Primeiro "causo" numismático - "EITA CAFEZINHO BÃO, SÔ!!!"- capítulos I e II.

Preâmbulo.


O CAUSO é um regionalismo; uma expressão popular, muito usada no interior do Brasil, principalmente na região das Minas Gerais, referindo-se às histórias populares, geralmente aquelas que por serem recheadas de situações “rocambolescas”, chegam a cair no descrédito de alguns. Logicamente existem “causos” de situações inventadas, mas é fato que muitos são verídicos.

Pois bem! Resolvi dar este nome às histórias numismáticas que conhecemos, algumas delas vivenciadas por mim em minhas andanças pelos rincões do Brasil, atrás de pistas que pudessem levar a algum achado. Situações como a que certa vez me deparei com um ourives do interior do Mato grosso que havia derretido 5 barras de ouro da Colônia, 3 dias antes da minha chegada, e ainda veio me mostrar, com orgulho, o lingote, resultado da fusão. O sujeito havia entrado em contato conosco, oferecendo várias moedas de prata, mas não tocou nas barras que disse, depois do fato consumado, não saber que tinham valor numismático...ou a história verídica dos caçadores de tatu que ao meterem a mão na toca do bicho, encontraram sacos de pano da época do Império, cheios de moedas de 960 réis (mais de 1000), quase todas sem circulação.


Pois então! Hoje começamos com o nosso primeiro causo numismático, dividido em 3 capítulos. Uma história que mesmo sabendo que alguns irão duvidar, garantimos que é a mais pura verdade.


Capítulo I - O CURIÓ É UMA AVE.

Situada a 80 kilômetros do centro do Rio de Janeiro, bem no alto da serra, entre as cidades de épocas imperiais, Petrópolis é ainda uma das poucas a manter seu garbo majestoso, sua veia azul, áurea fidalgal com cintilas de um tempo distante que nos fazem recordar um pedaço do nosso passado; época em que carruagens atravessavam a Koeler dividida em córrego, a conduzir cavalheiros em fraques e damas em seus suntuosos e longos vestidos, bordados com renda francesa; cândidas e dóceis moçoilas a baloiçar rendas ao chão; sombrinhas rodopiantes ao sol, com seus cabelos em coque, adornados por grandes chapéus "Belle Époque".

Caminhando nesse paradisíaco pedaço da "Europa monárquica", partindo da esquina da Koeler com a Tiradentes, descendo até a Avenida do Imperador, à esquerda vê-se a imponente Catedral, eterna morada de D. Pedro II e de seus parentes mais próximos. 
Mais à frente, sempre à margem esquerda da avenida, o Museu Imperial - antiga e esplendorosa quinta veranista dos Orleans e Bragança - dá as boas-vindas aos turistas que desembarcam num frenesi de falas e agito, ao descerem dos ônibus vindos dos mais longínquos rincões do nosso país; não só do Brasil, mas de tantas outras paragens de aquém e de além-mar. 

Em dias de inverno intenso, a densa neblina mal nos permite enxergar. Mesmo ofuscando a visão de quem tenta avistar mais adiante que uns poucos metros, esse "fog" quase londrino outrora permitia entrever D. Gastão, último princeps, cavaleiro de Cervantes, o digno herdeiro de sua estirpe dinástica, em seu passeio matutino...quase sempre a cavalo, pelas ruas da cidade. 
Que imenso prazer provava em cumprimentá-lo!... Mais do que isso, ser correspondido...não só com um aceno, mas com um sonoro "bom dia, cavalheiro!... como tem passado?"
Em meio à espessa neblina, seu vulto se perdia, carregando em seus ombros, um passado de glórias, de histórias, de reis, de intrigas, conquistas e honrarias. Era impossível não parar e admirar.

Mas deixando de lado os "entretantos" e indo diretamente aos "finalmentes" (afinal estamos aqui para contar um "causo" numismático), é nesse quadro, escaramuçado à "facchinettianas" e frenéticas pinceladas que irei narrar os fatos do que a partir de agora lhes conto. Melhor dizendo, é ali que tem início a nossa história que, mesmo parecendo fruto de fértil imaginação, lhes garanto, como diriam em boa e sonora mineirice "..ehhh cumpadi...é verdadi sim...credite, aconteceu sim...aconteceu sim sinhô...". 

