JOANNES●D●G●PORT●BRAS●ET●ALG●P●REGENS(JOANNES●Dei●Gratia●PORTugaliae●BRASiliae●ET●ALGarbiorum●Princips●REGENS), mostrando a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves. (Patacão da série especial).
Dessa forma, foram cunhados (com letra monetária R), no período que vai de 1816 a meados de 1818 , patacões com: 

a) Desenho Colonial e legenda original, tendo D. João como Príncipe Regente. 
b) Desenho Colonial e legenda alusiva a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido, tendo D.João como Príncipe Regente (1816R – série especial) 
c) Desenho Colonial, retornando à legenda original (1817R e 1818R), ainda com D. João como Príncipe Regente, apesar do Brasil não ser mais considerado uma Colônia. 
d) Desenho e legenda novos (Reino Unido – 1818R) 
Assim sendo, existem dois tipos diversos de patacões com a data 1816R, um tipo com a data 1817R e dois tipos com a data 1818R.

Como o novo desenho alusivo ao Reino Unido não foi criado no devido tempo, vindo a ser aprovado por D. João somente em meados de 1818, a Casa da Moeda do Rio de Janeiro continuou cunhando moedas em 1817 e em 1818, usando o modelo e legenda do período colonial. Por outro lado, a Casa da Moeda da Bahia, não tendo recebido orientação de como proceder com relação à cunhagem das novas armas, decidiu continuar fabricando moedas com a data 1816, com legenda e modelos antigos (colônia), durante os anos de 1817, 1818 e parte do ano de 1819, mas sempre com o cunho de data 1816. Inclusive novos cunhos com essa data (1816), foram abertos.

Figura: Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Moeda de 960 réis data 1817, letra monetária “R”, com desenho e legenda da Colônia, cunhagem do Reino Unido (D. João Príncipe Regente).

Figura: Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Moeda de 960 réis data 1818, letra monetária “R”, com desenho e legenda da Colônia, cunhado no Reino Unido (D. João Príncipe Regente).

Figura: Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Moeda de 960 réis data 1818, letra monetária “R”, com desenho e legenda novos, do Reino Unido (D. João VI, Rei de Portugal, Brasil e Algarves).

Só na metade de 1819 foi suspensa a cunhagem dos 960 réis com a data 1816B, dando fim à prorrogação de cunhagem. Dessa forma, há a possibilidade de encontrarmos moedas de 1816B, recunhadas sobre pesos hispano-americanos de 1817, 1818 e até 1819 (bem mais raros).

Em meados de 1818, a Casa da Moeda do Rio, por se encontrar mais próxima do poder e, consequentemente, ser a primeira a receber os documentos oficiais contendo as decisões reais, passou a cunhar os 960 réis de acordo com o novo desenho aprovado para o Reino Unido. Por esta razão encontramos moedas de 960 réis cunhadas tanto no modelo colonial quanto naquele do Reino Unido, com a data 1818 e letra monetária “R”.

Só ao final de 1819, a Casa da Moeda da Bahia iria receber o material necessário para a abertura dos novos cunhos com as novas armas. Naquele ano ainda foram abertos dois cunhos de anverso e apenas um de reverso para o novo modelo. Como se aproximava o fim do ano de 1819, foram poucas as moedas de 960 réis, cunhadas com as armas do Reino Unido. Utilizaram um dos cunhos de anverso, juntamente com o único cunho de reverso. O segundo cunho de anverso teve a sua data emendada para 1820, com a letra monetária “B”.
Na imagem acima vê-se um dos 3 exemplares conhecidos do raríssimo 960 réis 1819B. ANV: Desenho do Reino Unido, legenda, valor 960 e data 1819B. REV: Equador confronta-se à esquerda diretamente com a haste inferior do braço esquerdo. É ligado à direita na haste suerior do braço direito. PÉ: Haste esquerda emendada embaixo. Travessão superior atravessa somente a haste direita. Braço esquerdo: Ponto em seu interior. Braço direito: Linha vertical em seu interior. 

Mas, afinal, por que teria sido considerado falso, por alguns numismatas, o 960 réis 1819B?

Provavelmente, pela raridade da data, por ter o reverso igual a algumas variantes do 1820B, e por existir uma outra variante nessa mesma data (1820 B) com a data emendada de 1819 e de cunho de anverso diferente, durante muito tempo alguns estudiosos (incluindo o mestre Kurt Prober), afirmaram que o 960 réis 1819B seria falso. Concluíram assim, DE FORMA ERRADA, que essa raríssima moeda da qual conhecemos apenas 3 exemplares, seria um 960 réis de 1820B, com a data adulterada para 1819, um erro cometido também pelo grande mestre.

Análises mais aprofundadas, sem conclusões apressadas, terminaram por demonstrar que os 2 exemplares conhecidos até então, do 960 réis 1819B, são auntênticos. Mais tarde foi encontrado mais um, perfazendo hoje um total de apenas 3 exemplares dessa jóia da nossa numismática.

Concluindo: O mestre Kurt Prober, sendo um humano como todos nós, passível de cometer equívocos (o que é normal e aceitável, já que ninguém é infalível) errou também dessa vez.