Pois bem ! Há mais ou menos uns 25 anos estava eu a perder-me em conversas madrugadeiras com meu saudoso e caro amigo - assim como eu, petropolitano da gema - Cézar Bulgareli. 

Sendo de Petrópolis por nascimento, mas morador por pura paixão, eu subia e descia, todos os dias, a serra que me conduzia, pela manhã ao trabalho e à noite de volta à casa. Meu consolo diante de tanta fadiga se dava a partir das quintas-feiras, ocasião em que passava pela casa do meu grande amigo e numismata. Ali nos entocávamos em seu magnífico "estúdio numismatográfico", a jogar conversa fora, na maioria das vezes por toda madrugada. Confesso que era um deleite!...sequer me dava conta das horas que passavam como um raio.

Tendo sido alto funcionário do BANERJ por muitos anos, sua merecida pensão lhe permitia aproveitar a vida de aposentado (de outras eras, certamente), decidindo dedicá-la, agora em tempo integral, ao nobre hobby de colecionar marcas de poder, paixão de uma vida. 

"Olavo Bilac"...é esse o nome da rua. Passando pelo Quitandinha, uns poucos quiilômetros adiante, uma curva à direita e lá estava eu. 

Nossas conversas? Ora...como não poderiam deixar de ser...moedas, moedas e mais moedas. Afinal, deixando de lado a admiração que provávamos mutuamente, era a nossa paixão a nos unir na mais profunda e sincera amizade.

Nessa particular noite da nossa narrativa, bem me recordo, a lua estava belíssima, céu estrelado, e temperatura, como de costume na cidade serrana, muito agradável.

- Caro amigo !!!...pensei que não viesse hoje!

- E como poderia deixar de vir!?...prontamente respondi.

Era madrugada de quinta-feira, bem me lembro, lá pelos idos, bem idos, de 1995, quase Dezembro, quando, em meio a uma calorosa conversa sobre duas cédulas de um conto de réis que um comerciante da cidade oferecia a quem pagasse mais, meu amigo me convidou a fazer uma viagem ao interior das Minas Gerais, mais precisamente numa pequena cidadela do interior de nome Matias Barbosa.

- Matias Barbosa? Indaguei, com espanto.....- se bem sei, é famosa por um criador de curiós.....viagem de negócios, suponho!?

- Curiós? 

- Isso! É uma ave canora de canto melodioso muito belo.

- Eu sei! Não sabia é que você se interessava por curiós.

- Tive um cantador de primeira, há muitos anos. Tava na moda por causa do Rivelino.....sabe como é!?... Mas afinal...é viagem de negócios ou tá me convidando a um passeio? 

- Lá e cá! Mas como acredito que não vai dar em nada, pensei em te convidar a aproveitar o passeio numa esticada até Ouro Preto prá ver se "dá samba".

- Ok! Qual é o "babado"?

- Você sabe que tenho um "garimpeiro" por aquelas bandas, não sabe? Um sujeito a quem dou uma comissão sempre que me arruma um negócio vantajoso.

- Sim, sim...sei!!!

- Pois então! O homem me telefonou dizendo que um sitiante da região quer vender, segundo ele, umas moedas; mas não entrou em detalhes. Disse apenas que, como bom mineiro, o sujeito é muito desconfiado e que não quis entrar em pormenores da transação. Falou que o cara veio com uma conversa de que tem uma boa quantidade de moedas de prata, blá, blá , bla ... mas quer vender a um só.

- Hummm!!! Sei não! Você sabe como são essas coisas...chega lá e o homem te mostra uma meia dúzia de tranqueiras querendo trocar a quinquilharia por uma Ferrari. Isso sem contar que pode ser uma fria.

- Justamente! Por isso gostaria que você fosse comigo. Como provavelmente não vai dar em nada, dali damos um pulo em Ouro Preto, almoçamos por lá e fazemos um giro na cidade prá ver se farejamos algum negócio. Se for uma fria, o cara vai pensar duas vezes quando topar com dois, ao invés de um só.

- OK! Quando partimos?

- Sábado! Que tal lá pelas 6 da manhã? Assim pegamos a estrada tranquila.

- Combinado.

- Passo no banco amanhã - nesse ponto Cézar olha o relógio - ...Cacete, já são quase 5 da matina...mais tarde passo no banco e pego a grana. Acho que uns 1.500 dão pro gasto. O que vc acha? Não tá com pinta de que possa custar mais que isso...talvez nem tanto. Mas melhor prevenir.

- Certo! Vamos no meu carro ou no seu?

- No meu! Dirigir me distrai e parece que vai ser uma bela jornada durante todo fim de semana.



Capítulo II - A MARRETA DO ZÉ DA PALHA


Cinco da manhã de sábado: Como previsto, a aurora anunciava uma esplêndida jornada. 

De pé, bem próximo da grande janela envidraçada, eu terminava de saborear o que restava, no fundo da xícara art nouveau, de um quente e meio amargo café, bem ao meu gosto. 

Entre um gole e outro, à minha frente eu contemplava a bucólica paisagem, observando a imponente Catedral que aos poucos ía surgindo em meio à parca neblina que se dissipava. Por um segundo abaixei os olhos em direção à calçada, ainda humedecida pelo orvalho.
Voltei-me, guardando a parede às minhas costas; sobre o pedestal de carrara, o singelo Ansônia - testemunho da habilidade de exímios artesãos relojoeiros, personagens de uma época esquecida - me dizia que era hora de partir. Por alguns instantes permaneci ali, a fitá-lo. Aquele, por assim dizer, enigmático "Petit Bronze" da bela figura feminina, inclinada sobre o mostrador de porcelana, a escutar o tic-tac dos ponteiros, contrastava com o cenário surrealista de uma paisagem de Cláudio Dantas ao fundo. Enquanto vestia o paletó, passei os olhos pelo par de anjos de Chatillon, porcelana dura marcada 3 estrelas, propositadamente pousados ao lado do Ansônia. Eram quase 5:30...uma pequena parada em frente ao espelho no corredor antes de abrir a porta e sair para o meu compromisso.

Em meio à natural ansiedade gerada pelo que poderíamos encontrar em Matias Barbosa, não resisti à tentação que me consumia. Enquanto descia até a garagem, levei a mão ao bolso...uma meia parada no jardim para acender um cigarro. Era sempre assim! Por mais que prometesse a mim mesmo que seria o último, a ansiedade, somada ao café quente, aliava-se à minha agitação momentânea, numa espécie de conspiração contra o meu desejo de dar um basta àquele vício; mas não havia jeito. 

Já na garagem, com a porta do automóvel aberta, recordei que havíamos combinado de viajar no carro de Cézar, que a essa altura já deveria ter saído de casa. Enquanto terminava meu cigarro, instintivamente abri o porta-luvas pensando que talvez fosse uma boa idéia levar comigo a CZ. Naquela época, a violência no Rio de Janeiro crescia a olhos vistos...depois de sofrer alguns assaltos, achei por bem carregá-la comigo. No futuro, já mais maduro, me arrependeria dessa decisão, passando a deixá-la em casa.

- Deixe disso!... pensei. Trata-se somente de uma tranquila viagem de negócios.

Desisti da idéia e fechei o porta-luvas, procurando me convencer que seria uma tolice carregá-la comigo.

Quando cheguei ao portão do prédio encontrei Cézar, já meio agitado, acreditando que eu ainda dormisse. No dia anterior, nosso sempre agradável bate-papo se havia estendido até as 2 da madrugada. Depois de uma semana, descendo e subindo a serra, confesso que estava exausto. Um bom repouso, sem dúvida, era o que eu precisava naquele momento. Mas não poderia deixar um caro amigo na mão.

- Bom dia!

- Mamma mia, pensei que estivesse dormindo. (risos)

- Você pensa demais! Tudo pronto?

- Sim...tudo ok! 

A essa altura, a neblina já quase não se fazia notar. Em meio à calçada ainda húmida, alguns passantes já caminhavam entre os antigos tocheiros que se apagavam, hoje não mais como outrora quando o fogo das lamparinas a óleo era sufocado por pontuais funcionários da prefeitura.

- Melhor se formos pelo Bingen. Dali pegamos a estrada do contorno.

- Pensei em pegar a estrada velha.

- Não acho prudente. O contorno, além de mais seguro, é a melhor estrada.

- Ok! Você me convenceu...vamos pelo contorno....Droga!!! ... esqueci meu porta-cds em casa.

- É seu dia de sorte! Trouxe alguma coisa comigo.

- O que é?

- Fica quieto e escuta !

CLICAR AQUI

- Hummmm!!! Dá pro gasto! (risos)

- Como dá pro gasto? Se minha mulher te escuta, vc vai ouvir poucas e boas. (risos)

- Uma voz é da Caballe...o cara não me é estranho, mas não recordo o nome.

- É o Freddie Mercury, cacete! Você não tá tão velho assim, meu caro!

- Ahhh...sim! Já sei...é a música que cantaram naquele show em Barcelona.

- Cazzo! Finalmente!

Enquanto ouvíamos How can I go on, meus pensamentos divagavam, despreocupado com o acaso. Pelo menos a viagem prometia ser tranquila.

- x - x - x -

Matias Barbosa é um pequeno município do estado de Minas Gerais. Com sua população estimada em pouco mais de 10.000 habitantes, carrega o nome do sertanista e rico comerciante português que em 1700 obteve a concessão de uma sesmaria, às margens do rio Paraibuna. 

Com relevante traço na história do Brasil, situa-se bem próxima à divisa entre o Rio de Janeiro e as Minas Gerais, em meio ao Caminho Novo, de época colonial, que formava a antiga Estrada Real. O Registro de Matias Barbosa, antiga repartição fazendária da Coroa, que integrava o sistema de cobrança dos impostos devidos à Metrópole, localizava-se propriamente na divisa dos dois estados. Ao redor desse registro formou-se o povoado de Nossa Senhora da Conceição de Matias Barbosa, elevado a distrito de Juiz de Fora em 1885. Em 1911 passou a ser apenas Matias Barbosa, e com essa denominação foi elevado a município em 1923.

Pouco antes de atravessar a ponte sobre o Paraibuna, avistamos as primeiras casas, bem interioranas como a maioria nessa região...algumas ainda de pau-a-pique, ou sopapo, como costumam chamar os habitantes. Apesar da modernidade que insiste em tomar de assalto os pequenos municípios, Matias Barbosa ainda guarda sua áurea de vila imperial.

- x - x - x -

- Ok ! Estamos em Matias Barbosa. Onde andamos ?

- O endereço tá escrito naquele cartão no console.

As coordenadas foram passadas por telefone. O tal "garimpeiro" que trabalhava por comissão, mesmo morando próximo, tinha dado uma desculpa que considerei meio esfarrapada, para não comparecer ao encontro. Tudo somado, algo me dizia que eu deveria estar atento aos acontecimentos. Não sei porque, mas naquela hora me arrependi de haver desistido de trazer a CZ.

Meia hora caminhando cá e lá, e tivemos informação segura do local.

- "Moço! O único que mora lá praquelas banda é o Zé da Paia" (traduzindo: Zé da Palha).

- O senhor quer dizer, seu José Antônio ?

- "É essi aí mermo, moço! A gente conheci ele di Zé da Paia. O sinhô vai até a cancela nu fim dessa istrada di chão, guina prás isquerda, passa o poço do resistru e mais um poco o sinhô vai vê a casa do Zé da Paia."

- Ok !!! Muito obrigado !

Enquanto nos metíamos em marcha, a expressão do homem, um misto de desconfiança e preocupação, aumentava a tensão.

- Dá uma parada naquela birosca ali na frente prá gente tomar um café.

- Vai fumar de novo?

- Eu disse "tomar um café".

- Hummm, sei!

Após um revigorante café mineiro, lá estava eu novamente lutando contra o meu vício.

- Depois dessa, se tudo correr bem, eu paro com essa merda! ... pensei.

Seguindo as indicações que nos foram passadas, chegamos ao local indicado.

A casa branca de telha colonial se erguia numa pequena elevação a poucos metros da porteira enganchada. Nenhum movimento ou qualquer indicação de que havia alguém em casa. A janela aberta, um costume local, pouco dizia; é para manter a casa arejada, costuma dizer a gente da região.

Clap, clap, clap, clap, clap...bati palmas......nada!

Mais uma vez, e nada! ....... Somente um cão de pequena talha ergueu seu pescoço por trás de uma cadeira de vime posicionada diante da casa, numa pequena varanda. Meio preguiçoso, nem deu bola pro que estava acontecendo e voltou a dormir.

- E aí? O que vc acha?

- Sei lá! O cara disse por telefone que havia combinado o encontro para as 8:30. São 8 e qualquer coisa passada. Pode ser que tenha ido a algum lugar...melhor esperar.

- Vou bater de novo!

- Você já fez isso duas vezes, não acredito que ... Pera aí!!! Tão abrindo a porta.

De longe, a luz do sol que já era a pino ofuscava minha visão. Sem dar uma palavra, mais ou menos 1,90m, magro mas parecendo bastante robusto àquela distância, o homem veio em nossa direção.

- Dia!

- Ehhh...bom dia, bom dia! Seu José Antônio?

Enquanto abria a porteira como quem nos convidasse a entrar, o homem parecia resmungar em monossílabos.

- "So eu sim sinhô!!! Zé Antônio às suas ordi!"

Enquanto caminhávamos direção à casa, por precaução me coloquei na retaguarda. Isso me dava uma boa visão de campo e tempo para agir...pensei. 


Com a atitude de um capataz quando estranhos entram em uma fazenda, um galo rajado carijó, grande como um peru, apareceu na porta de um pequeno barracão retirado do perímetro da casa. Fiquei realmente intrigado com a sua atitude. Agia como se estivesse nos observando, controlando o que fazíamos. Fitei-o como por brincadeira. Foi o suficiente para que sua curiosidade aumentasse, fazendo-o dar alguns passos na nossa direção. Estranha e instintivamente parou ... e assim permaneceu, estático, como se esperasse outra reação da minha parte. Confesso jamais ter visto em vida minha uma ave comportar-se daquela forma.


- "Faiz favô! É casa humirde, mas é dos amigu."


Cézar foi o primeiro a entrar.


- Faço questão, o senhor em primeiro lugar....eu disse com voz firme.


Confesso que pensei que o homem fosse insistir para que eu entrasse à sua frente, mas para meu espanto, novamente sem dar palavra, entrou sem cerimônia.

Mal me encontrava dentro da casa, com os olhos passei um pente fino por todo local. 

Enquanto nos sentamos num apertado sofá, o homem se pôs sobre uma berger corroída pelo tempo. Era realmente grande o sujeito! Sentado bem na minha frente, observei que seus joelhos se dobravam acima da linha de cintura, ainda que mantivesse os pés no chão.

De repente um frio me correu a espinha. Por baixo da poltrona onde o Zé da Palha estava sentado, entrevi um cabo de madeira do que me pareceu ser uma "picapau", uma daquelas velhas espingardas de caça que os mateiros usam quando caminham em picadas. 
Enquanto eu tentava certificar-me que se tratava realmente de uma arma, percebi que o homem me entreolhava sob o chapéu de palha.

- "Vô passá um café da hora prá nóis...casa vossa...teje à vontade."

Enquanto o "grandalhão" apoiava as mãos sobre os joelhos para se alçar, a sensação de arrependimento por não ter trazido a CZ, era cada vez maior. Tirou o chapéu, pousando-o sobre a mesinha à sua frente e com andar lânguido se pôs pelo corredor que parecia conduzir à cozinha.

- Grandão o sujeito, hein!?

- Psiuuu! Fala baixo, caramba!

- Viu o trabuco que tá debaixo da poltrona? ... susurrei, indagando.

- Trabuco? Onde?

- Ali, bem debaixo da poltrona, cazzo!

Cézar, que se encontrava mais próximo, se recurvou para ver do que se tratava.

- É uma marreta, pô!

- Marreta?

- Ehhh...cacete (sussurros)...uma marreta daquelas de demolição.

Confesso que naquele momento suspirei de alívio.

- Psiuuu!!! O homem tá voltando.


Terceiro capítulo - PAISANO, O GALO CIUMENTO

Em breve, aqui no Blog da Bentes ... aguardem o surpreendente final deste "causo numismático".